29 de abril de 2016

ABRIL SEMPRE DENTRO DE NÓS /Àgora/ Novo Jornal / Luanda 29-4-2016




ABRIL SEMPRE DENTRO DE NÓS

Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade
José Afonso

               Foi esta a senha que deu início às movimentações militares que mudaram tudo, que há muito esperava uma sapatada definitiva.
               Atolado em três frentes de combate, com os empresários a exigirem a integração europeia em detrimento do atávico mercado colonial, assoberbado pela fuga desenfreada de trabalhadores para uma Europa onde se lidava com a reconstrução dos Países devastados da 2ª Guerra mundial,  a braços com uma crescente multiplicação de greves, lutas estudantis e com a oposição ao regime a florescer nas classes sociais que o tinham apoiado até então , era por demais evidente que se esperava o rápido estertor do regime que há 48 anos governava Portugal e colónias.
               O 25 de Abril de 1974 foi a vontade de uns valorosos, ajudados pelas circunstâncias e encontraram o modelo corporativista-colonial em estado de prostração final.
               Há quarenta e dois anos vivia em Coimbra e preparava-me para ingressar na Universidade, e naturalmente avultava o receio de mais cedo que tarde ser mobilizado para a guerra colonial. A minha posição era partilhada por muitos colegas portugueses, que à surdina iam dizendo que quando chegasse a altura “davam o salto”! Poucos dos que iriam à “inspeção” esse ano estavam dispostos a defender “a fé e o Império”, que mais não eram que os Espírito Santo, Fonsecas e Burnay, Mellos, Champalimaud, Quina, Feiteira-Bordalo, Vinhas, Abecassis, Sousa Lara e as suas componentes locais Mota Veiga, Mota & Irmão, Herdeiros de Mário Cunha e outros. Como diria muitos anos antes Alexandre O’Neill: “Portugal, o meu remorso de todos nós”!
               O” Império Português” que como dizia C. R. Boxer era “essencialmente, uma talassocracia, um império marítimo e comercial (…) vazado em molde militar e eclesiástico”, estava-se a preparar para restar encaixotado, por ironia do destino, no mesmo local onde os achadores portugueses partiam “navegando desenhavam os mapas que não tinham”, como dizia Sophia de Mello Breyner Anderson.
               Durante muitos anos fui discutindo com compatriotas angolanos a importância do 25 de Abril de 1974 em Angola. Talvez pelo facto de o ter vivido a cada minuto com grande entusiamo, nos locais onde “se construiu a democracia”, tenha uma relação militantemente afetiva com o Movimento das Forças Armadas, e confesso que me custa aceitar que haja pessoas angolanas com responsabilidade e já homens feitos ao tempo queminimizem a importância do golpe de estado de Abril em Portugal e os reflexos que isso teve na libertação dos povos sob dominação colonial.
               O 25 de Abril de 1974 foi sempre olhado em Angola como uma data estranha no contexto das efemérides externas que os angolanos vão dando enfase! “Isso é uma data dos portugueses”, “Se não fossem os movimentos de libertação o 25 de Abril nunca teria acontecido”, “Que ganharam os angolanos com o 25 de Abril?”, e outros dislates que normalmente surgem quando se fala do Movimento das Forças Armadas.
               O 25 de Abril de 1974 não surgiu da vontade de um punhado de militares, apareceu num contexto, e naturalmente que quando eles corporizaram o golpe o fim da guerra colonial era um dos objetivos principais. Foi depois um corolário de movimentações, de gente das mais variadas profissões, de um amplo espectro político que obrigaram a tomarem-se certas decisões em relação às colónias, diferentes das que alguns se propunham perpetuar de outras formas.
               Nós enquanto angolanos devemos ter orgulho no 25 de Abril, porque foi uma luta comum, que afinal surtiu em objetivos comuns nomeadamente a Independência de Angola em Novembro de 1975.
               Posso entender que o meu entusiasmo pelo 25 de Abril de 1974 seja olhado de forma indiferente pelas gerações mais novas, por exemplo a da minha filha, visto da mesma forma como eu olhava atónito o entusiasmo do meu avô a falar da Republica ou até do meu pai na sua participação na campanha presidencial de Norton de Matos, que lhe valeu o despedimento da Sociedade Agrícola do  Cassequel na vila da Catumbela!
               Mas tenha-se em atenção que este esquecimento, justificado, das gerações do 25 de Abril de 1974, é o mesmo que gerações tem da luta de libertação e da batalha do Kuito-Kanavale. Estou a falar de gente jovem mas já politicamente enquadrada, e inseridas no atual tecido económico e social angolano Deixemo-nos de romantismos serôdios, porque Savimbi já morreu há doze anos, e pelos números do censo recentemente divulgado 46% da população tinha entre 10 a 12 anos, quando isso aconteceu, por isso já nada lhe começam a dizer essas “batalhas do antanho”!
               Hoje como ontem e como amanhã espero comemorar o 25 de Abril de 1974, talvez com cada vez menos gente que esteve comigo por razões de desaparecimento físico de gerações.
               Como diria José Gomes Ferreira, esse tão esquecido poeta português: Tenho “saudades de não poder inventar o futuro”.

