27 de março de 2015

Luanda a ferro e não a fogo! / Novo Jornal / Luanda 27-3-2015





Na fachada da Igreja do Carmo, em Luanda, está inscrita numa pedra a tabela dos toques para incêndios na cidade, que foi dividida em dez zonas de combate a estes sinistros através de regulamentação concebida no fim da primeira metade do século XIX.
Luanda era, pelos anos 30 do século XIX, uma urbe com escasso casario de pedra, circunscrita ao que sempre se chamou Cidade Alta, na atual Rainha Ginga Antiga Salvador Correia, no Bungo, em volta da Igreja dos Remédios e junto às praias que iam até à Igreja da Nazareth. Na Baixa, nos Coqueiros, na Maianga, em redor da Igreja do Carmo até ao Kinaxixe, na Mutamba, nas Ingombotas e no sopé do morro da fortaleza florescia um matagal com telhados de colmo, em casas de «pau-a-pique», na zona da terra vermelha, o musseque.
Era aí que deflagravam o maior número de incêndios e naturalmente que era preocupante para a cidade tendo em consideração a proximidade do casario e a sua vulnerabilidade no caso de o incêndio se propagar.
Nesse contexto, surge um edital da Câmara Municipal de Luanda, em 1839, que obrigava a que, ao toque de fogo, os donos das lojas de comércio ficassem obrigados a mandar um escravo, ou um servo, munido de um cazengo de água para extinguir as chamas, sendo multado em mil reis cada comerciante que não cumprisse tal regulamento.
Cada igreja de Luanda tinha afixada a tabela de toques de sinos, que iam desde os cinco na zona da Igreja do Corpo Santo, aos quinze quando era para os lados da Igreja da Nazareth! Logo que ouviam os toques, os empacaceiros, subalternos negros vestidos com um saiote e com uma tira de couro de búfalo (npacaça), começavam a avisar onde era o fogo. Os soldados da Cavalaria e o serviço de sapadores e todos os disponíveis lá carregavam a água com o máximo cuidado para apagar o incêndio e evitar que tomasse proporções impossíveis de controlar.
Controlados pelas forças militares, lá se conseguia uma organização razoável que ia apagando o fogo. Três dolentes badaladas na igreja da zona eram o sinal de que o fogo estava apagado.
Importa aqui dizer que a água foi sempre um problema enorme em Luanda, desde os tempos em que se foram fixando pessoas e aumentando a atividade militar e comercial da cidade.
Os poços e as cacimbas não chegavam para as necessidades básicas e nesse tempo a água era trazida do Bengo em barcaças e vendida a 12,5 reis o barril, preço que aumentava para o dobro quando havia calema e os barcos não conseguiam passar a barra. Um eterno problema que se perpetuou com a LAL e hoje com a EDAL.
Quando se olha para a cidade, que cresce assustadoramente em altura, não é despiciendo que se pergunte se todos os megatéreos implantados na cidade têm um plano realista de evacuação em caso de incêndio ou se o equipamento de combate por parte do corpo de bombeiros tem capacidade para uma intervenção rápida nesses edifícios.
Fico com a convicção de que talvez seja útil repensarem-se os planos de contingência em caso de incidentes deste tipo para se evitarem tragédias como as que vão ocorrendo um pouco por todo o lado, fruto de uma ausência de planeamento e uma enorme falta de aconselhamento às populações sobre a natureza dos locais onde vivem, quer na chamada zona enobrecida quer nos labirínticos bairros construídos um pouco por todo o lado.
Vou continuar a escrever sobre a Luanda de outros tempos, com a ajuda da obra de José de Almeida Santos, funcionário da Camara Municipal de Luanda nos anos 70 do século passado e que tem um trabalho excelente sobre a cidade que se habituou a crescer de forma avulsa e anárquica.
Era bom que o Governo Provincial reeditasse estes livros e os disponibilizasse aos muitos que ainda acham que debater Luanda vale a pena.

