24 de junho de 2016

Bom senso com o censo / Ágora/ Novo Jornal / Luanda 24-6-2016

Bom senso com o censo.
Estive hoje a analisar com algum detalhe o censo geral da população publicado em Março de 2016. Fico com a ideia que é um trabalho sério e responsável e reúne todas as condições para que seja um instrumento indispensável para nortear decisões políticas assertivas, estratégias de desenvolvimento económico com razoabilidade e um planeamento social mais rigoroso.
               Este trabalho, que tem um carater científico, pode transformar “ideias feitas”, do discurso político prevalecente em “situações desfeitas”, baseada na evidência que são a teimosia dos números!
               Todos sabemos que temos uma população jovem com 65% da população com idade até aos 24 anos, num universo de 25.789.24 pessoas, das quais perto de sete milhões vivem em Luanda.
               Desvalerá pouco continuar a debitar números, porque eles estão acessíveis a todos os cidadãos, mas há leituras que urgem ser feitas rapidamente, e encontrarem-se algumas soluções na sociedade angolana num momento que o tempo urge, sob pena de perdermos o futuro!
               Será que o discurso das assimetrias e segregação social, económica e cultural do colonialismo continuam a ter eco na generalidade dos angolanos, quando apenas 7% dos angolanos teriam entre 18 e 21 anos à data de 11 de Novembro de 1975? Quantos se lembram do enfático 4 de Fevereiro, ou do 15 de Março de 1961?
               Com base neste trabalho pergunto quantas pessoas se lembram da transição de poderes do falecido presidente Agostinho Neto para José Eduardo dos Santos num cada vez mais longínquo 1979? Quantas pessoas têm presente a institucionalização da democracia pelo “decreto” que determinou o desaparecimento da sociedade socialista de partido único? A própria guerra contra a UNITA já começa a entrar no “esquecimento” das pessoas, e por isso hoje, eventuais sacrifícios pedidos são mal compreendidos, o que não deixa de ser de todo natural.
               A própria UNITA, ou o seu sucedâneo CASA, também não conseguem que as pessoas se lembrem do que foi politicamente Jonas Savimbi, porque quando ele morreu metade da população do País ainda não tinha 12 anos! Isto é mau para a oposição, mas também não é bom para os dirigentes do MPLA, a quem daria sempre um certo jeito ter um inimigo externo, ou interno, para que assacasse com as culpas de muita situação mal gerida e inapropriadas decisões na gestão da coisa pública.
               Pode-se dizer que a história transmite-se de umas gerações para outras, e que o facto da pessoa não ter vivido determinado momento, não quer dizer que não saiba o que aconteceu, nem que o valorize! Mas aqui também há muito pouco trabalho, de divulgação de tudo que aconteceu em Angola nos últimos cem anos, e a própria “história” recente de Angola é descrita um pouco de forma panfletária, e deixa pairar muitas dúvidas e desconfianças justificáveis nas gerações mais novas.
               O censo evidencia números preocupantes sobre um conjunto de situações que o discurso oficial tenta ignorar, nomeadamente no que concerne à esperança de vida dos angolanos, situações de desemprego, condições de salubridade das habitações e outras.
               Obviamente que este trabalho também reflete algum esforço que o executivo foi fazendo ao longo dos anos no sentido de melhorar alguns números, nomeadamente os valores da população alfabetizada e também a percentagem de homens e mulheres que frequentaram o ensino médio nas diferentes províncias do País, e outros que demonstram à saciedade que parte do caminho fez-se caminhando, e há números que refletem esperança no futuro, se não se teimar trilhar caminhos que se revelaram tortuosos ou sem rumo certo!
               O que ressalta disto tudo é a certeza que a Republica de Angola, nas suas amplas diversidades tem necessidade de olhar para o futuro com respostas cabais, porque cada vez se vê menos uma população remetida à sua condição de mera assistente. É aliás desejável que seja assim, porque uma população jovem e pouco exigente torna-se amorfa, e disponível para ser manobrada para propostas de transformação politica, social e económica que redundam a maiorias das vezes em “aventureirismo oportunizável”!
               O exercício do poder tem obrigação de dar cada vez mais respostas, porque as pessoas com cada vez mais formação e maior informação assim o exigem. O silêncio, as frases feitas, o panfletário, já não colhem no momento de “afogadilho” económico e a desconfiança é crescente nas instituições do Estado, o que leva a desacreditar a democracia que ainda dá tímidos e pouco resolutos passos no nosso País.
Para Max Weber o Estado Moderno era uma manifestação do movimento de racionalização da civilização moderna. Tratava-se, portanto, da materialização de uma estrutura burocrática, fundamentada em regras juridicamente estabelecidas e de poderes específicos independentes: Executivo, Legislativo e Judiciário.
Pegue-se em Weber, trabalhem-se os dados do censo e haja bom senso que talvez renasça uma esperança que se vai teimando em manter à tona, mas com evidentes dificuldades de permeio!