Fernando Pereira
20/4/2015


14 de março de 2016

Os cedros também se abatem! /O Interior 11-3-2015




Os cedros também se abatem!
As pessoas andam indignadas com o abate de cedros numa rua da Guarda (indiscriminado segundo uns, discriminado no parecer de outros). Como não moro por ali, talvez esteja a favor dos que acham que é um abate indiscriminado, mas confesso que não é uma “guerrazinha” que me interesse de sobremaneira!
               Acho que este momento de tanta indignação, já deveria ter ocorrido há muito e razões mais que muitas haveria nestes quarenta anos de gestão democrática da autarquia da cidade.
               Conseguiu colocar-se a Guarda como provavelmente a mais feia cidade capital de distrito do País, quando tinha todas as condições de poder ter tido um desenvolvimento harmonioso adaptado a uma configuração natural de cidade de montanha.
               Ao invés o patobravismo tomou conta da cidad,e e rapidamente surgiram os disparates e o ordenamento urbano faz lembrar um pouco a faixa de Gaza. Ruas que apertam e desapertam em função de interesses diversos, que finalizam de forma abrupta, o que faz que bairros recentes se consigam transformar em locais labirínticos.
               Foi a cidade que foi deixando morrer o seu centro histórico, a sua notável praça, onde a grande preocupação das pessoas é saberem onde vão colocar um rei, que na Guarda tinha interesses de alcova que ultrapassavam os desígnios do Estado. Por mim pode ficar onde está, desde que haja coragem e incentivos para que os edifícios circundantes possam ser reabilitados para promover a atividade económica da cidade. Se isso acontecesse de certeza que se dispensaria a construção de um chapéu-de-chuva na rua do Comércio.
               Ninguém se indignou quando deitaram abaixo um mercado com algum interesse arquitetónico, e que em Portugal e noutros países transformam-se estes espaços em novos lugares que potenciam locais de dinâmica económica inovadora e são centro de confluência de gentes para usufruir das novidades que estes centros proporcionam.
               Em seu lugar nasceu um megatério, num horrível granito polido com uma torre de controlo, que teria alguma utilidade para apoiar uma pista de 2.000 metros e que na cidade da Guarda nem um farol de boas ideias conseguiu ser para se inverter o caos urbanístico em que a cidade se tornou.
               Quando se vê uma movimentação em torno do abate de uns cedros, interrogo-me onde andou esta gente que assistiu anos a fio à degradação da cidade, sem ver nascer qualquer movimento cívico que apoiados em técnicos pudessem ter permitido inverter a realidade pungente que hoje assistimos.
               Para que conste, não habito na Guarda, nem sou de cá mas julgo que tenho direito a opinar sobre o assunto!

Fernando Pereira

6/3/2016 

4 de fevereiro de 2016

Entrevista a Margarida Paredes / Mutamba /Novo Jornal / 4 de Fevereiro de 2016 /Luanda



Margarida Paredes (MP), nascida em Coimbra, no emblemático bairro do Penedo da Saudade, local da alta burguesia da cidade é filha de um prestigiado professor universitário doutorado em Londres, e neta de uma aristocrata e latifundiária alentejana.
Depois de um percurso por alguns lugares do antigo “Império Português” acompanhando o pai, um eminente biólogo marinho e oceanógrafo de reconhecida competência, Margarida Paredes assume um corte com penates e faz um percurso que a leva sucessivamente a Lovaina na Bélgica, Brazzaville, Luanda, Lisboa e finalmente S. Salvador da Baía onde é investigadora e professora na Universidade Federal da Bahia.
No seu percurso de combate e de múltiplas vivências licenciou-se “tarde e a boas horas” em Estudos Africanos, tendo-se abalançado para um doutoramento em Antropologia Social, orientada pelo Prof. Miguel Vale Almeida e financiada por uma bolsa da FCT, e no seguimento de todo esse trabalho elaborado durante quase seis anos (um ano de Trabalho de Campo em Angola) fez sair recentemente o livro “Combater Duas Vezes, Mulheres na Luta Armada em Angola”.
NJ- Tive oportunidade de ler o seu romance “O Tibete de África” editado em 2006 e li com particular atenção o ensaio, que afinal é a sua prova de doutoramento “Combater Duas vezes”, e sinceramente pareceu-me que uma parte significativa do segundo tem a sua parte romanceada no primeiro.
Lamento discordar, “O Tibete de África” é uma ficção, é a história de uma menina da comunidade branca que deixou Angola antes da independência, uma retornada, é uma história sobre o retorno e sobre a descolonização e é um romance que faz parte do corpus da literatura portuguesa. O “Combater Duas Vezes” é um ensaio que obedece a protocolos académicos e que exigiu uma investigação aprofundada do meu objeto de estudo, ou seja as mulheres angolanas que estiveram envolvidas nos conflitos armados em Angola desde 1961 a 2002 e combateram de armas nas mãos. Este livro é sobre as suas memórias de guerra, sobre as suas histórias de vida, sobre a invisibilidade de que são alvo na construção da nação, sobre as suas lutas pelo reconhecimento e pela representatividade política ou como negoceiam a ordem de género entre outras particularidades. Um dos aspetos que é importante realçar neste meu trabalho é que é uma versão africana e afrocêntrica da História de Angola no feminino. Durante todo o meu trabalho estive sempre a dialogar com teóricos africanos e com o conhecimento produzido em África. Fanon tem um grande peso nas minhas reflexões analíticas mas também as académicas africanas Ifi Amadiume, antropóloga, Oyèrónké Oyèwùmi, socióloga, e Nkiru Nzegwu, filósofa. Cada história individual das ex-combatentes resgata um palimpsesto de memórias que contribui para a História esquecida das mulheres angolanas tendo-me cabido apenas o papel de interpretar e contextualizar as suas narrativas. Agora, talvez tenha alguma razão sobre a fluidez da minha escrita que é um exercício herdado da ficção, mas, como sabe, os antropólogos também são escritores.