Fernando Pereira
23/3/2015

20 de março de 2015

"BENVINDO" AO REGRESSO!-Ágora-Novo Jornal-Luanda 20/3/2015




BENVINDO AO REGRESSO!
"Dessei" se alguém sentiu a minha ausência nas páginas do Novo Jornal, mas admito que pelo menos eu sentia a falta de me obrigar a ter este espaço. Aceitei o convite do Carlos Ferreira e só reitero o mesmo entusiasmo, igual ao de há sete anos quando o Vitor Silva e o Gustavo Costa me incentivaram a fazer esta crónica semanal, num semanário que criou enormes expectativas no quadro geral da imprensa angolana. Ficaram as enormes, faltam cumprir as expectativas!
Não sei se irei manter o formato anterior, pois neste “ano sabático” surgiram novas ideias, projetos rejuvenescidos e nada melhor que citar o andaluz António Machado no seu “caminho faz-se caminhando”, para dizer que ainda não há nada definitivo neste retornar.
Num recente trabalho de Maria José Tiscar Santiago, editado pela Colibri, “Diplomacia Peninsular e Operações Secretas na Guerra Colonial”, é feita uma exaustiva investigação sobre as ligações que havia entre Portugal e Espanha no contexto das lutas de libertação nacional das colónias portuguesas, e todo o percurso ziguezagueante dos diplomatas dos dois países na busca de soluções que as circunstancias desfavoráveis se propiciavam no pós-Bandung.
Talvez não haja no essencial muitas surpresas, mas a pormenorização da discussão de algumas situações pouco conhecidas ou mesmo ignoradas dão um conjunto significativo de informações que explicam muito do que se foi passando nas décadas de sessenta e setenta em Angola e países limítrofes.
As condenações na ONU por parte de países africanos contra a política colonial portuguesa e o alinhamento sistemático por parte da Espanha com o regime de Salazar e Caetano são revisitados pela historiadora, mostrando à saciedade quão útil foi a muleta de Madrid a Lisboa. Foram abertos os arquivos ultramarinos em Portugal, e os diplomáticos em Espanha dos anos 50,60 e 70 e isso faz com que este trabalho traga novas pistas sobre as ligações espúrias de alguns líderes africanos com as ditaduras ibéricas, dissimuladas através de uma retórica profundamente anticolonialista e de busca de uma autenticidade africana.
As sucessivas “traições” que os movimentos independentistas das colónias portuguesas foram recebendo por parte de altos dignitários de alguns países africanos, conluiados com infiltrados da PIDE e comerciantes pouco escrupulosos, conseguiam por vezes resultados desastrosos nas débeis organizações que lutavam contra o colonialismo.
Os apoios de Youlu, Kasavubu,Tshombé, Boigny, Mobutu e uma série de títeres e subalternos foram conseguindo adiar o futuro por uns tempos. Temos que convir que depois de lermos o livro ficamos com a sensação nítida que a diplomacia portuguesa e espanhola conjugada, executaram um excelente trabalho.
Nas “memórias” de Franco Nogueira, ministro dos Negócios Estrangeiros português da fase final do governo de Salazar, dizia-o a determinado passo: “ Não estava preocupado com o circo que estava montado na ONU. Os que mais vociferavam contra a nossa presença no ultramar, eram os primeiros nos bastidores a baterem-nos nas costas e a incentivar-nos a continuar determinados na presença de Portugal em África”.
Este livro de Maria José Santiago contém uma vasta recolha de documentação que dá alguma razão a Franco Nogueira e às teses que defendia para a perpetuação de Portugal em Angola.
O prefácio é assinado por Adriano Moreira, um “rectificado” pela democracia portuguesa, que tenta ocultar partes de um passado que não deveria ter tido. A estafada frase de Ortega Y Gasset em que “a vida somos nós e as circunstâncias” cai que nem uma luva no homem que foi diretor do ISCPU (Instituto de Ciências Sociais e Politica Ultramarina), escola de quadros da administração colonial, subsecretário de estado do fomento ultramarino e ministro do ultramar, onde em determinada altura se alcandorou a delfim de um Salazar que era velho, mas suficientemente sagaz para não dar hipóteses nenhuma a quem lhe oferecesse dúvidas. Salazar utilizou Moreira como nós utilizamos um Kleenex e na altura em que estava resolvido um conflito com Deslandes, ao tempo governador-geral de Angola e simultaneamente comandante militar no território nesse 1961, o ano de tudo, o “manholas” demitiu os dois em grande velocidade.
Para além de ter sido um confesso defensor da política colonial portuguesa, um teorizador contrário ao avassalar das independências africanas, foi no seu consulado que reabriu o campo de concentração do Tarrafal, na ilha de Santiago onde penaram prisioneiros de consciência da Guiné-Bissau, Angola, Moçambique e Cabo-Verde. Alguns por lá morreram e foi de certa forma aviltante quando no Cabo-Verde independente se dá a distinção de “Honoris Causa” a Adriano Moreira. Mereciam mais essa gente a quem a prisão tirou anos de vida para que as independências surgissem!
Espero não ter uma surpresa destas na minha terra! Bem bastam outras que vou tendo e que também me desagradam.