Fernando Pereira

15/6/2016

18 de junho de 2016

TRRIM-TRIM! / O Interior / Guarda / 9-6-2016



TRRIM-TRIM!
Ainda não vieram os dias quentes de um esperado Verão depois de um ano pluvioso quanto baste! Aguardemos.
               Pode parecer paradoxal, mas um dos temas dominantes desta croniqueta serve para que se abra uma petição nacional para o retorno às campainhas estridentes dos telefones, em detrimento da pequenina luzinha intermitente que aparece junto às teclas de qualquer recetor colocado nas portarias da maior parte dos serviços públicos do País.
               Vamos lá ver se me explico melhor, ou se consigo que a mensagem chegue sem interferências a quem pacientemente me lê.
               Se alguém “ousar” telefonar para um serviço publico entre as 9 e as 10 horas da manhã, ou a partir das 16 horas é quase certo que ninguém lhe atenderá o telefone, e muitas vezes a pessoa responsável por esse trabalho está ali mesmo ao lado. Esta é a verdade, constatável ao longo de muitas tentativas goradas para telefonar para alguns serviços públicos. Infelizmente um cada vez maior número de gente destes serviços adere a esta “praga” que se vai instalando no quotidiano dos serviços do Estado, de norte a sul de Portugal e Regiões Autónomas.
               Não me cabe a mim fazer juízos de valor sobre o comportamento destas pessoas, que substituiu a “rapariga da cavilha”, ou a “menina dos telefones” imortalizada na canção de 1961 de Maria José Valério, mas a realidade é que cada vez mais o estar num PBX (ou correlativo) é uma tarefa entediante e que ninguém faz por gosto, tudo para desgosto de quem precisar de entrar em contacto com alguém a partir de horas que pelos vistos passaram a ser consuetudinariamente incomodativas.
               Hoje sou a favor do retorno à campainha estridente nos telefones, já que nem que fosse para calar o som incomodativo as pessoas obrigavam-se a atender e nem que seja  para evitar os olhares reprovadores das pessoas que circulam por perto. Aí voltaríamos ao tempo de ouvir frases como, “Ninguém atende a porcaria do telefone!” ou outras entrecortadas com palavras bem mais ordinárias!
               Podem ter a certeza mais que absoluta que a maioria dos telefonemas eram atendidos, e dispensar-se-iam as músicas enfadonhas que certa gente escolhe para o demasiado tempo que se está à espera de uma ligação para alguém, que estando lá manda dizer que não está para não ter que se aborrecer com mais um utente, ou mais uma situação imponderável perto da hora de saída.
               Aos telefones estridentes haveremos de voltar, neste SIMPLEX de proximidade, principalmente para apoio aos muitos utentes que não tem possibilidade alguma de se deslocar a certos lugares, e muitas vezes terem que ir a determinado serviço para assuntos comezinhos que se resolveriam numa chamada feita a tempo.
               Outra questão bem mais grave que esta tem a ver com o tempo prolongado com que muitas vezes os telefones estão avariados em certos serviços, com prejuízo evidente para os utentes que precisam de contactar . Às vezes as avarias prolongam-se por meses e até um ano e meio, como já aconteceu recentemente num determinado serviço publico na região, e as pessoas obrigam-se aos maiores incómodos para conseguirem tentar resolver os seus problemas.
               Vamos pois voltar ao tinir estridente dos telefones e posso dizê-lo sem errar que a resolução de certos problemas e a resposta a algumas questões passarão a ser céleres.


Fernando Pereira

7/6/2016

Turismo passado sem presente para o futuro! /Ágora / Novo Jornal / Luanda 17-6-2016

   
             

