3 de agosto de 2018

Pela boca morre o peixe! / Novo Jornal / Luanda 3-8-2018




Pela boca morre o peixe!
No nosso quotidiano é frequente confrontarmo-nos com o apelo à genuinidade das coisas angolanas, em discussões muitas vezes a raiar o racismo primário e invariavelmente a roçar a falta de educação.
Sempre partilhei que o orgulho na angolanidade deve ser preservado, quiçá motivado, e as suas manifestações tem que ser uma afirmação plena de ser e estar na África, que partilhamos numa economia global onde estamos inseridos. 
A Angola independente tem bastantes motivos para se orgulhar, e para que conste eu faço parte dos 18% da população que já era adulta quando do advento da independência, por isso sei bem do que falo. Contudo é necessário por vezes não nos excedermos na soberba, sob pena do nosso comportamento na defesa de determinados pontos de vista se confundir com o inconsequente e banalizado estatuto do malformado e do mal-educado.
Num mundo de globalização (Álvaro Cunhal, dirigente histórico do PCP, dizia que sempre conheceu isso pelo nome de imperialismo) que se tem perpetuado desde tempos imorredoiros, fomos assistindo a uma diluição de hábitos, modos de estar, conhecimentos e práticas que são absorvidas, às vezes com doses cavalares de xenofilia, e em tantas circunstancias involuntariamente, ou talvez não, embrulhadas numa retórica xenófoba e de ideias enclausuradas.
Vamos, mas é à comida antes que arrefeça. Durante muitos anos foi-se cimentando a ideia que a muamba era um prato tipicamente africano. Uma inverdade. O milho e a mandioca foram trazidos para África pelos portugueses, que os espanhóis levaram para a Europa trazida da América do Sul. Não havia tradição em África do guisado, e o português colocado nos trópicos por vários motivos, sentiu necessidade de substituir o azeite doce e começou a tentar fazer com o óleo de dendém as iguarias que fazia na sua terra, daí ter surgido um prato que honra a cozinha angolana. O Muzungué e todos os pratos que levem óleo de palma tem uma componente de comida europeia e sul-americana.
O feijão e os tomates foram do México para a Europa, assim como o coqueiro, o mamoeiro, a mangueira e o cajueiro vieram da India, isto a título de exemplo. O arroz veio do extremo-oriente, e a batata foi introduzida pelos espanhóis na Europa proveniente da América do Sul, tendo sido o alimento mais importante colocado na cadeia alimentar pois evitou as cíclicas e pouco espaçadas crises de fome na Europa. O milho trazido da América foi também decisivo para que a fome na Europa fosse minorada!
A bananeira foi trazida pelos portugueses do oriente e disseminada por toda a costa, assim como a cana sacarina. O alho, a cebola fazia parte do bornal do português em todo o lado, que se iniciando a sua plantação nas hortas que iam fazendo um pouco por toda Angola.
Isto pode parecer um pouco paradoxal, mas de facto angolano mesmo era o café, o safú, a fruta-pão, a cola, o quiabo, o tamarindo, a pitanga, o maracujá gigante e a malagueta. O abacaxi, a anona, a jinguba, a jaca e o pimento foram introduzidos pelos portugueses, uns vindo do oriente, outros da América do Sul. A própria goiabeira é um produto da Índia. Em relação ao cacau, foi implantado sem grande sucesso em Cabinda trazido da bacia do Amazonas
Em África não há tradição de doçaria, nem tampouco os ovos fazem parte da dieta; as galinhas produzem ovos, mas servem apenas para a reprodução.
A doçaria assentou o seu nascimento nos conventos, e cingiu-se à Europa, porque só já na segunda metade do século XIX é que se instalaram em Angola congregações religiosas femininas, limitando-se a fazerem um trabalho assistencial ao nível dos hospitais ou casas de desvalidos. Os doces que enxameiam as pastelarias um pouco por todo o mundo são a maioria delas receitas saídas dos conventos, que as freiras e as noviças fabricavam e reinventavam para que fossem entregues á Igreja e esta pudesse vender de forma a conseguir proventos supletivos.
Só mesmo na Europa é que a doçaria se desenvolveu, e aqui incluem-se os licores, as compotas e as conservas de produtos diversos em vinagre de forma a poderem ser consumidos nos Invernos longos dessas paragens. No Brasil o desenvolvimento da doçaria tinha a ver com o preço baixíssimo do açúcar, o que motivou o aparecimento de uma panóplia de doces que se multiplicam por todo o lado.
A emblemática “caldeirada de cabrito à angolana” é só uma adaptação dos pratos alusivos à faina das colheitas no norte e centro de Portugal, que transportaram para Angola os produtos e os odores misturando-lhe o gindungo acompanhando-o com o marufo (ou malavo), quitota, quiçângua ou em tempos recuados com o hidromel.
No que à comida diz respeito sou mais na ótica do utilizador e não muito ligado a questões académicas, mas a verdade é que o sal e o gindungo ajudaram a manter o paladar, escondendo alguma podridão na carne que ia sofrendo a inclemência do calor tropical.
Quanto aos peixes como havia pouca tradição em Angola de pesca, os pratos de peixe já se circunscrevem à efetiva ocupação colonial. As poucas colónias de pescadores que existiam eram até de alguma forma relegadas para um plano secundário na hierarquia produtiva dos reinantes antes da implantação dos portugueses. A estafada frase de “peixe não puxa carroça” adapta-se na perfeição ao que acontecia no consumo do peixe em Angola, porque não dava a força necessária para o trabalho braçal.
Como se pode ver, nesta pequena amostra foram os marinheiros portugueses e espanhóis que promoveram esta mistura de sabores e odores, e por isso a genuinidade das cozinhas é sempre muito discutível porque o que houve foi adaptações fruto das circunstancias e das exigências dos mercados locais ou alargados.
Assunto bem interessante este!!!

Fernando Pereira
23/07/2018


13 de julho de 2018

Crepúsculo do Mundial! / Novo Jornal / Luanda 13-7-2018





Crepúsculo do Mundial!

