12 de setembro de 2019

O circo desceu à cidade!/ O Interior /12-9-2019






O CIRCO DESCEU À CIDADE

A velha frase de Lampedusa continua presente no nosso quotidiano de democracia, num País a trabalhar várias velocidades: “É preciso que alguma coisa mude, para que tudo fique na mesma”.
                Da ultima ronda eleitoral para as legislativas, a única alteração que houve, foi o facto de alguns distritos do interior, oh pasme-se!  terem perdido deputados para Lisboa, Porto e Setúbal.
                As distritaizinhas e as concelhiazecas dos partidos do bloco que governa o País há quarenta e três anos, exultam quando os dirigentes nacionais desses partidos ou membros do governo vem a este deserto de cada vez menos gente, menos atividade económica, mais falências, etc.  prometer coisas novas, ou melhor camuflarem promessas antigas. Os deputados eleitos do interior passam a ser deputados das cliques partidárias dos baronatos da capital, um pouco ao jeito do que Eça foi escrevendo com a sua verve irónica, principalmente no “Conde de Abranhos”. Mais contundente Fialho de Almeida, na “Vida Irónica” e nos “Gatos” trata-os como provavelmente merecem.
                Os EUA, numa constituição aprovada em 1787, onde não se fala em democracia, defende que cada estado, independentemente da sua população ou da extensão do seu território tem o pleno direito de eleger dois senadores, eleitos por um período de dois anos, um órgão que funciona como camara alta do Congresso! No próprio Congresso a desproporcionalidade entre os estados mais pequenos e os maiores não é tão evidente como em Países como o nosso! Este entendimento dos “Pais Fundadores” dos EUA é fundamentado na necessidade de que os Estados mais pequenos, com economias mais débeis, e com menos população não deixassem de ter voz e capacidade de influenciar decisões. Um Congressista não é um mero objeto, mas sim alguém que tem que se justificar regularmente junto dos cidadãos dos seus Estado, com quem tem mais obrigações para que com o partido!
                Em tempos houve aí um placebo que seria a criação dos círculos uninominais. Seria mais um contaminar uma democracia que começa a dar sinais preocupantes de algum cansaço, e a não se alterarem modelos, rostos, métodos ela pode ser desvirtuada pelos que querem impor projetos ditatoriais travestidos de neoliberalismo soez!
                O interior morreu porque sim, e nada nem ninguém irá tirá-lo do marasmo enquanto não houver cá gente. Como disse Camilo Castelo Branco: “Chamo temperados os que se atemperam às circunstancias do tempo e do meio”.
                Eu que já vivi muito, a memória é plural e por isso resigno-me a ver passar mais uma campanha eleitoral, com os mesmos protagonistas, em que mesmo alguns novos já são velhos, com batedores de palmas a parágrafos de textos de discursos mais que batidos, e com gente a querer mostrar-se, porque nunca se sabe quando é preciso pedir o favorzinho, com o habitual “estive lá”!
                “Lembro-me o sujeito que seguia um circo de cidade em cidade. Um dia perguntaram-lhe: porque é que anda atrás deste circo? Porque quero ver quando é que o trapezista cai e morre” José Saramago.
                Vou esperar taciturno o fim do Verão!