NJ- A Margarida, enquanto investigadora, ter-se-á deparado com um conjunto de dificuldades na prossecução do seu trabalho, mas a realidade que tenho ao ler o seu livro é que terá conseguido torneá-las com alguma facilidade, algo que não é muito habitual aos investigadores de diferentes domínios quando pretendem fazer trabalhos em Angola. Como o conseguiu?
Não foi com facilidade, tive que lutar muito para conseguir fazer o Trabalho de Campo e no livro faço uma descrição etnográfica de todas as dificuldades e desafios que tive de ultrapassar para realizar a pesquisa. Mas numa coisa tem razão, o facto de ter sido uma das “antigas” do MPLA, aderi ao movimento em 1973, e o facto de ter sido das FAPLA abriu-me muitas portas. As minhas antigas camaradas das FAPLA foram uma grande ajuda e fui sempre muito acarinhada pelas veteranas.
NJ- A pergunta anterior leva-nos para o estado geral de desconfiança que as autoridades angolanas têm perante investigadores de todo o tipo, e alguma resistência a que haja trabalho científico sobre Angola. Parece-me de todo paradoxal já que o angolano é extrovertido e afável no seu relacionamento com quem o visita! Que condicionamentos acha que levam a esta atitude, tantas vezes referida?
É verdade, há em Angola uma grande desconfiança em relação aos pesquisadores estrangeiros, ouvimos constantemente a frase – depois vocês vão dizer mal de nós, mas a desconfiança não é do cidadão comum, é dos governantes que não entendem que a ciência social é crítica e o que criticamos são as dinâmicas sociais e políticas, não as pessoas. A guerra contribuiu para afastar muitos cientistas e estou-me a lembrar que sempre recusaram o visto ao Patrick Chabal. Isso levou a que haja uma extensa produção científica sobre Moçambique com o apoio da Universidade Mondlane e quase nenhuma em relação a Angola. Num país que se quer democrático os cientistas sociais não podem ser sentidos como uma ameaça ou tratados como inimigos.
NJ- O seu passado militante está muito presente ao longo do livro, relegando algumas vezes o social enquanto a ciência e o técnico para um lugar secundário, sem subalternidade contudo. Esta é uma visão, que não sei se está de acordo!
Sim, apareço no meu trabalho na dupla condição de antropóloga e de nativa (como categoria antropológica), isto é como ex-combatente do MPLA. Tive que fazer um exercício de autorreflexão antropológica para definir esse duplo lugar de enunciação, mas sempre que apareço como nativa foi para dar testemunho e enriquecer as interpretações, por exemplo, quando falo da reunião em que o comandante Gika entregou o comando do Destacamento Feminino à Virinha e à Nandi eu sou a única pessoa dessa reunião que sobreviveu para contar a história.
NJ-Uma das situações que me deixa atónito no livro é a percentagem de mulheres entrevistadas que depois de lutarem por uma causa, de terem sido maltratadas e torturadas pelas autoridades coloniais e aviltadas até pelos companheiros de guerrilha, hoje são praticamente ignoradas por aqueles com quem partilharam ideais e com quem lutaram por uma sociedade mais digna. Acho que isso é provavelmente a sua grande mensagem, mas se o presente é muito mau para elas as sombras do futuro adensam-se!
Pois é, as antigas guerrilheiras do MPLA, assim como as mulheres-soldado das FAPLA ou as ex-combatentes da FNLA e UNITA todas elas têm em comum o facto de terem sido esquecidas, abandonadas ou discriminadas, o que é motivo de grande revolta e sofrimento para estas mulheres. Os homens tiveram direito a proteção social ao abrigo da Lei do Antigo Combatente de Guerra, n.º 13/02 de 15 de Outubro, mas as mulheres são marginalizadas deliberadamente. Estou-me a lembrar de casais que entregaram o processo ao mesmo tempo no Ministério dos Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria, o do marido foi despachado, recebe a pensão militar e a mulher espera há anos por uma resposta ao seu processo. As guerrilheiras que foram desmobilizadas das FAPLA também foram dispensadas sem um documento comprovativo dos anos de serviço militar e da patente, o que as exclui da reforma da Caixa de Segurança Social das FAA. Mas o caso mais grave é o das ex-combatentes da UNITA, a militarização não lhes assegurou direitos iguais ou tratamento idêntico aos homens no processo de paz e durante o desarmamento, desmobilização e reintegração, porque foram consideradas familiares dos soldados, que tiveram direito a proteção social, enquanto elas foram enviadas para casa, cuidar da família. No entanto devo dizer que as participações das mulheres das elites partidárias nas lutas tem sido reconhecidas e algumas condecoradas mas de qualquer maneira foi um processo arrancado a ferros.
NJ-Vamos por partes, cada mulher ou conjunto de mulheres que entrevista para o seu trabalho demonstram a sua preocupação em “revisitar” cada uma das fases da luta anticolonial, dos tempos agitados da independência, do fraccionismo, da guerrilha contra a RPA e a guerra civil surgida na sequência do “Setembro” de 1992. Qual é o denominador comum de todas as entrevistadas, se é que há algum?
Uma das hipóteses que levantei para pesquisar quando elaborei o meu projeto foi se a condição de “combatente” teria construído em termos coletivos um “nós” que combateu, ou seja, uma espécie de “comunidade imaginada” de mulheres combatentes que pudessem partilhar um sentimento comum forjado na luta armada, independentemente do lado em que se encontravam no teatro da guerra e ultrapassando a categoria de “inimigas”. As considerações finais do meu livro respondem a essa pergunta.
NJ- O seu livro é ponto de partida para muito debate se houvesse um terreno propício a isso, o que não me parece que haja, por circunstâncias diversas. Qual é a sensação de ter escrito um livro que tem sido lido com atenção, que tem motivado críticas e elogios, que tem permitido uma visibilidade de temas que normalmente são pouco relevados como a “desigualdade de género”, o “machismo” em sociedades africanas de forte tradição matrilinear, a submissão aos ritos e fenómenos religiosos, e outros?

