4 de fevereiro de 2016

Entrevista a Margarida Paredes / Mutamba /Novo Jornal / 4 de Fevereiro de 2016 /Luanda



Margarida Paredes (MP), nascida em Coimbra, no emblemático bairro do Penedo da Saudade, local da alta burguesia da cidade é filha de um prestigiado professor universitário doutorado em Londres, e neta de uma aristocrata e latifundiária alentejana.
Depois de um percurso por alguns lugares do antigo “Império Português” acompanhando o pai, um eminente biólogo marinho e oceanógrafo de reconhecida competência, Margarida Paredes assume um corte com penates e faz um percurso que a leva sucessivamente a Lovaina na Bélgica, Brazzaville, Luanda, Lisboa e finalmente S. Salvador da Baía onde é investigadora e professora na Universidade Federal da Bahia.
No seu percurso de combate e de múltiplas vivências licenciou-se “tarde e a boas horas” em Estudos Africanos, tendo-se abalançado para um doutoramento em Antropologia Social, orientada pelo Prof. Miguel Vale Almeida e financiada por uma bolsa da FCT, e no seguimento de todo esse trabalho elaborado durante quase seis anos (um ano de Trabalho de Campo em Angola) fez sair recentemente o livro “Combater Duas Vezes, Mulheres na Luta Armada em Angola”.
NJ- Tive oportunidade de ler o seu romance “O Tibete de África” editado em 2006 e li com particular atenção o ensaio, que afinal é a sua prova de doutoramento “Combater Duas vezes”, e sinceramente pareceu-me que uma parte significativa do segundo tem a sua parte romanceada no primeiro.
Lamento discordar, “O Tibete de África” é uma ficção, é a história de uma menina da comunidade branca que deixou Angola antes da independência, uma retornada, é uma história sobre o retorno e sobre a descolonização e é um romance que faz parte do corpus da literatura portuguesa. O “Combater Duas Vezes” é um ensaio que obedece a protocolos académicos e que exigiu uma investigação aprofundada do meu objeto de estudo, ou seja as mulheres angolanas que estiveram envolvidas nos conflitos armados em Angola desde 1961 a 2002 e combateram de armas nas mãos. Este livro é sobre as suas memórias de guerra, sobre as suas histórias de vida, sobre a invisibilidade de que são alvo na construção da nação, sobre as suas lutas pelo reconhecimento e pela representatividade política ou como negoceiam a ordem de género entre outras particularidades. Um dos aspetos que é importante realçar neste meu trabalho é que é uma versão africana e afrocêntrica da História de Angola no feminino. Durante todo o meu trabalho estive sempre a dialogar com teóricos africanos e com o conhecimento produzido em África. Fanon tem um grande peso nas minhas reflexões analíticas mas também as académicas africanas Ifi Amadiume, antropóloga, Oyèrónké Oyèwùmi, socióloga, e Nkiru Nzegwu, filósofa. Cada história individual das ex-combatentes resgata um palimpsesto de memórias que contribui para a História esquecida das mulheres angolanas tendo-me cabido apenas o papel de interpretar e contextualizar as suas narrativas. Agora, talvez tenha alguma razão sobre a fluidez da minha escrita que é um exercício herdado da ficção, mas, como sabe, os antropólogos também são escritores.

NJ- A Margarida, enquanto investigadora, ter-se-á deparado com um conjunto de dificuldades na prossecução do seu trabalho, mas a realidade que tenho ao ler o seu livro é que terá conseguido torneá-las com alguma facilidade, algo que não é muito habitual aos investigadores de diferentes domínios quando pretendem fazer trabalhos em Angola. Como o conseguiu?
Não foi com facilidade, tive que lutar muito para conseguir fazer o Trabalho de Campo e no livro faço uma descrição etnográfica de todas as dificuldades e desafios que tive de ultrapassar para realizar a pesquisa. Mas numa coisa tem razão, o facto de ter sido uma das “antigas” do MPLA, aderi ao movimento em 1973, e o facto de ter sido das FAPLA abriu-me muitas portas. As minhas antigas camaradas das FAPLA foram uma grande ajuda e fui sempre muito acarinhada pelas veteranas.
NJ- A pergunta anterior leva-nos para o estado geral de desconfiança que as autoridades angolanas têm perante investigadores de todo o tipo, e alguma resistência a que haja trabalho científico sobre Angola. Parece-me de todo paradoxal já que o angolano é extrovertido e afável no seu relacionamento com quem o visita! Que condicionamentos acha que levam a esta atitude, tantas vezes referida?
É verdade, há em Angola uma grande desconfiança em relação aos pesquisadores estrangeiros, ouvimos constantemente a frase – depois vocês vão dizer mal de nós, mas a desconfiança não é do cidadão comum, é dos governantes que não entendem que a ciência social é crítica e o que criticamos são as dinâmicas sociais e políticas, não as pessoas. A guerra contribuiu para afastar muitos cientistas e estou-me a lembrar que sempre recusaram o visto ao Patrick Chabal. Isso levou a que haja uma extensa produção científica sobre Moçambique com o apoio da Universidade Mondlane e quase nenhuma em relação a Angola. Num país que se quer democrático os cientistas sociais não podem ser sentidos como uma ameaça ou tratados como inimigos.
NJ- O seu passado militante está muito presente ao longo do livro, relegando algumas vezes o social enquanto a ciência e o técnico para um lugar secundário, sem subalternidade contudo. Esta é uma visão, que não sei se está de acordo!
Sim, apareço no meu trabalho na dupla condição de antropóloga e de nativa (como categoria antropológica), isto é como ex-combatente do MPLA. Tive que fazer um exercício de autorreflexão antropológica para definir esse duplo lugar de enunciação, mas sempre que apareço como nativa foi para dar testemunho e enriquecer as interpretações, por exemplo, quando falo da reunião em que o comandante Gika entregou o comando do Destacamento Feminino à Virinha e à Nandi eu sou a única pessoa dessa reunião que sobreviveu para contar a história.
NJ-Uma das situações que me deixa atónito no livro é a percentagem de mulheres entrevistadas que depois de lutarem por uma causa, de terem sido maltratadas e torturadas pelas autoridades coloniais e aviltadas até pelos companheiros de guerrilha, hoje são praticamente ignoradas por aqueles com quem partilharam ideais e com quem lutaram por uma sociedade mais digna. Acho que isso é provavelmente a sua grande mensagem, mas se o presente é muito mau para elas as sombras do futuro adensam-se!
Pois é, as antigas guerrilheiras do MPLA, assim como as mulheres-soldado das FAPLA ou as ex-combatentes da FNLA e UNITA todas elas têm em comum o facto de terem sido esquecidas, abandonadas ou discriminadas, o que é motivo de grande revolta e sofrimento para estas mulheres. Os homens tiveram direito a proteção social ao abrigo da Lei do Antigo Combatente de Guerra, n.º 13/02 de 15 de Outubro, mas as mulheres são marginalizadas deliberadamente. Estou-me a lembrar de casais que entregaram o processo ao mesmo tempo no Ministério dos Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria, o do marido foi despachado, recebe a pensão militar e a mulher espera há anos por uma resposta ao seu processo. As guerrilheiras que foram desmobilizadas das FAPLA também foram dispensadas sem um documento comprovativo dos anos de serviço militar e da patente, o que as exclui da reforma da Caixa de Segurança Social das FAA. Mas o caso mais grave é o das ex-combatentes da UNITA, a militarização não lhes assegurou direitos iguais ou tratamento idêntico aos homens no processo de paz e durante o desarmamento, desmobilização e reintegração, porque foram consideradas familiares dos soldados, que tiveram direito a proteção social, enquanto elas foram enviadas para casa, cuidar da família. No entanto devo dizer que as participações das mulheres das elites partidárias nas lutas tem sido reconhecidas e algumas condecoradas mas de qualquer maneira foi um processo arrancado a ferros.
NJ-Vamos por partes, cada mulher ou conjunto de mulheres que entrevista para o seu trabalho demonstram a sua preocupação em “revisitar” cada uma das fases da luta anticolonial, dos tempos agitados da independência, do fraccionismo, da guerrilha contra a RPA e a guerra civil surgida na sequência do “Setembro” de 1992. Qual é o denominador comum de todas as entrevistadas, se é que há algum?
Uma das hipóteses que levantei para pesquisar quando elaborei o meu projeto foi se a condição de “combatente” teria construído em termos coletivos um “nós” que combateu, ou seja, uma espécie de “comunidade imaginada” de mulheres combatentes que pudessem partilhar um sentimento comum forjado na luta armada, independentemente do lado em que se encontravam no teatro da guerra e ultrapassando a categoria de “inimigas”. As considerações finais do meu livro respondem a essa pergunta.
NJ- O seu livro é ponto de partida para muito debate se houvesse um terreno propício a isso, o que não me parece que haja, por circunstâncias diversas. Qual é a sensação de ter escrito um livro que tem sido lido com atenção, que tem motivado críticas e elogios, que tem permitido uma visibilidade de temas que normalmente são pouco relevados como a “desigualdade de género”, o “machismo” em sociedades africanas de forte tradição matrilinear, a submissão aos ritos e fenómenos religiosos, e outros?