Fernando Pereira
6/9/2019

2 de agosto de 2019

O Passado é um resto! / Ágora / Novo Jornal / Luanda 2-8-2019




O Passado é um resto!
Diógenes (n. 404 a.c.- m. 323 a.c) dizia que” entre os animais ferozes, o de maior mordidela é o delator, entre os animais domésticos, o adulador”, e a realidade vai-nos demonstrando quanto estava certo o “Cínico”, um homem que viveu no pior da indigência, calcorreando Atenas com uma lamparina acesa em busca de um homem honesto!
                Vai-se o cacimbo arrastando, e os assuntos vão sendo discutidos um pouco na base do quase defenestrar José Eduardo dos Santos e glorificar o novo inquilino do Palácio da Cidade Alta, João Lourenço. Pelo que vou vendo quem vai denegrindo um e santificando outro, são exatamente as mesmas pessoas que sempre fizeram isso, salvo as exceções que confirmam a regra!
                Um dos maiores da língua portuguesa, José Régio termina o seu “Cântico Negro” Não sei por onde vou, Não sei para onde vou ... Sei que não vou por aí!”. É mesmo assim, mais que assim, vou-me refugiar nas historietas por uns tempos!
                No dealbar da independência passeava despreocupadamente na Baixa de Luanda, num tempo em que se andava a pé, despreocupadamente e havia Baixa e até Luanda existia, e parei mais ou menos em frente ao Centro de Imprensa Aníbal de Melo, num estabelecimento de fotografia que havia do outro lado da rua, a velhinha “Foto Castro”. Olhei para uns escaparates empoeirados que ladeavam a entrada do estabelecimento, e entre muitas fotos que permaneciam fixas com pioneses enferrujados e amarelecidas pelo tempo encontrei lá uma minha, e durante muito tempo ela lá permaneceu ao lado de muitas outras que mais não éramos que o rosto do colonialismo derrotado pelas “forças populares”!
                Há quarenta anos devíamos ter os sessentas que hoje temos, para não termos feito tanto erro, e não ter hipotecado o País a uma geração que irá sofrer as consequências do nosso voluntarismo, alguma irresponsabilidade, muito oportunismo e sem respeito alguma pela causa publica! “Aos vinte anos reina o desejo, aos trinta anos reina a razão, aos quarenta o juízo” Albert Camus.
                A nossa geração, a que ia promover a igualdade construiu uma sociedade de profundas divisões e uma estratificação social em que os “Condenados da Terra” como dizia Fanon, são a maioria da população do País. Faz-me lembrar uma frase que sintetiza tudo isto: “Pai a pé, filho a cavalo, neto descalço”!  Não nos vamos livrar deste ferrete e continuamos a apostar nos mesmos birbantes que nos conduziram a tudo isto. Sinto que a nova geração tem toda a legitimidade de nos acusar de ter esbanjado recursos, destruir património edificado e natural, ter promovido a incompetência, e não lhes deixar um País solidário e que defenda os mais elementares direitos do cidadão! Nem história deixámos!
                Alguns da nova geração foram beneficiados porque tinham o “papá na algibeira”, e isso dava-lhes notoriedade social, umas passeatas, uns carros de alta cilindrada, mas no fim são a imagem acabada de um período que começou bonito, mas que se transformou num verdadeiro lodaçal, de onde não se vislumbra saída.
                Lembro-me de ver o Afonso Van Dunem M’Binda, ao tempo MRE de Angola estar junto ao passeio, em frente de sua casa em Alvalade, a um sábado de manhã a lavar o seu carro de serviço com uma mangueira, de calções, t-shirt e chinelos, dizendo adeus a quem o cumprimentava. Comentei na altura com um amigo que pontualmente vinha a Luanda dar aulas na faculdade de direito da UAN, com algum indisfarçável orgulho que “devia ser o único País do mundo onde o ministro da Relações Exteriores lavava despreocupadamente o carro na rua”. Tudo isso acabou, e as lavagens começaram a ser de coisas bem mais perigosas e ruinosas para o erário público.
                “Tenho o privilégio de não saber quase tudo. E isso explica o resto”, como disse Manoel de Barros e por isso a minha quota de responsabilidade na forma como entregámos o País às novas gerações é capaz de não ter sido muito grande. Não o  terá sido por participação ativa, na definição da estratégia ruinosa que se assistiu no pós-guerra, mas talvez tenha sido bem maior por omissão, que assume uma enorme dose de grande responsabilidade!
                Quando começam a faltar recursos e soluções discute-se a legitimidade da angolanidade de certas pessoas, mas objetivamente não é esse tipo de discussão que importa e aqui socorro-me de Marguerite Yourcenar: “O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que, pela primeira vez, se lança um olhar inteligente sobre si mesmo.
                Talvez um dia Angola seja um País viável e confiável!

