22 de outubro de 2018

VENEZUELA, OS PASSOS PERDIDOS / África 21/ Luanda/ Outubro 2018




VENEZUELA, OS PASSOS PERDIDOS

                Aproveitei para título deste artigo um dos mais belos, e simultaneamente menos conhecidos romances da literatura sul americana, escrito em 1953 pelo cubano Alejo Carpentier (1904-1980), que viveu na Venezuela entre 1945 e 1959.
                Este romance é a imagem de um mundo que começa no grande rio Orenoco, o maior da Venezuela e um dos maiores da América do Sul. É a subida desde a foz até à sua nascente para encontrar a “raiz da vida”, e onde cada personagem define o que é o poder, e as suas lógicas, a atmosfera selvagem e abrupta, o que ele chamou do “real maravilhoso americano”.
                A Venezuela é a pátria do libertador Simão Bolivar, o mais conhecido combatente pela independência das colónias espanholas na América do Sul e o seu verdadeiro unificador. A Republica Bolivariana da Venezuela teve a sua autonomia aquando da sua separação da Grã-Colômbia, território partilhado com a Nova GranadaEquador e Panamá, surgida por altura do falecimento de Bolivar.
                Sempre marcada por alternância entre democracias e ditaduras, a Venezuela consegue ser das poucas republicas americanas a manter ininterruptamente uma democracia desde 1958, apesar de pontualmente irem aparecendo focos de guerrilha e nalguns casos algum projeto tipo “Coronel Tapioca”, icónica personagem dos livros de Tintim, do belga Hergé, que corporizava as revoluções em vários países na América Latina.
                A Venezuela era antes da exploração petrolífera nos anos 20 do século passado, um dos países com razoável aproveitamento dos recursos agrícolas, nomeadamente o café e o cacau, para além de uma agricultura de subsistência que ia permitindo uma dieta alimentar razoável à população. O peixe de uma zona costeira riquíssima era um complemento para a alimentação dos cidadãos e produto não negligenciável no quadro das exportações.
                A exploração do petróleo levou a que a agricultura fosse perdendo cada vez maior importância, e num curto espaço de tempo a Venezuela passa a ter 80% da sua população, hoje de 32.000.000 de habitantes, que vive em cidades, com todas as inerentes consequências.
                A Venezuela é hoje o 3º maior produtor de petróleo, e o 2º exportador mundial. Tem as maiores reservas mundiais de gaz e é um dos países com maiores reservas hídricas do planeta. Acresce a tudo isto a rica fauna da sua zona exclusiva marítima!
                Neste quadro a Venezuela, com a Standard Oil americana como parceira, começa a desenvolver uma industria de siderurgia, de cimentos, metalomecânica, refinação e outras o que leva a uma crescente urbanização da sua população tornando as urbes em megacidades, que transformaram o País como um dos de maior violência urbana em todo o mundo.
                Em 1976, três anos depois da crise petrolífera de 1973, e com a eleição do social democrata Carlos Andrés Peres, a Venezuela nacionaliza o petróleo e procura desenvolver rapidamente o País com a construção de novas e melhoradas infraestruturas, bairros sociais que permitissem alojar deslocados do campo para as cidades, hospitais, em suma um projeto desenvolvimentista que criou uma dívida externa quase incomensurável, fruto das quebras petrolíferas nomeadamente a de 1980. A classe média venezuelana cresceu percentualmente de forma mais rápida que em toda a América Latina, e começaram a agudizar-se os conflitos aliados a uma corrupção endémica que tinha como figura de tomo o Presidente da República.
                Neste quadro cada vez mais as forças armadas ganham alguma influencia, e começa a emergir a figura de Hugo Chavez, um misto de caudilho e esperança para uma população que vive cada vez pior, e assiste impotente ao desbaratar dos recursos por uma elite que se apossou do aparelho do estado e das empresas publicas.
                Naturalmente que Chavez é olhado com desconfiança pelos EUA, sempre ligados ideologicamente às teses do “Big Stick” do presidente Theodore Roosevelt (1858-1919) e economicamente aos interesses das grandes companhias americanas.
                Hugo Chavez apesar de acossado pela elite venezuelana, acolitada pela administração americana, inicia com as receitas do petróleo em alta, um conjunto de reformas que procuram dar resposta ás ansiedades da população mais desfavorecida da Venezuela. Com alguns laivos de demagogia, Chavez começa a criar escolas, hospitais, promulga legislação que proteja os mais pobres, criando a cesta básica. Promove projetos para a edificação de casas para alojar os que moram em favelas e assume-se como um verdadeiro leader dos povos que se tentam emancipar na América latina.
                Escusado será dizer que os EUA e seus aliados regionais e locais tudo tentaram para o destruir, através de greves, fuga de capitais, boicotes, mas eleitoralmente ele reforçava o seu poder em cada votação. A sua doença foi a única coisa que não conseguiu vencer, e morre em 2013 sendo substituído pelo seu vice-presidente Nicolas Maduro.
                Com a queda abrupta do peso do petróleo, com a falta de financiamento internacional, com os juros da dívida a estrangularem a economia os inimigos do “Chavismo” tem tentado tudo para acabar com o legítimo governo da Venezuela sufragado nas urnas.
                Tem sido lançada uma campanha para denegrir o regime Venezuelano, com sanções de toda a espécie, e com a criação de um ambiente de “crise humanitária global” que leve à intervenção militar, para justificar isso sim uma guerra de contornos sórdidos para uma intervenção económica na Venezuela, a favor dos que intervém há muitos anos na América latina, feudo privilegiado das companhias americanas e dos seus interesses instalados na Casa Branca.
                A insuspeita ONU num recente relatório fez saber que as sanções impostas desde 2015 pelos EUA e União Europeia contra a Venezuela “agravaram muito a escassez de alimentos e medicamentos, causaram sérios atrasos na distribuição e desencadearam o fenómeno da emigração maciça para os países vizinhos”! O Enviado da ONU à Venezuela foi categórico ao afirmar que o que acontece na Venezuela é “uma crise económica que não pode ser comparada às crises humanitárias em Gaza, Iémen, Líbia, Síria, Iraque, Haiti, Mali, RCA, Sudão do Sul, Somália, Myanmar, entre outros”. A FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação divulgou recentemente 2 relatórios (dezembro 2017 e março de 2018 referindo que a Venezuela não está entre os 37 países do mundo que passam crises alimentares.
                Convém esclarecer que não gosto particularmente do estilo e discurso de Nicolas Maduro, a quem não reconheço a estrutura intelectual e o carisma de Hugo Chavez, mas acho que a Venezuela só passa por tudo isto que está a passar pela cobiça de agentes económicos pelas riquezas de um dos territórios mais ricos do mundo e que vai lutando pela sua soberania e defesa dos seus interesses!
Fernando Pereira    3/10/2018

