7 de março de 2019

AS MALHAS QUE A REVOLUÇÃO TECEU! /Novo Jornal / Luanda 8-03/2019






AS MALHAS QUE A REVOLUÇÃO TECEU!
                Acabei de ler “São Paulo, Prisão de Luanda” escrito por Carlos Taveira (Piri) um dos poucos da OCA (Organização Comunista de Angola) que eram de fora de Luanda, preso no Lobito pela DISA, quando se preparava para entrar num apartamento para uma reunião “conspirativa”
                O livro, editado pela “Guerra e Paz”, é uma descrição interessante dos seus tempos de “estadia” numa prisão herdada da PIDE, e que é hoje prisão hospital e frequentada por gente que foi capa da “Caras” em algumas circunstancias.  Um relato despretensioso, sem amargura, aqui ou ali polvilhado de histórias engraçadas, sobre situações que ao tempo eram mais de desgraça do que de graça. Um livro para ler, por todos, para se ter consciência que não foi só a guerra que prejudicou o País.
                As sucessivas prisões e assassinatos de gente da OCA, Comités Henda, Comités Amílcar Cabral,”fraccionistas” , e outros, o que terão conseguido foi destruir uma parte significativa do melhor capital de entusiasmo e diferenciação intelectual e técnica que sobrou com a saída dos colonos portugueses. Era gente culturalmente bem formada, todos com vontade de construir, trabalhar e também determinados a mudar o estado das coisas, com a irreverencia da juventude. Muitos dos que saíram são hoje quadros de enorme valia espalhados pelo mundo, e Angola exangue teve que recorrer a muito pior, pagando mais e os resultados aí estão à vista de todos.
                Estou à vontade para escrever porque nunca aderi a esses movimentos, que alguns deles pouco mais representavam uma mesa do Vilela transportada para a sociedade angolana. Algumas destas organizações se quisessem fazer um comício, com mobilização o máximo que conseguiriam seria encher um balneário da Cidadela.
                O poder teve medo, ou melhor alguns pícaros tiveram receio de se verem confrontados com gente bem preparada para desenvolver um País, e quando começou essa debandada e a morte abandonada, o País entrou numa espiral de asneiras suportadas por palavras de ordem e a eterna busca de procurar inimigos exteriores para justificar a nossa impreparação e a falta de coragem para fazer parar os excessos.
                A história vai fazer-se um dia, e talvez os herdeiros dos filhos dos da minha geração quando analisarem o que aconteceu concordem com o que disse Chico Buarque: “A memória é uma vasta ferida”. Convém também lembrar antecipadamente que, “subdesenvolvimento não se improvisa, é obra de séculos”, como disse o brasileiro Nelson Rodrigues.
                Das histórias bizarras desse tempo, e que são verdade porque quase todos as fomos vivendo num quotidiano da Luanda de uns tempos em que se respirava um ar angustiado, mas ao mesmo tempo ternurento e solidário quando se olhava para o quotidiano de mingua de que se vivia no dia a dia.
                Piri conta que teve que ir ao dentista, e é transportado numa viatura até ao Hospital Militar. A consulta atrasa-se e a viatura tem outro serviço, ou outra função e desaparece. Acabada a consulta, perante o desaparecimento do veículo, o guarda que o acompanhava, obviou logo a situação e mandou parar um carro qualquer e “requisitou” logo ali o carro e o motorista para “levar o preso a São Paulo”. E lá foram perante o olhar desconfiado do condutor!