Até ver, e estou a escrever este artigo antes das meias-finais, este Mundial de 2018 na Rússia tem sido um verdadeiro êxito a todos os níveis.
                A organização tem sido competente, e conseguiu transformar o Mundial numa clara mostra de uma Rússia que se pretende modernizada e uma potencia no contexto das economias mais desenvolvidas do mundo.
                Senti nos dias que estive na Rússia, que este Mundial era uma afirmação de vontade por parte de todos de recolocar o País num enquadramento inovador num quadro de respeitabilidade, e de certa forma fazer esquecer o envolvimento na Síria, as relações tensas com a Ucrânia e a ocupação da Crimeia, para além de outras “novelas” muitas vezes artificiais, empoladas inevitavelmente por interesses de grupos económicos.
                O próprio campeonato tem sido marcado por ausência de violência, fora ou dentro do campo (a título de exemplo há até agora quatro cartões vermelhos exibidos, dois deles por acumulação de amarelos e outros dois para evitar ilegalmente golo eminente do adversário). O jogo tem tido pouca espetacularidade, isso tem a ver sobretudo com as táticas do futebol moderno, mas convenhamos que a incerteza do resultado na maior parte dos jogos, a ausência de favoritos depois de uma primeira fase em que vimos poucas equipas a sobressair, tem trazido a este campeonato uma matriz completamente diferente do que temos assistido nos anteriores.
                Não consigo perceber se os russos se entusiasmam com o campeonato, mas de facto assistimos em todo o lado a uma envolvência discreta por parte dos locais, que não sendo particularmente exuberantes conseguem ser simpáticos e atenciosos mesmo com as dificuldades inerentes á falta de articulação entre alfabetos, e onde apenas uns poucos falam inglês.
                Não acho que seja coincidência, mas nos jogos em que jogou Portugal e o Brasil em Moscovo o “speaker” de português nos altifalantes do estádio tinha um sotaque angolano bem pronunciado, facto que não deixa de ser particularmente interessante.
                Voltando ao futebol, receio que cada vez se vá assistindo mais à degradação do espetáculo, pois tornou-se muito tático e poucos ousam arriscar. Privilegia-se a defesa, na base de que o 0-0 está garantido, e o golo logo aparecerá. As estatísticas confirmam até agora que a maioria dos golos são de bola parada, ou resultado de lances do tipo; os que são de bola corrida normalmente resultam de contra-ataque.
Perde-se o futebol espetáculo e ganha o pragmatismo e o cinismo no jogo. Com toda a envolvência económica em volta do futebol, a continuar assim as pessoas terão tendência a afastar-se e a industria ressentir-se-á se, entretanto não se alterarem algumas regras que condicionam o jogo. Começa a haver um cada vez maior numero de vozes a rejeitar o “futebol-Valium”, e a pedir novas medidas para privilegiar o futebol de ataque.
A Liga Inglesa é a que mais dinheiro e espectadores movimenta em todo o mundo e consegue-o fruto da sua organização é claro, mas sobretudo pela excelência do espetáculo que são os seus jogos. Essa referencia tem que ser replicada para os campeonatos entre seleções, pois são importantes para que a atratividade do futebol tenha uma cada vez maior adesão, e que através do futebol se consigam incutir valores importantes como o respeito pela diferença, o antirracismo e a anti xenofobia.
O futebol é uma indústria, mas acima de tudo é um lugar de solidariedade e de afirmação de uma vontade coletiva em torno de algo que noutras circunstancias eram de difícil mobilização, como por exemplo a identidade de nação.
Nem sempre foi assim e o caso mais grave, entre os muitos conhecidos, aconteceu numa guerra entre El Salvador e Honduras, por causa do apuramento para a Copa do Mundo de 1970. Foi a “guerra das 100 horas” e correu entre 14 e 18 de Julho de 1969. A guerra começou depois de um corte de relações entre os dois países, que durante as eliminatórias em jogos disputados houve de tudo quer em El Salvador, quer em Tegucigalpa. Perseguições, atentados, violações e mortes acenderam o rastilho que só a intervenção da OEA impediu que assumisse maiores proporções, apesar da morte de 2100 pessoas nos confrontos de uma guerra declarada.
O Mundial 2018 aproxima-se do fim, mas se assim continuar tudo, independentemente do vencedor, a Rússia merece os parabéns por uma organização de que muitos temiam o pior.

Fernando Pereira
10/7/2018





8 de julho de 2018

O Jogo Poético.- Jornal de Angola- Luanda 3/7/2018



O meu artigo no "Jornal de Angola" no dia 3 de Julho de 2018


O Jogo Poético.