Não tenho tido quase feedback nenhum em relação ao meu livro, ainda não chegaram até mim ecos desses debates. Tem havido é um grande interesse da comunicação social. Mas uma coisa é certa, creio que é a primeira tese de doutoramento feminista sobre Angola. Não sei como os homens estão a reagir mas imagino que as mulheres se sentem empoderadas e orgulhosas de entrar na História de Angola pelos seus próprios meios, história que até agora tinha sido escrita apenas no masculino. Deixe-me também dizer-lhe que África tem movimentos feministas poderosíssimos e as angolanas fazem parte deste processo.
NJ- Não leve a mal a pergunta mas este livro é mais Margarida ou mais as mulheres a quem Margarida dá finalmente a palavra e o rosto?

Não tenho a menor duvida que este livro é resultado de um projeto comum construído pela antropóloga e pelas mulheres que foram objeto do meu estudo, as ex-combatentes. Foram os seus depoimentos, os seus testemunhos, as suas memórias e as suas vozes que dão sentido ao livro. Foram também as suas contribuições que deram origem a esta reflexão e análise. Este livro é das mulheres angolanas mas é também das mulheres do mundo inteiro porque a luta pela igualdade de género é uma questão de direitos humanos e universal.


















29 de janeiro de 2016

Diferença entre o Sino e o Signo!/ Novo Jornal / Luanda 29-1-2016





Mais um tema sobre o futebol, dos sorrisos da vitória e da “estúpida vontade de chorar das tardes de derrota", como disse um dia um homem que foi guarda-redes num clube de Argel e se chamou Albert Camus.
Não vou falar da seleção nacional de futebol que continua no continente a manter os seus níveis de incumprimento num quadro que se alastra há tempo demais, e quando se pretendem encontrar culpados mete-se algo escatológico na mão e abre-se a ventoinha espalhando-se tudo para cima dos mais expostos: Selecionador e jogadores!
O problema é mesmo um e difícil de ser agarrado: falta de politica desportiva, e inerentemente criar uma estrutura de responsabilidade partilhada por muitos agentes, de hábitos consolidados, que quando as coisas acontecem de mau, assobiam para o ar, quando das poucas vezes correm bem, eis que aparecem logo na primeira fila e a assumirem um protagonismo risível.
Isto traz-me à lembrança um filme dos anos ontem, o “Trevo de Quatro Folhas” que reproduz num ambiente jocoso a derrota da seleção portuguesa em Madrid em 1934 por 9-0!
Uma das muitas histórias que se conta que, no dia seguinte ao encontro, um jogador português, ao ser interpelado pelo criado do hotel castelhano com o habitual “Desayno?”, respondeu: “Desayuno, não. Nove a Zero!”
Barrigana foi um dos grandes guarda-redes portugueses, e durante muitos anos foi o baluarte das balizas do Futebol Clube do Porto nos anos 50 do século passado. Era corticeiro de profissão, e quando chegou ao Porto não sabia ler nem escrever, situação normal no quotidiano da maioria dos jogadores de futebol ao tempo! Como tinha que dar autógrafos resolveu fazer uma assinatura numa chancela e carimbava todos os papéis que lhe eram estendidos. As crianças nos treinos ovacionavam-no gritando “Barrigana, Barrigana” e ele chegava ao pé deles e dizia: “Barrigana não, Senhor Barrigana”
A propósito, que a crónica é uma conversa e as “conversas são como as cerejas”, lembrei-me que se contava que Sammy Davis no princípio da sua carreira e no final dos seus espetáculos, com uma multidão de admiradores lá fora, manifestou a Sinatra, que o apadrinhava, a sua grande apreensão em relação aos autógrafos. Não sabia escrever. Sinatra disse-lhe o que só um Sinatra poderia dizer: «Não faz mal! Faz uns gatafunhos! Chega…».
Barrigana foi contemporâneo do angolano Miguel Arcanjo, que alguns anos depois de acabar o futebol resolveu estudar e foi colega do filho no curso de direito na Universidade de Coimbra, tendo-se licenciado os dois no mesmo dia.
Num estágio da seleção de Portugal nessa altura e num estágio antes de um Portugal-Áustria, em plena concentração em Braga surgiu um tema aliciante: O problema da existência de Deus.
O debate foi animado, visto que havia uma clara divergência de opiniões.
Até que o Barrigana foi perentório na sua afirmação: Acreditava na existência de Deus e podia prova-lo! Claro que a assembleia “exigiu” imediatamente essa justificação.
“Quando se aproximava da minha baliza um avançado contrário isolado-explicou o guardião nortenho- faço rapidamente uma prece mental e o certo é que acabo por defender”
“Nesse caso - retorquiu-lhe um dos seus companheiros de equipa – tu nunca sofrias um golo…”
A resposta do homem a quem durante muito tempo foram confiadas as balizas da seleção portuguesa de futebol foi rápida e decisiva: “ Eu sou o melhor guarda-redes português. Há bolas que tenho obrigação de defender, mesmo sem recorrer a Deus!”.
Barrigana foi para Angola no dealbar dos anos setenta treinar a equipa dos “Dinizes de Salazar”, que era uma equipa financiada pelo maior capitalista da região, Santos Diniz. Os treinos eram à porta aberta no bar do clube, no Hotel Paixão, na Pensão Chique e acima de tudo no Bar Oásis, onde a hidratação à base de cerveja era continuada, o que levou o Barrigana a estar pouco tempo em Salazar (N’Dalatando). Recordo-me dele se queixar que tinham que fazer uma viagem ao Moxico, ao Lubango, a Porto Alexandre (Tombwa) e demorarem dois dias num autocarro sem a modernice do “ar condicionado” , o que obrigava os jogadores a “acompanhar” o treinador e dirigentes em exercícios de rehidratação continuada em sumo de cevada e lúpulo fermentado!
Os” Dinizes” que andaram uns anos na divisão maior do futebol angolano tinham sob orientação de Barrigana uma equipa onde pontificavam Carlos Alberto, Azevedo, Chipau, Nélson, Lóló, Cardeal, Pirolito, Sá Pereira, Rudolfo, Beto Truka, Jorge, Rómulo, Arlindo Soares, Dudu, Mendonças(2), Oliveira Duarte, Napoleão ,Rosas, Caipira, Bira, Noé e Carmona.
Uma passagem atribulada e curta do Sr. Barrigana por terras de África, pois os resultados desportivos estavam na proporção aritmética da proporção geométrica da cerveja consumida!
Engraçado mesmo, é que o título nada tem a ver com a crónica!