Fernando Pereira
11/3/2015









13 de março de 2015

O Fantasma da Liberdade






Todo o homem tem direito de sonhar (pelo menos) a liberdade. Tal direito ainda não se encontra consignado em nenhuma Constituição. As Constituições, transformando-se quase sempre em lubrificadoras do poder, pendem a maior parte das vezes para o sacrossanto elemento coletivo, enumerando umas quantas “essências”.
A megalomania duma quinta ibérica chamada Portugal só tem paralelo nos devaneios quixotescos. Mas o Quixote, que recuperou a razão à hora da morte, é um “ ser de papel” do século XVII, não uma instituição lusitana do século XXI. Assim, a velha quimera segundo a qual este país deu “novos mundos ao mundo” só pode servir no presente, os interesses de algumas famílias assustadas com a perspetival de liberdade. Os materialistas que não são propriamente estúpidos, esforçam-se por apurar as condições concretas das transformações sociais. É pena que não se verifiquem em Portugal, País sujeito a múltiplas podridões, nunca dispôs de vitalidade suscetível de produzir a mínima revolução. O que Portugal possui em abundância, em zonas letradas ou não, é um enorme bando de vigaristas o que aliás em termos de materialismo histórico se explica perfeitamente: pirataria, saque sem grande obra civilizacional e repressão inquisitorial.
Já que se fala de inquisidores convém que se esclareça que tais entidades são, entre nós, símbolos e pilares da ordem. Quem inventou o milagre de Fátima sabia o que fazia, ao irmanar as autoridades republicanas da época com os diabos preparados para assarem “os pastorinhos”. Atribuir às autoridades de então uma tentativa de auto-de-fé constituiu, desgraçadamente, um truque eficaz e motivado por uma ampla tradição. E um filme estado-novista, que circulou apoteoticamente por todo o País, mostrava um lume feroz para o sacrifício dos três videntes, como se o inconsciente da justiça republicana desse tempo comungasse nos métodos do Santo Ofício. Será que esses arautos do milagre, de mão dada ao salazarismo, tinham até razão?...
Não queremos responder. Mas não nos esquivaremos a lembrar que houve um grande progresso na “revolução” de 1974:Desapareceu todo o anticlecarismo da Primeira Republica. Ou porque as múmias já pensam, medrosas, no “reino dos céus”, ou porque a conivência inquisitorial é mais profunda do que julga, ou porque – o que é pior!- Portugal é assim mesmo, reina o auto-de-fé nas consciências (ou nas inconsciências). Talvez por isso se use tanto o verbo “ queimar” em matéria de discurso político-familiar. Há políticos para ”queimar”, instituições para “queimar”, e até governos para “queimar”.
De queimadela em queimadela ainda um dia se apaga o ultimo reflexo da liberdade!
(Algumas reflexões deste texto, vem de um colóquio que tive a oportunidade de assistir do professor José Martins Garcia numa homenagem a Vitorino Nemésio)
Fernando Pereira
9/3/2015

11 de janeiro de 2015

Para ti Maria



“De Bragança a Lisboa

São 9 Horas de distância

Q’ria ter um avião

P’ra lá ir mais amiúde(…)

(…)”Outra vez vim de Lisboa

Num comboio azarado”


Esta antiguinha musica dos “Xutos e Pontapés” deu-me o mote para regressar ao presente, das muitas vezes que sou obrigado a viver as peripécias de uma viagem de comboio entre Lisboa, Celorico da Beira e volta.