“Jogamos tal como vivemos, somos como jogamos e o futebol é o jogo que escolhemos. Onde há uma bola está envolvido até à alma o projeto de um homem. Crianças que correm e a mesma aparência sugere-nos uma realidade diferente. Nalguns sítios, a bola parece uma barriguita inchada pela fome. Noutros um mundo que é possível dominar. Jogam com bolas que só para eles parecem bolas e chocam ou esquivam-se, riem ou chateiam-se, e tudo serve para irem ajustando o seu delicado sistema de comunicação.
O futebol a todos confere direitos: a egoístas ou generosos, valentes ou cobardes, exibicionistas, lestos ou violentos.”
Recolho este excerto de um texto de Jorge Valdano, campeão do mundo pela Argentina, um dos eleitos que ao longo dos anos melhor tem traduzido o futebol fora do contexto das “comentarices”, dos muitos que vaticinam perentórios o que se vai passar durante o jogo, e que depois acabam por dar o dito por não dito quando fazem a avaliação no final.
Um dos mundiais com o final mais dramático de sempre foi o de 1950, quando o Uruguai bateu o Brasil no Maracanã, perante a incredulidade e a tristeza povoada de uma mole imensa de 200.000 brasileiros, expressão local de um choro coletivo de uma nação que organizou um campeonato do Mundo para o vencer, sem sequer pensar que a derrota em futebol, como na vida, é um resultado possível.
Cada país, cada cultura, tem a sua maneira de integrar o negro ou, dito de outra maneira, o modo como o negro se impôs, no caso brasileiro, no futebol, superando barreiras sociais e raciais.
Como noutros países o futebol chegou ao Brasil levado por ingleses a trabalhar em fábricas como a Companhia Progresso Industrial do Brasil, cujo mestre de estamparia, John Stark, fundou o The Bangu Athletic Club: sete eram ingleses, um italiano e só um brasileiro, branco. O futebol começou desporto de elites e só mais tarde se popularizou. No Brasil, a implantação do profissionalismo na década de trinta “abriu as portas dos grandes clubes para jogadores profissionais negros, mulatos e de origem humilde”.
O “desastre de 16 de Julho” de 1950, com o Maracanã em festa antecipada para a final com o Uruguai, levou o Brasil a profunda depressão, encontrando nos negros, Barbosa – guarda-redes cuja imagem, depois do golo de Gighia, é a personificação da derrota – Juvenal e Bigode. “Culpou-se o preto pela derrota, melhor os três pretos. Os brancos, diz Mário Filho (“cujo nome, merecidamente, crismou o monumental estádio construído no bairro do Maracanã, Rio de Janeiro, para a Copa do Mundo de 1950”) não foram acusados de nada”.
Barbosa até à sua morte, ocorrida há meia dúzia de anos, suportou sempre esse “fardo” da pior humilhação que o Brasil terá tido, até que a Alemanha lhe conseguisse dar algum descanso quando no Mundial de 2014 deu 7-1 a uma seleção sem brilho orientada por um tipo de extrema-direita, Filipe Scolari. Barbosa para perpetuar a sua tristeza imensa comprou o poste e as traves da baliza onde sofreu o fatídico golo de Gigghia e com essa madeira mandou fazer uma cruz, símbolo do seu martírio.
Em 1954 o Brasil foi derrotado pela Hungria de Puskas, Kocsis e Czibor com uma equipa que integrava dois grandes jogadores negros, Djalma Santos e Didi.
No Campeonato do Mundo de 58, o selecionador Vicente Feolla “escalava” o branco preterindo o negro. O capitão Bellini, branco, loiro, ficou para a história pelo gesto de levantar o “caneco” acima da cabeça, para que todos a pudessem ver; Garrincha, mulato, só entrou depois de pressão do mestre Didi. Com Pelé, Garrincha na direita, mais o “centro-avante” Vavá e o ponta-esquerda Zagalo, o Brasil derrotou a URSS e partiu para a conquista do título. Um mulato e um preto tronaram-se os ídolos da conquista do 1º campeonato do mundo para o Brasil
Este texto tem pouco a ver com o Mundial da Rússia, mas tem com a história dos Mundiais, que começaram em 1930, na capicua dos 88 anos!
Fernando Pereira
1/7/2018




29 de junho de 2018

Moscovo não acredita em lágrimas! / Novo Jornal / Luanda 30/6/2018








Moscovo não acredita em lágrimas!

Utilizo o título do filme de VLADIMIR MENSHOV, que em 1980 recebeu o óscar de melhor filme estrangeiro na Academia de Hollywood, para ilustrar a minha análise da primeira fase do Campeonato do Mundo de futebol que se está a realizar na Rússia.
Esta foi a minha primeira vez em Moscovo, depois de alguns ensaios falhados num tempo em que se multiplicavam as visitas de “Amizade, Partido e Estado” onde se estabeleciam acordos de cooperação e de onde vinham as ideias peregrinas de um “socialismo científico”, que alguns debitavam no quotidiano, nos movimentos de retificação, e que hoje se tornaram paladinos da iniciativa privada, dos mercados e da produção de mais-valias na liberdade feita à medida! Houve até alguns que já o afirmaram publicamente que “foi assim porque era moda”!
Enquanto fui percorrendo Moscovo, veio-me à lembrança o filme que foi uma das primeiras manifestações tímidas de rotura com o burocrático sistema soviético estabelecido por Estaline e depois mantido de forma quase imobilizada pelos Secretários Gerais do PCUS, até aparecer o SG da Mancha Gorbatchov, que talvez nunca tivesse percebido que quando se mexesse muito a coisa implodiria num curto espaço de tempo e voltava a velha lei da desordem do mercado a impor-se.  Foi isso que acabou por acontecer!
Vi uma cidade organizada e com uma amalgama de gente de todo o mundo a fazer do Mundial a grande festa! Os russos receberam-nos em êxtase, cordiais e abertos, longe da sisudez com que por vezes nos confrontávamos com eles em Angola, no tempo em que eram os nossos parceiros privilegiados da cooperação.
 Veio-me à memória a frase de Albert Camus, Prémio Nobel da literatura 1957, antigo guarda-redes dum modesto clube de Argel: Tudo quanto sei com maior certeza sobre a moral e as obrigações dos homens devo-o ao futebol.”  e “Aprendi que a bola nunca vem por onde se espera que venha. Isso me ajudou muito na vida, principalmente nas grandes cidades, onde as pessoas não costumam ser aquilo que a gente acha que são as pessoas direitas”.
Domingo à tarde via o Alemanha/México e uma 1ª parte que foi um prazer para os que gostam de futebol. Duas culturas refletindo mentalidades diferentes na interpretação do jogo, imaginativo, habilidoso, tecnicista o mexicano contrabalançando o maior poder físico alemão, futebol mais prático e retilíneo. Veio-me à memória, John Reed, norte americano, jornalista do The American Journal, ficou conhecido pelo relato da Revolução Russa de 1917 em Dez dias que abalaram o mundo, “onde teve a consciência da importância daqueles dias onde colegas seus viram simples lutas entre partidos russos”.
J. Reed foi um correspondente de guerra no México, em revolta desde 1911, “sobrevivendo sempre no interior das forças hostis; aprendeu o ofício de escritor, escrevendo no decurso da sua aventura humanista, consequência do seu ideário socialista que sempre abraçou”. Esteve cinco meses no México apoiando as ideias de Pancho Villa, famoso revolucionário mexicano. “México Insurrecto” é um relato da Revolução Mexicana “a primeira grande revolução do século 20, que transformou radicalmente, após tantos anos de repressão, as estruturas políticas e socioeconómicas do país.”
Mas voltemos ao jogo e na 2ª parte o México soçobrou, mas o guarda-redes mexicano deixou incólumes a sua baliza para desespero dos teutónicos e não dar razão ao chavão: “No futebol jogam onze contra onze e no fim ganha a Alemanha”
Fui ao reformado estádio Luzhniki, ex-Lenine, onde lá está a estátua do próprio entre as bancas da Coca-Cola, Quatar Airlines, Gasprom, Mac Donalds, Visa e outros ícones do capitalismo global.
A organização e a segurança são perfeitas e o ambiente para o Portugal- Marrocos era uma festa, embora os marroquinos sejam em muito maior numero que os portugueses e outros lusófonos que aqui vieram apoiar a seleção de Portugal. O jogo foi fraco e ganhou quem menos mereceu. Portugal marcou o golo da vitória pelo inevitável Cristiano Ronaldo e limitou-se a gerir da forma menos suportável para todos os que queríamos ver um pouco de futebol.
Valeu o ambiente de festa, Moscovo receber-nos de braços abertos e com uma temperatura excelente.
Na Fan Zone instalada nas cercanias da monumental Universidade de Moscovo, uma das muitas marcas estalinistas da cidade, a festa começou cedo com muita musica, futebol, folclore e o ambiente que deve prevalecer nestes eventos.
Depois do jogo muitos deslocavam-se para a Praça Vermelha, paredes meias com o Kremlim, onde tudo ia continuando pela tarde dentro, já que no início do Verão a noite era de 4 horas.
Há, contudo, algo estranho relativo a outros campeonatos que tenho assistido, e nota-se a falta dos ruidosos adeptos italianos, as massas alaranjadas holandesas e por razões que nada tem a ver com o futebol a ausência dos ingleses, que aceitaram a recomendação da primeira-ministra para não irem ao Mundial. Reduziu o colorido do Mundial, mas até ao momento o que tenho assistido é uma imagem de uma renovada Rússia que se perfila para voltar a ser uma potencia emergente não tanto por uma ideia de força, mas pelas ideias que serão força, no domínio da ciência, da produção e da harmonia social.
A Rússia enfrenta desafios, mas herdou do socialismo algo de irrefutável, mesmo para os detratores militantes, e tem a ver sobretudo com a formação académica dos seus cidadãos o que vai permitir adequar os desafios a essa confortável realidade de ter gente habilitada.
Voltaremos a isto porque falar de futebol também tem estas coisas!