  Turismo passado sem presente para  o futuro!
Muito se tem falado no desenvolvimento sustentavelmente acelerado do turismo no nosso País, e seria bom que se fizesse uma análise retrospetiva do que foi a insipiente atividade turística no tempo colonial para se pensar no presente e no futuro.
De acordo com a Organização Mundial do Turismo, a atividade turística contribui para o crescimento económico, para a criação do emprego e para a redução dos desequilíbrios da balança de pagamentos. Contabilizando efeitos diretos e indiretos, o turismo representa 10% do PIB mundial; Concorre para 30% das exportações de serviços, 6% das exportações totais, igualando ou excedendo até as do petróleo, produtos alimentares ou automóveis, e é responsável por um em cada onze empregos. Razões mais que suficientes para o considerarem um motor essencial do desenvolvimento.
A Sociedade das Nações instituiu em 1937, a primeira definição de turista, como “toda a pessoa que viaja por um período de 24 horas ou mais, para um país diferente do da sua residência”. Relativamente ao entendimento inicial, alarga o conceito estendendo-o às pessoas que se deslocavam com um objetivo que não propriamente o do lazer. Mistura quem viaja para lazer com quem mistura  outra atividade.
Em 1942 foi proposta à Association Internationale des Experts Scientifiques du Tourisme ultrapassar alguns hiatos da definição anterior e para  HunziKer e Krapf o turismo é “ o conjunto de relações e fenómenos produzidos pelo deslocamento e permanência de pessoas fora do seu local habitual de residência, desde que esses deslocamentos e permanência não sejam motivados por uma atividade lucrativa principal, permanente ou temporária.”
Em 4 de Junho de 1954, a ONU, na convenção sobre facilidades aduaneiras a favor do turismo, reformula a noção de turista, que passa a ser “toda pessoa, sem distinção de raça, sexo, língua ou religião, que entra no território de um Estado contratante, que não seja aquele onde reside habitualmente, e nele permanece durante 24 horas, pelo menos e não mais de 6 meses, no decurso de um período contínuo de doze meses, se a sua viagem  tiver um motivo legitimo que não seja a emigração, tal como: turismo, recreio, desporto, saúde, família, estudo, peregrinações religiosas ou negócios”.
Pontualmente foram feitas novas adaptações a este conceito mas só em 1991, a Organização Mundial de Turismo, conseguiu ultrapassar inúmeras críticas e tentar encontrar uma definição consensual, até para efeitos de uniformização estatística, definindo o conceito como “um fenómeno social, cultural e económico relacionado com o movimento das pessoas a lugares que se encontram fora do seu lugar de residência habitual por motivos pessoais ou profissionais. Estas pessoas são denominadas visitantes (podem ser turistas ou excursionistas; residentes ou não residentes) e o turismo tem a ver com as suas atividades, das quais algumas implicam um gasto turístico”.
O turismo tem conhecido assinalável desenvolvimento. Segundo dados da OMT, as chegadas internacionais turísticas totalizavam os 25 milhões em 1950, os 278 em 1980, os 527 em 1995 e mais de 1100 em 2014. A Europa é o principal destino recebendo mais de metade dos turistas internacionais.
Angola, enquanto colónia de Portugal não tinha qualquer iniciativa no domínio da promoção e desenvolvimento do turismo. As razões eram evidentes, um pouco à semelhança do que acontecia com a estrutura do estado central em Lisboa.
Já vimos que o turismo, enquanto atividade de relevância económica e social, só apareceu com algum significado depois do primeiro quartel do século XX. Coincidiu temporalmente em Portugal com a ascensão do Estado Novo e da ditadura de Salazar e Caetano.
Uma das revelações, se é que assim se pode chamar, da ditadura foi a xenofobia exacerbada, aliada a uma desconfiança a tudo que viesse de fora, principalmente o que pudesse fazer contrastar de forma evidente os hábitos “abençoados” do “Povo Português”, e alterar a letargia a que se chamava eufemisticamente “brandos costumes”!
Houve inicialmente no governo central o Secretariado Nacional da Propaganda (3-2-1940) tutelada por António Ferro, sob alçada direta de António Salazar e que tinha a supervisão do turismo a nível central. O turismo era primordialmente um meio de propaganda e não era encarado como uma atividade económica importante. Em 1944 o SNP muda a terminologia para o Secretariado Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo, sendo pouco mais que um órgão consultivo. Entre mudanças, recuos, progressos a verdade é que nunca, até ao 25 de Abril de 1974, o turismo se conseguiu separar organicamente da Informação ao nível central. A censura prévia vigiava toda a imprensa, editoras, espetáculos ou outras iniciativas culturais e recreativas , mas dependia do Ministério do Interior enquanto o secretário de estado da informação e turismo dependia diretamente do 1º ministro.
Explica-se isto, porque não havia em Angola nenhuma estrutura desconcentrada deste quadro que se observava na “Metrópole”. A censura era muito branda, a que não era alheia a percentagem de 97% de analfabetos no território e a estratificação social era tão acentuada que praticamente era desnecessário “perder tempo com coisas de poucos”!
Havia nalgumas camaras municipais um pequeno sector do turismo, que pouca mais atividade tinha que a fiscalização do paupérrimo parque hoteleiro da colónia, restaurantes e bares. Angola não queria cá turistas nem ninguém que alterasse o status quo prevalecente!
Pelo decreto-lei 42194 , de 27-03-1959 é criado no âmbito do Ministério do Ultramar o CITA, Centro de Informação e Turismo de Angola, entidade localmente dependente do governador-geral, mas sob a orientação e coordenação da Agencia Geral do Ultramar. Extingue este diploma a Casa da Metrópole de Luanda, criada em 1934 para apoiar o SNP nas feiras internacionais em que Portugal foi participando.
Isto é um tema que merece bem mais que este artigo,  porque a criação do CITA é objetivamente para montar em Angola uma estrutura poderosa que tinha funções de propaganda e simultaneamente de orientação metodológica e ideológica de toda a imprensa local. A título de exemplo o diretor do CITA é que tinha a responsabilidade de nomear o diretor da “Emissora Oficial de Angola” (decreto 47699 de 15-5-1967)! As atribuições do CITA eram enormes, e a preocupação de qualquer governador-geral era a de ter um “fiel” no seu topo e em lugares de subalternidade direta, para a caso de advirem complicações.
Prova evidente que uma estrutura deste tipo, está perfeitamente de acordo com a manifesta vontade de tudo controlar, de filtrar ao máximo tudo o que pudesse sair para o exterio,r e que tivesse entre quem visitava a colónia gente que “fosse só dizer bem”. Claro que quando sobreveio a guerra colonial, o CITA via-se com redobradas dificuldades, para manter a imagem de uma “Angola pacífica e harmoniosa” que se tentava vender no exterior!
Um dos homens que foi transversal em todo o final da governação colonial, Álvaro de Moura Koch Fritz, foi o poderoso chefe de gabinete de vários governadores, e nessa qualidade controlava as atividades do CITA. Dizia uma vez na esplanada do Arcádia, ao lado do Banco de Angola na Marginal, quando via o paquete Vera Cruz levar um contingente de militares de regresso a Portugal: “ Andamos aqui com tanto trabalho para sensibilizarmos meia dúzia de jornalistas sob a justeza da nossa presença em Áfric,a e vão ali mil e quinhentos militares que vão destruir tudo mal comecem a abrir a boca. Cada um daqueles tipos é uma voz contra nós” Convém dizer que terá sido esta figura discreta, um dos homens mais poderosos  da estrutura governativa colonial.
As preocupações do CITA eram sobretudo de informação, e a divulgação do turismo era sobretudo avaliada nesse contexto. O turismo não era visto como atividade económica, mas fundamentalmente era olhado como uma via de propaganda de tudo o que o governo colonial queria quer se mostrasse lá fora. Como havia muita coisa que “desagradava”, nunca terá havido uma ação significativa por parte das autoridades, para a promoção real do território, que teria merecido um maior empenhamento, e que não se estivesse chegado á independência com um paupérrimo parque hoteleiro, só para falar numa das áreas deste importante setor de atividade.
Aqui está uma abordagem indispensável para conhecer o ontem do turismo em Angola.