                Veio-me à memória a única vez que fui cangado num recolher obrigatório. Tinha um livre de transito renovável e apesar de saber que o controlo era feito na esquina da Avenida Hoji-Ya-.Henda resolvi nem procurar alternativas, tão certo estava de ter o documento comigo. Mandaram-me parar e pediram os documentos delicadamente, e mostrei o livre transito. Foi junto ao farol confirmar se estava tudo em ordem e veio de lá dizendo que o livre transito tinha acabado às 12h do dia anterior. Lá tentei explicar ao militar que me tinha esquecido de o ir buscar ao gabinete, tinha tido uma reunião e mais uns argumentos algo pueris que não convenciam ninguém. O FAPLA ouviu o arrazoado de justificações e no fim diz-me com grande serenidade: “O camarada é dirigente, tem que dar o exemplo, e não devia ter esquecido o seu livre-trânsito, portanto vai ficar aqui como os outros”! Nada feito, eram duas da manhã e ali fiquei a assistir à atividade. Fiquei na conversa com ele, a fumar Hermínios, que recusou porque não tinham filtro. Às quatro disse-me que tinha de ir com ele levar uns cangados à 7ª esquadra móvel, ao tempo na Estrada de Catete. Lá nos apertámos na Renault4 e fiz esta viagem duas vezes porque o carro que supostamente nos levaria não apareceu. A única compensação que tive dessa noite desdormida foi ele ter-me mandado embora quando despejei a segunda carrada à porta do posto.
                Já que se está a falar de recolher obrigatório, reproduzo-a fielmente como me contaram. No largo da Maianga um FIAT 132 azul é mandado parar (Importa dizer que ao tempo era o carro de ministro ou vice-ministro que não pertencesse ao Comité Central do MPLA, já que o destes era um FIAT 132 branco). O condutor era um vice-ministro de que já não me lembro o nome. Pediram os documentos e o livre transito, e o homem não o tinha consigo. Disseram que o camarada teria que ficar por ali, pois eles não o conheciam. Parou entretanto, o Elias Dia Kimuezo e entre os “zeladores da noite” cresce um grande entusiasmo por estarem perante um ídolo. Ele olha e vê acabrunhado o ministro que conhece bem, e pergunta que está ali a fazer, e o governante diz que está detido por falta de documentos. O cantor vira-se para o chefe e diz: “Este camarada é o vice-ministro fulano de tal, e não devia ser detido!”; prontamente o camarada responsável pelo controlo deu “ordem de soltura” ao ministro e balbuciou algo do tipo: “Ele disse-nos, mas anda por aí tanto bandido, que não acreditámos”!
                Houve um tempo que eu não tinha carro e morava na Casa do Desportista, não privatizada, (uma desgraça nunca vem só) e como gostava de andar a pé saía do Kinaxixe de casa de uns amigos e aí ia eu até à ilha, tentando sempre passar pelo controlo na entrada da ponte, antes da meia noite. Normalmente eles eram deixados ali por volta das 11h30m e invariavelmente perguntavam-me as horas, e eu lá lhes dizia. Um dia vinha atrasado e perguntaram-me as horas e eu disse que eram meia noite e vinte e logo um deles disse que eu estava detido. Eu argumentei que me tinha atrasado, que estava perto de casa e que não havia necessidade nenhuma de me deter. O único argumento que acabou por prevalecer foi o ter dito que fui eu que lhe disse as horas e podia ter-lhe dito outra. Aí os dois guardas conferenciaram e lá me deixaram ir com a preocupação que não fosse pela estrada porque podia ser interpelado pelo jeep patrulha, e os problemas sobravam para eles.
                Há muitas histórias deste tipo numa Angola dos anos 80 que deixou algumas saudades, e que se detesta por outras.