Fernando Pereira  
25/6/2018

15 de junho de 2018

Quase Memória! / Novo Jornal / Luanda 15-6-2018





Quase Memória!
Assistir a um Campeonato do Mundo depois de ter visto um Brasil-Itália no Mundial de Espanha de 1982, é um esforço que só o futebol enquanto movimento de massas consegue mobilizar-me para acompanhar sem grande entusiasmo.
                Esse jogo marcou o fim do futebol romântico, em que um Brasil com uma seleção de eleitos, jogando de forma prazenteira e com um nível de execução admirável acabou por perder o jogo decisivo contra uma Itálica cínica e pragmática, conquistando o campeonato do mundo.
                Coletivamente foi a melhor seleção que vi a jogar à bola, esse Brasil de Falcão, Sócrates, Júnior, Zico, etc. e por mais futebol que veja desconsigo ver noutros a beleza do futebol desse Brasil de 1982.
            Como já sou novo há muitos anos, ainda me lembro de ver jogar Pelé em dois Mundiais, no de 1966 onde agravou uma lesão, e em 1970 no México onde a seleção do Brasil passeou a sua classe aliando a suprema técnica e habilidade de de Pelé aos talentosos Carlos Alberto, Gerson, Tostão, Rivelino, Jairzinho, Clodoaldo e outros. Pierre Paolo Passolini, o cineasta e poeta italiano, precocemente desaparecido de forma trágica, escreveu sobre a final que o Brasil venceu a Itália por 4-1: “O futebol de prosa é o do chamado sistema (o futebol europeu). Nesse esquema, o golo é confiado à conclusão, possivelmente por um “poeta realista” como Riva, mas deve derivar de uma organização de jogo coletivo, fundado por uma série de passagens “geométricas”, executadas segundo as regras do código (nisso Rivera é perfeito, apesar de Brera não gostar, porque se trata de uma perfeição meio estetizante, não-realista, como a dos meio-campistas ingleses ou alemães).
O futebol de poesia é o latino-americano. Esquema que, para ser realizado, demanda uma capacidade monstruosa de driblar (coisa que na Europa é esnobada em nome da “prosa coletiva”): nele, o gol pode ser inventado por qualquer um e de qualquer posição. Se o drible e o gol são o momento individualista-poético do futebol, o futebol brasileiro é, portanto, um futebol de poesia. Sem fazer distinção de valor, mas em sentido puramente técnico, no México [em 1970] a prosa estetizante italiana foi batida pela poesia brasileira.”
                O futebol é poesia e João Cabral de Melo Neto, poeta brasileiro fez ao futebol um poema que sintetiza a dimensão de algo que é mais que desporto: O Futebol brasileiro “A bola não é a inimiga/ como o touro, numa corrida;/e, embora seja um utensílio/caseiro e que se usa sem risco,/não é o utensílio impessoal,/sempre manso, de gesto usual:/é um utensílio semivivo,/de reações próprias como bicho/e que, como bicho, é mister/(mais que bicho, como mulher)/usar com malícia e atenção/dando aos pés astúcias de mão.”
                Johan Cruyff foi outro dos grandes jogadores que fui vendo espalhar perfume nos estádios de um Mundial. Para além da forma elegante como jogava, tudo fluía a preceito numa seleção que coletivamente era mesmo uma “laranja mecânica”! Cruyff que para além de um talento imenso enquanto profissional de futebol, era um homem de princípios e grande coerência na sua forma de usar a sua cidadania plena, e nesse contexto recusa liminarmente a ida à Argentina para o Mundial de 1978 para não caucionar os assassínios e prisões por parte dos militares que chefiavam a ditadura militar. A Argentina depois de muita violação do espírito desportivo venceu o Campeonato do Mundo, mas a grande estrela acabou por ser o ausente Cruyff.
                Em 1986 o Mundial volta ao México, por renuncia de uma Colômbia economicamente depauperada e com uma guerrilha interventiva. Aqui surge outra das lendas tangíveis do futebol mundial, Diego Maradona, que seis anos antes tinha deslumbrado o mundo do futebol quando a Argentina ganhou o campeonato do Mundo de Juniores em Tóquio. Foi um privilégio de todos os que pudemos assistir a este Mundial e ver jogar Maradona, porque a sua forma de lidar com a bola era inigualável.
                 No filme “O filho da noiva, de 2001, o personagem Rafael, interpretado por Ricardo Darín, chama um amigo ator para fazer as vezes de padre e realizar o sonho do pai, já idoso levar a mãe, então com Alzheimer, até o altar. Depois, na receção aos convidados, ao observar o sacerdote fajuto conversando com um garçom, dizendo que “Ele deu alegria a milhões de pessoas e depois esses mesmos fanáticos o crucificaram”, Rafael adverte: “Acabou o show, chega deste negócio de Cristo”. A resposta do falso padre: “Que Cristo? Estou falando de Maradona”.
                Este episódio é revelador do que foi a gestão do caos na carreira de Maradona, um homem com um percurso profissional acidentado, em termos de vida com momentos menos bons, mas ao mesmo tempo com um espírito solidário e irreverente, descontextualizado do padrão em que se quer transformar o jogador de futebol. Ele foi estrela porque foi só o melhor de todos, e quando é chamado a optar, fá-lo pelos mais fracos e partilha a luta dos que querem um mundo melhor, mais igualitário e menos disponível para as arbitrariedades dos poderosos.
                Esta é o primeiro de uma sequencia de artigos sobre o Campeonato do Mundo, por isso cá viremos em breve.
                Fernando Pereira
13/6/2018