Fernando Pereira
26/1/2016

22 de janeiro de 2016

Futebol por causa!/ Ágora/ Novo Jornal / Luanda 22-1-2006



Futebol por causa!
Vou retomar o tema do futebol no contexto colonial, recuperando o tema do recente artigo que fiz para este jornal com o título “Desporto por linhas entortadas”!
“Football is not a matter of life and death; it’s much more importante than that” (O futebol não é uma questão de vida ou de morte; é muito mais importante do que isso), referiu a propósito do futebol, Bill Spankly, um dos mais importantes treinadores do futebol mundial, que esteve à frente do Liverpool de 1959 a 1974.
O futebol desempenha um papel preponderante na transmissão cultural intergeracional. Com os anos, o futebol, tanto a sua prática como o seu consumo enquanto espetáculo, tornou-se um elemento fundamental da relação entre pais e seus filhos no quotidiano de vida.O futebol atenua algumas das ruturas que a vida do dia-a-dia provoca no seio das famílias!
Em 1953, o Goal fez uma outra reportagem sobre o futebol dos subúrbios, desta vez a propósito de uma competição organizada pelo próprio jornal:” Dois terços da cidade vivem para além da cidade formada pela Brito Godins (hoje conhecida no anedotário luandense pela Brito Lenine), Emílio de Carvalho (Hospital Militar) e a estrada denominada da Circunvalação. Do Mota ao Sambizanga, do Pedrosa ao Cayate, da Pepita às proximidades do Braga, todos aqueles musseques fervilham de vida, numa amálgama impressionante de gentes de diversa condição rácica, económica e social. Mais de 100 mil indígenas coabitam com alguns milhares de brancos e mestiços (…) Aos sábados e aos domingos toda aquela vasta zona populacional se anima. São os bailes e as reuniões, os batuques e os “risca-risca”, vibrantes harmonias e ritmos, produzindo ruídos que mordem singularmente o silêncio da noite”
Nos campos da Boavista e da ESMIPA (propriedade da Missão de S. Paulo, onde os padres asseguravam a organização e a segurança) havia pouco mais do que as balizas. Salientava a reportagem a utilidade do desporto com um velho argumentário:” Os rapazes precisam de quem os oriente (…) assim não vão para a taberna”.
O regulamento do torneio determinava duas condições fundamentais para a participação. Por um lado só podiam concorrer clubes não filiados na Associação de Futebol de Luanda (AFL). Procurava-se com esta medida convocar um conjunto de clubes que se encontravam afastados da organização oficial do futebol local e das suas competições, revelando uma intenção inclusiva. Noutro sentido, o regulamento excluía os jogadores que não possuíssem o estatuto de “assimilados”, o que significava que os “indígenas” ficavam de fora.
Nesse mesmo ano de 1953 o Presidente da AFL sugeriu a necessidade de ser criada uma segunda divisão do campeonato local que “serviria para regular a vida dos inúmeros clubes existentes na área urbana da cidade”. O torneio iniciado em Julho foi um teste, em que se colocaram os clubes de “assimilados” na segunda divisão. O campeonato decorreu no campo do Ferrovia e participaram o Bungo, o Malhoas, o Vasco da Gama, o OK Clube, o Canaxixe, o Vila Clotilde, o Ocidental e o ASA. Integrados os “assimilados” na vida colonial, os clubes formados por “indígenas” continuaram a organizar o seu campeonato, no campo da Boavista.
No projeto colonial, o desporto não desempenhava um papel decisivo. A Liga de Football de Luanda nasceu em 1914 (a AFL em 1929). O Conselho Provincial de Educação Física surgiu em 1956. O Sporting de Luanda surge em 1920 e o Sport Luanda e Benfica em 1922, clubes marcadamente elitistas. Acompanhando o ritmo de crescimento da população colona, as delegações do Benfica e do Sporting espalharam-se por todo o território, sendo os únicos focos de associativismo colono em algumas localidades. A popularidade destes clubes alargou-se e passou a haver disputas clubísticas no informal jogo de rua, em que as equipas escolhiam os nomes desses clubes para se defrontarem.
As grandes empresas viram no futebol uma forma excelente de poderem dar aos trabalhadores uma forma organizada de gestão do seu pouco tempo livre, e por exemplo a Diamang fazia campeonatos internos entre os trabalhadores das suas minas. A organização desportiva criada dentro da própria empresa, tanto na sua vertente de oferta de lazer, sem objetivos competitivos, como enquanto base de constituição de clubes desportivos a competir em provas oficiais, reproduziu formas prevalecentes de descriminação e desigualdades sociais.
Como a própria hierarquia das empresas revelava uma estrutura social que reforçava as lógicas de desigualdade económica, étnica, religiosa e de género, a oferta de desporto era feita discriminatoriamente.
Este tema suscita-me particular curiosidade, e penso que não se esgotará num conjunto de crónicas que tenho feito sobre o desporto no período colonial. Faz parte de um projeto que tive em mente desenvolver quando fui o 1º diretor do Centro Nacional de Documentação e Informação da ex- Secretaria de Estado de Educação Física e Desportos, mas que por razões do foro pessoal me foi impossível levar a bom termo, apesar do entusiasmo de todos no Organismo e do apoio nunca regateado.
Voltarei, e quero desde já agradecer a contribuição do Professor Dr. Nuno Domingos, através do seu trabalho, “O desporto e o Império Português”, sem o qual estaria limitado na organização, de um conjunto de dados que pudessem dar corpo a estas crónicas!