Fernando Pereira
29/07/2019

10 de maio de 2019

? /Ágora / Novo Jornal / Luanda 10-5-2019


                               ?
            Tal como o título sugere, hoje vou fazer uma crónica de perguntas.
            Fala-se insistentemente nas autarquias, num modelo de gradualismo algo sui generis, mas há muitas interrogações sobre como será organizado o quadro autárquico, que atribuições lhe vão ser entregues, que autonomia administrativa, financeira e decisória vai dispor, qual vai ser o mecanismo de fiscalização, qual a coabitação institucional e funcional com os governos provinciais, etc.
            Vamos lá por partes! “Quando os ventos de mudança sopram, umas pessoas levantam barreiras, outras constroem moinhos de vento”, sábias palavras do brasileiro Erico Veríssimo (1905-1975)!
            Tenho lido alguma documentação sobre o assunto e tenho ouvido alguns debates sobre a questão autárquica no País, e sinceramente cada vez tenho mais dúvidas e logicamente aumentam significativamente as reticencias sobre o assunto!
            A possibilidade de listas de cidadãos independentes está fora de questão, devendo as listas serem apresentadas pelos partidos políticos! Até aqui poucas ou nenhumas dúvidas, o que de certa forma diminui a minha disponibilidade de ser candidato ao Songo, não porque lá tenha nascido, mas porque vivi lá uma parte da minha meninice! Uma estultice minha!
            Qual vai ser o papel do governador e dos seus secretários na coabitação com os autarcas, e quem vai receber o dinheiro para arranjar estradas, caminhos, escolas, edifícios públicos, bombeiros, e por aí fora?
            Mantém-se tudo como está ou os governadores provinciais perdem autonomia e acima de tudo perdem dinheiro e quando perdem isso diminuem o poder, e temem perder a respeitabilidade que a distribuição dos chorudos orçamentos dão na gestão do pequeno e grande favor? Citando Honoré de Balzac sobre o assunto: “O dinheiro só é poder quando existe em quantidades desproporcionadas”!
            As autoridades tradicionais não eleitas onde são integradas no novo edifício autárquico? Ou passarão a ser meros objetos decorativos para darem algum folclore às festas e procissões religiosas ou políticas?
            Quem irá determinar que receitas serão para as autarquias ou para o governo central, para depois distribuir a seu belo prazer aos governos provinciais, que nalguns casos proporcionam a ascensão de tiranetes?
            Vai haver um ministério que seja parceiro das autarquias, e não que as tutele, tendo em conta que elas terão autonomia administrativa, financeira e decisória sobre algumas áreas de intervenção?
            Neste aspeto das autarquias socorro-me do brasileiro Manoel de Barros: “tenho o privilégio de não saber quase tudo. E isso explica o resto”!
            O lixo, os jardins, as ruas, os largos, os transportes públicos e outros passarão a ser geridos pelos autarcas, quer por entrega de serviços a particulares, quer através de empresas municipais a constituir, ou através da constituição de estruturas intermunicipais e metropolitanas, em que as autarquias têm a maioria dos assentos e naturalmente a maioria dos conselhos de administração, onde for necessário serem criados. Sobra alguma coisa para a intervenção dos ministérios da tutela, empresas publicas nacionais ou institutos públicos?
            Como vai ser feita a transferência dos funcionários dos serviços desconcentrados da administração central para a administração local? Qual vai ser o estatuto dos funcionários das autarquias e dos funcionários públicos? Vai ser igual ou vai haver diferenças no estatuto de carreira e naturalmente remuneratório?
            Qual o papel da oposição nas autarquias?
 Quem aprova orçamentos, contas do exercício anual, regulamentos, estipula e altera taxas, autoriza o executivo a contrair empréstimos enfim faz a fiscalização corrente da atividade do executivo autárquico?
            Quem ganhar o município, tem o direito de escolher os coordenadores(?) nas aldeias dessa circunscrição?
            Vão ser alteradas as denominações das autarquias? Há a possibilidade de referendos locais vinculativos sobre determinadas situações?
            Quem aplica multas, e de quem dependem as autoridades que façam cumprir as regras estabelecidas pela autarquia?
            Podia colocar aqui muitas mais questões, porque realmente acho que todas são pertinentes para construir um edifício autárquico amadurecido, depois de analisarmos o que terá falhado noutros locais, e que seria pouco desejável ver repetido no País!
            Acho que este debate será o mais importante no País depois do fim da guerra, porque pode dimensionar as regiões, para um desenvolvimento maior do que o que se tem vivido por causa do atavismo macrocéfalo da administração central! Tem que ser feito urgentemente e com cada vez mais questões que enriqueçam o edifício legislativo que vai reger as autarquias.
            Fico como comecei. Um grande “?”
Fernando Pereira 7/05/2019