Não tenho tido quase feedback nenhum em relação ao meu livro, ainda não chegaram até mim ecos desses debates. Tem havido é um grande interesse da comunicação social. Mas uma coisa é certa, creio que é a primeira tese de doutoramento feminista sobre Angola. Não sei como os homens estão a reagir mas imagino que as mulheres se sentem empoderadas e orgulhosas de entrar na História de Angola pelos seus próprios meios, história que até agora tinha sido escrita apenas no masculino. Deixe-me também dizer-lhe que África tem movimentos feministas poderosíssimos e as angolanas fazem parte deste processo.
NJ- Não leve a mal a pergunta mas este livro é mais Margarida ou mais as mulheres a quem Margarida dá finalmente a palavra e o rosto?

Não tenho a menor duvida que este livro é resultado de um projeto comum construído pela antropóloga e pelas mulheres que foram objeto do meu estudo, as ex-combatentes. Foram os seus depoimentos, os seus testemunhos, as suas memórias e as suas vozes que dão sentido ao livro. Foram também as suas contribuições que deram origem a esta reflexão e análise. Este livro é das mulheres angolanas mas é também das mulheres do mundo inteiro porque a luta pela igualdade de género é uma questão de direitos humanos e universal.


















29 de janeiro de 2016

Diferença entre o Sino e o Signo!/ Novo Jornal / Luanda 29-1-2016





Mais um tema sobre o futebol, dos sorrisos da vitória e da “estúpida vontade de chorar das tardes de derrota", como disse um dia um homem que foi guarda-redes num clube de Argel e se chamou Albert Camus.
Não vou falar da seleção nacional de futebol que continua no continente a manter os seus níveis de incumprimento num quadro que se alastra há tempo demais, e quando se pretendem encontrar culpados mete-se algo escatológico na mão e abre-se a ventoinha espalhando-se tudo para cima dos mais expostos: Selecionador e jogadores!
O problema é mesmo um e difícil de ser agarrado: falta de politica desportiva, e inerentemente criar uma estrutura de responsabilidade partilhada por muitos agentes, de hábitos consolidados, que quando as coisas acontecem de mau, assobiam para o ar, quando das poucas vezes correm bem, eis que aparecem logo na primeira fila e a assumirem um protagonismo risível.
Isto traz-me à lembrança um filme dos anos ontem, o “Trevo de Quatro Folhas” que reproduz num ambiente jocoso a derrota da seleção portuguesa em Madrid em 1934 por 9-0!
Uma das muitas histórias que se conta que, no dia seguinte ao encontro, um jogador português, ao ser interpelado pelo criado do hotel castelhano com o habitual “Desayno?”, respondeu: “Desayuno, não. Nove a Zero!”
Barrigana foi um dos grandes guarda-redes portugueses, e durante muitos anos foi o baluarte das balizas do Futebol Clube do Porto nos anos 50 do século passado. Era corticeiro de profissão, e quando chegou ao Porto não sabia ler nem escrever, situação normal no quotidiano da maioria dos jogadores de futebol ao tempo! Como tinha que dar autógrafos resolveu fazer uma assinatura numa chancela e carimbava todos os papéis que lhe eram estendidos. As crianças nos treinos ovacionavam-no gritando “Barrigana, Barrigana” e ele chegava ao pé deles e dizia: “Barrigana não, Senhor Barrigana”
A propósito, que a crónica é uma conversa e as “conversas são como as cerejas”, lembrei-me que se contava que Sammy Davis no princípio da sua carreira e no final dos seus espetáculos, com uma multidão de admiradores lá fora, manifestou a Sinatra, que o apadrinhava, a sua grande apreensão em relação aos autógrafos. Não sabia escrever. Sinatra disse-lhe o que só um Sinatra poderia dizer: «Não faz mal! Faz uns gatafunhos! Chega…».
Barrigana foi contemporâneo do angolano Miguel Arcanjo, que alguns anos depois de acabar o futebol resolveu estudar e foi colega do filho no curso de direito na Universidade de Coimbra, tendo-se licenciado os dois no mesmo dia.
Num estágio da seleção de Portugal nessa altura e num estágio antes de um Portugal-Áustria, em plena concentração em Braga surgiu um tema aliciante: O problema da existência de Deus.
O debate foi animado, visto que havia uma clara divergência de opiniões.
Até que o Barrigana foi perentório na sua afirmação: Acreditava na existência de Deus e podia prova-lo! Claro que a assembleia “exigiu” imediatamente essa justificação.
“Quando se aproximava da minha baliza um avançado contrário isolado-explicou o guardião nortenho- faço rapidamente uma prece mental e o certo é que acabo por defender”
“Nesse caso - retorquiu-lhe um dos seus companheiros de equipa – tu nunca sofrias um golo…”
A resposta do homem a quem durante muito tempo foram confiadas as balizas da seleção portuguesa de futebol foi rápida e decisiva: “ Eu sou o melhor guarda-redes português. Há bolas que tenho obrigação de defender, mesmo sem recorrer a Deus!”.
Barrigana foi para Angola no dealbar dos anos setenta treinar a equipa dos “Dinizes de Salazar”, que era uma equipa financiada pelo maior capitalista da região, Santos Diniz. Os treinos eram à porta aberta no bar do clube, no Hotel Paixão, na Pensão Chique e acima de tudo no Bar Oásis, onde a hidratação à base de cerveja era continuada, o que levou o Barrigana a estar pouco tempo em Salazar (N’Dalatando). Recordo-me dele se queixar que tinham que fazer uma viagem ao Moxico, ao Lubango, a Porto Alexandre (Tombwa) e demorarem dois dias num autocarro sem a modernice do “ar condicionado” , o que obrigava os jogadores a “acompanhar” o treinador e dirigentes em exercícios de rehidratação continuada em sumo de cevada e lúpulo fermentado!
Os” Dinizes” que andaram uns anos na divisão maior do futebol angolano tinham sob orientação de Barrigana uma equipa onde pontificavam Carlos Alberto, Azevedo, Chipau, Nélson, Lóló, Cardeal, Pirolito, Sá Pereira, Rudolfo, Beto Truka, Jorge, Rómulo, Arlindo Soares, Dudu, Mendonças(2), Oliveira Duarte, Napoleão ,Rosas, Caipira, Bira, Noé e Carmona.
Uma passagem atribulada e curta do Sr. Barrigana por terras de África, pois os resultados desportivos estavam na proporção aritmética da proporção geométrica da cerveja consumida!
Engraçado mesmo, é que o título nada tem a ver com a crónica!