Fernando Pereira
13/1/2015

15 de janeiro de 2016

A geração entupida! / Ágora / Novo Jornal/ 16-1-2016/ Luanda

A geração entupida!
Um dos livros relevantes da literatura angolana é “A Geração da Utopia” de Pepetela, o autor traz para a escrita os anos de sonhos, utopias, poucas dúvidas, excesso de certezas num futuro a construir num quadro de igualdade e solidariedade.
Na sociedade angolana assistimos, há já a alguns anos a esta parte, ao desmoronar de um sonho coletivo assente na solidariedade, na democracia, na liberdade, e todo um conjunto de valores, que levaram a geração dos entas a lutar pela construção de um país e concomitantemente aquele “homem novo” que pertencia a um tempo que havia de vir sem ser futuro.
Habituei-me a olhar para um grupo alargado de pessoas, a grande maioria mais velha que eu, de uma forma quase reverencial do ponto de vista ideológico, alicerçado naturalmente no seu percurso de luta e resistência contra o colonialismo e o fascismo. Vi nessa gente a alegria de construir, a vontade de criar, a persistência no aprender e de facto o MPLA ganhou o respeito, a credibilidade e a adesão de muita gente, um pouco por todos esses exemplos transmitidos.
Para nós, e para esses mais velhos era completamente despiciendo que houvesse desorganização, purgas, fome, tribalismo e racismo na luta armada, como nos confidenciavam os que por lá passaram nas conversas que tínhamos num tempo em que nos juntávamos, e também quando militantemente nos ajuntavam!
Que importavam as dificuldades do quotidiano da novel RPA se o que interessava era construir e “o mais importante era resolver os problemas do povo”! E víamos as pessoas entusiasmadas a fazer, mobilizadas no querer e no meio de tanto voluntarismo, asneiras, imponderáveis ideológicos, as pessoas confiavam que o futuro estaria a passar por ali.
Afirmámos tanta coisa, irritámo-nos com todos os que nos diziam que nunca poderia ser assim nem mais assim, fazíamos juras às convicções mais pueris e gritávamos a plenos pulmões: “Ao inimigo nem um palmo da nossa terra”! Um tempo em que sabíamos que a diferença entre ser membro do governo ou do CC era o azul ou o branco do carro distribuído, e a maior indignação era ter que ver o “Bem-amado” segunda vez porque um qualquer mwata não tinha visto o episódio todo.
Era um tempo em que nos indignávamos pela gravidade de situações que hoje se revelam cândidas e banais no quotidiano da nossa sociedade!
Estávamos com a confiança em pleno e havia inimigos comuns e alguns que ao tempo nos pareciam amigos, deviam ter estado bem disfarçados, para trinta anos depois serem exatamente o que são.
A verdade é que os da minha geração e anteriores se deparam hoje com um dilema terrível, que é não conseguirmos assumir a plenitude do nosso fracasso. Os anglo-saxónicos têm uma frase que sintetiza tudo: Permanecemos com os esqueletos nos armários! A minha geração muito pouco, mas a geração anterior foi quem montou um esquema mental e tentou criar uma carapaça que defendesse a luta por um coletivo que pudesse ser digno de merecer “o seu bocado de pão”!
Essa geração está num perfeito estado de quase “catatonismo” porque não consegue discernir se defende o status-quo prevalecente no País, se aceita passivamente tudo!
Nós, angolanos destas gerações temos um problema grave entre mãos: Ou damos o flanco e vamos dizer aos que durante quarenta anos ou mais, que no essencial tinham razão e que quem estava errado éramos nós, ou perpetuamo-nos nalgumas mentiras agitando as bandeiras descoloradas de uma sociedade em que cada vez nos revemos menos.
Há sempre uma fuga, e isso é patente nas redes sociais, e tem a ver com a dificuldade que com o avançar da idade cada vez temos mais dificuldade de despir uma camisa, que está ideologicamente enrodilhada e com as convicções cheias de buracos.
Do marxismo que tentámos implementar resta muito pouco, e por vezes o que sobra é muito mal utilizado. A partir de determinada altura largou-se Karl Marx para se adequar a sociedade ao Groucho Marx: ”Estes são os meus princípios. Se você não gosta deles, eu tenho outros”.
Olho com um certo esgar os que acham que somos idiotas em defender algumas ideias que dizem ser passadistas, mas na realidade o que assistimos é que o conformismo assaltou muita gente que julgávamos ter convicções inabaláveis. Ortega Y Gasset em pleno na sociedade angolana de hoje com a estafada frase que “a vida somos nós e as circunstancias”?
Agitam os números de participantes em comícios, percentagens eleitorais de grande dimensão, publicitam os encómios dos que perpetuam os mercados dos favores e dos tráficos de toda a ordem e desordem, mas ainda não consegui esquecer que um autocarro completamente lotado ao entrar em contramão numa autoestrada não tem razão nenhuma quando colide com carro de pequena cilindrada com um só ocupante que vinha na via certa. Muitos continuam a usar as palavras de ordem de um passado perdido para justificar o que não é fácil perante as evidências quotidianas.
Hoje tornámo-nos na geração entupida porque nos recusamos a fechar o ciclo virtuoso das nossas convicções para ao invés entrarmos no niilismo que é o ciclo vicioso da Angola atual.