Aqui há uns anos a CP resolveu, e em boa hora, dotar o país de um serviço mais rápido e confortável de comboios intercidades, que se propunha ligar as cidades do interior a Lisboa e Porto.

O serviço funcionou razoavelmente bem nos primeiros anos. O material circulante era bom, os horários apelativos para que um cada vez maior número de pessoas utilizassem o intercidades, e raríssimas vezes havia atrasos. O preço era aceitável tendo em conta o esforço que a CP tinha feito para instalar esta oferta supletiva.

Com o passar dos anos começámos a assistir ao Intercidades a parar cada vez mais, em locais onde não entra nem sai ninguém, e estações que começam a estar praticamente abandonadas, a maioria das suas instalações com portas e janelas entaipadas e com um ar de desleixo e lúgubres. Da Guarda a Lisboa passou o comboio a sair cada vez mais cedo para chegar à hora inicial, quando o horário é cumprido, situação que não me lembro de ocorrer quer no sentido Lisboa-Guarda, quer Guarda-Lisboa nos últimos anos.

Hoje, o que assistimos é a degradação continuada do serviço, com carruagens cada vez mais sujas, logo no início da rota e cada vez se desespera mais pelas horas que se passam no comboio ou nas esperas em estações com cada vez menos condições de salubridade, para já não falar na pobreza dos serviços disponíveis a bordo.

A maior parte das estações intermédias só abrem as suas bilheteiras num período em que não passam comboios, o que não deixa de ser risível. No interior do comboio, no seculo XXI, não podemos comprar o bilhete por terminal de multibanco, máquinas que também não estão disponíveis na maior parte das estações do percurso. Já tive que pedir emprestado dinheiro a um conhecido para pagar o bilhete, senão arriscava-me a ser punido com coimas, no mínimo!

Já nem me atrevo a pedir wi-fi na carruagem, mas pelo menos que houvesse um local, para além da ficha da máquina de barbear das casas de banho, que permitisse carregar um “Tablet” ou um “hi-phone”, que não conseguem ter carga suficiente para suportar os atrasos “desconsideráveis” para os utentes das linhas de intercidades!

Por vezes apetece-me viajar em primeira classe e começa a ser recorrente chegar a Santa Apolónia para comprar o bilhete e dizerem-me que está esgotado. Resignado, apesar de agradecido por me obrigarem a poupar, lá vou em segunda, e na realidade no Entroncamento a carruagem de primeira classe fica praticamente vazia. Fiquei perplexo quando percebi que têm direito a bilhete a custo zero os trabalhadores da CP e da REFER, pois numa das viagens em ambiente demasiado ruidoso, que fiz no troço entre Lisboa e o Entroncamento, vi um dos bilhetes do meu companheiro do lado esquecido, que confirmou as minhas suspeitas.

Acho que os ferroviários devem ter direito a viagens gratuitas, o que devia ser prática comum nos trabalhadores de todas as empresas de transporte, mas também é meu entendimento que não deve a companhia sair prejudicada, já que o potencial cliente pagante acaba por ser preterido pelos funcionários da empresa. Voltarei a este tema muito em breve.


Por: Fernando Pereira
6-1-2015

13 de dezembro de 2014

Adeus, até ao meu regresso!



Há pouco mais de quarenta anos, num acinzentado Portugal de gentes desesperançadas e hordas de jovens a caminho de uma guerra filtrada numa TV a preto e branco travestida, assistíamos, por esta altura do ano, a um dos mais sórdidos espetáculos que o regime colonial-fascista dava às famílias portuguesas: as mensagens de Boas Festas dos militares.

