18 de janeiro de 2026

Debaixo da Exceção procurem a regra (Brecht) /O Interior /Guarda 14-01-2026)


 


Debaixo da Exceção procurem a regra (Brecht)

“É uma infelicidade da época que os loucos guiem os cegos” William Shakespeare, Rei Lear (ato 4)

Tempos esquisitos os que vivemos!

Chegamos a este estado de coisas porque por omissão, comodismo e demasiada ignorância coletiva permitimo-nos confrontar com uma sociedade de valores, onde não me revejo, nem tampouco consigo ter força e argumentos para contrariar.

Não vale a pena discutirmos o que é o mundo hoje, quem são os melhores e os piores. A Europa na sua languidez exasperante tenta viver de clichês ultrapassados, para manter os princípios de uma EU que se tornou num catavento, a mudar de posição sistematicamente por causa dos sucessivos vendavais que sopram de todo o lado.

Alguns países da Europa deixaram de ser potencias coloniais e “impérios onde o sol nunca se punha”, mas nunca aceitaram que era preciso mudar a mentalidade em relação ao mundo. A sobranceria como a Europa, principalmente a de inspiração judaico-cristã vê o mundo é aviltante dos valores que nortearam a “Revolução Francesa” no fim do século XVIII.

Anda tudo admirado com a Trumpeirada a que mundo se está a moldar, mas se há alguma réstia de qualidade em Trump é a de dizer ao que vem. Vem ao dinheiro, ao negócio, ao retorno aos combustíveis fósseis, ao supremacismo branco e a prevalência de religiões mais adaptadas a uma hierarquização da sociedade entre a timocracia e a cleptocracia.

Trump faz exatamente o que os EUA sempre fizeram, que foi invadir, raptar, guerrear apenas na defesa do seu interesse. Faziam com frases impactantes de defesa dos direitos do homem, liberdade, democracia e outras, mas as realidades mais não fazem que defender e lutar pelos seus próprios interesses, a começar pela artificialidade do valor do dólar. Trump, como em termos ideológicos sempre ouviu falar em negócios, nunca terá lido um livro, a não ser de cheques, deixou essas subtilezas e ei-lo a deixar o mundo num momento de uma desbundada cacofonia que os ouvidos servis aos EUA não estavam habituados. Trump cortou com a retórica de Woodrow Wilson, que norteou a política económica dos EUA no mundo em todo o século XX. Há uma réstia em tudo isto porque há uma enorme diferença entre coerência e teimosia. Mas nem todos os inteligentes a percebem, nem todos os teimosos.

Vejam quanto valem as companhias norte americanas em termos de negócios. Vejam quanto valem as companhias de Países emergentes que vão fazer parte de um homem que nos vamos habituando a ver construído assim, e tentem ficar descansados. Mark Twain dizia “A profecia é um género muito difícil sobretudo quando aplicado ao futuro”. Sinceramente não tenho nenhum oráculo para saber o que vai acontecer à maior parte das pessoas. Aguardemos novos desenvolvimentos, que infelizmente vão trazer desmesurados envolvimentos.

Quanto mais vazia a carroça mais barulho ela faz.

No fim do ano passado a Guarda perdeu um cidadão de grande carater, e eu perdi um bom amigo.

Fernando dos Santos Cabral era meu amigo há décadas, e não é por sê-lo que sempre admirei a sua forma de estar no quotidiano político da região, e na sua vida enquanto profissional e pessoa de intervenção cívica aliada a uma grande probidade.

Politicamente raras vezes estivemos no mesmo espaço partidário, aliás desde os idos tempos de 1975, mas nunca entrámos em desvarios, nem tampouco deixamos de ter uma relação de amizade de grande proximidade, e de continuadas saudáveis discussões.

Foi governador-civil, deputado da AR, delegado do INATEL e do Instituto da Juventude, membro da Assembleia Municipal, tudo pela Guarda, cidade onde nasceu e onde desenvolveu toda a sua atividade profissional.  

Nunca deixou de participar em combates que sabia perdidos à partida, mas fê-lo sempre com a convicção da defesa dos seus princípios, arreigados a uma defesa humanista num Partido Socialista onde militou até ao fim!

Mesmo no sofrimento da sua doença, nunca deixou de partilhar com os amigos as conversas que sempre tivemos. Foi sempre amigo dos seus amigos e não os fazia por mero interesse que às vezes os ditames partidários condicionam.

Quando sentiu que não era desejado na vida política, voltou à escola para continuar a dar educação física aos seus alunos, e não se ouviu da sua parte um lamento nem participou nas sórdidas estratégias para conseguir um lugar a qualquer preço.

A sua morte deixou um vazio enorme aos seus amigos e claro que a toda a sua família, por quem tinha uma afeição desmesurada.

Como disse George Brassens “Aos amigos perdoamos tudo, menos que morram”.

Fernando Pereira

12/1/2026

  

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