Nem prós nem contras / O interior/ Guarda 15-6-2018




Há cerca de quinze dias aceitei “violentar-me” e eis-me a ver o “Prós e Contras”.
Em relação ao programa deixei há muito de ter reservas, ultrapassei a fase pueril e deixei pura e simplesmente de ver. A jornalista que conduz o programa tenta dar uma imagem de moderadora, até ao momento em que os intervenientes estão em desacordo com o que ela julga que pensa, e vai daí entra num estado de “mordedora”, não conseguindo disfarçar a sua opção de classe, no caso falta dela!
Como estava de sobreaviso, a falta de qualidade do programa acabou por nem me surpreender e, sinceramente, se o “movimento pelo interior” estivesse à espera que este espaço sensibilizasse uma ou outra pessoa para algum problema do interior desengane-se. A pobreza da quase generalidade dos argumentos colocados num espaço de “prós e prós” deixaram grande maioria dos poucos que o viram defraudados, por mais baixas que fossem as expectativas sobre o programa.
Desvou repetir a ladainha que ocasionalmente vou debitando nas intervenções publicadas, acho que nem assumem foros de pública, mas o interior está enterrado há décadas e por isso assumido no quadro mental do português embora ninguém goste de o partilhar publicamente.
Pode haver muito boa vontade, sucessivas reuniões, discursos e cerimónias de circunstância, porventura uma ou outra medida avulsa, o essencial é o que cá vivemos e a única visibilidade que temos são fruto de tragédias como o fogo ou, no Inverno, quando aparecem uns jornalistas a perguntarem às pessoas se está frio, ou como é a sua vida com neve! Acresce a isto os estafados discursos de governantes, autarcas e “comentadeiros” de serviço sobre uma causa que rapidamente desabraçam!
Para se ter uma ideia da contínua degradação a que isto está a chegar dou este exemplo vivido a cores e em direto: estou a escrever este artigo num Intercidades que invariavelmente sai atrasado da Guarda, sem água nas casas de banho imundas, e outros pormenores com que a CP brinda quem paga! Este serviço quando começou há vinte anos demorava ao tempo vinte minutos menos que hoje, no mesmo percurso entra a Guarda e Lisboa!
Portugal é um interior profundo, salvo o Porto (estendido a Aveiro e Braga) e a macrocéfala Lisboa, capital do “Impériosinho” (inclui Setúbal, uma parte do distrito de Santarém e um pouco acima das emblemáticas Linhas de Torres das Invasões Francesas).
O interior precisa de gente pois, mas só uma indesejada desgraça com a comunidade portuguesa na Venezuela ou África do Sul pode dar uma ténue esperança ao repovoamento deste vasto território, fora de Lisboa onde até as decisões mais comezinhas acontecem, excetuando o título de campeão nacional de futebol que o meu Futebol Clube do Porto resgata para dar algum valor ao resto do país.
Um movimento de africanos ou do Médio Oriente seria uma solução, mas os locais olham-nos com relutância, esquecendo as suas convicções cristãs e a herança de povos ancestrais que deixaram saber nas terras que hoje habitamos, e que ainda vai fazendo parte do nosso quotidiano de ruralidade.
Era bom que se deixasse o folclore politiqueiro e deixemo-nos de pedir centros de decisão no interior. São importantes boas decisões sobre o interior, mas isso é algo que nos fomos desabituando há muito e mesmo os eleitos, melhor elegidos, por cá fazem o jogo dos que são sufragados pelos de lá e no fim demagogisa-se tudo!
Quando na emblemática Serra da Estrela, concessionada sem critério a privados, em fins de semana de enchente julgando estarmos em plena 2ª circular em Lisboa, vemos à venda pantufas de Alcanena, queijo de Sever do Vouga, pólen da China, varas de Loures, entre outras bizarrias, tudo com o pomposo nome de “produto regional”, estaremos mesmo à espera que mude alguma coisa?
Voltando ao programa, não queria deixar de perguntar que estava lá a fazer aquela plateia de eleitos (o Bispo é nomeado) tipo “feira de vaidades”, com nula ou irrelevante intervenção no debate!
Até ver, tudo de pouco que tem mudado é para ficar tudo rigorosamente na mesma!