As mensagens de Natal dos soldados que tentavam sobreviver nos três teatros de guerra, deixavam transparecer, nos olhares de toda uma geração de gente jovem, uma sensação de vazio extremo, que nem as suas poucas palavras conseguiam dissimular, a tristeza e o desencanto de se verem abandonados na defesa de um nada, ou melhor, uma réstia de nada.

“Adeus até ao meu regresso” ou um “Natal cheio de propriedades”, eram algumas das muitas frases que os soldados dirigiam aos seus familiares, em gravações feitas em outubro, o que levava a situações caricatas de chegarem a dezembro mensagens de soldados que nessa altura já «vinham numa caixa de pinho/do outro lado do mar», como bem dizia Reinaldo Ferreira, outro defenestrado de uma pátria que sempre teimou em fazer isso a quem ousava pensar diferente.

Quando a data libertadora do 25 de Abril de 1974 chegou havia na Guiné, Angola e Moçambique setenta e oito mil militares que lutavam já para sobreviver, pois há muito que havia a certeza de que a guerra estava militar e politicamente perdida. «A guerra é a continuação da política por outros meios», como dizia o prussiano von Clausewitz (1780-1831), é a prova clara de que África, para uma geração sacrificada de portugueses, foi um atoleiro donde se regressou sem glória.

Ainda hoje há uma certa reserva em falar da guerra colonial, como ainda são inconclusivas muitas das sequelas inerentes a um período difícil da história recente de Portugal. Mas tenho a convicção de que começa a ser tempo de se tirarem os “esqueletos dos armários”, para que os vivos que viveram esses anos de podridão se possam sentir de alguma forma, ainda que pequena, recompensados desse esforço inglório que fizeram na defesa do que foi um verdadeiro embuste para perpetuar um regime que só se aguentava com o sangue de gente inocente.

Não há aldeia nenhuma, no mais recôndito lugar de Portugal, onde não haja uma vítima da guerra colonial e há concelhos que perderam muitos dos seus filhos nesses anos de chumbo. É urgente fazer-se uma homenagem pública a essas pessoas que deram a vida a lutar pela Pátria, pois é uma forma de os lembrar e simultaneamente deixar bem vincada a repulsa de todos por um regime caduco, liderado por um velho rato de sacristia, para quem a sua perpetuação no poder dependia de vítimas que pudesse transformar em heróis para fazer aquele espetáculo sórdido do 10 de Junho no Terreiro do Paço. É a homenagem que falta fazer aos homens que tornaram possível o 25 de Abril de 1974.

Tenho a ideia de que não se deve andar a fazer festas à farinheira, ao míscaro, à amendoeira, ou a outra coisa qualquer quando ainda não se fez uma homenagem a quem mais a mereceu nas suas terras: os militares portugueses tombados na injusta guerra colonial. Um “aerograma” enviado com destinatário certo: autoridades civis e militares de todo País. “Que ninguém seja deixado para trás”, como é vulgar utilizar-se no léxico castrense, ou melhor, que nenhum militar seja esquecido!

Este texto poderá dar a ideia que é escrito por alguém que ainda tem contas a ajustar com o passado, mas na realidade assumo que não há aqui qualquer tipo de exercício expiatório. Enquanto o mundo desenvolvido, na década de 60 e parte da de 70, era um pleno de efervescência cultural, de debate, de apogeu económico, de ruturas nas mentalidades, Portugal era governado por um velho, cercado de homens pulverizados mentalmente com água benta que mandavam o seu maior tesouro para terras que mais tarde que cedo iriam ser independentes, já que esse era o desígnio da história. O embaixador americano Elbrick, ao sair, em 1961, de uma conversa com Salazar, sobre a intransigência do ditador em resolver a questão colonial logo no seu início, deixou escapar o seguinte comentário: «Estive duas horas à conversa com Vasco da Gama e Luis de Camões»!