Fernando Pereira 
10/02/2019

22 de fevereiro de 2019

100 ANOS ESCRITOS A OURO! / Jornal de Angola / Luanda 22/2/2019





100 ANOS ESCRITOS A OURO!
A 22 de Fevereiro de 1919 era exarada a Portaria nº51, assinada pelo então Governador Geral Filomeno da Camara Mello Cabral que cria o “Liceu Central na cidade de Luanda”.
                Materializava-se uma recorrente reivindicação dos colonos que exerciam atividade económica na cidade e do conjunto de famílias africanas, ao tempo ainda não espoliadas do enorme prestígio e património assinalável. Todos queriam que os seus filhos fizessem o seu percurso secundário em Angola, pois era quase impossível enviá-los para a então metrópole. As escolas que existiam eram particulares e de duvidosa qualidade.
                Terá havido ao tempo uma grande unidade em torno da constituição do Liceu de Luanda, que pelo artigo 2º, da portaria 51, conseguindo vingar que “O Liceu Central de Luanda terá uma organização semelhante à dos liceus da metrópole”.
                A portaria determinava que o Liceu iniciaria a sua atividade regular a 15 de Março de 1919, o que sucedeu, sendo Álvaro Galiano o seu aluno nº1.
                As descrições da época sobre esta “histórica decisão” foram de grande entusiasmo, numa cidade que tinha tudo de muito pouco bom para ser um espaço urbano vivível. A iluminação pública dependia dos particulares que quisessem as cercanias das suas casas iluminadas. As ruas áridas e com a areia vermelha eram lugares de pouca higiene e a água que vinha do Bengo era escassa e tinha que ser filtrada de forma a evitarem-se as doenças que faziam de Luanda um lugar conhecido pela insalubridade.
                O grande impulsionador do movimento em torno do Liceu, que passou a Liceu Central de Salvador Correia a 30 de Janeiro de 1924, quando este “estabelecimento de ensino passa a equiparar-se para todos os efeitos a todos os liceus da metrópole”, foi Monsenhor Alves da Cunha, provavelmente a figura maior do seculo XX do território. Foi a pessoa que mais unanimidade concitou entre todos os cidadãos da cidade de Luanda, que viam os governadores enviados pela potencia colonial com passagens meteóricas, procurando que se alterasse o mínimo para não haver desequilíbrios. Alves da Cunha, em vários domínios, desde o ensino, à solidariedade, ao urbanismo, à florestação da cidade e ao desenvolvimento de pequenas unidades industriais foi um incansável batalhador, sem ter tirado qualquer provendo para si. Morreu pobre, mas reconhecido por toda a população da cidade, independentemente do seu status económico ou social!
                É interessante que na sanha “desapeadora” das estátuas que se assistiu no pós-independência, a sua foi a única que não foi beliscada e lá continua a pairar sobre a sua cidade. Conseguiu unir grupos desavindos de interesses em objetivos comuns e de facto fez por acontecer tanta coisa, em que o Liceu será a sua obra mais relevante, já que foi seu reitor até 1929, e membro do seu corpo docente inicial desde a instalação, na exígua casa da sede da Companhia do Ambaca, ali para os lados da Misericórdia.
                Em Outubro de 1919 as instalações passaram para a Avenida do Hospital, num edifício demolido há 46 anos para se construir o atual Palácio da Justiça.