Fernando Pereira

12/6/2016

28 de maio de 2016

Remendo! / Àgora/ Novo Jornal /Luanda 26-5-2016



Remendo!
Num tempo em que 29, 622 kwanzas valiam um dólar, e outras mordomias como por exemplo partilharmos muito mais o pouco que se tinha, havia que se ter engenho e arte para conseguirmos matar o “tédio revolucionário”; bem mais tolerável que o “fastídio dos mercados”!
               Numa noite abafada de Fevereiro de há trinta e cinco anos fui com uns amigos ao Kussunguila, um dancing na Ilha de Luanda, construída no tempo colonial junto a um higienizado e apelativo mercado do artesanato. Formávamos dois casais e entrámos numa sala enorme que estava praticamente às moscas. Os decibéis roufenhos e alterados de uma música razoavelmente má, num espaço onde o ar condicionado emitia um estridente e pautado som metálico enviando golfadas de ar quente, para uma sala que já se tornara quase uma camara de tortura.
               As mesas eram para duas pessoas e apesar de as termos aproximado uma da outra só nos conseguíamos entender aos berros. Veio solícito o empregado e perguntou: Que desejam os camaradas? Pedimos cerveja, ao que ele adiantou que não havia rigorosamente nada fresco, e que já teria informado a Emprotel UEE, ou a Angotel UEE da avaria há uns tempos e ainda não se tinha diligenciado nada até ao momento. Perguntámos que é que havia para beber, e ele muito lesto disse: “Aguardente búlgara, Macieira e Havana Club”. Animados com a oferta disponível resolvemos arriscar a Macieira, e sinceramente ainda hoje guardo o travo daquele cognac de pacotilha que nos foi servido. Passou a ser urgente debandar e foi isso que fizemos deixando o funcionário na sordidez pouco iluminada de um dancing vazio. Saímos do Kussunguila e sinceramente jamais esqueci o bafo de calor que tão bem me soube!
               Mais ou menos na mesma altura fiz uma viagem ao Lubango e entrei na que outrora tinha sido uma pastelaria de eleição no tempo colonial, a Tirol, em pleno “Picadeiro” , rua central da única cidade em toda a África que tinha mais brancos que pretos. A pastelaria tinha três balcões envidraçados, num tinha alguns bolos de aspeto manhoso, noutra uma mistura esquisita de velas e bolachas e numa outra rebuçados, confeccionados numa fábrica local ainda em funcionamento ao tempo. Naturalmente que quis comprar uns pacotes para trazer para Luanda, e pedi às duas camaradas que estavam em cada um dos dois outros balcões envidraçadas para me darem os rebuçados, e uma delas prontamente disse que não mos podia vender porque o camarada responsável por aquele sector não estava. Perplexo, mas resignado pela organização deste espaço quase vazio, mas cheio de gente e regras.
               No dia seguinte, porque o voo para Luanda resolveu atrasar três dias, voltei e mais uma vez não consegui ter acesso aos rebuçados, porque o camarada responsável pelos “dropes, caramelos e correlativos” tinha-se ausentado nesse fim da tarde em que lá estive. Não consegui levar rebuçados nenhuns, mas fiquei sempre com a história para repetidamente contar.
               Num restaurante manhoso no Dondo sentei-me e pedi o prato do dia, a bem dizer não havia alternativa, e lá veio o arroz maçudinho a acompanhar um espinhadíssimo peixe frito do rio. A bebida era uma cerveja EKA morna, e quando chegou à mesa o empregado resolveu utilizar os dentes para abrir a garrafa. Naturalmente aborrecido disse que não iria tocar na garrafa o que o levou a abespinhar-se e perguntar-me: “ O camarada tem nojo de mim?”; Repliquei que “sim, não tenho nojo, mas acho que é pouco higiénico”. Ele indignado disse-me: “Sabe, eu devia era ter aberto a garrafa lá dentro e o camarada bebia-a toda”. Apesar de resignado e esperando que “desamparasse a loja”, o tipo resolveu encostar-se à minha mesa e fazer uma teorização da luta de classes, do fim do colonialismo e da implantação do socialismo científico, asseverando que eu enquanto angolano branco não tinha ainda compreendido as mudanças. Farto de ouvir palavras de ordem, agilizei a degustação do paupérrimo menu, paguei e saí para a rua onde me esperava o ar abafado do desmazelado Dondo ainda com resquícios de tempos áureos na sua decadente malha urbana.
               Desculpem a puerilidade do artigo, com histórias tão banais, mas na realidade no dia em que comemoro os sessenta anos do meu nascimento na então Casa de Saúde de Luanda, hoje maternidade Augusto Ngangula, muita coisa me ocorreu para escrever, mas nada saía com a fluidez desejada. Fica o remendo!
               Como dizia Gabriel Garcia Marquez “A vida não é a que cada um viveu, mas a que recorda e como recorda para conta-la”

Fernando Pereira

25/5/2016

22 de maio de 2016

O FIM COMEÇA A TER PRINCÍPIOS! / O INTERIOR/ Guarda 11-5-2016




O FIM COMEÇA A TER PRINCÍPIOS!