 Fernando Pereira
10/6/2018

Expresso 27/4/1991


25 de maio de 2018

Rosa de Porcelana / Novo Jornal/ Luanda 25-5-2018













Rosa de Porcelana

“Por enquanto não passa de uma noção, mas penso que posso obter o dinheiro suficiente para fazer dela um conceito e, mais tarde, transformá-la numa ideia.”
Woody Allen em Annie Hall

A caminho dos 443 anos de vida, Luanda, curiosamente fundada durante o reinado que os portugueses consideram ser um dos piores reis da sua história, D. Sebastião, morto numa expedição africana e que levou à perda da independência de Portugal.
            Tinha tudo para não ser um lugar vivível, e paradoxalmente hoje é uma urbe com quase 7.000.000 de habitantes. Carente de água, sem vegetação, com um calor e uma humidade permanente e sem árvores foi durante séculos um lugar muito pouco atrativo para todos.
            Gosto de Luanda e invariavelmente traz-me sempre à memória a frase de Marguerite Yourcenar: Quando se gosta da vida, gosta-se do passado, porque ele é o presente tal como sobrevive na memória.”.
            Nasci na pachorrenta Luanda de meados dos anos 50, numa clinica de um bairro que o meu pai chamava o “Bairro da Exposição Feira”, e que nós passámos a conhecer como o “Bairro do Miramar”, perto do cemitério dos Ingleses, que depois passou a ser conhecido pelo “Alto das Cruzes”, vulgo “cemitério velho”, hoje lugar de eleição para “repouso etéreo” das proeminentes figuras do dominante politico e económico destes novos tempos de Angola. A avenida ia com asfalto até ao limite do Bairro do Miramar começando a partir daí o “fecha a janela”, quando nos cruzávamos com outro carro, tanta era a poeirada, que se fazia soltar da maioria das ruas dos subúrbios da nossa “cidade capital”.
            Quando fui viver para o Braga, já se chamava “Bairro do Café”, nascido e desenvolvido pelo dinheiro de um tempo de grande subida do preço do café no mercado internacional do pós-guerra! Fez uma parte de Luanda e os prédios das avenidas novas na então cidade capital do “Império”, Lisboa.
            O asfalto ia tomando conta do areal, mas ainda me chega a lembrança, por exemplo, da “António Barroso” (Marian Ngouabi) ter uma picada desde o início da subida até aos depósitos da água contíguos a um bairro clandestino, onde se construía em todo o canto e que curiosamente se chamava Bairro Salazar. Não deixa de ser algo bizarro que os bairros clandestinos no tempo colonial eram todos de dignitários do regime colonial, veja-se o Bairro Salazar, Américo Tomaz, Adriano Moreira e Silva Tavares, entre outros!
            Com o 4 de Fevereiro de 1961 Luanda mudou, e começámos a ver as ruas com gente diferente, muitos militares, e os musseques a terem que se afastar cada vez mais do centro. A estratificação social existente passou a ser mais evidenciada, e a convivência quotidiana entre brancos e negros é cada vez mais dificultada por razões de toda a ordem.      
Luanda nasceu feia, e só a baia lhe dava alguma graça, e foi crescendo sem qualquer nexo. O avulsíssimo e o pato-bravismo transformaram uma cidade, que tinha crescido paulatinamente com um modelo de “português-suave” adaptado aos trópicos, que até era inovadora num determinado contexto de arquitetura, num espaço anárquico com construções em altura em que as identidades se foram perdendo.
            Luanda teve sempre uma identidade muito própria, até mesmo solidária nalguns aspetos, apesar do sistema colonial marcar bem as fronteiras entre as raças numa hierarquização perfeitamente soez da sociedade. Os quintais, os bares, as cantinas, as lojas, os largos, os terrenos libertos eram sítios de encontro, de cumplicidades, de brincadeiras e tudo isso se foi perdendo nos tempos finais do sistema colonial. A Luanda colonial asfixia-se nas suas contradições e quando chega a hora da decisão, os colonos que assistiram acomodados a um espaço posto e imposto sentem que essa terra não era sua, e encaixotaram o que puderam e embarcaram o rancor para com os que provavelmente foram os menos culpados da situação, os militares portugueses e as novas autoridades angolanas.
            Com o advento da independência os Luandenses voltaram a dispor da sua cidade, onde cresceu uma vontade algo pueril de fazer tudo diferente e bom, mas que efetivamente redundou num período de grandes dificuldades com carências e com a degradação do parque habitacional e as infraestruturas a colapsarem por falta de manutenção.
            Luanda voltou ao acumular do lixo, aos esgotos a escorrerem pelos prédios e ruas, em síntese o início de um tempo que se tem prolongado e que nenhuma operação de cosmética tem conseguido inverter, mormente a partir do momento em que a esfarrapada desculpa da guerra deixou de ter significado.
            Luanda hoje cheira à parte de traz de um circo, o que não é grande referencia para as pituitárias. Quando Luanda vai a caminho de Catete, de Porto-Quipiri ou das Palmeirinhas, o que temos não é uma cidade, é um território pouco harmonioso, sem identidade, impessoal e sem futuro.
            Nesta Luanda não há passado, há passados e a memória é plural.
            Como já sou novo há muitos anos posso dizer com certo orgulho, que nasci nas Ingombotas, porque Luanda como era raros a reconhecem, e cada vez menos as pessoas se revem na de hoje!
            “Só podemos esquecer o tempo servindo-nos dele” Luandino Vieira (Papeis da Prisão)
            


Fernando Pereira
            20/5/2018
              

18 de maio de 2018

Todo o poder abusa, o poder absoluto abusa absolutamente! / Jornal de Angola -17/05/2018




Todo o poder abusa, o poder absoluto abusa absolutamente!