                Como as condições não eram as melhores, dada a afluência de alunos, foi decidido em 30 de Junho de 1933 cabimentar verbas para a construção do edifício onde funcionou o Liceu Salvador Correia de 1942 a 1975, e a partir de então a Escola Mutu-Ya-Kewela, de há um ano a esta parte uma escola do magistério primário, depois de vultuosos e excelentes trabalhos de recuperação. Uma sábia decisão da tutela para preservar para a Educação um espaço físico e de memória de eleição.
                O Liceu, num projeto do Arquiteto José da Costa e Silva, edificado nuo alto da cidade, em estilo denominado de “Português Suave” torna-se a partir do dealbar dos anos 40 na edificação mais proeminente na cidade. À sua volta a cidade começa a crescer, e o liceu é a marca indelével de um novo tipo de sociedade que se impõe em Angola.
                Muitas gerações de pessoas transpuseram as portas daquele Liceu, desde alunos, professores e funcionários, e em todos ficou sempre alguma coisa que terá marcado para a vida, mesmo que tenha sido de raspão a sua passagem.
                Para além da excelência do seu corpo docente, das suas instalações, o Liceu foi um espaço onde se cruzaram gentes com propósitos bem definidos na luta pela Independência do País, e o contrário também!
                O Liceu que comemora cem anos neste 22 de Fevereiro, teve entre os seus alunos os dois primeiros Presidentes da República do País (Agostinho Neto e José Eduardo dos Santos) e um conjunto interminável de gente que lutou empenhadamente por uma Angola independente e diferente da que vamos vivendo por ora.
                Para além da participação política, o Liceu foi o local onde se deram os primeiros passos para brilhantes cientistas, médicos, professores universitários, empresários de sucesso, economistas, jornalistas, em suma um conjunto significativo de gente que cobre de glória as paredes do vetusto edifício que continua a olhar a cidade que em determinada altura cresceu mal a seus pés.
                Fui aluno de 1966 a 1972 e apesar de ter frequentado episodicamente outros estabelecimentos de ensino (em Coimbra) o Salvador Correia entranhou-se, e ainda hoje muitos dos meus companheiros de “viagem”, os que sobram, são exatamente os mesmos que estavam comigo naquele espaço que nunca nos deixa indiferente quando por lá passamos ao pé.
                Na Casa Amarela fizemos tanto de bom, que ao longo dos anos nos reencontramos uma vez por ano, a contar e a recontar coisas do antanho, a comermos e a bebermos o possível para nos lembrarmos que fazemos parte dos cem anos daquela casa. Vamos vendo  morrer alguns, mas é a lei da vida e uma parte do futuro que hoje somos foi o passado que o Salvador Correia nos deu.
                No caminho pelo Salvador Correia, dos que estão e dos que foram vem a frase batida de Mia Couto: “Não morre quem se ausenta, morre quem é esquecido”!
                Engraçado, que para além dos meus amigos, companheiros de Liceu, funcionários, professores lembro-me que foi aí que me apresentaram Hegel, Marx, Nkrumah, Sartre, Camus, e tanta outra malta que me tem dado um prazer enorme ler e ter ao longo da vida!
                Nesta hora dos cem anos do Liceu de Luanda, Viva a Malta do Liceu!!!