Fernando Pereira
10/1/2015


23 de dezembro de 2015

Desporto por linhas entortadas / Novo Jornal / Luanda 23-12-2015



Desporto por linhas entortadas
Faleceu recentemente o professor José Esteves, uma figura incontornável na pedagogia e na sociologia do desporto que fala português.
Pessoa de grande dimensão humana e muito arreigado a princípios de democracia e liberdade, José Esteves assumiu na ditadura um combate permanente, o que lhe valeram vários castigos, um dos quais ter sido obrigado a lecionar em Luanda, no Liceu Salvador Correia em 1949 e 1950.
Da sua experiencia saiu um conjunto de textos onde sintetiza a pungente realidade da colónia no dealbar dos anos 50, onde o racismo e a consequente segregação social eram evidentes, e assumia maior evidência perante o olhar de quem foi coagido a trabalhar em Angola.
Partilhei com ele alguns momentos, e uma das histórias que contava era sobre uma das muitas conversas que manteve com o sacerdote e antropólogo Carlos Easterman, em Sá da Bandeira (Lubango); Ter-lhe-á perguntado quantas “assimilações” tinha havido na Huíla desde que o “Estatuto do Indígena”(1921) tinha sido instituído. Carlos Easterman respondeu: “Umas sete ou oito”. E depois acrescentou:” Mas este ano parece que não haverá nenhuma. O administrador que há poucos dias encontrei, casualmente, já me foi dizendo que não estava na disposição de continuar a diminuir a mão-de-obra indígena, cada vez mais necessária e procurada…”. Os assimilados podiam, por exemplo, adquirir propriedade e não eram obrigados pela autoridade a trabalhar em obras públicas. Porém, tinham que prestar o serviço militar e trabalhar para o serviço publico, apresentar formação escolar em português, comprovar bens e manter uma vida cristã.
Uma das coisas que o surpreendeu em Luanda foi que a filial do “popularíssimo” Sport Lisboa e Benfica ( Sport Luanda e Benfica) não admitia praticantes negros, algo que só acabou já no fim da década de 1950.
Deixa publicado um trabalho excecional: “O Desporto e as Estruturas Sociais”, um estudo brilhante sobre a ligação do desporto à sociedade e a sua interação com a realidade social e política. Um livro de leitura obrigatória, embora o seu enquadramento histórico corresponda a todo o seculo XX. O “Racismo e Desporto” foi um livro de grande impacto no fim dos anos 70, e recordo com apreço que me autorizou a copiá-lo integralmente para o Boletim Desportivo editado pelo CNDI da ex-Secretaria de Estado de Educação Física e Desportos, no dealbar dos anos 80.
Um estudo interessantíssimo saído recentemente no domínio da intervenção política no desporto é o do brasileiro Marcello Bittencourt, “Jogando no Campo do Inimigo: Futebol e Luta política em Angola”. Este texto faz parte de um trabalho maior em que o autor participa como coorganizador de uma coletânea partilhada com Victor Andrade Melo e Augusto Nascimento: “Mais que um jogo: O Esporte e o Continente Africano” (2010).
Em Luanda o desporto constituiu-se como um espaço de negociação entre a população colona e estratos da pequena burguesia crioula, que criaram os seus clubes como a Liga Angolana, o Grémio Luso-Angolano e mais tarde o Clube Atlético de Loanda, fundado em resposta à discriminação existente no Clube Naval.
Em Luanda, como refere Marcello Bittencourt, o campeonato local juntava clubes de brancos, como o Benfica, o Sporting ou o Futebol Clube de Luanda, o clube de mulatos, o Atlético, e o clube dos contratados, o Ferroviário do Bungo, onde os negros jogavam ao lado dos brancos pobres, filhos dos trabalhadores do caminho-de-ferro.
Nos subúrbios de Luanda subsistiam ligas de futebol separadas do universo do colono e com as quais as pequenas burguesias africanas mantinham uma relação de controlo associativo.
Curiosamente o atletismo, sobretudo as corridas, prática que não exigia material específico ou o desenvolvimento de uma técnica apurada, foi uma das modalidades que mais rapidamente integrou elementos de grupos socialmente segregados.
Porque o texto é um conjunto de evocações, vale a pena reproduzir a experiencia e a surpresa do repórter do jornal desportivo Goal ,no seu relato em 1950, de um jogo de um “campeonato indígena de futebol” que decorria nos campos da Boavista e da Exposição Feira (Hoje na zona do Bungo e do Miramar respetivamente).
O campo de jogo, para espanto do repórter, estava marcado, as balizas tinham redes e a assistência era superior à que comparecia habitualmente no estádio municipal dos Coqueiros.
A entrada era gratuita: “ A nossa deslocação tinha em vista dois objetivos bem determinados: em primeiro lugar, havia interesse em conhecer das possibilidades dos grupos indígenas, sua capacidade de organização e sentido desportivo; em segundo lugar, como girava a orgânica do campeonato, valor real das equipas e o conceito formado pelo indígena relativamente à prática do desporto como meio de desenvolvimento físico” Conclusão: “Esperávamos muito pior. No jogo entre o Atlético de Icolo e Bengo e o Futebol Clube do Porto Malanjinos, o árbitro e os fiscais de linha foram pescados entre os assistentes. Muitos dos jogadores jogavam descalços. A taça do campeonato em disputa, designada Taça Francezinhos, havia sido oferecida pela Empresa dos Tabacos de Angola”.
Os jogos, considerou o repórter, eram fracos tecnicamente e taticamente, mas ainda assim há “uma noção muito apreciável de conjunto e cada um dos elementos constitutivos da equipa sabe sempre o que lhe cumpre fazer”. As “torcidas” eram “pitorescas”!
No campo da Boavista tudo era semelhante. O recinto possuía uma tribuna de honra coberta por folhas de palmeira. Uma das características destas equipas suburbanas, registou o jornalista, foi que “quase todas são homónimas das que disputam o Nacional da 1ª divisão na Metrópole”, o que assinalava a circulação de referências e informações que ultrapassavam em muito o âmbito do subúrbio e que evoluíam pelas vias criadas por um sistema de relações urbano.
As autoridades coloniais, sobretudo a partir da década de cinquenta e seguintes, começaram a olhar para estas práticas desportivas autónom,as, separadas social e geograficamente das populações colonas, com uma atenção inédita, na sequencia dos problemas de gestão social que se multiplicaram neste período.
Em Angola continuaram a realizar-se, de modo mais ou menos informal, campeonatos suburbanos, durante a vigência da administração colonial. Neste sentido, inspiraram e ajudaram a concretizar algumas das “expectativas de modernidade” (Ferguson) de parte da população urbana e suburbana das maiores cidades.
Durante décadas estas competições, mais ou menos informais, fizeram parte de um processo de construção comunitária repleto de tensões e conflitos. A apropriação do desporto, nomeadamente do futebol, afirmava-se como um elemento da relação das populações com um conjunto de hábitos sociais modernos e urbanos.
Fernando Pereira
20/12/2015


6 de novembro de 2015

Cultura Física e Desporto na Angola independente. / Revista Dipanda 40 anos/ Luanda /6-11-2015