O interior do país está-se a transformar há muitos anos num quotidiano de desesperança.

               Não há área nenhuma que não deixe de patentear o perfeito estado de absoluto catatonismo, em que os estados de excitação são cada vez mais fugazes e os de passividade a eternizarem-se no tempo.

               Portugal, ”o meu remorso de todos nós” como disse O’Neill, está a transformar-se num deserto, onde vai sobrevivendo a burocracia, que os serviços cada vez mais concentrados na malha urbana de grandes cidades vão impondo, sem tampouco se aperceberem que a realidade no terreno é bem diferente das iluminadas salas climatizadas dos gabinetes.

Quando Portugal ficou pejado de autoestradas e vias estruturantes, o que se conseguiu foi acabar definitivamente com um resto de ruralidade que ia pejando nostalgicamente o imaginário de todos. A ruralidade dos sabores, dos odores e das paisagens eram fatores de unidade num país que se tornou higienizado em demasia, onde a madeira e o mármore é substituído pelo azulejo e o inox.

Não era desejável prevalecer a mentalidade “ruralizante” que se impôs no País desde os tempos da monarquia decrépita, Do caciquismo antirrepublicano da 1ª Republica e Do corporativismo serôdio do Estado Novo. Era importante manter alguma identidade que diferenciasse o interior “rural”, e que conseguisse ser uma referência num território. Tudo se vai paulatinamente perdendo, e vamos sobrando por aqui uns quantos, que vão acendendo e apagando a lâmpada em função da movimentação do sol. Somos nós os que vamos teimosamente ficando a pagar as portagens de estradas quase desertas, a gastar mais eletricidade e gaz porque o clima é mais agreste, enfim a envelhecer sem vontade nenhuma de rir, porque os recursos são cada vez mais parcos.

O associativismo, que nesta fase podia ser importante para manter alguma atividade económica e algum dinamismo social, está à beira do fim porque as pessoas estão cansadas, desmotivadas e não disponíveis para um trabalho pouco dignificado e com cada vez mais encolho por parte da burocracia instalada. O associativismo juvenil já vive dalguma “peste grisalha”!!! dos seus dirigentes e animadores, e cada vez menos se vê gente nova e propostas inovadoras nas associações juvenis, incubadora de eleição dos potenciais dinamizadores do futuro nas associações 
.
Podem dizer que sou pessimista, mas sou-o com a legitimidade de há quase trinta anos manter as mesmas ideias e convicções em relação à “saharização” do interior, e a verdade é que os factos são infelizmente teimosos e tem-me dado a razão troda.

Confesso que desvislumbro melhorias, e não vai ser nada fácil inverter o estado das coisas porque é um circulo vicioso e desvirtuado, em que a economia vai perdendo importância e inerentemente as pessoas deixam de ter opções para se empregar e buscam novas paragens e outras aragens.

Exigia-se há muito uma descriminação positiva para o interior mas como não há força aqui, nem interesse nos órgãos centrais, mantém-se tudo como está e com tendência para piorar!

               Para tudo há um começo e um fim, o interior há muito que começou o trilho do fim!