Morria-se pelo passado e não pelo futuro e isso fazia toda a diferença. O “Adeus até ao meu regresso” era a imagem do medo, da angústia, dos olhos vítreos fixados numa câmara onde se desespera de se ser, num Portugal perdido numa África onde gente nova, combativa e determinada semeava militarmente, afinal, a utopia de pátrias novas que também Abril ajudou a dar ao mundo.

A homenagem a esta gente deveria ter sido ontem, mas, como não o pôde ser, que seja num amanhã próximo de hoje! Bom “dia da família” e um bom Ano Novo para quase todos que me leem!


Por: Fernando Pereira

14 de novembro de 2014

Cut, copy and paste




As pessoas não vendem a terra onde vivem» - frase Sioux


Conta uma velha anedota que o reitor de uma universidade americana, de visita a Inglaterra, via com sorriso superior e condescendente as instalações de uma famosa universidade britânica: na América tudo era maior, tudo era melhor, o equipamento superior; só uma coisa invejava, e essa coisa era a maravilhosa e impecável frescura dos relvados que se estendiam entre os edifícios vetustos da universidade. Como obtinham os ingleses relva tão magnífica? Nos Estados Unidos não se conseguia coisa que se comparasse. Qual era o segredo?

O reitor britânico que acompanhava na sua visita o ilustre colega yankee, até aí visivelmente agastado, não pôde esconder um sorriso de malícia e esclareceu com falsa candura: «O segredo? Muito simples. Basta regar e cortar a relva, voltar a regar e a cortar periodicamente; ao fim de trezentos anos fica assim…»

Gosto desta anedota: não é aquilo a que costuma chamar-se cultura qualquer coisa como o relvado britânico? Apenas a persistência do esforço, a rega e a poda regulares, a continuidade do empreendimento, a paciência e a perseverança do exercício, alcançam, no âmbito do saber e da criação, produzir esses frutos de polpa rica, densa, nutritiva, saborosa que são o tesouro das nações. E não basta que uns quantos se apliquem à tarefa por desfastio; é preciso que as gerações se sucedam, acumulando a experiência, suscitando a tradição do trabalho bem feito, renovando o viço.

«O Povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem portuguesa, só vos falta as qualidades». Esta frase de Almada Negreiros, um poeta português do grupo Orpheu, cúmplice e contemporâneo de Pessoa, nascido em S. Tomé e Príncipe no fim do século XIX, adequasse-nos na perfeição, que nunca temos tempo para nada, fazemos tudo a correr, e enleamo-nos em projetos múltiplos para no fim nos habituarmos a atamancar qualquer coisa, preocupando-nos mais com os “exteriores” do que propriamente com a solidez e eficácia dos “interiores”.

Como não sei se volto a escrever antes do Natal, aqui vai a minha oferta em forma de verso deste homem maior da literatura portuguesa: Jorge de Sena.

Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?

Todos os são, mesmo os melhores, às suas horas,

e todos estão contentes de se saberem sacanas.

Não há mesmo melhor do que uma sacanice

para poder funcionar fraternalmente

a humidade de próstata ou das glândulas lacrimais,

para além das rivalidades, invejas e mesquinharias

em que tanto se dividem e afinal se irmanam.

Dizer-se que é de heróis e santos o país,

a ver se se convencem e puxam para cima as calças?

Para quê, se toda a gente sabe que só asnos,

ingénuos e sacaneados é que foram disso?

Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora.

Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice,

porque no país dos sacanas, ninguém pode entender

que a nobreza, a dignidade, a independência, a

justiça, a bondade, etc., etc., sejam

outra coisa que não patifaria de sacanas refinados

a um ponto que os mais não são capazes de atingir.

No país dos sacanas, ser sacana e meio?

Não, que toda a gente já é pelo menos dois.

Como ser-se então nesse país? Não ser-se?

Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia.

Mas isso foi no teatro, e o gajo morreu na mesma.