4 de outubro de 2018

Um Adeus Africano / África 21/ Luanda Setembro 2018




Um Adeus Africano              
           
Recentemente deixou-nos Kofi A. Annan, o africano que mais tempo esteve como Secretário Geral da ONU, e o segundo a ocupar esse lugar.
            No esquema de rotatividade que estava consensualizado até ser quebrado com a eleição de António Guterres para o atual mandato, África substituiu a América Latina em 1992 e fez eleger o egípcio Boutros-Ghali como secretário-geral.
              O egípcio Boutros Boutros-Ghali (1922-2016), substituído por Kofi Annan, só conseguiu fazer um mandato enquanto SG da ONU, já que as suas divergências com a política externa dos EUA impediram que a sua candidatura a segundo mandato tivesse êxito.
            Boutros-Ghali fez frente à influencia dos EUA na ONU e teve um mandato difícil, em que os Americanos apostavam no desmembramento de Angola e da então república federativa da Jugoslávia entre outras intervenções. Os EUA não terão conseguido impor a sua vontade na solução da crise do Ruanda, que se traduziu num dos maiores massacres que se viveram na África contemporânea. O SG foi acusado de ter ignorado avisos sobre a deterioração da situação no Ruanda e não se livrou de críticas de muitos que o acusaram de alguma sobranceria.
            Foi responsabilizado por fracassos inerentes aos muitos conflitos que assolaram o mundo de um tempo pós-guerra-fria, e os atritos com a administração Clinton foram continuados, tendo-lhe sido criado um ambiente insustentável na cena internacional e também no interior da própria organização. Tudo foi anotado no seu livro de memórias Unvanquished: A U.S.-U.N. Saga (1999), e algumas situações conseguem ser bizarras no quotidiano de seriedade das relações internacionais.
            Entre vários incidentes contou que a meio do seu mandato recebeu um embaixador Americano que lhe transmitiu que o presidente Clinton queria que ele se demitisse e fazia uma festa de homenagem para ele não sair "pela porta traseira"! Recusou e nem com o forte apoio da França, claramente a sua maior aliada, conseguiu apoios para uma segunda magistratura.
            A solução de compromisso para que África mantivesse um elemento do seu espaço, para o segundo mandato exigiu soluções de compromisso, entre os vários membros do Conselho de Segurança e como resultado de tudo a solução surgiu dentro da própria instituição, com a subida a secretário-geral do então adjunto Kofi Annan, que vai exercer o lugar entre 1997 e 2017.
            Foi o primeiro cidadão negro à frente da ONU, e também até hoje o único da África subsariana.
            Kofi-Annan herda uma ONU envolvida numa série de problemas, estruturalmente desorganizada, e sem capacidade económica para dar resposta às múltiplas intervenções que se exigiam às Nações Unidas, que dispunha ao tempo de um efetivo de 70.000 soldados e uma pesada máquina burocrática que era muito exigente do ponto de vista financeiro e algo ineficaz nas respostas que a organização tinha celeridade em dar.
            Este Ganês que fez toda a sua carreira em organizações internacionais até entrar definitivamente em 1980 na ONU como secretário-geral adjunto em três situações consecutivas: Gestão dos Recursos Humanos e Coordenador para as Medidas de Segurança do Sistema das Nações Unidas (1987–1990); Subsecretário-Geral para Planeamento de Programas, Orçamento e Finanças e de Controlador (1990–1992); e Operações de Manutenção da Paz (março de 1993 – dezembro de 1996).