Fernando Pereira

8/5/2016

29 de abril de 2016

ABRIL SEMPRE DENTRO DE NÓS /Àgora/ Novo Jornal / Luanda 29-4-2016




ABRIL SEMPRE DENTRO DE NÓS

Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade
José Afonso

               Foi esta a senha que deu início às movimentações militares que mudaram tudo, que há muito esperava uma sapatada definitiva.
               Atolado em três frentes de combate, com os empresários a exigirem a integração europeia em detrimento do atávico mercado colonial, assoberbado pela fuga desenfreada de trabalhadores para uma Europa onde se lidava com a reconstrução dos Países devastados da 2ª Guerra mundial,  a braços com uma crescente multiplicação de greves, lutas estudantis e com a oposição ao regime a florescer nas classes sociais que o tinham apoiado até então , era por demais evidente que se esperava o rápido estertor do regime que há 48 anos governava Portugal e colónias.
               O 25 de Abril de 1974 foi a vontade de uns valorosos, ajudados pelas circunstâncias e encontraram o modelo corporativista-colonial em estado de prostração final.
               Há quarenta e dois anos vivia em Coimbra e preparava-me para ingressar na Universidade, e naturalmente avultava o receio de mais cedo que tarde ser mobilizado para a guerra colonial. A minha posição era partilhada por muitos colegas portugueses, que à surdina iam dizendo que quando chegasse a altura “davam o salto”! Poucos dos que iriam à “inspeção” esse ano estavam dispostos a defender “a fé e o Império”, que mais não eram que os Espírito Santo, Fonsecas e Burnay, Mellos, Champalimaud, Quina, Feiteira-Bordalo, Vinhas, Abecassis, Sousa Lara e as suas componentes locais Mota Veiga, Mota & Irmão, Herdeiros de Mário Cunha e outros. Como diria muitos anos antes Alexandre O’Neill: “Portugal, o meu remorso de todos nós”!
               O” Império Português” que como dizia C. R. Boxer era “essencialmente, uma talassocracia, um império marítimo e comercial (…) vazado em molde militar e eclesiástico”, estava-se a preparar para restar encaixotado, por ironia do destino, no mesmo local onde os achadores portugueses partiam “navegando desenhavam os mapas que não tinham”, como dizia Sophia de Mello Breyner Anderson.
               Durante muitos anos fui discutindo com compatriotas angolanos a importância do 25 de Abril de 1974 em Angola. Talvez pelo facto de o ter vivido a cada minuto com grande entusiamo, nos locais onde “se construiu a democracia”, tenha uma relação militantemente afetiva com o Movimento das Forças Armadas, e confesso que me custa aceitar que haja pessoas angolanas com responsabilidade e já homens feitos ao tempo queminimizem a importância do golpe de estado de Abril em Portugal e os reflexos que isso teve na libertação dos povos sob dominação colonial.
               O 25 de Abril de 1974 foi sempre olhado em Angola como uma data estranha no contexto das efemérides externas que os angolanos vão dando enfase! “Isso é uma data dos portugueses”, “Se não fossem os movimentos de libertação o 25 de Abril nunca teria acontecido”, “Que ganharam os angolanos com o 25 de Abril?”, e outros dislates que normalmente surgem quando se fala do Movimento das Forças Armadas.
               O 25 de Abril de 1974 não surgiu da vontade de um punhado de militares, apareceu num contexto, e naturalmente que quando eles corporizaram o golpe o fim da guerra colonial era um dos objetivos principais. Foi depois um corolário de movimentações, de gente das mais variadas profissões, de um amplo espectro político que obrigaram a tomarem-se certas decisões em relação às colónias, diferentes das que alguns se propunham perpetuar de outras formas.
               Nós enquanto angolanos devemos ter orgulho no 25 de Abril, porque foi uma luta comum, que afinal surtiu em objetivos comuns nomeadamente a Independência de Angola em Novembro de 1975.
               Posso entender que o meu entusiasmo pelo 25 de Abril de 1974 seja olhado de forma indiferente pelas gerações mais novas, por exemplo a da minha filha, visto da mesma forma como eu olhava atónito o entusiasmo do meu avô a falar da Republica ou até do meu pai na sua participação na campanha presidencial de Norton de Matos, que lhe valeu o despedimento da Sociedade Agrícola do  Cassequel na vila da Catumbela!
               Mas tenha-se em atenção que este esquecimento, justificado, das gerações do 25 de Abril de 1974, é o mesmo que gerações tem da luta de libertação e da batalha do Kuito-Kanavale. Estou a falar de gente jovem mas já politicamente enquadrada, e inseridas no atual tecido económico e social angolano Deixemo-nos de romantismos serôdios, porque Savimbi já morreu há doze anos, e pelos números do censo recentemente divulgado 46% da população tinha entre 10 a 12 anos, quando isso aconteceu, por isso já nada lhe começam a dizer essas “batalhas do antanho”!
               Hoje como ontem e como amanhã espero comemorar o 25 de Abril de 1974, talvez com cada vez menos gente que esteve comigo por razões de desaparecimento físico de gerações.
               Como diria José Gomes Ferreira, esse tão esquecido poeta português: Tenho “saudades de não poder inventar o futuro”.

Fernando Pereira
20/4/2015


14 de março de 2016

Os cedros também se abatem! /O Interior 11-3-2015




Os cedros também se abatem!
As pessoas andam indignadas com o abate de cedros numa rua da Guarda (indiscriminado segundo uns, discriminado no parecer de outros). Como não moro por ali, talvez esteja a favor dos que acham que é um abate indiscriminado, mas confesso que não é uma “guerrazinha” que me interesse de sobremaneira!
               Acho que este momento de tanta indignação, já deveria ter ocorrido há muito e razões mais que muitas haveria nestes quarenta anos de gestão democrática da autarquia da cidade.
               Conseguiu colocar-se a Guarda como provavelmente a mais feia cidade capital de distrito do País, quando tinha todas as condições de poder ter tido um desenvolvimento harmonioso adaptado a uma configuração natural de cidade de montanha.
               Ao invés o patobravismo tomou conta da cidad,e e rapidamente surgiram os disparates e o ordenamento urbano faz lembrar um pouco a faixa de Gaza. Ruas que apertam e desapertam em função de interesses diversos, que finalizam de forma abrupta, o que faz que bairros recentes se consigam transformar em locais labirínticos.
               Foi a cidade que foi deixando morrer o seu centro histórico, a sua notável praça, onde a grande preocupação das pessoas é saberem onde vão colocar um rei, que na Guarda tinha interesses de alcova que ultrapassavam os desígnios do Estado. Por mim pode ficar onde está, desde que haja coragem e incentivos para que os edifícios circundantes possam ser reabilitados para promover a atividade económica da cidade. Se isso acontecesse de certeza que se dispensaria a construção de um chapéu-de-chuva na rua do Comércio.
               Ninguém se indignou quando deitaram abaixo um mercado com algum interesse arquitetónico, e que em Portugal e noutros países transformam-se estes espaços em novos lugares que potenciam locais de dinâmica económica inovadora e são centro de confluência de gentes para usufruir das novidades que estes centros proporcionam.
               Em seu lugar nasceu um megatério, num horrível granito polido com uma torre de controlo, que teria alguma utilidade para apoiar uma pista de 2.000 metros e que na cidade da Guarda nem um farol de boas ideias conseguiu ser para se inverter o caos urbanístico em que a cidade se tornou.
               Quando se vê uma movimentação em torno do abate de uns cedros, interrogo-me onde andou esta gente que assistiu anos a fio à degradação da cidade, sem ver nascer qualquer movimento cívico que apoiados em técnicos pudessem ter permitido inverter a realidade pungente que hoje assistimos.
               Para que conste, não habito na Guarda, nem sou de cá mas julgo que tenho direito a opinar sobre o assunto!