Fernando Pereira
19/02/2019.

15 de fevereiro de 2019

A FARRA DO INTERIOR / O Interior/ Guarda 14/02/2018





A FARRA DO INTERIOR

Como se previa, aquele movimento de valorização do interior de Portugal foi mais um nado-morto. Mediaticamente foi um arranque medíocre, mas de na realidade foi a única coisa que as pessoas, com memória, ainda se vão lembrando cada vez mais a espaços.
                Para ajudar a esta festa de cinismo politico elevado ao coeficiente mais alto, o governo resolveu instalar uma Secretaria de Estado em Castelo Branco, com o propósito de melhor “ se conhecerem os problemas do interior e poder haver uma resposta rápida para os mesmos”!  Como bem escreveu Lampedusa, “É preciso que alguma coisa mude, para que tudo fique na mesma”.
                O governo, com a pompa e circunstancia habitual nestes eventos, veio a terreiro divulgar a disponibilidade para entregar às autarquias um conjunto de estruturas e serviços a saírem da administração central. Quiseram promover a “regionalização da tesura”, tentando replicar pela via administrativa o que os portugueses rejeitaram em referendo há uns anos, num contexto de desinformação e com vergonhosas falácias, que levaram ao resultado que os centralistas de Lisboa e Vale do Tejo sempre desejaram, que foi ter o País a seus pés. Só não conseguiram os seus intentos de dar novas atribuições porque o outro envelope, o principal, está vazio!
                Como é evidente, o interior de hoje é bem diferente do de há 44 anos, quando fizemos as campanhas de dinamização do MFA, e se iniciou o Serviço Médico à Periferia, embrião de um SNS todos os dias violentado por muitos que desejam a “liberalização” da saúde!
                O interior há muito que é olhado como um enfado pelos que nos governam, e até pelas oposições, para quem Portugal é pouco mais que a Grande Lisboa! Houve alguém que terá dito: “Em tempos de crise, para que os vossos sapatos durem mais, deem passos maiores”. É de um tempo que vai sendo cada vez mais repetido!
                Em 1965, o Subsecretário de Estado do Tesouro, Ricardo Faria Blanc teve que substituir Ulisses Cortês ao tempo Ministro das Finanças, então doente, na preparação da Lei de Meios e do Orçamento para 1966. Apercebe-se de uma verba irrisória para “os melhoramentos rurais”. Convencido que estava que devia ser triplicada essa verba, já que iria melhorar o interior do País, levou a proposta a Oliveira Salazar.  Com aquele ar sinistramente cético Salazar pergunta: - “Mas ao certo, o que é que o senhor tem em vista? O Subsecretário responde: - “Bom trata-se de modernizar mais depressa as terras do interior, levando-lhes benefícios do progresso: canalização de água em casa, eletricidade, telefone, eliminação das fontes de chafurdo, etc., etc.”. Salazar pergunta-lhe de chofre: - “O Senhor donde é natural?”. - “Sou de Azeitão, Sr. Presidente, aqui a dois passos de Lisboa”. – “Pois então não tem terra. O senhor não conhece o interior de Portugal. Sabe? As pessoas que ali vivem estão muito arreigadas às suas tradições e modo de vida seculares. Se lhe levamos o progresso de repente, perturbaremos gravemente os seus equilíbrios naturais. Por exemplo se acabarmos com as fontes e lhe levarmos a água a casa, as mulheres já não terão de ir todas as manhãs com o cântaro à fonte: como é que elas hão-de poder pôr a conversa em dia umas com as outras?”. Claro que não houve reforço de verba nenhuma!!
                Este diálogo mostra bem como há décadas se trilham e retrilham os   sórdidos caminhos do Interior pelo poder instalado em Lisboa, engordado pelos que para lá vão.
                “Tudo é velho onde fui em novo” Álvaro Campos.
Fernando Pereira
8/2/2019
               