9 de maio de 2019

Nem algum Abril nem tanto Novembro! / O Interior / Guarda 9-05-2019





Nem algum Abril nem tanto Novembro!
Nas últimas semanas a SIC tem feito um trabalho notável, ao recuperar memórias e depoimentos de um tempo de grande entusiasmo nos pós 25 de Abril de 1974 no profundo interior de Portugal. Bom trabalho da jornalista Alexandra Neves!
                A memória de uma Nação é a base da sua identidade, e a realidade tem sido um continuado exercício da sua desconstrução, fruto de um desmontar de uma idiossincrasia de momentos passados, para a edificação de uma com prazo de validade encurtado pelas circunstancias.
                Quando se faz um documentário sobre o que foi o “serviço médico à periferia”, ou sobre as campanhas de alfabetização, ou as tão enxovalhadas de forma torpe Campanhas de Dinamização Cultura e Cívica do MFA, conseguimos ver que foi esse voluntarismo de uma juventude engajada numa dinâmica nova, que permitiu lançar as bases de uma constituição de 1976, que salvaguardasse o direito das populações a algo tão comezinho como a saúde, a educação, a liberdade e o direito de escolher quem queremos que nos governe a nível central e local.
                Do Serviço Médico à Periferia, para além dos excelentes resultados no terreno, surgiu a base do SNS que urge manter e valorizar, mesmo que alguns o queiram destruir, perante a complacência de uns quantos decisores que vão assobiando para o lado.
                Tive o privilégio de ter andado nas Campanhas de Dinamização Cultural do MFA, e hoje digo com toda a clareza que foi provavelmente a melhor experiencia política e pessoal em que participei.
                O Portugal que vi nesse tempo era uma miséria construído entre fragas, veredas, tugúrios, cheiros nauseabundos em casas sem água canalizada (nem 40% do País tinha água canalizada e só 29% tinha saneamento básico), eletricidade, em suma lugares onde se sobrevivia de geração para geração. Nascia-se, sobrevivia-se e morria-se cedo!
                Umas poucas casas de emigrantes, davam um toque de discutível modernidade aos povoados, onde nas estradas as pessoas conviviam com a lama e tudo que os animais iam defecando numa urbe que se enchia de moscas no pico do verão e fumo e gelo no inverno. Sobre as vilas e aldeias portuguesas, Hans Magnus Enzenberger dizia: “Surgiu aqui uma arquitetura espontânea, a qual, através da imitação dos outros e, depois, de si própria se foi desenvolvendo em espiral, num pesadelo delirante que ultrapassou os próprios modelos originais”. Em seguida apontava o motivo desse crime: “os emigrantes vingaram-se, de uma forma terrível, do país que não havia conseguido alimentá-los.” Acertou no alvo!
                As campanhas de dinamização cultural do MFA levaram às aldeias teatro com atores profissionais e amadores, cinema, música, desporto e acima de tudo transmitiram a esperança de valores tão caros ao 25 de Abril de 1974 como solidariedade, liberdade, democracia e criação de consciência coletiva pela melhoria das condições de vida das populações. Com a ajuda dos militares rasgaram-se estradas onde até então havia caminhos entre muros, levou-se eletricidade onde só havia candeia, fizeram-se fossas e iniciaram-se saneamentos, criaram-se campos de jogos e ginásios rurais, equiparam-se postos médicos e de enfermagem que pudessem responder às necessidades primárias das populações, entre tanto que se fez em tão pouco tempo.
                Houve excessos, houve voluntarismo a mais talvez porque a revolução se desfazia em ternura, mas o ódio dos que sempre foram privilegiados e a forma soez como a Igreja fomentou a contestação levou-nos a afirmar que estávamos certos no que queríamos fazer valorizando as pessoas.
                Sobre essa campanha só se me oferece citar Nelson Rodrigues: “O mais sórdido dos crápulas tirava o chapéu e tomava a bênção da mãe, estava sempre vestido com aprumo, confessava e comungava aos domingos, fazia o sinal da cruz com água benta e pedia um santinho ao padre”!