            Muito mais conciliador que o secretário-geral anterior, passou a ser olhado com simpatia pelos americanos que viram o ataque ao Kosovo e o bombardeamento à Sérvia serem apoiados pelo novel Secretário-Geral da ONU.
             Do mandato anterior “herdou” a má imagem que a Organização deixou na intervenção americana na Somália, a desorganização das forças de intervenção nos diferentes teatros de guerra, que eram caras e de eficiência discutível no terreno.
            Kofi Annan fez um toque a reunir e iniciou um processo de reorganização administrativa e uma aposta clara no reequilíbrio financeiro das Nações unidas obrigando de forma draconiano ao pagamento das prestações em falta por parte de um conjunto significativo de países membros.
            O mundo começava a sarar das feridas herdadas da guerra fria, e Kofi Annan tentou que a ONU fosse o fórum ideal para o estudo de uma enorme vontade de alterar o modelo económico e social prevalecente no mundo.
            Tarefa ciclópica e de certa forma algo utópica, mas Kofi Annan com a paciência do cidadão africano foi afirmando na ONU valores de liberdade, equidade, solidariedade, tolerância, não violência, respeito pela natureza e responsabilidade partilhada.
            Kofi Annan dizia na Conferencia do Milénio em 2000 no contexto do texto “Nós os Povos, o papel das Nações Unidas no século XXI”: “Se a globalização oferece grandes oportunidades, nenhuma alteração da nossa maneira de pensar ou agir pode ser mais decisiva do que colocar o ser humano no centro de tudo o que fazemos. O que é certo é que, até hoje, os seus benefícios foram distribuídos de uma forma muito irregular, enquanto o seu custo é suportado por todos. Assim, o grande desafio que enfrentamos hoje é certificarmo-nos de que, em vez de deixar para trás milhares de milhões de pessoas que vivem na miséria, a globalização se torne uma força positiva para todos os povos do mundo. Uma globalização que favoreça a inclusão deve assentar na dinâmica do mercado, mas esta, só por si, não é suficiente. É preciso irmos mais longe e construirmos juntos um futuro melhor para a humanidade inteira, em toda a sua diversidade”.
            Annan apesar de ser acusado de pró-americanismo nunca cedeu aos EUA no ataque ao Iraque, e apenas tentou ganhar tempo para que os inspetores enviados no âmbito da ONU para a verificação de armas de destruição em massa estivessem em segurança, depois de em inúmeros relatórios terem concluído que não existiam essas armas em território iraquiano. À revelia da ONU, já que a França não alinhava com os EUA no ataque ao Iraque, os EUA e a Grã-Bretanha unilateralmente atacaram o Iraque.
            O SG da ONU deixa uma mensagem no seu discurso nessa conferencia: “Nenhuma alteração da nossa maneira de pensar ou agir pode ser mais decisiva do que colocar o ser humano no centro de tudo o que fazemos. Não há aspiração mais nobre, nem responsabilidade mais imperiosa do que ajudar os homens, as mulheres e as crianças do mundo inteiro a viverem melhor. Só quando isso começar a acontecer é que saberemos que a globalização está de facto a favorecer a inclusão, permitindo que todos partilhem as oportunidades que oferece.”
            Kofi Annan deixou-nos recentemente, mas os seus valores, assumidos sempre com a eterna referencia à sua “alma mater” Kwame Nkrumah, tem que valer num mundo que se perpetua eternamente desigual de mais.
            Com a sua morte o mundo perde um cidadão proeminente, África perde um dos seus filhos valorosos!