19 de janeiro de 2019

Ao Silvo da Locomotiva




Ao Silvo da Locomotiva



Em Lisboa e Luanda tem acontecido apresentações de livros em catadupa.
                Nunca me lembro de um tempo tão profícuo das letras angolanos, nem de tanto livro sobre Angola. memórias, reflexões, vivencias, poesia, coletâneas, história, estórias, e tudo o resto. O ritmo é tão grande que as posses de um qualquer remediado não podem dar vazão a tamanho movimento.
                Já li algumas coisas que saíram, algumas até mediatizadas até à medula, e de facto sinto-me impotente para vir aqui falar do muito que não gostei e vou-me limitar a escrever sobre um dos poucos que admirei, repetindo-me que me faltou o folego para tanta coisa que saiu!
                O livro de Bruno José Navarro Marçal, que assenta no seu trabalho de doutoramento na Universidade Nova de Lisboa, editado pela Colibri, “Um império projetado pelo silvo da locomotiva” é uma obra de grande interesse para se perceber como nasceram algumas linhas férreas em Angola e Moçambique, como se desenvolveram e quais foram os entraves para que algumas tivessem ficado nas boas intenções de quem as sonhou.
                O autor, um jovem que não tem rigorosamente nada a ver com Angola ou Moçambique, segundo julgo saber, e desempenha neste momento as funções de diretor do Museu de Foz Coa e do Parque Arqueológico do Vale do Coa, num dos afluentes do Douro internacional, numa zona polvilhada de quintas e vinhedos propriedade de alguns angolanos, que terão optado desenvolver-se por estas paragens!
                Este livro, um trabalho científico, naturalmente muito documentado, poderia até dizer em linguagem de rua, “demasiado picuinhas”, é o primeiro instrumento rigoroso que me chega às mãos sobre as incidências do que foi a batalha para construir caminhos de ferro em Angola, e sobretudo perceber o que foi o desenvolvimento do País em torno do carril, enquanto valor acrescentado.
                Este livro leva-nos a uma Angola imensa num primeiro terço do século XX onde tudo era difícil, e onde as diferentes linhas e ramais do comboio conseguiram ligar o interior ao litoral, juntar gentes, multiplicar recursos e promover a unidade do território. Os avanços e recuos de algumas linhas, as incertezas da sua rendibilidade e as guerras de interesses que se instalaram e que para além das liças parlamentares em Lisboa, levaram a desafios de pancadaria entre mui nobres senhores pelas opções em presença!
                Não venho pormenorizar o que li no livro, mas quero lembrar que não há muitos anos, no tempo em que Angola pensava em grande, esquecendo-se que tinha que resolver o que era maioritariamente pequeno, houve uma ideia que também andou na cabeça do “colono” que seria ligar o Caminho de Ferro de Benguela via Zâmbia pelo saliente de Cazombo, ou na” bota do Dilolo” como também é conhecida a zona sul do Luau, que até 1927 pertencia ao então Congo Belga. Esse estudo, que terá sido pago a “peso de ouro” como vem sendo normal nos muitos que estão nas múltiplas gavetas estatais e privadas, orçava a construção dessa linha em 12biliões de dólares, e para além de ninguém ter tido coragem de avançar com o projeto, terá havido algum decoro em dizer quando haveria um retorno do capital investido! As linhas que a Angola tece. Seria mais um elefante branco, dos muitos que vamos alimentando com tenra erva de ouro.
                Estas decisões e indecisões sobre a via férrea não é coisa de agora! Ficaram umas pontes, uns projetos de um Caminho de Ferro do Congo que ligaria Luanda ao Caxito, Ambriz e iria em direção a Leopoldville, mas não houve financiamento e ficou uma ideia de que muito poucos se lembram.
                Talvez nem tenha muito a ver com o assunto, mas vejam este texto:”. Em qualquer caso, teremos que produzir em boas condições económicas-e essas condições, por vários motivos, não se verificam na colónia. Angola continua, de um modo geral a produzir caro e a não poder economicamente explorar muitas das suas possibilidades. Vários fatores para isso concorrem. Todos eles derivam, em ultima análise, do abandono a que tem sido votados importantes problemas de fomento, que ao Estado, que não aos colonos compete solucionar. Pode, verdadeiramente, dizer-se que nunca se estabeleceu um programa de conjunto, atinente ao desenvolvimento de Angola, em que se compreendessem a racional utilização das múltiplas fontes de riqueza e aproveitamento dos seus imensos recursos- que nesse programa se tivesse entrado em franca execução e que esta fosse levada a cabo. A única tentativa seria ou digna desse nome foi a do Alto Comissário Norton de Matos- e a deplorável sequencia dos acontecimentos, de que temos sucinta notícia diz-nos eloquentemente do fracasso a que, por falta de meios e continuidade essa tentativa conduziu. Assim se descurou a organização do crédito em bases capazes de criar as grandes iniciativas e de assegurar o útil rendimento do esforço dos colonos. O problema dos transportes e comunicações, tanto por caminho de ferro, como por estradas e via fluvial, está infinitamente longe da solução que a área geográfica, o potencial de produção de certas regiões e até a disciplina e metódica utilização do existente exigem. Este é sem dúvida um dos fatores que mais se faz sentir em detrimento da economia de Angola onerando sobremaneira a produção.”
                “O problema da energia, como fonte de desenvolvimento industrial e agrícola tem sido quase totalmente descurado- sem que faltem em Angola imensas possibilidades naturais de aproveitamentos hidroelétricos. Idêntico é o panorama que a colónia oferece em obras de hidráulica agrícola que a levassem à utilização de grandes áreas, ainda abandonadas, e ao racional aproveitamento de outras em benefício do seu rendimento. Nunca pensámos, a fundo e a sério, no problema científico de Angola, que a todos os outros substancialmente domina nos seus aspectos geográfico, geológico, botânico e zoológico, quando é certo que pela sua solução será possível o conhecimento perfeito da colónia e as directizes em que deve assentar a sua reconstrução económica.”
                Este texto foi retirado do livro de Álvaro de Freitas Morna, governador geral de Angola em 1942 e 1943. O livro é “A situação económica de Angola” de 1945, traz um conjunto de problemas, e não deixa de ser curioso como “A história repete-se, a primeira vez como farsa, a segunda como tragédia” (Karl Marx em 18 Brumário de Luis Bonaparte).
                Um discurso coerente nos dias de hoje!!!