Fernando Pereira
6/5/2019




26 de abril de 2019

Levas as águas/ Ágora/ Novo Jornal / Luanda 26/04/2019





Levas as Águas
Ao ver as desoladoras imagens das consequências das recentes chuvadas nas cidades de Luanda, Lobito, Catumbela e Benguela vejo-me a recuar à noite de 20 para 21 de abril de 1963 na Luanda, que vivia rodeada de arame farpado.
                Era um garoto, mas lembro-me perfeitamente da azáfama que foi desde o fim do jantar até altas horas da madrugada a tirar a água e terra que entrava por todo o lado.
                Vivia num beco que tinha um portão para as traseiras do então Liceu Salvador Correia, onde hoje é a entrada da rua que circunda a escola Alda Lara. A água revoltosa galgava os muros e a maior parte conseguiu que o portão a aguentasse. O nosso quintal contiguo às barrocas do Liceu era terra, que demorou dias a ser removida, para que conseguíssemos desterrar o carro da casa, um velho Chevrolet dos anos 50.
                No dia seguinte, demos conta que nem tínhamos muita razão de queixa pois segundo os relatos a cidade estava um caos, e terão morrido vinte pessoas, mas o “diligente” CITA (Centro de Informação e Turismo de Angola) terá feito circular uma nota “desoficiosa” em que “não se tolerariam mais mortes”!
                Do que me lembro foi ver as ruas que circundavam a Câmara Municipal, hoje Governo Provincial, transformadas em crateras, que quando por lá andei, já tinham tirado os veículos que por lá teriam estado. Na rua do Notícia, a que vai dar ao largo onde está o MIREX, que ao tempo era conhecido como o “Palácio do Comércio”, uma cratera serviu para fazer desaguar na baixa da cidade lama, que inundou armazéns, lojas, oficinas e hotéis. O Colégio de S. José de Cluny, talvez por “imposição divina”, ficou sem uma parte dos seus muros, mas manteve-se altaneiro no morro, desafiando os destinos da natureza, permanecendo hirto e firme! Na Boavista, que já não eram as Quipacas de outros tempos, a terra vermelha inundou armazéns, e misturou-se com terra preta, que era excelente, em sítios onde havia algumas hortas, que eram o sustento suplementar de alguma gente que trabalhava na Textang ou nos Caminhos de Ferro, no Bungo! O Miramar, obra emblemática do orgulho da burguesia luandense de então, quase que desabava nessa noite em que tudo parecia vir abaixo, tantos eram os raios e trovões como a água que jorrava de um céu que nem se via.
                A terra vermelha assolava tudo e desde a Samba, na Maianga do povo até à picada do Prenda era tudo terra vermelha, como que fosse premonitório que um dia outro vermelho e negro pudesse fazer o mesmo à cidade.
                Na verdade, a pronta e decisiva intervenção da então Câmara Municipal de Luanda conseguiu atenuar os efeitos dessa noite, em que nunca terão sido tão pertinentes os versos de Manuel da Fonseca: …que levas as águas/ correndo de par em par/ lava a cidade de mágoas/ leva as águas para o mar/ Lava-a de crimes espantos/ roubos fomes terrores/ leva a cidade de quantos/ do ódio fingem amor…! Este poema adaptado da canção “Tejo que levas águas”, cantada por esse saudoso amigo de Angola, precocemente desaparecido, Adriano Correia de Oliveira!
                Foi aí que se deu um grande impulso às obras de saneamento da cidade, com a construção de um colector central que tentasse minorar os efeitos de tempestades deste tipo. Fizeram-se muros de suporte de terras, que hoje albergam muita habitação precária e construiu-se uma rede de valas a céu aberto, em que a mais conhecida é a do Rio Seco.
                Os efeitos dessas obras foram testados em 1967, quando desabou uma tempestade do tipo da de 1963, em que se repetiu a azáfama lá em casa, em que naturalmente fui mais interveniente.
A Samba, a Boavista e os pontões na Corimba entre outros acabaram por ser as zonas mais fustigadas pelo deslocamento das lamas, mas não se repetiu o cenário dantesco de quatro anos antes.
Luanda hoje tornou-se em dia de chuva uma montureira em movimento, em que tudo vai parar ao mar, transformando um oceano límpido num verdadeiro desastre ambiental, a que todos parecem indiferentes, não se ouvindo sequer um reparo por parte dos responsáveis para evitar a repetição continuada destas situações.
Quando olhamos para um lago de plásticos, metais e detritos de outro tipo, ficamos perplexos, quando se quer vender no exterior Angola como um país de turismo em África.
Há responsáveis que tem nome, rosto e posição e são obrigados por inerência dos cargos a dar respostas claras sobre como se inverte o actual estado de coisas, sem as megalomanias costumeiras e a sobranceria com que  os que ocupam os lugares de topo olham para este tipo de situações.
Voltando ao poema de Manuel da Fonseca:” lava palácios vivendas/ casebres bairros da lata / leva negócios e rendas/ que a uns farta e a outros mata”
Como dizia o ostracizado Padre António Vieira: “Quem fez o que devia, devia o que fez. E ninguém espera paga de quem pagar o que deve”!