Fernando Pereira

6/3/2016 

4 de fevereiro de 2016

Entrevista a Margarida Paredes / Mutamba /Novo Jornal / 4 de Fevereiro de 2016 /Luanda



Margarida Paredes (MP), nascida em Coimbra, no emblemático bairro do Penedo da Saudade, local da alta burguesia da cidade é filha de um prestigiado professor universitário doutorado em Londres, e neta de uma aristocrata e latifundiária alentejana.
Depois de um percurso por alguns lugares do antigo “Império Português” acompanhando o pai, um eminente biólogo marinho e oceanógrafo de reconhecida competência, Margarida Paredes assume um corte com penates e faz um percurso que a leva sucessivamente a Lovaina na Bélgica, Brazzaville, Luanda, Lisboa e finalmente S. Salvador da Baía onde é investigadora e professora na Universidade Federal da Bahia.
No seu percurso de combate e de múltiplas vivências licenciou-se “tarde e a boas horas” em Estudos Africanos, tendo-se abalançado para um doutoramento em Antropologia Social, orientada pelo Prof. Miguel Vale Almeida e financiada por uma bolsa da FCT, e no seguimento de todo esse trabalho elaborado durante quase seis anos (um ano de Trabalho de Campo em Angola) fez sair recentemente o livro “Combater Duas Vezes, Mulheres na Luta Armada em Angola”.
NJ- Tive oportunidade de ler o seu romance “O Tibete de África” editado em 2006 e li com particular atenção o ensaio, que afinal é a sua prova de doutoramento “Combater Duas vezes”, e sinceramente pareceu-me que uma parte significativa do segundo tem a sua parte romanceada no primeiro.
Lamento discordar, “O Tibete de África” é uma ficção, é a história de uma menina da comunidade branca que deixou Angola antes da independência, uma retornada, é uma história sobre o retorno e sobre a descolonização e é um romance que faz parte do corpus da literatura portuguesa. O “Combater Duas Vezes” é um ensaio que obedece a protocolos académicos e que exigiu uma investigação aprofundada do meu objeto de estudo, ou seja as mulheres angolanas que estiveram envolvidas nos conflitos armados em Angola desde 1961 a 2002 e combateram de armas nas mãos. Este livro é sobre as suas memórias de guerra, sobre as suas histórias de vida, sobre a invisibilidade de que são alvo na construção da nação, sobre as suas lutas pelo reconhecimento e pela representatividade política ou como negoceiam a ordem de género entre outras particularidades. Um dos aspetos que é importante realçar neste meu trabalho é que é uma versão africana e afrocêntrica da História de Angola no feminino. Durante todo o meu trabalho estive sempre a dialogar com teóricos africanos e com o conhecimento produzido em África. Fanon tem um grande peso nas minhas reflexões analíticas mas também as académicas africanas Ifi Amadiume, antropóloga, Oyèrónké Oyèwùmi, socióloga, e Nkiru Nzegwu, filósofa. Cada história individual das ex-combatentes resgata um palimpsesto de memórias que contribui para a História esquecida das mulheres angolanas tendo-me cabido apenas o papel de interpretar e contextualizar as suas narrativas. Agora, talvez tenha alguma razão sobre a fluidez da minha escrita que é um exercício herdado da ficção, mas, como sabe, os antropólogos também são escritores.