Fernando Pereira
28/11/2018

                 

11 de janeiro de 2019

A manipular a gente não se entende! / o Interior / 10/1/2019





A manipular a gente não se entende

A 15 de Fevereiro de 1898, o couraçado USS Maine, da Marinha norte-americana, explodiu no porto de Havana(Cuba). Morreram 266 soldados. Hoje não se consegue perceber porque é que o Maine se afundou, mas pelo menos já se sabe que não foi colocada por uma mina colocada por um terrorista espanhol ! Ao tempo a opinião publica americana convenceu-se que a explosão tinha sido de facto provocada pelo espanhol.
                William Randolph Hearst, que inspirou Orson Wells no “Citizen Kane”, era um dos pioneiros do jornalismo cor-de-rosa ou sensacionalista, enviou umas semanas antes o seu desenhador mais famoso, para que mostrasse as “barbaridades “que ali se cometiam. A situação na ilha era tão normal que, quando chegou, o desenhador Frederic Remington enviou um telegrama a Hearst: “Está tudo calmo. Não há guerra. Quero regressar.” A resposta do magnata é famosa: “Forneça as ilustrações, que eu trato da guerra”.
                Hearst construiu através de uma imprensa pouco rigorosa e venal um império da comunicação social, um dos grandes conglomerados privados dos EUA, apesar da vida não lhe ter corrido bem depois do crash de 1929 e ter-se esquecido de uma verdade que ele vivificou: “ A opinião publica pode ser manipulada, desde que se lhe diga aquilo que ela quer ouvir”. Daí para a frente entrou em declínio apesar da família Hearst ainda hoje possuir nos EUA 15 diários, 38 semanários, perto de 200 revistas, 28 canais de TV, editoras e uma forte presença em sites e domínios da internet.
                O recente episódio protagonizado na TVI com a presença de uns protos nazis num programa de um dos canais mais manipuladores da comunicação social portuguesa já tem alguma coisa de extraordinário, que é o facto do apresentador Goucha, e o diretor de programas Azevedo aparecerem  tipo “virgens ofendidas”, a indignarem-se contra os que repudiaram a presença dessa gentalha, quase que dizendo que todos os que não querem ver fascistas na TV, onde me incluo, são castradores da liberdade de informação.
                Não é rigorosamente nada disso. O que está em causa é que essa gente, que já começa a sentir que há cada vez menos pessoas a indignarem-se por eles andarem por aí quando estiverem no poder tiram a liberdade de imprensa, a liberdade de opinião e impõem de forma coerciva a sua forma de usar e pensar. Eles são racistas, xenófobos, misóginos, violentos para além de defenderem políticas anti-imigrantes, algo que galvaniza muitos sectores da sociedade, apesar da verve cristã!
                As TVs privadas começam  vezes demais a perder o bom senso, e a forma continuada como fazem a manipulação da justiça por exemplo, é um dos atropelos a um estado democrático que se vai fragilizando, nos seus alicerces fundamentais.
                Os políticos que nos governam, e os que nos representam apresentam demasiadas fragilidades, o que assume alguma perigosidade num futuro próximo.
                Não basta a um político possuir certezas, é preciso mostrar que as tem ou fingir que as tem. O Poder não deve desculpar-se sob pena de se suicidar. A humildade nunca foi um método de governação e muito menos uma virtude política.
                Bom Ano de 2019!

Fernando Pereira
6/1/2019


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