Fernando Pereira
22/4/2019

7 de março de 2019

AS MALHAS QUE A REVOLUÇÃO TECEU! /Novo Jornal / Luanda 8-03/2019






AS MALHAS QUE A REVOLUÇÃO TECEU!
                Acabei de ler “São Paulo, Prisão de Luanda” escrito por Carlos Taveira (Piri) um dos poucos da OCA (Organização Comunista de Angola) que eram de fora de Luanda, preso no Lobito pela DISA, quando se preparava para entrar num apartamento para uma reunião “conspirativa”
                O livro, editado pela “Guerra e Paz”, é uma descrição interessante dos seus tempos de “estadia” numa prisão herdada da PIDE, e que é hoje prisão hospital e frequentada por gente que foi capa da “Caras” em algumas circunstancias.  Um relato despretensioso, sem amargura, aqui ou ali polvilhado de histórias engraçadas, sobre situações que ao tempo eram mais de desgraça do que de graça. Um livro para ler, por todos, para se ter consciência que não foi só a guerra que prejudicou o País.
                As sucessivas prisões e assassinatos de gente da OCA, Comités Henda, Comités Amílcar Cabral,”fraccionistas” , e outros, o que terão conseguido foi destruir uma parte significativa do melhor capital de entusiasmo e diferenciação intelectual e técnica que sobrou com a saída dos colonos portugueses. Era gente culturalmente bem formada, todos com vontade de construir, trabalhar e também determinados a mudar o estado das coisas, com a irreverencia da juventude. Muitos dos que saíram são hoje quadros de enorme valia espalhados pelo mundo, e Angola exangue teve que recorrer a muito pior, pagando mais e os resultados aí estão à vista de todos.
                Estou à vontade para escrever porque nunca aderi a esses movimentos, que alguns deles pouco mais representavam uma mesa do Vilela transportada para a sociedade angolana. Algumas destas organizações se quisessem fazer um comício, com mobilização o máximo que conseguiriam seria encher um balneário da Cidadela.
                O poder teve medo, ou melhor alguns pícaros tiveram receio de se verem confrontados com gente bem preparada para desenvolver um País, e quando começou essa debandada e a morte abandonada, o País entrou numa espiral de asneiras suportadas por palavras de ordem e a eterna busca de procurar inimigos exteriores para justificar a nossa impreparação e a falta de coragem para fazer parar os excessos.
                A história vai fazer-se um dia, e talvez os herdeiros dos filhos dos da minha geração quando analisarem o que aconteceu concordem com o que disse Chico Buarque: “A memória é uma vasta ferida”. Convém também lembrar antecipadamente que, “subdesenvolvimento não se improvisa, é obra de séculos”, como disse o brasileiro Nelson Rodrigues.
                Das histórias bizarras desse tempo, e que são verdade porque quase todos as fomos vivendo num quotidiano da Luanda de uns tempos em que se respirava um ar angustiado, mas ao mesmo tempo ternurento e solidário quando se olhava para o quotidiano de mingua de que se vivia no dia a dia.
                Piri conta que teve que ir ao dentista, e é transportado numa viatura até ao Hospital Militar. A consulta atrasa-se e a viatura tem outro serviço, ou outra função e desaparece. Acabada a consulta, perante o desaparecimento do veículo, o guarda que o acompanhava, obviou logo a situação e mandou parar um carro qualquer e “requisitou” logo ali o carro e o motorista para “levar o preso a São Paulo”. E lá foram perante o olhar desconfiado do condutor!