Fernando Pereira 3/9/2018

13 de setembro de 2018

Um adeus estival / O Interior 13-9-2019




Um adeus estival!
Como previ num dos artigos que escrevi recentemente, o tal “Movimento pelo Interior” tem-se esfumado em realizações.
                Depois da pompa e circunstância que rodearam a sua criação, com uma linguagem demolidora para com a situação prevalecente, encontramo-nos hoje perante um nado-morto. Nada que os que por aqui vivem não estejam habituados.
                Vamos falar de coisas sérias. Mais uma vez os professores voltam à berlinda, e os seus detratores aproveitam as suas justas reivindicações, para zurzirem nos seus líderes sindicais ou nos representantes das suas organizações profissionais. Um País que não respeite os seus professores não respeita nada nem ninguém. O maior inimigo dos professores bons, que são a maioria, são os maus profissionais, que sendo uma minoria servem para que certa incompetente gente os utilize e faça “bulling” sobre alguém a quem se entrega o melhor que temos: os nossos filhos.
                A democracia evoluiu, mas a democraticidade nas escolas ainda não terá ultrapassado tiques de anarquismo misturadas com um autoritarismo disfarçado de um período de pré 25 de Abril de 1974. A fórmula encontrada para a gestão das escolas é do mais canhestro que há, e transforma o espaço escola num lugar de continuada campanha eleitoral, privilegiando os votantes em detrimento do universo dos alunos.
                A degradação do ensino passa por isto, e a figura do diretor de agrupamento deixou de ser pautada pela competência e afirmação coerente de responsabilidades e transformada na do “tipo porreiro”, que dá a resposta adequada às circunstâncias que lhe agradem em função de renovação de mandato.
                É urgente eliminar o “nacional-porreirismo” das escolas, e fazer-se um esforço para que as avaliações sejam feitas para que todos os professores tenham bom e muito bom, porque é isso que promove o laxismo e a desconsideração por uma classe que devia ser a de maior prestígio no País.
                Ninguém pode querer igualdade nas classificações, tem que se exigir igualitarismo na avaliação rigorosa e competente dos educadores, para que se estabeleça uma hierarquia de competências que prestigie um modelo de ensino que deixe de ser cataventista.
                Os sindicatos defendem o que os professores julgam querer ver defendidos, como qualquer outra organização de classe, e as pessoas não devem estar sempre a matraquear em cima de dirigentes eleitos só porque não se gosta da cor da camisola que envergam. Os sindicatos são indispensáveis para construir o edifício educativo do País, pelo que alguma sordidez nos ataques pessoalizados aos seus dirigentes passam a ter um efeito boomerang e quem passa a vítima passam a ser os alunos que a perpetuar-se a situação acumulam maus hábitos, e levam para a vida alguma “caosificação” em que se transforma o modelo do ensino em Portugal.
                Como em tudo há uma tabela alargada entre o muito bom e o mau. Não consigo é admitir que sejam todos muito bons!
Fernando Pereira
7/9/3017