Fernando Pereira
26/1/2016

22 de janeiro de 2016

Futebol por causa!/ Ágora/ Novo Jornal / Luanda 22-1-2006



Futebol por causa!
Vou retomar o tema do futebol no contexto colonial, recuperando o tema do recente artigo que fiz para este jornal com o título “Desporto por linhas entortadas”!
“Football is not a matter of life and death; it’s much more importante than that” (O futebol não é uma questão de vida ou de morte; é muito mais importante do que isso), referiu a propósito do futebol, Bill Spankly, um dos mais importantes treinadores do futebol mundial, que esteve à frente do Liverpool de 1959 a 1974.
O futebol desempenha um papel preponderante na transmissão cultural intergeracional. Com os anos, o futebol, tanto a sua prática como o seu consumo enquanto espetáculo, tornou-se um elemento fundamental da relação entre pais e seus filhos no quotidiano de vida.O futebol atenua algumas das ruturas que a vida do dia-a-dia provoca no seio das famílias!
Em 1953, o Goal fez uma outra reportagem sobre o futebol dos subúrbios, desta vez a propósito de uma competição organizada pelo próprio jornal:” Dois terços da cidade vivem para além da cidade formada pela Brito Godins (hoje conhecida no anedotário luandense pela Brito Lenine), Emílio de Carvalho (Hospital Militar) e a estrada denominada da Circunvalação. Do Mota ao Sambizanga, do Pedrosa ao Cayate, da Pepita às proximidades do Braga, todos aqueles musseques fervilham de vida, numa amálgama impressionante de gentes de diversa condição rácica, económica e social. Mais de 100 mil indígenas coabitam com alguns milhares de brancos e mestiços (…) Aos sábados e aos domingos toda aquela vasta zona populacional se anima. São os bailes e as reuniões, os batuques e os “risca-risca”, vibrantes harmonias e ritmos, produzindo ruídos que mordem singularmente o silêncio da noite”
Nos campos da Boavista e da ESMIPA (propriedade da Missão de S. Paulo, onde os padres asseguravam a organização e a segurança) havia pouco mais do que as balizas. Salientava a reportagem a utilidade do desporto com um velho argumentário:” Os rapazes precisam de quem os oriente (…) assim não vão para a taberna”.
O regulamento do torneio determinava duas condições fundamentais para a participação. Por um lado só podiam concorrer clubes não filiados na Associação de Futebol de Luanda (AFL). Procurava-se com esta medida convocar um conjunto de clubes que se encontravam afastados da organização oficial do futebol local e das suas competições, revelando uma intenção inclusiva. Noutro sentido, o regulamento excluía os jogadores que não possuíssem o estatuto de “assimilados”, o que significava que os “indígenas” ficavam de fora.
Nesse mesmo ano de 1953 o Presidente da AFL sugeriu a necessidade de ser criada uma segunda divisão do campeonato local que “serviria para regular a vida dos inúmeros clubes existentes na área urbana da cidade”. O torneio iniciado em Julho foi um teste, em que se colocaram os clubes de “assimilados” na segunda divisão. O campeonato decorreu no campo do Ferrovia e participaram o Bungo, o Malhoas, o Vasco da Gama, o OK Clube, o Canaxixe, o Vila Clotilde, o Ocidental e o ASA. Integrados os “assimilados” na vida colonial, os clubes formados por “indígenas” continuaram a organizar o seu campeonato, no campo da Boavista.
No projeto colonial, o desporto não desempenhava um papel decisivo. A Liga de Football de Luanda nasceu em 1914 (a AFL em 1929). O Conselho Provincial de Educação Física surgiu em 1956. O Sporting de Luanda surge em 1920 e o Sport Luanda e Benfica em 1922, clubes marcadamente elitistas. Acompanhando o ritmo de crescimento da população colona, as delegações do Benfica e do Sporting espalharam-se por todo o território, sendo os únicos focos de associativismo colono em algumas localidades. A popularidade destes clubes alargou-se e passou a haver disputas clubísticas no informal jogo de rua, em que as equipas escolhiam os nomes desses clubes para se defrontarem.
As grandes empresas viram no futebol uma forma excelente de poderem dar aos trabalhadores uma forma organizada de gestão do seu pouco tempo livre, e por exemplo a Diamang fazia campeonatos internos entre os trabalhadores das suas minas. A organização desportiva criada dentro da própria empresa, tanto na sua vertente de oferta de lazer, sem objetivos competitivos, como enquanto base de constituição de clubes desportivos a competir em provas oficiais, reproduziu formas prevalecentes de descriminação e desigualdades sociais.
Como a própria hierarquia das empresas revelava uma estrutura social que reforçava as lógicas de desigualdade económica, étnica, religiosa e de género, a oferta de desporto era feita discriminatoriamente.
Este tema suscita-me particular curiosidade, e penso que não se esgotará num conjunto de crónicas que tenho feito sobre o desporto no período colonial. Faz parte de um projeto que tive em mente desenvolver quando fui o 1º diretor do Centro Nacional de Documentação e Informação da ex- Secretaria de Estado de Educação Física e Desportos, mas que por razões do foro pessoal me foi impossível levar a bom termo, apesar do entusiasmo de todos no Organismo e do apoio nunca regateado.
Voltarei, e quero desde já agradecer a contribuição do Professor Dr. Nuno Domingos, através do seu trabalho, “O desporto e o Império Português”, sem o qual estaria limitado na organização, de um conjunto de dados que pudessem dar corpo a estas crónicas!