Artigo que saiu na revista DIPANDA 40 ANOS.
Revista do Novo Jornal e do Expansão

Cultura Física e Desporto na Angola independente.
Nestes quarenta anos de Angola enquanto País, a cultura física e o desporto foram um poderoso aliado da afirmação da unidade da nação angolana, e um fator agregador de múltiplas vontades num dinamismo associativo participativo.
O desporto no tempo colonial jamais conseguiu sair do espartilho em que as autoridades o ataram e a realidade é que, em nenhuma modalidade, a colónia de Angola conseguia alguma notoriedade no paupérrimo espaço do “império português”. Nos chamados confrontos com equipas da então “Metrópole”, os resultados eram confrangedores com a agravante de que Portugal era dos países europeus com piores desempenhos ao nível de modalidades coletivas ou individuais, para além da reduzida percentagem de praticantes que tinha no conjunto da sua população.
Porque este artigo é uma tentativa limitada de fazer uma retrospetiva do que foram estes quarenta anos de construção de um desporto na afirmação de um país, não é muito importante fazer um exercício de memória sobre o tempo colonial, onde a atividade desportiva pouco mais conseguia ser para além de um desporto recreativo e de competição doméstica sem expressão.
Houve no fim do período da administração colonial uma tentativa de se criar um conjunto de estruturas que permitissem, de uma forma profissional e com métodos pedagógicos inovadores, melhorar a qualidade desportiva através de um exercício que possibilitasse o acesso das crianças e jovens em idade escolar à prática regular da educação física e desporto.
Cercearam-se entretanto as atividades da Mocidade Portuguesa que era, no contexto do ensino primário e secundário, a única estrutura organizada que permitia a prática de educação física, contaminada por uma forte componente ideológica assente nos valores que eram indispensáveis à sobrevivência da estrutura ideológica salazarista.
Quando da independência existia um Conselho Provincial de Educação Física e Desportos, a entidade do governo que supervisionava todo o desporto no território e, simultaneamente, fiscalizava o movimento associativo que se “desejava” cordato e portador da ideologia prevalecente. Ao tempo já existia uma escola de formação de professores de educação física, de nível médio, que pretendia que os recém formados ocupassem as vagas nas escolas onde normalmente militares e alguns antigos praticantes lecionavam.
No dealbar da independência, o quadro no desporto era semelhante ao que aconteceu nos outros sectores: fuga maciça de quadros, um abandono e degradação de muitas estruturas físicas pelo País inteiro.
Havia que começar a trabalhar e no primeiro governo de Angola criou-se, na dependência do Ministério da Educação, o Conselho Nacional dos Desportos, liderado pelo António Augusto, que teve um curto e atribulado período, tendo acabado o seu mandato no 27 de Maio de 1977. Em 30 de Agosto de 1977 é empossado Hermenegildo de Sousa, como Secretário Nacional do Conselho Superior de Educação Física e Desportos que cumpre o seu mandato até 4 de Julho de 1979,altura em que a lei 7/79 extingue o CSEFD e cria em sua substituição a Secretaria de Estado de Educação Física e Desportos, autónoma do Ministério da Educação. Como Secretário de Estado toma posse Rui Alberto Vieira Dias Mingas e este facto marca o início de um período, provavelmente o mais pujante, do grande desenvolvimento no desporto de Angola.
Refira-se que em 21 de Janeiro de 1978 são nacionalizados todos os bens que integram o património desportivo da Cidadela Desportiva de Luanda, que compreendia o estádio, o pavilhão desportivo, os prédios inacabados em redor e os terrenos circundantes. No seguimento desta nacionalização, o Secretário de Estado exara um despacho publicado em 19 de Fevereiro de 1980 que “determina que todas as instalações municipais, assim como as instalações de clubes da era colonial que se encontrem em estado de abandono, passem para a gestão direta da SEEFD” .
Iniciam-se os primeiros passos para a edificação de uma estrutura desportiva que permitia iniciarem-se campeonatos nacionais federados e simultaneamente proverem-se os lugares que, no contexto das associações desportivas internacionais, cabiam a Angola. Durante o período entre Agosto de 1979 e Fevereiro de 1980 decorreu a instalação das Federações desportivas da maior parte das modalidades e, inerentemente, a criação de associações provinciais. Este edifício organizativo associado à publicação do diploma orgânico da SEEFD, publicado em DR em 16 de Novembro de 1981, permite que tudo comece a correr dentro da legalidade institucional.
Em Novembro de 1980 Luanda recebe a organização de uma competição continental, a primeira em solo angolano, o Campeonato Africano de Juniores em Basquetebol, que a RPA ganhou numa final épica contra a República Centro-Africana. Foi a partir dessa conquista que a RPA se consolidou como uma das maiores potências africanas na modalidade tendo conquistado, a nível de seleção, onze títulos continentais, o que tem permitido a presença do País nos diferentes Jogos Olímpicos e Campeonatos Mundiais.
O Comité Olímpico de Angola fundado no início de 1979, teve como primeiro presidente o Dr. Augusto Lopes Teixeira seguido de Augusto Germano de Araújo, de Rogério Nunes da Silva e de Gustavo Vaz da Conceição. O COA permitiu ao longo dos anos levar aos Jogos Olímpicos uma representação que dignificasse o País, mesmo em momentos em que a vida coletiva era difícil e o futuro da Nação incerto.
Em Agosto de 1981 organizaram-se em Luanda os 2ºs Jogos da África Central, a maior realização de sempre na Angola independente. Milhares de participantes, voluntários, árbitros e dirigentes aliados ao entusiasmo e engajamento das populações nas cidades que acolheram os jogos, fizeram deste evento algo inolvidável. “A realização destes jogos em Angola não acontece por acaso, nem é fachada vistosa que escondemos para utilizar as debilidades de um desporto sem princípios, sem organização, sem praticantes. E nem persegue sequer outros objetivos senão os bem generosos que norteiam as relações desportivas internacionais, particularmente entre os Países do nosso continente”; estas palavras fazem parte do discurso proferido pelo Secretário de Estado de Educação Física e Deportos Rui Mingas, no dia 20 de Agosto de 1981, no ato de abertura dos Jogos, numa Cidadela recuperada e com as bancadas cheias de público e animadas por um extraordinário trabalho de quadros humanos, escolhidos entre a juventude das escolas de Luanda que aceitaram o desafio que lhes foi proposto de forma empenhada e voluntária.
Entretanto, ia-se reconstruindo o parque desportivo que se degradara fruto do abandono a que tinha sido votado. Simultaneamente iam-se construindo novas infraestruturas, nomeadamente campos relvados, pavilhões cobertos e centros de Estágio para desportistas. Instalaram-se por todo o País novas “Casas do Desportista”, para alojar com dignidade os atletas dos diferentes campeonatos nacionais de modalidades coletivas e individuais.
Desde 1980 que iam decorrendo os Conselhos Consultivos da SEEFD, o primeiro dos quais no Bié, que eram fóruns de intervenção de eleição por parte de dirigentes e responsáveis das estruturas centrais e descentralizadas da Secretaria de Estado e dos dirigentes máximos das federações nacionais.
Simultaneamente ia-se construindo a estrutura organizativa de todos os organismos ligados ao desporto e cultura física no País, e dois instrumentos fundamentais para o futuro saíram nos anos 80: a Lei de Bases do Sistema Desportivo em 1986 e 1987 e a Lei das Associações Desportivas. Esta legislação foi o corolário da ampla discussão do 1º encontro Nacional de Desporto realizado em Luanda (7 a 29/10/1984).
Em 1985, ano em que começa a ser disputada em futebol a Supertaça de Angola, defrontam-se, para a sua conquista, os vencedores do “Girabola” e da Taça de Angola (nessa 1ª edição o Estrela 1º de Maio de Benguela, campeão, vence o Ferroviário da Huíla, vencedor da Taça). Em 1985 foram inauguradas, a 10 de Dezembro, a “Casa do Desportista” na Ilha do Cabo e o Estádio da Cidadela Desportiva assim como alguns pavilhões anexos construídos de raiz. Neste mesmo ano realizou-se em Angola o prestigiado torneio internacional de Andebol Marien Ngouabi, o primeiro torneio de uma modalidade que, no sector feminino, tem trazido ao longo de quarenta anos um prestígio enorme ao País (onze títulos africanos, medalha de ouro em seis jogos africanos). A par do basquetebol masculino e feminino (vencedores do campeonato africano em 2011 e 2013) o andebol feminino é o orgulho de toda uma nação pelo conjunto de títulos conquistados.
A deterioração da situação militar no território não conseguiu parar os campeonatos, mas impôs uma degradação das infraestruturas desportivas que obrigou a deslocalizar algumas equipas para outros locais, onde a segurança dos protagonistas fosse assegurada.
Os esforços em manter a prática desportiva redobravam-se num contexto de valorização do cidadão, e como processo integrador não só no desenvolvimento físico como no seu conteúdo educativo e formativo.
Foi muito fácil integrar as crianças e jovens na prática desportiva, quer na componente de recreação quer na competição e consequentemente inseri-las nas estruturas federadas. A educação física e desporto mobilizavam as pessoas, e muita gente aderiu às atividades desportivas. Nas empresas, nos organismos do Estado a nível central e provincial, nas forças armadas, nos bairros, na comunicação social e naturalmente nas escolas havia uma apetência quase generalizada para se organizarem uma quantidade de torneios e campeonatos que engajavam muita gente, recorrendo aos parcos recursos que ia havendo. A título de exemplo podia referir o extraordinário torneio dos “Caçulinhas da Bola”, uma organização da Rádio Nacional de Angola, que nos anos 80 mobilizou milhares de crianças num torneio de futebol infantil, com um êxito que não conseguiu ver repetido noutras iniciativas. Desse torneio saíram alguns jogadores que acabaram em clubes de primeiro plano no País.
Apesar de terem participado como convidados nos Jogos Olímpicos de Moscovo em 1980, oficialmente Angola entra pela primeira vez nos JO em Seul 1988, com uma delegação em várias modalidades individuais, depois de ter boicotado os Jogos de Los Angeles em 1984.
Em 1989, a SEEFD dá lugar ao Ministério da Juventude e Desportos ao abrigo da Lei Nº 3/89 , sendo nomeado ministro o Dr. Marcolino Moco, passando a ocupar o lugar de Vice-ministro do Desporto o Professor José da Rocha Sardinha de Castro, pessoa que desde 1979 ocupava o lugar de Diretor Nacional dos Desportos com grande competência e sobriedade.
É uma opinião muito subjetiva, mas ao alterar-se a missão do Ministério e ao ser-lhe configurado um novo quadro orgânico, alguma importância terá sido retirada ao enquadramento político do desporto no País, alijando uma parte significativa das responsabilidades da ex-SEEFD e remetendo-as para as Federações desportivas. Convenhamos que já se antecipava alguma mutação ideológica no quadro da política global da República Popular de Angola, e obviamente a cultura física e o desporto teriam outro figurino nos novos tempos que se adivinhavam.
Em 1992 toma posse como Ministro, por um ano, Osvaldo Serra Van-Dunen que mantém Sardinha de Castro como Vice-ministro, num período fervilhante da política angolana. Nesta fase, só acabou por ser relevante a participação nos Jogos Olímpicos de Barcelona em 1992, onde a equipa masculina de Angola de basquetebol, campeã africana, venceu a superfavorita seleção espanhola, ainda hoje um feito nos anais da modalidade.
A Osvaldo Van-Dunen sucede, também durante um ano, Justino Fernandes, ex-defesa direito do ASA nos anos sessenta, que entretanto passara por algumas pastas ministeriais e que deixa o Ministério para ir ocupar o lugar de Governador de Luanda. Foi mais uma passagem transitória em que, dadas as circunstâncias, também nada de desportivamente notório aconteceu.
Em 1994 toma posse como Ministro o Dr. José da Rocha Sardinha de Castro e como Vice-Ministro para o desporto o Prof. Guilherme Espirito Santo Carvalho, dois homens da “casa” e que acompanharam todo o desenvolvimento do desporto angolano e foram protagonistas ativos nas suas múltiplas transformações.
O Dr. Sardinha de Castro é um profundo conhecedor da realidade do desporto angolano, professor de educação física e uma pessoa de convicções saudavelmente fortes, o que por vezes lhe trouxe algumas situações muito incómodas por parte de uns quantos, habituados a tentar colher benefícios por meios pouco claros e cumplicidades com ligações espúrias. Foi durante o seu mandato que se reorganizou o Ministério da Juventude e Desportos sendo publicada a lei n.º 10/98, (Lei de Bases do Sistema Desportivo Angolano).É aprovado o diploma do regime de prémios aos Atletas na Alta Competição em Novembro de 1996, regulamentação que veio colocar um ponto final num critério pessoalizado e aleatório sobre a distribuição de prémios e outras menções aos que representavam o País em competições internacionais. O Estatuto Orgânico do Ministério da Juventude e do Desporto, Lei 7 /97, foi também aprovado nesse mandato.
Os problemas que o País ia vivendo nesses anos 90 eram transversais a todos os sectores da sociedade angolana, e as dificuldades em conseguir que os campeonatos federados decorressem a um ritmo normal exigiam uma mobilização total dos recursos, que naturalmente eram parcos dada a dimensão das exigências colocadas. Simultaneamente, ia-se assistindo à destruição das infraestruturas desportivas um pouco por todo o País, e ao tempo, até as próprias instalações desportivas nas escolas e clubes, serviram para acolher refugiados de uma guerra sem quartel e que se generalizou a todo o território.
As participações das seleções nacionais em campeonatos continentais, campeonatos do mundo, Jogos Olímpicos e outros compromissos internacionais iam sendo cumpridos, com grande dignidade, por parte de todos e com algumas excelentes performances.
A juventude angolana continuava a ver na prática desportiva a única hipótese de preencher os seus tempos livres, que aumentavam com o encerramento prolongado de escolas e o atrofiamento da atividade económica, por razões perfeitamente justificadas.
Em 1999 Sardinha de Castro é substituído pelo seu Vice-ministro da Juventude, Dr. José Marcos Barrica, e o ministério tenta adaptar-se aos novos tempos de Angola.
Havia que começar a reconstruir todo o equipamento que foi sendo destruído e, simultaneamente, disponibilizar aos delegados provinciais meios para promoverem o reequipamento dos clubes, dotarem-nos de quadros técnicos e reativar as associações provinciais.
Com o fim da guerra em 2002, com a abertura da circulação em todo o País e com fundos postos à disposição, Angola assiste a um período de grande euforia, as infraestruturas de apoio às seleções são significativamente melhoradas e os clubes mais representativos na capital e nas províncias começam a construir todo um conjunto de equipamentos, úteis para o desenvolvimento do desporto de competição no País.
Com a nova orientação política, o Estado começa a demitir-se de algumas competências e atribuições passando a entregá-las às federações, associações e, claro, aos clubes. A formação de técnicos, árbitros, dirigentes foi saindo da órbita do Ministério da Juventude e Desportos e só a escola e os clubes passaram a mobilizar a iniciação desportiva.
Em 2005 Angola apura-se, pela primeira e única vez, para a fase final de um campeonato do mundo de futebol que decorre na Alemanha em 2006, não tendo o País logrado passar da fase de grupos.
Em 2008, o Ministro Marcos Barrica é substituído pelo Vice-Ministro Gonçalves Manuel Muandumba, que herda o pesado encargo de organizar no País o Campeonato Africano das Nações em Futebol (CAN), ideia que germinou do Mundial da Coreia Japão (2002).
Este era, indiscutivelmente, o maior desafio que se colocava à Angola em paz, já que organizar um CAN em 2010 exigia um esforço enorme para conseguir que um evento deste nível pudesse correr de forma satisfatória. Construíram-se estádios de raiz em Luanda, Huíla, Cabinda e Benguela, todos eles com lotações superiores a 25.000 espectadores. Alteraram-se profundamente as infraestruturas circundantes desses estádios, tal como a construção de novas vias a envolverem esses parques desportivos, que cresciam como fruto de trabalho continuado para cumprimento de prazos. Emergiram dezenas de novos hotéis, muitos deles de excelente qualidade, adaptaram-se e construíram-se de raiz novas instalações aeroportuárias e houve necessidade de se disponibilizarem novos campos relvados, ginásios, spas, instalações para apoio médico, em síntese: montou-se uma pequena parte do País.
A verdade é que tudo correu quase bem, ensombrado apenas pelo que ocorreu com a seleção do Togo em Cabinda,o que terá diminuído o pleno êxito dum CAN disputado por 16 nações, a maior parte delas atuais estrelas do futebol mundial. Angola mais uma vez fracassou no aspeto desportivo, mas no cômputo geral foi positiva e muito boa a organização por parte do COCAN, liderado pelo ex-Ministro Justino Fernandes.
Em 2013 Angola organiza o campeonato do Mundo de hóquei em patins, distribuído nas cidades de Luanda e Namibe, cidades onde se constroem dois novos pavilhões para receber um evento de importância relativa, já que é uma modalidade de pouca expressão ao nível internacional, e que mesmo no País tem muito poucos praticantes.