7 de setembro de 2018

O RENDER DA GUARDA/ Novo Jornal/ Luanda 7/9/2018






O RENDER DA GUARDA
A modalidade mais praticada num presente passado do nosso País tem sido assacar tudo o que é mau para José Eduardo dos Santos e família.
                Nunca fui um prosélito de José Eduardo dos Santos, e jamais deixei de colocar as minhas críticas sobre algumas das suas decisões ou por causa da falta delas em determinados momentos, mas fico surpreendido com o exercício de bandeamento quase coletivo que se observa no quotidiano politico do País.
                Muitos alijam as responsabilidades do que há muito se via correr mal para cima do ex-inquilino do palácio da cidade alta e sua família, esquecendo os tempos em que subservientemente usavam das prerrogativas especiais de serem próximos, ou próximos de próximos.
                José Eduardo dos Santos foi Presidente da República do País durante trinta e oito anos e de facto teria saído pela “porta grande” se o tivesse feito em 2004!
                Uma das muitas críticas que fui fazendo a José Eduardo dos Santos tem a ver com a sua postura de rigidez, de distanciação e um absurdo secretismo da sua vida privada, não olvidando que era uma figura publica.
                À conta disso deixou que se criassem hiatos na sua vida de militante na clandestinidade, no seu passado de ministro e depois da sua exageradamente longa de mais alto magistrado da Nação.
                Não dar entrevistas a jornalistas angolanos, não partilhar os seus gostos musicais, literários, gastronómicos, o não exteriorizar emoções, o dar um formalismo exagerado às suas ausências por motivos privados fez com que a “mujimbuíce” reinasse e a especulação fosse corroendo a sua esfíngica figura.
                José Eduardo dos Santos recebe um legado complicado de Agostinho Neto. O País começava a confrontar-se com uma presença de uma guerrilha por parte da UNITA cada vez mais atuante, e sem que no quadro interno se resolvessem as questões politicas inerentes ao 27 de Maio de 1977, à OCA, Revolta Ativa e outros grupos que estavam com a liberdade cerceada. JES libertou todos, sem que, contudo, fizesse o que teria sido importante, que seria um movimento de catarse política, que poderia vir a servir de exemplo para o futuro político do País que se desejava mais coerente.
                A crise petrolífera no dealbar dos anos 80, aliada ao recrudescimento da guerrilha criou uma situação dramática para grande parte da população, e aí JES conseguiu ir esbatendo o embrião do marxismo-leninismo para a procura de um modelo económico e político mais adequado à realidade do País. A sua postura foi coerente e ia-se afirmando como estadista em termos internos e externos.
                É a figura visível da independência da Namíbia e um dos que terão contribuído decisivamente para o fim do apartheid na África do Sul, sem que internamente resolvesse a questão da eternizada luta contra a UNITA.  Aceita negociar um acordo de paz (Bicesse) e abre Angola ao multipartidarismo.
                Numas eleições precipitadas, por exigências de uma comunidade internacional a lamber feridas da guerra fria, deixa em suspenso uma segunda volta por falta de comparência de Jonas Savimbi. JES tem dificuldades acrescidas para resolver o conflito interno, fruto da exiguidade de recursos e a cada vez maior dificuldade em recorrer a antigos aliados, a braços com os problemas do desmembramento da URSS.
                Liberaliza a economia, e aqui terá surgido a fase primária do que se veio a transformar o seu tempo de governação no futuro, com a utilização indevida por parte de seus próximos da coisa publica, e alguma da sua guarda-pretoriana a ficar com apetecíveis recursos do estado.
                Em 2004 com a Paz finalmente encontrada, JES comete o início do seu hara-kiri político ao continuar na chefia do Estado e do MPLA. Mal aconselhado, mal rodeado e com um circulo de usurários a cercarem-no, alguns deles do seu clã familiar, deixou-se enlear numa teia de compromissos, que fazem empalidecer de vez todo um passado de relevo patriótico.
                JES passou a ser refém do conjunto de interesses que se transferiram do Futungo para a Cidade Alta, e em certos casos era vexatória a impunidade com que os seus próximos iam fazendo negócios e negociatas, enquanto o País deixava perder mais uma oportunidade num tempo em que o petróleo atingiu valores impensáveis no mercado internacional.
                Não deixo de separar o José Eduardo dos Santos que entusiasticamente apoiei em 1992, e que defendi com algum enlevo no início do século, do outro que hoje vai assistindo, provavelmente taciturno, a um tempo novo em que se vai ter que reconstruir o que ele ajudou a destruir para proteger família e alguns homens de mão.
                Confesso que sinto alguma tristeza em ver o JES transformado numa figura shakesperiana do tipo do “Imperador” de Ryszard Kapuściński , livro que relata a fase final do Haile Selassie, mas simultaneamente continuo a dizer que tive muito orgulho em tê-lo como Presidente da Republica do meu País, o que não deixa de ser paradoxal.
                Porque vai abandonar a liderança do MPLA é bom que se diga o que se pensa hoje, porque o futuro próximo será de lhe atirar todas as culpas de quase tudo, mas que num futuro mais longínquo talvez venha “alguém que de mim bom fará”!