                Veio-me à memória a única vez que fui cangado num recolher obrigatório. Tinha um livre de transito renovável e apesar de saber que o controlo era feito na esquina da Avenida Hoji-Ya-.Henda resolvi nem procurar alternativas, tão certo estava de ter o documento comigo. Mandaram-me parar e pediram os documentos delicadamente, e mostrei o livre transito. Foi junto ao farol confirmar se estava tudo em ordem e veio de lá dizendo que o livre transito tinha acabado às 12h do dia anterior. Lá tentei explicar ao militar que me tinha esquecido de o ir buscar ao gabinete, tinha tido uma reunião e mais uns argumentos algo pueris que não convenciam ninguém. O FAPLA ouviu o arrazoado de justificações e no fim diz-me com grande serenidade: “O camarada é dirigente, tem que dar o exemplo, e não devia ter esquecido o seu livre-trânsito, portanto vai ficar aqui como os outros”! Nada feito, eram duas da manhã e ali fiquei a assistir à atividade. Fiquei na conversa com ele, a fumar Hermínios, que recusou porque não tinham filtro. Às quatro disse-me que tinha de ir com ele levar uns cangados à 7ª esquadra móvel, ao tempo na Estrada de Catete. Lá nos apertámos na Renault4 e fiz esta viagem duas vezes porque o carro que supostamente nos levaria não apareceu. A única compensação que tive dessa noite desdormida foi ele ter-me mandado embora quando despejei a segunda carrada à porta do posto.
                Já que se está a falar de recolher obrigatório, reproduzo-a fielmente como me contaram. No largo da Maianga um FIAT 132 azul é mandado parar (Importa dizer que ao tempo era o carro de ministro ou vice-ministro que não pertencesse ao Comité Central do MPLA, já que o destes era um FIAT 132 branco). O condutor era um vice-ministro de que já não me lembro o nome. Pediram os documentos e o livre transito, e o homem não o tinha consigo. Disseram que o camarada teria que ficar por ali, pois eles não o conheciam. Parou entretanto, o Elias Dia Kimuezo e entre os “zeladores da noite” cresce um grande entusiasmo por estarem perante um ídolo. Ele olha e vê acabrunhado o ministro que conhece bem, e pergunta que está ali a fazer, e o governante diz que está detido por falta de documentos. O cantor vira-se para o chefe e diz: “Este camarada é o vice-ministro fulano de tal, e não devia ser detido!”; prontamente o camarada responsável pelo controlo deu “ordem de soltura” ao ministro e balbuciou algo do tipo: “Ele disse-nos, mas anda por aí tanto bandido, que não acreditámos”!
                Houve um tempo que eu não tinha carro e morava na Casa do Desportista, não privatizada, (uma desgraça nunca vem só) e como gostava de andar a pé saía do Kinaxixe de casa de uns amigos e aí ia eu até à ilha, tentando sempre passar pelo controlo na entrada da ponte, antes da meia noite. Normalmente eles eram deixados ali por volta das 11h30m e invariavelmente perguntavam-me as horas, e eu lá lhes dizia. Um dia vinha atrasado e perguntaram-me as horas e eu disse que eram meia noite e vinte e logo um deles disse que eu estava detido. Eu argumentei que me tinha atrasado, que estava perto de casa e que não havia necessidade nenhuma de me deter. O único argumento que acabou por prevalecer foi o ter dito que fui eu que lhe disse as horas e podia ter-lhe dito outra. Aí os dois guardas conferenciaram e lá me deixaram ir com a preocupação que não fosse pela estrada porque podia ser interpelado pelo jeep patrulha, e os problemas sobravam para eles.
                Há muitas histórias deste tipo numa Angola dos anos 80 que deixou algumas saudades, e que se detesta por outras.