NJ- A Margarida, enquanto investigadora, ter-se-á deparado com um conjunto de dificuldades na prossecução do seu trabalho, mas a realidade que tenho ao ler o seu livro é que terá conseguido torneá-las com alguma facilidade, algo que não é muito habitual aos investigadores de diferentes domínios quando pretendem fazer trabalhos em Angola. Como o conseguiu?
Não foi com facilidade, tive que lutar muito para conseguir fazer o Trabalho de Campo e no livro faço uma descrição etnográfica de todas as dificuldades e desafios que tive de ultrapassar para realizar a pesquisa. Mas numa coisa tem razão, o facto de ter sido uma das “antigas” do MPLA, aderi ao movimento em 1973, e o facto de ter sido das FAPLA abriu-me muitas portas. As minhas antigas camaradas das FAPLA foram uma grande ajuda e fui sempre muito acarinhada pelas veteranas.
NJ- A pergunta anterior leva-nos para o estado geral de desconfiança que as autoridades angolanas têm perante investigadores de todo o tipo, e alguma resistência a que haja trabalho científico sobre Angola. Parece-me de todo paradoxal já que o angolano é extrovertido e afável no seu relacionamento com quem o visita! Que condicionamentos acha que levam a esta atitude, tantas vezes referida?
É verdade, há em Angola uma grande desconfiança em relação aos pesquisadores estrangeiros, ouvimos constantemente a frase – depois vocês vão dizer mal de nós, mas a desconfiança não é do cidadão comum, é dos governantes que não entendem que a ciência social é crítica e o que criticamos são as dinâmicas sociais e políticas, não as pessoas. A guerra contribuiu para afastar muitos cientistas e estou-me a lembrar que sempre recusaram o visto ao Patrick Chabal. Isso levou a que haja uma extensa produção científica sobre Moçambique com o apoio da Universidade Mondlane e quase nenhuma em relação a Angola. Num país que se quer democrático os cientistas sociais não podem ser sentidos como uma ameaça ou tratados como inimigos.
NJ- O seu passado militante está muito presente ao longo do livro, relegando algumas vezes o social enquanto a ciência e o técnico para um lugar secundário, sem subalternidade contudo. Esta é uma visão, que não sei se está de acordo!
Sim, apareço no meu trabalho na dupla condição de antropóloga e de nativa (como categoria antropológica), isto é como ex-combatente do MPLA. Tive que fazer um exercício de autorreflexão antropológica para definir esse duplo lugar de enunciação, mas sempre que apareço como nativa foi para dar testemunho e enriquecer as interpretações, por exemplo, quando falo da reunião em que o comandante Gika entregou o comando do Destacamento Feminino à Virinha e à Nandi eu sou a única pessoa dessa reunião que sobreviveu para contar a história.
NJ-Uma das situações que me deixa atónito no livro é a percentagem de mulheres entrevistadas que depois de lutarem por uma causa, de terem sido maltratadas e torturadas pelas autoridades coloniais e aviltadas até pelos companheiros de guerrilha, hoje são praticamente ignoradas por aqueles com quem partilharam ideais e com quem lutaram por uma sociedade mais digna. Acho que isso é provavelmente a sua grande mensagem, mas se o presente é muito mau para elas as sombras do futuro adensam-se!
Pois é, as antigas guerrilheiras do MPLA, assim como as mulheres-soldado das FAPLA ou as ex-combatentes da FNLA e UNITA todas elas têm em comum o facto de terem sido esquecidas, abandonadas ou discriminadas, o que é motivo de grande revolta e sofrimento para estas mulheres. Os homens tiveram direito a proteção social ao abrigo da Lei do Antigo Combatente de Guerra, n.º 13/02 de 15 de Outubro, mas as mulheres são marginalizadas deliberadamente. Estou-me a lembrar de casais que entregaram o processo ao mesmo tempo no Ministério dos Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria, o do marido foi despachado, recebe a pensão militar e a mulher espera há anos por uma resposta ao seu processo. As guerrilheiras que foram desmobilizadas das FAPLA também foram dispensadas sem um documento comprovativo dos anos de serviço militar e da patente, o que as exclui da reforma da Caixa de Segurança Social das FAA. Mas o caso mais grave é o das ex-combatentes da UNITA, a militarização não lhes assegurou direitos iguais ou tratamento idêntico aos homens no processo de paz e durante o desarmamento, desmobilização e reintegração, porque foram consideradas familiares dos soldados, que tiveram direito a proteção social, enquanto elas foram enviadas para casa, cuidar da família. No entanto devo dizer que as participações das mulheres das elites partidárias nas lutas tem sido reconhecidas e algumas condecoradas mas de qualquer maneira foi um processo arrancado a ferros.
NJ-Vamos por partes, cada mulher ou conjunto de mulheres que entrevista para o seu trabalho demonstram a sua preocupação em “revisitar” cada uma das fases da luta anticolonial, dos tempos agitados da independência, do fraccionismo, da guerrilha contra a RPA e a guerra civil surgida na sequência do “Setembro” de 1992. Qual é o denominador comum de todas as entrevistadas, se é que há algum?
Uma das hipóteses que levantei para pesquisar quando elaborei o meu projeto foi se a condição de “combatente” teria construído em termos coletivos um “nós” que combateu, ou seja, uma espécie de “comunidade imaginada” de mulheres combatentes que pudessem partilhar um sentimento comum forjado na luta armada, independentemente do lado em que se encontravam no teatro da guerra e ultrapassando a categoria de “inimigas”. As considerações finais do meu livro respondem a essa pergunta.
NJ- O seu livro é ponto de partida para muito debate se houvesse um terreno propício a isso, o que não me parece que haja, por circunstâncias diversas. Qual é a sensação de ter escrito um livro que tem sido lido com atenção, que tem motivado críticas e elogios, que tem permitido uma visibilidade de temas que normalmente são pouco relevados como a “desigualdade de género”, o “machismo” em sociedades africanas de forte tradição matrilinear, a submissão aos ritos e fenómenos religiosos, e outros?

Não tenho tido quase feedback nenhum em relação ao meu livro, ainda não chegaram até mim ecos desses debates. Tem havido é um grande interesse da comunicação social. Mas uma coisa é certa, creio que é a primeira tese de doutoramento feminista sobre Angola. Não sei como os homens estão a reagir mas imagino que as mulheres se sentem empoderadas e orgulhosas de entrar na História de Angola pelos seus próprios meios, história que até agora tinha sido escrita apenas no masculino. Deixe-me também dizer-lhe que África tem movimentos feministas poderosíssimos e as angolanas fazem parte deste processo.
NJ- Não leve a mal a pergunta mas este livro é mais Margarida ou mais as mulheres a quem Margarida dá finalmente a palavra e o rosto?

Não tenho a menor duvida que este livro é resultado de um projeto comum construído pela antropóloga e pelas mulheres que foram objeto do meu estudo, as ex-combatentes. Foram os seus depoimentos, os seus testemunhos, as suas memórias e as suas vozes que dão sentido ao livro. Foram também as suas contribuições que deram origem a esta reflexão e análise. Este livro é das mulheres angolanas mas é também das mulheres do mundo inteiro porque a luta pela igualdade de género é uma questão de direitos humanos e universal.


















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