SINTESE FINAL

Neste pequeno e incompleto percurso nos caminhos da educação física e desporto angolano ao longo dos quarenta anos de Angola, enquanto País soberano e independente, um fator que não deve ser negligenciado: foi através da expressão desportiva que Angola conseguiu uma visibilidade exterior importante, que dificilmente seria possível noutros sectores de atividade, quer na área social, quer na área económica.
Quando da opção socialista do País, a educação física e o desporto foi uma área onde se terão conseguido assinaláveis progressos, pela mobilização de recursos, na constante procura de formação de quadros e otimização de novas competências,na promoção de acordos de cooperação assertivos com partilha continuada de experiências e, acima de tudo, a vontade de promover uma República Popular de Angola nova, com dificuldades, mas orgulhosa da sua soberania e acima de tudo muito ciosa em defender valores solidários no contexto das nações.
Não foi fácil edificar uma estrutura deste tipo, e ainda hoje se vão colhendo os frutos das sementes que se colocaram nesses anos em que muito se discutia, mas que também muito se fazia.
O basquetebol e o andebol feminino continuam a ser as nossas mais honoráveis representações a nível internacional, mas são urgentes novos desafios porque aquilo a que vamos assistindo é a um niilismo, que substituiu a erradamente chamada “massificação”. Pouco mais se faz que navegação à vista o que não é nada bom augúrio para o futuro!
É muito importante repensar estratégias, e também fazer um apelo a contribuições que permitam que não se perca a formação, porque será aí que se irão buscar os que hoje precisam de ser substituídos. Não se pede necessáriamente “injeção de sangue novo”, mas alerta-se para que talvez seja a hora de oxigenar o sangue que existe.
Convém também alertar que o desvario urbanístico e imobiliário impediu as pessoas de terem espaços para a prática de modalidades, e nem o jogo de futebol de rua, tão popular entre nós,pode ser praticado, já que os largos, os terrenos baldios e os becos desapareceram para se construir a esmo.
Nunca teremos gente para os estádios inaugurados por toda a parte se não tivermos muita juventude a praticar um pouco por todo o lado, num País em que as condições climáticas aliadas à apetência inata da nossa população pela prática da educação física e desporto são motivos suficientes para termos muita gente engajada.
Viva o 11 de Novembro de 1975!