Fernando Pereira
13/1/2015

15 de janeiro de 2016

A geração entupida! / Ágora / Novo Jornal/ 16-1-2016/ Luanda


A geração entupida!
Um dos livros relevantes da literatura angolana é “A Geração da Utopia” de Pepetela, o autor traz para a escrita os anos de sonhos, utopias, poucas dúvidas, excesso de certezas num futuro a construir num quadro de igualdade e solidariedade.
Na sociedade angolana assistimos, há já a alguns anos a esta parte, ao desmoronar de um sonho coletivo assente na solidariedade, na democracia, na liberdade, e todo um conjunto de valores, que levaram a geração dos entas a lutar pela construção de um país e concomitantemente aquele “homem novo” que pertencia a um tempo que havia de vir sem ser futuro.
Habituei-me a olhar para um grupo alargado de pessoas, a grande maioria mais velha que eu, de uma forma quase reverencial do ponto de vista ideológico, alicerçado naturalmente no seu percurso de luta e resistência contra o colonialismo e o fascismo. Vi nessa gente a alegria de construir, a vontade de criar, a persistência no aprender e de facto o MPLA ganhou o respeito, a credibilidade e a adesão de muita gente, um pouco por todos esses exemplos transmitidos.
Para nós, e para esses mais velhos era completamente despiciendo que houvesse desorganização, purgas, fome, tribalismo e racismo na luta armada, como nos confidenciavam os que por lá passaram nas conversas que tínhamos num tempo em que nos juntávamos, e também quando militantemente nos ajuntavam!
Que importavam as dificuldades do quotidiano da novel RPA se o que interessava era construir e “o mais importante era resolver os problemas do povo”! E víamos as pessoas entusiasmadas a fazer, mobilizadas no querer e no meio de tanto voluntarismo, asneiras, imponderáveis ideológicos, as pessoas confiavam que o futuro estaria a passar por ali.
Afirmámos tanta coisa, irritámo-nos com todos os que nos diziam que nunca poderia ser assim nem mais assim, fazíamos juras às convicções mais pueris e gritávamos a plenos pulmões: “Ao inimigo nem um palmo da nossa terra”! Um tempo em que sabíamos que a diferença entre ser membro do governo ou do CC era o azul ou o branco do carro distribuído, e a maior indignação era ter que ver o “Bem-amado” segunda vez porque um qualquer mwata não tinha visto o episódio todo.
Era um tempo em que nos indignávamos pela gravidade de situações que hoje se revelam cândidas e banais no quotidiano da nossa sociedade!
Estávamos com a confiança em pleno e havia inimigos comuns e alguns que ao tempo nos pareciam amigos, deviam ter estado bem disfarçados, para trinta anos depois serem exatamente o que são.
A verdade é que os da minha geração e anteriores se deparam hoje com um dilema terrível, que é não conseguirmos assumir a plenitude do nosso fracasso. Os anglo-saxónicos têm uma frase que sintetiza tudo: Permanecemos com os esqueletos nos armários! A minha geração muito pouco, mas a geração anterior foi quem montou um esquema mental e tentou criar uma carapaça que defendesse a luta por um coletivo que pudesse ser digno de merecer “o seu bocado de pão”!
Essa geração está num perfeito estado de quase “catatonismo” porque não consegue discernir se defende o status-quo prevalecente no País, se aceita passivamente tudo!
Nós, angolanos destas gerações temos um problema grave entre mãos: Ou damos o flanco e vamos dizer aos que durante quarenta anos ou mais, que no essencial tinham razão e que quem estava errado éramos nós, ou perpetuamo-nos nalgumas mentiras agitando as bandeiras descoloradas de uma sociedade em que cada vez nos revemos menos.
Há sempre uma fuga, e isso é patente nas redes sociais, e tem a ver com a dificuldade que com o avançar da idade cada vez temos mais dificuldade de despir uma camisa, que está ideologicamente enrodilhada e com as convicções cheias de buracos.
Do marxismo que tentámos implementar resta muito pouco, e por vezes o que sobra é muito mal utilizado. A partir de determinada altura largou-se Karl Marx para se adequar a sociedade ao Groucho Marx: ”Estes são os meus princípios. Se você não gosta deles, eu tenho outros”.
Olho com um certo esgar os que acham que somos idiotas em defender algumas ideias que dizem ser passadistas, mas na realidade o que assistimos é que o conformismo assaltou muita gente que julgávamos ter convicções inabaláveis. Ortega Y Gasset em pleno na sociedade angolana de hoje com a estafada frase que “a vida somos nós e as circunstancias”?
Agitam os números de participantes em comícios, percentagens eleitorais de grande dimensão, publicitam os encómios dos que perpetuam os mercados dos favores e dos tráficos de toda a ordem e desordem, mas ainda não consegui esquecer que um autocarro completamente lotado ao entrar em contramão numa autoestrada não tem razão nenhuma quando colide com carro de pequena cilindrada com um só ocupante que vinha na via certa. Muitos continuam a usar as palavras de ordem de um passado perdido para justificar o que não é fácil perante as evidências quotidianas.
Hoje tornámo-nos na geração entupida porque nos recusamos a fechar o ciclo virtuoso das nossas convicções para ao invés entrarmos no niilismo que é o ciclo vicioso da Angola atual.