Fernando Pereira
4/9/2018


3 de agosto de 2018

Pela boca morre o peixe! / Novo Jornal / Luanda 3-8-2018




Pela boca morre o peixe!
No nosso quotidiano é frequente confrontarmo-nos com o apelo à genuinidade das coisas angolanas, em discussões muitas vezes a raiar o racismo primário e invariavelmente a roçar a falta de educação.
Sempre partilhei que o orgulho na angolanidade deve ser preservado, quiçá motivado, e as suas manifestações tem que ser uma afirmação plena de ser e estar na África, que partilhamos numa economia global onde estamos inseridos. 
A Angola independente tem bastantes motivos para se orgulhar, e para que conste eu faço parte dos 18% da população que já era adulta quando do advento da independência, por isso sei bem do que falo. Contudo é necessário por vezes não nos excedermos na soberba, sob pena do nosso comportamento na defesa de determinados pontos de vista se confundir com o inconsequente e banalizado estatuto do malformado e do mal-educado.
Num mundo de globalização (Álvaro Cunhal, dirigente histórico do PCP, dizia que sempre conheceu isso pelo nome de imperialismo) que se tem perpetuado desde tempos imorredoiros, fomos assistindo a uma diluição de hábitos, modos de estar, conhecimentos e práticas que são absorvidas, às vezes com doses cavalares de xenofilia, e em tantas circunstancias involuntariamente, ou talvez não, embrulhadas numa retórica xenófoba e de ideias enclausuradas.
Vamos, mas é à comida antes que arrefeça. Durante muitos anos foi-se cimentando a ideia que a muamba era um prato tipicamente africano. Uma inverdade. O milho e a mandioca foram trazidos para África pelos portugueses, que os espanhóis levaram para a Europa trazida da América do Sul. Não havia tradição em África do guisado, e o português colocado nos trópicos por vários motivos, sentiu necessidade de substituir o azeite doce e começou a tentar fazer com o óleo de dendém as iguarias que fazia na sua terra, daí ter surgido um prato que honra a cozinha angolana. O Muzungué e todos os pratos que levem óleo de palma tem uma componente de comida europeia e sul-americana.
O feijão e os tomates foram do México para a Europa, assim como o coqueiro, o mamoeiro, a mangueira e o cajueiro vieram da India, isto a título de exemplo. O arroz veio do extremo-oriente, e a batata foi introduzida pelos espanhóis na Europa proveniente da América do Sul, tendo sido o alimento mais importante colocado na cadeia alimentar pois evitou as cíclicas e pouco espaçadas crises de fome na Europa. O milho trazido da América foi também decisivo para que a fome na Europa fosse minorada!
A bananeira foi trazida pelos portugueses do oriente e disseminada por toda a costa, assim como a cana sacarina. O alho, a cebola fazia parte do bornal do português em todo o lado, que se iniciando a sua plantação nas hortas que iam fazendo um pouco por toda Angola.
Isto pode parecer um pouco paradoxal, mas de facto angolano mesmo era o café, o safú, a fruta-pão, a cola, o quiabo, o tamarindo, a pitanga, o maracujá gigante e a malagueta. O abacaxi, a anona, a jinguba, a jaca e o pimento foram introduzidos pelos portugueses, uns vindo do oriente, outros da América do Sul. A própria goiabeira é um produto da Índia. Em relação ao cacau, foi implantado sem grande sucesso em Cabinda trazido da bacia do Amazonas
Em África não há tradição de doçaria, nem tampouco os ovos fazem parte da dieta; as galinhas produzem ovos, mas servem apenas para a reprodução.
A doçaria assentou o seu nascimento nos conventos, e cingiu-se à Europa, porque só já na segunda metade do século XIX é que se instalaram em Angola congregações religiosas femininas, limitando-se a fazerem um trabalho assistencial ao nível dos hospitais ou casas de desvalidos. Os doces que enxameiam as pastelarias um pouco por todo o mundo são a maioria delas receitas saídas dos conventos, que as freiras e as noviças fabricavam e reinventavam para que fossem entregues á Igreja e esta pudesse vender de forma a conseguir proventos supletivos.
Só mesmo na Europa é que a doçaria se desenvolveu, e aqui incluem-se os licores, as compotas e as conservas de produtos diversos em vinagre de forma a poderem ser consumidos nos Invernos longos dessas paragens. No Brasil o desenvolvimento da doçaria tinha a ver com o preço baixíssimo do açúcar, o que motivou o aparecimento de uma panóplia de doces que se multiplicam por todo o lado.
A emblemática “caldeirada de cabrito à angolana” é só uma adaptação dos pratos alusivos à faina das colheitas no norte e centro de Portugal, que transportaram para Angola os produtos e os odores misturando-lhe o gindungo acompanhando-o com o marufo (ou malavo), quitota, quiçângua ou em tempos recuados com o hidromel.
No que à comida diz respeito sou mais na ótica do utilizador e não muito ligado a questões académicas, mas a verdade é que o sal e o gindungo ajudaram a manter o paladar, escondendo alguma podridão na carne que ia sofrendo a inclemência do calor tropical.
Quanto aos peixes como havia pouca tradição em Angola de pesca, os pratos de peixe já se circunscrevem à efetiva ocupação colonial. As poucas colónias de pescadores que existiam eram até de alguma forma relegadas para um plano secundário na hierarquia produtiva dos reinantes antes da implantação dos portugueses. A estafada frase de “peixe não puxa carroça” adapta-se na perfeição ao que acontecia no consumo do peixe em Angola, porque não dava a força necessária para o trabalho braçal.
Como se pode ver, nesta pequena amostra foram os marinheiros portugueses e espanhóis que promoveram esta mistura de sabores e odores, e por isso a genuinidade das cozinhas é sempre muito discutível porque o que houve foi adaptações fruto das circunstancias e das exigências dos mercados locais ou alargados.
Assunto bem interessante este!!!