Como é uma crónica entediante, porque não Saramaguear: «O passado é um imenso pedregal que muitos gostariam de percorrer como se de uma auto-estrada se tratasse, enquanto outros, pacientemente, vão de pedra em pedra, e as levantam, porque precisam de saber o que há por baixo delas». (José Saramago em “A Viagem do Elefante”).

Fernando Pereira

12/11/2014

18 de junho de 2014

Pontuem o texto! / O Interior /12-6-2014





Semana cheiinha foi mesmo boa aqui na malta pouco habituada a estas coisas de muita gente engomada e engravatadamente falando alto e bom som no meio de aviões e tanques com muitas balas que presumo serem a fingir para comemorarem o aniversário do nascimento do olho nu que até devia ser um tipo cheio de sainete pois andava sempre a acoitar-se nos leitos das casadas e veio do oriente com um escravo para lhe pedir esmola nas ruas de Lisboa ao mesmo tempo que jazia nalguma enxerga já que ainda eram distantes os tempos dos colchões de esmolas que hoje vamos tendo para nos decubitar ventral ou dorsalmente na busca de um conforto que cada vez menos vamos encontrando no nosso quotidiano de dificuldades que cada dia são acrescidas e mais crescidas o que não deixa de ser uma valente estopada só mesmo comparável à postura das pessoas que cada vez mais confundem com impostura de estado e acham que o país avança a bom ritmo porque há novos sabores nos anúncios dos gelados e porque se consome muito mais cerveja nos festivais de verão que pululam um pouco por todo o lado com o beneplácito de tudo o que é autarca que já não se contenta com o conjunto da terra e por este andar qualquer dia temos mesmo que arranjar pastel para pagar um daqueles tipos que emergem no meio da fumaça com um camião grande cheio de material e umas poucas aves canoras algo despidas de preconceitos nomeadamente no que ao cantar diz respeito pois quanto ao resto estamos versados e conversados também abusados pelas circunstancias em que temos na fatura da luz a taxa do audiovisual e a alegria de saber que uma parte do nosso IMI é para cantorias acompanhadas de fontes iluminadas e luminosas com um funil virado ao contrário num local onde havia uma taberna que colocava o funil como devia ser ou melhor para o que servia de facto que era para encher garrafas e garrafões que iam ver-se esvaziados em copos que goelas esfalfadas permitiam doutas opiniões e em casos extremos poucos termos no comportamento habitual de cidadãos de um tempo em que a violência doméstica ultrapassava as portas e janelas de várias casas com o guarda noturno a assobiar para o ar e a farfalhar o bigodame que lhe dava um ar de grande autoridade e alguma pouco bem cheirosa importância talvez porque a farda fosse poucas vezes levada ao sabão ou aos glutões do Presto coisa que muita gente devia dizer de si que não mas limitam-se a comentar o que os outros fazem e a gesticular porque os outros são todos uns aldrúbias e uns ladrões que até querem que o pobre do tasqueiro pague impostos e que se fez mais movimento com o dez de Junho não tem nada que dar mais a esta quantidade de malandros que anda aí a gastá-lo à tripa-forra sem respeito pelos cidadãos que têm direito a dez TACs por ano e recusam-se a aceitar a energia nuclear como alternativa por causa das radiações e outras tretas que a malta vai falando um pouco por aí assim sem pontuação para se entender ainda menos e tornar o artigo mais difícil de ler e assim ter direito a ser comparado a Saramago já que muitos dizem que não gostam dele porque não pontua os escritos e as edições que faz e que li devem ser contrafeitas pois trazem pontuação mas como quem o critica muito mesmo nem a lombada se atreveu a ler quanto mais a badana não ousando sequer lembrarmo-nos que havia um livro escrito pelo que só me apetece acabar lembrando-me que não foi boa ideia o Camões trazer o escravo Jau que come e bebe todos os dias quando podia ter trazido do oriente uma arca de cânfora que talvez lhe valesse um visto gold pela contribuição que deu à semiótica no sentido real da palavra e não noutras aleivosias de intelectualidade.
Fernando Pereira-7/06/2014
Related Posts with Thumbnails