Provavelmente o Maio de 1968 em França terá sido o ultimo movimento utópico mobilizador de gente na história contemporânea da Europa.
                Há obviamente muita subjetividade nesta afirmação, mas quando se faz uma retrospetiva do que foram esses dias fervilhantes, onde havia uma avidez por fazer tudo que acontecia de diferente do que tinha sido até então.
                A Europa vivia um período de relativa acalmia social e política, e a economia tinha adquirido uma estabilidade que ainda não se tinha observado no pós-guerra. Isso não conseguia esconder as contradições inerentes ao modelo capitalista prevalecente, nem à ideologia agregada ao convencionalismo burguês, assente em valores suportados por um ensino ainda fortemente matizado pela herança cristã.
                A União Soviética que tinha sido uma esperança para muito cidadão da Europa, e para um conjunto de intelectuais, enleou-se pela “burocracia da ideologia” e deixou de ser apelativa substituindo-se o “realismo soviético” por Trotsky, Mao Tsé-Tung, Fidel de Castro, Che Guevara e outros contemporâneos da luta pela libertação.
                O Maio de 1968 é o corolário de um tempo de contestação contra a guerra do Vietname, que tinha cada vez mais adesões a nível mundial particularmente nos EUA, e contra as ditaduras na América Latina e em Portugal e Espanha. Apoiava-se abertamente Cuba, a luta armada na América Latina e em África, a luta dos negros americanos pelos direitos cívicos e a Revolução Cultural na China (1966-1969).
                Em simultâneo agudizavam-se as lutas estudantis na Alemanha (organizada em Berlim pela SDS- Sozialisticher Deutscher Studentbund, tendo o seu líder Rudi Dutschke sofrido um atentado em 11 de Abril de 1968). Em Berkeley nos EUA iniciou-se um rastilho de contestação por parte dos estudantes, que rapidamente alastrou um pouco por universidades em todos os Estados dos EUA. No Brasil a repressão contra os estudantes foi violenta, mas não atingiu as proporções de Tlatelolco no México, onde o exército é mobilizado para calar a contestação estudantil saldando-se o balanço final em mais de 200 mortos, 500 feridos e 2000 pessoas presas.
                Um pouco por todo o mundo germinava a contestação estudantil, e os estudantes assumiam então que era altura de apoiar as lutas dos trabalhadores, e apoiar as conceções políticas inovadoras que emergiam em vários locais, nomeadamente na China, onde só muito mais tarde chegaram as terríveis descrições de uma então idolatrada Revolução Cultural.
                No Senegal afrontando a subserviência francesa de Senghor, e na procura de um ensino mais adequado à realidade africana, procuraram imitar os estudantes franceses, e através da UDES (União de Estudantes Senegaleses) que reagrupava os estudantes locais e a UED (união de Estudantes de Dakar, que aglomerava os estudantes de diferentes países africanos, fizeram um conjunto de manifestações fortemente reprimidas com muitas prisões de premeio e expulsão de centenas de estudantes do País.
                Voltando a França, e ao já distante 1968 importa referir que tudo começou no dealbar de Maio na Universidade de Nanterre, uma escola de subúrbios onde a origem social dos estudantes era claramente diferente das universidades do centro de Paris, frequentadas pelos filhos da burguesia, ao tempo os únicos que tinham acesso ao ensino superior.
                As reivindicações dos estudantes inicialmente eram de natureza corporativa, em que se pedia entre várias reformas o fim de que “as grandes disciplinas (ciências, direito, medicina, letras, sociologia, etc.) eram ensinadas em faculdades separadas”; pediam-se universidades pluridisciplinares para favorecer as evoluções científicas que acontecem nas fronteiras das disciplinas”.
                A realidade é que a repressão sobre os estudantes de Nanterre a 3 de Maio de 1968, acabou por despoletar uma irrupção social que chegou a colocar 10.000.000 de trabalhadores em França, incendiou a Bolsa de Paris, ocuparam-se escolas, universidades, teatros, fábricas, em suma tudo foi diferente naquela primavera de 1968.
                O ensino foi contestado no seu todo e pretendeu-se questionar a utilidade social de um conhecimento abstrato, separado da prática.
                O marxismo estava arredado do ensino superior nas ciências sociais e na economia, e exigiu-se que passasse a ter uma prevalência maior em todo o ensino, de forma a tornar-se mais identificada com a luta dos trabalhadores, inicialmente desconfiados dos estudantes pela sua origem de classe, mas depois aliados nos propósitos de alterar a sociedade.
                Os intelectuais participaram no movimento de Maio de 1968, principalmente nas conferencias que se realizavam um pouco por todo o lado, aproveitando-se os lugares mais incríveis como velhos armazéns ao longo do sena, ou os anfiteatros austeros de uma Sorbonne ocupada pelos estudantes. Charles Bettelheim, Lucian Goldmann, Louis Altusser, Henri Lefebvre, Henri Dennis, Jean Paul Sartre, Roger Garaudy, Simon de Beauvoir, e naturalmente Marcuse e Guy Debord, o anarquista que criou o “situacionismo”. Não esqueçamos Alain Krivine o trotskysta fundador da UEC, entre tantos outros.
                Para além de Marx, recuperou-se Gramsci, o “livro Vermelho de Mao”, Nicos Poulantzas, Giap, Freud e emerge William Reich, trazendo a sexualidade e o prazer para o centro do debate político, tema tabu até então.
                A comunicação social detida pelo Estado, ou pelos grandes grupos económicos tentaram através de manipulação de fotos e filmes inverter a situação para repor a ordem “velha” que o presidente de Gaulle exigia para recuperar a França que tinha idealizado. A verdade é que influenciados pela China, os jornais de parede tiveram uma influencia decisiva na mobilização, e na permanente informação aos cidadãos empenhados em fazer valer as suas convicções. Os jornalistas da rádio oficial, a ORTF, assumiram a sua postura de informar sem pressões, o que lhes valeu serem despedidos quando o poder recuperou as rédeas da situação. A própria ORTF fez uma greve solidária com a luta dos estudantes e trabalhadores. Os panfletos, as serigrafias e os cartazes encheram as ruas. Milhões de panfletos, 500.000 cartazes com cerca de 400 motivos diferentes executados por artistas, operários, estudantes, tipógrafos, etc. mostra bem o grau de engajamento das pessoas no Maio de 1968. Apareceu a figura do jornalista militante, que acaba por dar origem ao quotidiano “Libération”, onde colaborou Sartre entre outros e que ainda hoje existe com todo o seu prestígio acumulado desde então.