Fernando Pereira 
10/02/2019

22 de fevereiro de 2019

100 ANOS ESCRITOS A OURO! / Jornal de Angola / Luanda 22/2/2019





100 ANOS ESCRITOS A OURO!
A 22 de Fevereiro de 1919 era exarada a Portaria nº51, assinada pelo então Governador Geral Filomeno da Camara Mello Cabral que cria o “Liceu Central na cidade de Luanda”.
                Materializava-se uma recorrente reivindicação dos colonos que exerciam atividade económica na cidade e do conjunto de famílias africanas, ao tempo ainda não espoliadas do enorme prestígio e património assinalável. Todos queriam que os seus filhos fizessem o seu percurso secundário em Angola, pois era quase impossível enviá-los para a então metrópole. As escolas que existiam eram particulares e de duvidosa qualidade.
                Terá havido ao tempo uma grande unidade em torno da constituição do Liceu de Luanda, que pelo artigo 2º, da portaria 51, conseguindo vingar que “O Liceu Central de Luanda terá uma organização semelhante à dos liceus da metrópole”.
                A portaria determinava que o Liceu iniciaria a sua atividade regular a 15 de Março de 1919, o que sucedeu, sendo Álvaro Galiano o seu aluno nº1.
                As descrições da época sobre esta “histórica decisão” foram de grande entusiasmo, numa cidade que tinha tudo de muito pouco bom para ser um espaço urbano vivível. A iluminação pública dependia dos particulares que quisessem as cercanias das suas casas iluminadas. As ruas áridas e com a areia vermelha eram lugares de pouca higiene e a água que vinha do Bengo era escassa e tinha que ser filtrada de forma a evitarem-se as doenças que faziam de Luanda um lugar conhecido pela insalubridade.
                O grande impulsionador do movimento em torno do Liceu, que passou a Liceu Central de Salvador Correia a 30 de Janeiro de 1924, quando este “estabelecimento de ensino passa a equiparar-se para todos os efeitos a todos os liceus da metrópole”, foi Monsenhor Alves da Cunha, provavelmente a figura maior do seculo XX do território. Foi a pessoa que mais unanimidade concitou entre todos os cidadãos da cidade de Luanda, que viam os governadores enviados pela potencia colonial com passagens meteóricas, procurando que se alterasse o mínimo para não haver desequilíbrios. Alves da Cunha, em vários domínios, desde o ensino, à solidariedade, ao urbanismo, à florestação da cidade e ao desenvolvimento de pequenas unidades industriais foi um incansável batalhador, sem ter tirado qualquer provendo para si. Morreu pobre, mas reconhecido por toda a população da cidade, independentemente do seu status económico ou social!
                É interessante que na sanha “desapeadora” das estátuas que se assistiu no pós-independência, a sua foi a única que não foi beliscada e lá continua a pairar sobre a sua cidade. Conseguiu unir grupos desavindos de interesses em objetivos comuns e de facto fez por acontecer tanta coisa, em que o Liceu será a sua obra mais relevante, já que foi seu reitor até 1929, e membro do seu corpo docente inicial desde a instalação, na exígua casa da sede da Companhia do Ambaca, ali para os lados da Misericórdia.
                Em Outubro de 1919 as instalações passaram para a Avenida do Hospital, num edifício demolido há 46 anos para se construir o atual Palácio da Justiça.
                Como as condições não eram as melhores, dada a afluência de alunos, foi decidido em 30 de Junho de 1933 cabimentar verbas para a construção do edifício onde funcionou o Liceu Salvador Correia de 1942 a 1975, e a partir de então a Escola Mutu-Ya-Kewela, de há um ano a esta parte uma escola do magistério primário, depois de vultuosos e excelentes trabalhos de recuperação. Uma sábia decisão da tutela para preservar para a Educação um espaço físico e de memória de eleição.
                O Liceu, num projeto do Arquiteto José da Costa e Silva, edificado nuo alto da cidade, em estilo denominado de “Português Suave” torna-se a partir do dealbar dos anos 40 na edificação mais proeminente na cidade. À sua volta a cidade começa a crescer, e o liceu é a marca indelével de um novo tipo de sociedade que se impõe em Angola.
                Muitas gerações de pessoas transpuseram as portas daquele Liceu, desde alunos, professores e funcionários, e em todos ficou sempre alguma coisa que terá marcado para a vida, mesmo que tenha sido de raspão a sua passagem.
                Para além da excelência do seu corpo docente, das suas instalações, o Liceu foi um espaço onde se cruzaram gentes com propósitos bem definidos na luta pela Independência do País, e o contrário também!
                O Liceu que comemora cem anos neste 22 de Fevereiro, teve entre os seus alunos os dois primeiros Presidentes da República do País (Agostinho Neto e José Eduardo dos Santos) e um conjunto interminável de gente que lutou empenhadamente por uma Angola independente e diferente da que vamos vivendo por ora.
                Para além da participação política, o Liceu foi o local onde se deram os primeiros passos para brilhantes cientistas, médicos, professores universitários, empresários de sucesso, economistas, jornalistas, em suma um conjunto significativo de gente que cobre de glória as paredes do vetusto edifício que continua a olhar a cidade que em determinada altura cresceu mal a seus pés.
                Fui aluno de 1966 a 1972 e apesar de ter frequentado episodicamente outros estabelecimentos de ensino (em Coimbra) o Salvador Correia entranhou-se, e ainda hoje muitos dos meus companheiros de “viagem”, os que sobram, são exatamente os mesmos que estavam comigo naquele espaço que nunca nos deixa indiferente quando por lá passamos ao pé.
                Na Casa Amarela fizemos tanto de bom, que ao longo dos anos nos reencontramos uma vez por ano, a contar e a recontar coisas do antanho, a comermos e a bebermos o possível para nos lembrarmos que fazemos parte dos cem anos daquela casa. Vamos vendo  morrer alguns, mas é a lei da vida e uma parte do futuro que hoje somos foi o passado que o Salvador Correia nos deu.
                No caminho pelo Salvador Correia, dos que estão e dos que foram vem a frase batida de Mia Couto: “Não morre quem se ausenta, morre quem é esquecido”!
                Engraçado, que para além dos meus amigos, companheiros de Liceu, funcionários, professores lembro-me que foi aí que me apresentaram Hegel, Marx, Nkrumah, Sartre, Camus, e tanta outra malta que me tem dado um prazer enorme ler e ter ao longo da vida!
                Nesta hora dos cem anos do Liceu de Luanda, Viva a Malta do Liceu!!!

Fernando Pereira
19/02/2019.

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