Fernando Pereira
10/1/2015


23 de dezembro de 2015

Desporto por linhas entortadas / Novo Jornal / Luanda 23-12-2015



Desporto por linhas entortadas
Faleceu recentemente o professor José Esteves, uma figura incontornável na pedagogia e na sociologia do desporto que fala português.
Pessoa de grande dimensão humana e muito arreigado a princípios de democracia e liberdade, José Esteves assumiu na ditadura um combate permanente, o que lhe valeram vários castigos, um dos quais ter sido obrigado a lecionar em Luanda, no Liceu Salvador Correia em 1949 e 1950.
Da sua experiencia saiu um conjunto de textos onde sintetiza a pungente realidade da colónia no dealbar dos anos 50, onde o racismo e a consequente segregação social eram evidentes, e assumia maior evidência perante o olhar de quem foi coagido a trabalhar em Angola.
Partilhei com ele alguns momentos, e uma das histórias que contava era sobre uma das muitas conversas que manteve com o sacerdote e antropólogo Carlos Easterman, em Sá da Bandeira (Lubango); Ter-lhe-á perguntado quantas “assimilações” tinha havido na Huíla desde que o “Estatuto do Indígena”(1921) tinha sido instituído. Carlos Easterman respondeu: “Umas sete ou oito”. E depois acrescentou:” Mas este ano parece que não haverá nenhuma. O administrador que há poucos dias encontrei, casualmente, já me foi dizendo que não estava na disposição de continuar a diminuir a mão-de-obra indígena, cada vez mais necessária e procurada…”. Os assimilados podiam, por exemplo, adquirir propriedade e não eram obrigados pela autoridade a trabalhar em obras públicas. Porém, tinham que prestar o serviço militar e trabalhar para o serviço publico, apresentar formação escolar em português, comprovar bens e manter uma vida cristã.
Uma das coisas que o surpreendeu em Luanda foi que a filial do “popularíssimo” Sport Lisboa e Benfica ( Sport Luanda e Benfica) não admitia praticantes negros, algo que só acabou já no fim da década de 1950.
Deixa publicado um trabalho excecional: “O Desporto e as Estruturas Sociais”, um estudo brilhante sobre a ligação do desporto à sociedade e a sua interação com a realidade social e política. Um livro de leitura obrigatória, embora o seu enquadramento histórico corresponda a todo o seculo XX. O “Racismo e Desporto” foi um livro de grande impacto no fim dos anos 70, e recordo com apreço que me autorizou a copiá-lo integralmente para o Boletim Desportivo editado pelo CNDI da ex-Secretaria de Estado de Educação Física e Desportos, no dealbar dos anos 80.
Um estudo interessantíssimo saído recentemente no domínio da intervenção política no desporto é o do brasileiro Marcello Bittencourt, “Jogando no Campo do Inimigo: Futebol e Luta política em Angola”. Este texto faz parte de um trabalho maior em que o autor participa como coorganizador de uma coletânea partilhada com Victor Andrade Melo e Augusto Nascimento: “Mais que um jogo: O Esporte e o Continente Africano” (2010).
Em Luanda o desporto constituiu-se como um espaço de negociação entre a população colona e estratos da pequena burguesia crioula, que criaram os seus clubes como a Liga Angolana, o Grémio Luso-Angolano e mais tarde o Clube Atlético de Loanda, fundado em resposta à discriminação existente no Clube Naval.
Em Luanda, como refere Marcello Bittencourt, o campeonato local juntava clubes de brancos, como o Benfica, o Sporting ou o Futebol Clube de Luanda, o clube de mulatos, o Atlético, e o clube dos contratados, o Ferroviário do Bungo, onde os negros jogavam ao lado dos brancos pobres, filhos dos trabalhadores do caminho-de-ferro.