                Um dos pormenores pouco difundido no Maio de 1968 tem a ver com a instalação das Universidades Populares, locais de discussão permanente e partilha de conhecimentos que transformaram radicalmente a mentalidade dos que viveram o Maio de 1968. Outro aspeto pouco divulgado tem a ver com a atenção que os intervenientes deram aos problemas do terceiro mundo, e não devemos olvidar que havia colónias francesas que tinham ascendido à independência meia dúzia de anos antes. Outra ação de grande importância foi o trabalho de alfabetização feito pelos estudantes aos emigrantes africanos que enxamearam Paris para trabalharem duramente na recuperação da França no pós-guerra.
                Claro que houve detratores do Maio de 1968, nomeadamente Raymond Aron, que escrevo um libelo acusatório veemente “La revolution impossible”, mas “ninguém conseguiu impedir que as flores de Maio desabrochassem”!
                O Maio de 1968 foi claramente uma luta contra a ordem capitalista prevalecente. Não conseguiu vencê-la, mas ter-se-ão conseguido conquistas importantes em áreas que marcaram os anos seguintes, ou mesmo as décadas, até à inflexão que se vai assistindo na implantação de um liberalismo desregulado que se tem imposto na Europa e no mundo.
                Seria difícil de imaginar a Jacques Sauvageot, Alain Geismar e Daniel Cohn- Bendit e a outros, que a sua tenacidade em Nanterre iria provocar este abanão com consequências, a primeira das quais a demissão do General de Gaulle de Presidente da Republica francesa, para além de outras de maior significado no quotidiano das pessoas.
                Controversa sobre o significado dos acontecimentos de 1968, não se pode negar a sua importância na história da ultima metade do seculo XX.
                Uma geração de estudantes e jovens trabalhadores ficou marcada por esses acontecimentos. Uma grande parte dessa gente participou nos debates universitários e manifestações de rua. Algo mudou no quotidiano de vida de muita gente, no relacionamento interpessoal, na visão do mundo e na afirmação clara entre o que se gosta e o que se detesta.
                Sonhou-se um poder numa premissa de igualdade, e de distribuição equitativa de riqueza. Pura estultícia, pois mesmo nas fases mais duras o capitalismo regenera-se e aparece travestido de novas roupagens. Ficam as lembranças vivas do que se tentou!
                Ficaram palavras que sintetizam muito do que foram aqueles dias e noites em que alguma Europa sonhou que tudo ia ser diferente, e outros tinham pesadelos porque podia ser o fim de um tempo que se perpetuava devagarzinho, como convinha ao poder instalado.
                Ainda hoje ecoam as palavras, os grafitis e de vez em quando aí voltam a ser palavras de ordem num tempo que episodicamente é de esperança: "Abaixo a sociedade de consumo.”, “Abaixo o realismo socialista. Viva o surrealismo." ,"A ação não deve ser uma reação, mas uma criação.”, "O agressor não é aquele que se revolta, mas aquele que reprime." , "Amem-se uns aos outros." ,"O álcool mata. Tomem LSD." ,"A anarquia sou eu.”, “as armas da crítica passam pela crítica das armas." ,"Parem o mundo, eu quero descer." ,"A arte está morta. Nem Godard poderá impedir." ,"A arte está morta, liberemos nossa vida cotidiana." "Antes de escrever, aprenda a pensar.”, "A barricada fecha a rua, mas abre a via." ,"Ceder um pouco é capitular muito.”, “Corram camaradas, o velho mundo está atrás de vocês.”, “A cultura é a inversão da vida." ,"10 horas de prazer já." ,"Proibido não colar cartazes." ,"Abaixo da calçada, está a praia.", "A economia está ferida, pois que morra!" ,"A emancipação do homem será total ou não será.”, "O estado é cada um de nós.”, “A humanidade só será feliz quando o último capitalista for enforcado com as tripas do último padre.”, “A imaginação toma o poder." ,"A insolência é a nova arma revolucionária.", "É proibido proibir." ,"Eu tinha alguma coisa a dizer, mas não sei mais o quê." ,"Eu gozo.”, “Eu participo. Tu participas. Ele participa. Nós participamos. Vós participais. Eles lucram.”, “os jovens fazem amor, os velhos fazem gestos obscenos." ,"A liberdade do outro estende a minha ao infinito.", "A mercadoria é o ópio do povo.", “As paredes têm ouvidos. Seus ouvidos têm paredes." ,"Não mudem de empregadores, mudem o emprego da vida." ,"Nós somos todos judeus alemães." ,"A novidade é revolucionária, a verdade, também." ,"Fim da liberdade aos inimigos da liberdade." ,"O patrão precisa de ti, tu não precisas do patrão.", "Professores, vocês nos fazem envelhecer." ,"Quanto mais eu faço amor, mais tenho vontade de fazer a revolução. Quanto mais faço a revolução, mais tenho vontade de fazer amor.”, “A poesia está na rua." ,"A política se dá na rua." ,"Os sindicatos são uns bordéis." ,"O sonho é realidade." ,“Só a verdade é revolucionária.”, “Sejam realistas, exijam o impossível.",
"Trabalhador: você tem 25 anos, mas seu sindicato é de outro século." "Abolição da sociedade de classes." ,"Abram as janelas do seu coração.”, “A arte está morta, não consumamos o seu cadáver. “,"Não nos prendamos ao espetáculo da contestação, mas passemos à contestação do espetáculo. “,"Autogestão da vida quotidiana", "A felicidade é uma ideia nova." ,"Teremos um bom mestre desde que cada um seja o seu." ,"Camaradas, o amor também se faz na Faculdade de Ciências." ,"Consuma mais, viva menos." ,"Escrevam por toda a parte!" ,"Abraça o teu amor sem largar a tua arma.”, "Enraiveçam-se!", "Ser rico é se contentar com a pobreza?", "Um homem não é estupido ou inteligente: ele é livre ou não é.", "Adoro escrever nas paredes." ,"Decretado o estado de felicidade permanente." ,"Milionários de todos os países, unam-se, o vento está a mudar.”, “Não tomem o elevador, tomem o poder."
            Uma coisa é certa, o debate nunca está encerrado!

Fernando Pereira
12/5/2018
               

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