Fernando Pereira
23/07/2018


13 de julho de 2018

Crepúsculo do Mundial! / Novo Jornal / Luanda 13-7-2018





Crepúsculo do Mundial!

Até ver, e estou a escrever este artigo antes das meias-finais, este Mundial de 2018 na Rússia tem sido um verdadeiro êxito a todos os níveis.
                A organização tem sido competente, e conseguiu transformar o Mundial numa clara mostra de uma Rússia que se pretende modernizada e uma potencia no contexto das economias mais desenvolvidas do mundo.
                Senti nos dias que estive na Rússia, que este Mundial era uma afirmação de vontade por parte de todos de recolocar o País num enquadramento inovador num quadro de respeitabilidade, e de certa forma fazer esquecer o envolvimento na Síria, as relações tensas com a Ucrânia e a ocupação da Crimeia, para além de outras “novelas” muitas vezes artificiais, empoladas inevitavelmente por interesses de grupos económicos.
                O próprio campeonato tem sido marcado por ausência de violência, fora ou dentro do campo (a título de exemplo há até agora quatro cartões vermelhos exibidos, dois deles por acumulação de amarelos e outros dois para evitar ilegalmente golo eminente do adversário). O jogo tem tido pouca espetacularidade, isso tem a ver sobretudo com as táticas do futebol moderno, mas convenhamos que a incerteza do resultado na maior parte dos jogos, a ausência de favoritos depois de uma primeira fase em que vimos poucas equipas a sobressair, tem trazido a este campeonato uma matriz completamente diferente do que temos assistido nos anteriores.
                Não consigo perceber se os russos se entusiasmam com o campeonato, mas de facto assistimos em todo o lado a uma envolvência discreta por parte dos locais, que não sendo particularmente exuberantes conseguem ser simpáticos e atenciosos mesmo com as dificuldades inerentes á falta de articulação entre alfabetos, e onde apenas uns poucos falam inglês.
                Não acho que seja coincidência, mas nos jogos em que jogou Portugal e o Brasil em Moscovo o “speaker” de português nos altifalantes do estádio tinha um sotaque angolano bem pronunciado, facto que não deixa de ser particularmente interessante.
                Voltando ao futebol, receio que cada vez se vá assistindo mais à degradação do espetáculo, pois tornou-se muito tático e poucos ousam arriscar. Privilegia-se a defesa, na base de que o 0-0 está garantido, e o golo logo aparecerá. As estatísticas confirmam até agora que a maioria dos golos são de bola parada, ou resultado de lances do tipo; os que são de bola corrida normalmente resultam de contra-ataque.
Perde-se o futebol espetáculo e ganha o pragmatismo e o cinismo no jogo. Com toda a envolvência económica em volta do futebol, a continuar assim as pessoas terão tendência a afastar-se e a industria ressentir-se-á se, entretanto não se alterarem algumas regras que condicionam o jogo. Começa a haver um cada vez maior numero de vozes a rejeitar o “futebol-Valium”, e a pedir novas medidas para privilegiar o futebol de ataque.
A Liga Inglesa é a que mais dinheiro e espectadores movimenta em todo o mundo e consegue-o fruto da sua organização é claro, mas sobretudo pela excelência do espetáculo que são os seus jogos. Essa referencia tem que ser replicada para os campeonatos entre seleções, pois são importantes para que a atratividade do futebol tenha uma cada vez maior adesão, e que através do futebol se consigam incutir valores importantes como o respeito pela diferença, o antirracismo e a anti xenofobia.
O futebol é uma indústria, mas acima de tudo é um lugar de solidariedade e de afirmação de uma vontade coletiva em torno de algo que noutras circunstancias eram de difícil mobilização, como por exemplo a identidade de nação.
Nem sempre foi assim e o caso mais grave, entre os muitos conhecidos, aconteceu numa guerra entre El Salvador e Honduras, por causa do apuramento para a Copa do Mundo de 1970. Foi a “guerra das 100 horas” e correu entre 14 e 18 de Julho de 1969. A guerra começou depois de um corte de relações entre os dois países, que durante as eliminatórias em jogos disputados houve de tudo quer em El Salvador, quer em Tegucigalpa. Perseguições, atentados, violações e mortes acenderam o rastilho que só a intervenção da OEA impediu que assumisse maiores proporções, apesar da morte de 2100 pessoas nos confrontos de uma guerra declarada.
O Mundial 2018 aproxima-se do fim, mas se assim continuar tudo, independentemente do vencedor, a Rússia merece os parabéns por uma organização de que muitos temiam o pior.