Fernando Pereira
27/10/2015


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24 de outubro de 2015

Ricos e Ricos Meninos / Ágora / Novo Jornal / Luanda 23-10-2015




O “Expansão”, na semana passada publicou que Luanda tem 4.900 milionários, que juntos valem 3% da fortuna do continente africano, e posicionam-na como a sexta cidade no “ranking” dos ricos das cidades africanas!
Não fiquei particularmente entusiasmado com esta notícia, porque uma parte significativa das pessoas da lista, tem um papel relativamente encolhido no pouco dinâmico sector produtivo do País.
Gente com hábitos de consumo exagerados no contexto atual de Angola, a ostentarem muito e a fazerem francamente pouco na criação de emprego para os cidadãos, e inerentemente que ajudasse à criação de uma média burguesia que alavancasse novos desenvolvimentos, e alguns projetos ideológicos que pusessem o Estado a funcionar com regras bem definidas.
Os ricos só serão respeitados se promoverem o desenvolvimento económico e simultaneamente ajudarem à integração social das pessoas. No estado em que estamos, a diferença entre os que os invejam e o que os criticam pela sua inação é muito pequena e a perpetuar-se esta situação, o respeito dos cidadãos por este estrato da população aumenta em agressividade verbal ou até de forma física.
Obviamente que há exceções, que desenvolvem o País, mas ainda não conseguem ser em número suficiente que permitam esconder a riqueza aviltante que vai circulando pelos olhos chocados de uma população a quem falta muito de quase tudo!
Vou deixar aqui algumas histórias de gente de “sucesso”, para muitos saberem que outros bem mais ricos eram “bem mais discretos”, o que também não faz certas pessoas terem um caracter imaculado.
Num restaurante no Guincho em Cascais dois clientes numa mesa despertavam a atenção dos outros comensais e recebiam as atenções dos empregados. Jorge de Melo, antigo todo-poderoso do grupo CUF e Américo Amorim, acionista de muitas empresas e considerado pela revista Forbes o mais rico de Portugal.
A conversa ia fluindo e a determinada altura dizia Amorim em voz moderadamente alta: “Sou o homem mais rico do País” ao que terá retorquido Jorge de Melo: “Já fui eu, mas era mais discreto”! Ainda nessa conversa Amorim dizia:” É uma maçada ser o homem mais rico do País” ao que o interlocutor replicou que “Não ligue, isso passa”!
António Champalimaud, foi durante muitos anos o único português com fortuna pessoal, que tinha direito a figurar recorrentemente no top das cem maiores fortunas europeias. Numa rara entrevista a um canal de TV quando se abordava a proverbial “forretice” e a frugalidade da sua vida quotidiana, foi questionado, entre outras trivialidades, qual a marca do seu carro, respondeu que era um luxuoso Bentley, com quase trinta anos; Perante a surpresa da entrevistadora, retorquiu Champalimaud que quando mudava de carro tinha que ser um durável para que pudesse manter-se muitos anos e em condições.
O sueco Ingvar Kamprad, dono do poderoso IKEA, uma das cinco pessoas mais ricas do mundo, parece viver uma vida bastante modesta. Apanha o metro para ir trabalhar, voa nas companhias aéreas “low cost”, fica em hotéis de categoria média e outras idiossincrasias que o tomam por avarento. Kamprad diz: “ As pessoas dizem que sou avarento e que não me importo que eles também sejam. Mas a verdade é que me sinto muito orgulhoso por seguir as normas da nossa empresa”. Apesar disso, também é verdade que não se privou de ter uma casa fantástica na Provença (França), nem de residir na Suíça, um país habituado às extravagâncias dos milionários.
Amâncio Ortega, dono da Inditex, a maior fortuna de Espanha, segunda na Europa, sétima no mundo segundo a revista Forbes, é um discreto galego que fundou em 1975 e uma pequena alfaiataria numa rua discreta na cidade portuária do norte de Espanha, La Coruna.
Homem que não dá entrevistas, não se deixa fotografar e preserva a sua intimidade ao ponto de não se saberem pormenores tão comezinhos como os seus hábitos quotidianos ou as suas relações de amizade. A marca mais conhecida da empresa é a Zara, mas agrega também a Pull&Bear, Massimo Dutti, Bershka, Stradivarius, Oysho, Zara Home, Uterqüe e Tempe. O império de Amancio Ortega estende-se por 73 países, com mais de 47.000 lojas e quase 90.000 empregados. Em todo o mundo há uma loja do grupo, por isso se diz que “No Império Ortega, o Sol nunca se põe”.
John Rockefeller (1839-1937), fundador e dono da Standar Oil Company, que se ramificou nas atuais ExxonMobil, Chevron, Conoco Philips e a Sohio. Dono de uma fortuna calculada em 325.300 milhões de dólares passou a imagem de um filantropo mas um dos seus maiores prazeres era lutar contra os sindicatos operários, empenhando-se com métodos verdadeiramente nojentos na repressão das greves e na perseguição a dirigentes sindicais.
Para se ter a noção exata da fortuna de Rockefeller, compare-se a sua fortuna com a do 1º do mundo, o mexicano Carlos Slim Helu, segundo a Forbes com uma fortuna estimada em 53500 milhões de dólares, seguido de Bill Gates com 53000 milhões de dólares. O PIB de Angola em 2013 foi de 124.200.000.000 de dólares, isto só para termos de comparação.
Andrew Carnegie (1835-1919) com uma fortuna estimada ao tempo de 298.000 milhões de dólares, foi o rei do aço nos EUA. Nasceu pobre na Escócia e emigrou para os Estados Unidos e deixou uma frase que ainda hoje é lapidar nas escolas de gestão mais famosas da América: “ Um dos segredos do sucesso empresarial não consiste em fazermos nós próprios o trabalho, mas sim em saber identificar a pessoa mais indicada para o fazer”. No epitáfio da sepultura de Carnegie pode ler-se: ”Aqui jaz o homem que soube rodear-se de homens mais hábeis que ele.”
Para finalizar citar o moçambicano Mia Couto: "A maior desgraça de uma nação pobre é que em vez de produzir riqueza, produz ricos. Mas ricos sem riqueza. Na realidade, melhor seria chamá-los não de ricos mas de endinheirados. Rico é quem possui meios de produção. Rico é quem gera dinheiro e dá emprego. Endinheirado é quem simplesmente tem dinheiro ou que pensa que tem. Porque, na realidade, o dinheiro é que o tem a ele.
Fernando Pereira 5/10/2015
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