Nos subúrbios de Luanda subsistiam ligas de futebol separadas do universo do colono e com as quais as pequenas burguesias africanas mantinham uma relação de controlo associativo.
Curiosamente o atletismo, sobretudo as corridas, prática que não exigia material específico ou o desenvolvimento de uma técnica apurada, foi uma das modalidades que mais rapidamente integrou elementos de grupos socialmente segregados.
Porque o texto é um conjunto de evocações, vale a pena reproduzir a experiencia e a surpresa do repórter do jornal desportivo Goal ,no seu relato em 1950, de um jogo de um “campeonato indígena de futebol” que decorria nos campos da Boavista e da Exposição Feira (Hoje na zona do Bungo e do Miramar respetivamente).
O campo de jogo, para espanto do repórter, estava marcado, as balizas tinham redes e a assistência era superior à que comparecia habitualmente no estádio municipal dos Coqueiros.
A entrada era gratuita: “ A nossa deslocação tinha em vista dois objetivos bem determinados: em primeiro lugar, havia interesse em conhecer das possibilidades dos grupos indígenas, sua capacidade de organização e sentido desportivo; em segundo lugar, como girava a orgânica do campeonato, valor real das equipas e o conceito formado pelo indígena relativamente à prática do desporto como meio de desenvolvimento físico” Conclusão: “Esperávamos muito pior. No jogo entre o Atlético de Icolo e Bengo e o Futebol Clube do Porto Malanjinos, o árbitro e os fiscais de linha foram pescados entre os assistentes. Muitos dos jogadores jogavam descalços. A taça do campeonato em disputa, designada Taça Francezinhos, havia sido oferecida pela Empresa dos Tabacos de Angola”.
Os jogos, considerou o repórter, eram fracos tecnicamente e taticamente, mas ainda assim há “uma noção muito apreciável de conjunto e cada um dos elementos constitutivos da equipa sabe sempre o que lhe cumpre fazer”. As “torcidas” eram “pitorescas”!
No campo da Boavista tudo era semelhante. O recinto possuía uma tribuna de honra coberta por folhas de palmeira. Uma das características destas equipas suburbanas, registou o jornalista, foi que “quase todas são homónimas das que disputam o Nacional da 1ª divisão na Metrópole”, o que assinalava a circulação de referências e informações que ultrapassavam em muito o âmbito do subúrbio e que evoluíam pelas vias criadas por um sistema de relações urbano.
As autoridades coloniais, sobretudo a partir da década de cinquenta e seguintes, começaram a olhar para estas práticas desportivas autónom,as, separadas social e geograficamente das populações colonas, com uma atenção inédita, na sequencia dos problemas de gestão social que se multiplicaram neste período.
Em Angola continuaram a realizar-se, de modo mais ou menos informal, campeonatos suburbanos, durante a vigência da administração colonial. Neste sentido, inspiraram e ajudaram a concretizar algumas das “expectativas de modernidade” (Ferguson) de parte da população urbana e suburbana das maiores cidades.
Durante décadas estas competições, mais ou menos informais, fizeram parte de um processo de construção comunitária repleto de tensões e conflitos. A apropriação do desporto, nomeadamente do futebol, afirmava-se como um elemento da relação das populações com um conjunto de hábitos sociais modernos e urbanos.
Fernando Pereira
20/12/2015


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