Fernando Pereira
10/7/2018





8 de julho de 2018

O Jogo Poético.- Jornal de Angola- Luanda 3/7/2018



O meu artigo no "Jornal de Angola" no dia 3 de Julho de 2018


O Jogo Poético.

“Jogamos tal como vivemos, somos como jogamos e o futebol é o jogo que escolhemos. Onde há uma bola está envolvido até à alma o projeto de um homem. Crianças que correm e a mesma aparência sugere-nos uma realidade diferente. Nalguns sítios, a bola parece uma barriguita inchada pela fome. Noutros um mundo que é possível dominar. Jogam com bolas que só para eles parecem bolas e chocam ou esquivam-se, riem ou chateiam-se, e tudo serve para irem ajustando o seu delicado sistema de comunicação.
O futebol a todos confere direitos: a egoístas ou generosos, valentes ou cobardes, exibicionistas, lestos ou violentos.”
Recolho este excerto de um texto de Jorge Valdano, campeão do mundo pela Argentina, um dos eleitos que ao longo dos anos melhor tem traduzido o futebol fora do contexto das “comentarices”, dos muitos que vaticinam perentórios o que se vai passar durante o jogo, e que depois acabam por dar o dito por não dito quando fazem a avaliação no final.
Um dos mundiais com o final mais dramático de sempre foi o de 1950, quando o Uruguai bateu o Brasil no Maracanã, perante a incredulidade e a tristeza povoada de uma mole imensa de 200.000 brasileiros, expressão local de um choro coletivo de uma nação que organizou um campeonato do Mundo para o vencer, sem sequer pensar que a derrota em futebol, como na vida, é um resultado possível.
Cada país, cada cultura, tem a sua maneira de integrar o negro ou, dito de outra maneira, o modo como o negro se impôs, no caso brasileiro, no futebol, superando barreiras sociais e raciais.
Como noutros países o futebol chegou ao Brasil levado por ingleses a trabalhar em fábricas como a Companhia Progresso Industrial do Brasil, cujo mestre de estamparia, John Stark, fundou o The Bangu Athletic Club: sete eram ingleses, um italiano e só um brasileiro, branco. O futebol começou desporto de elites e só mais tarde se popularizou. No Brasil, a implantação do profissionalismo na década de trinta “abriu as portas dos grandes clubes para jogadores profissionais negros, mulatos e de origem humilde”.
O “desastre de 16 de Julho” de 1950, com o Maracanã em festa antecipada para a final com o Uruguai, levou o Brasil a profunda depressão, encontrando nos negros, Barbosa – guarda-redes cuja imagem, depois do golo de Gighia, é a personificação da derrota – Juvenal e Bigode. “Culpou-se o preto pela derrota, melhor os três pretos. Os brancos, diz Mário Filho (“cujo nome, merecidamente, crismou o monumental estádio construído no bairro do Maracanã, Rio de Janeiro, para a Copa do Mundo de 1950”) não foram acusados de nada”.
Barbosa até à sua morte, ocorrida há meia dúzia de anos, suportou sempre esse “fardo” da pior humilhação que o Brasil terá tido, até que a Alemanha lhe conseguisse dar algum descanso quando no Mundial de 2014 deu 7-1 a uma seleção sem brilho orientada por um tipo de extrema-direita, Filipe Scolari. Barbosa para perpetuar a sua tristeza imensa comprou o poste e as traves da baliza onde sofreu o fatídico golo de Gigghia e com essa madeira mandou fazer uma cruz, símbolo do seu martírio.
Em 1954 o Brasil foi derrotado pela Hungria de Puskas, Kocsis e Czibor com uma equipa que integrava dois grandes jogadores negros, Djalma Santos e Didi.
No Campeonato do Mundo de 58, o selecionador Vicente Feolla “escalava” o branco preterindo o negro. O capitão Bellini, branco, loiro, ficou para a história pelo gesto de levantar o “caneco” acima da cabeça, para que todos a pudessem ver; Garrincha, mulato, só entrou depois de pressão do mestre Didi. Com Pelé, Garrincha na direita, mais o “centro-avante” Vavá e o ponta-esquerda Zagalo, o Brasil derrotou a URSS e partiu para a conquista do título. Um mulato e um preto tronaram-se os ídolos da conquista do 1º campeonato do mundo para o Brasil
Este texto tem pouco a ver com o Mundial da Rússia, mas tem com a história dos Mundiais, que começaram em 1930, na capicua dos 88 anos!
Fernando Pereira
1/7/2018




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