15 de junho de 2018

Quase Memória! / Novo Jornal / Luanda 15-6-2018





Quase Memória!
Assistir a um Campeonato do Mundo depois de ter visto um Brasil-Itália no Mundial de Espanha de 1982, é um esforço que só o futebol enquanto movimento de massas consegue mobilizar-me para acompanhar sem grande entusiasmo.
                Esse jogo marcou o fim do futebol romântico, em que um Brasil com uma seleção de eleitos, jogando de forma prazenteira e com um nível de execução admirável acabou por perder o jogo decisivo contra uma Itálica cínica e pragmática, conquistando o campeonato do mundo.
                Coletivamente foi a melhor seleção que vi a jogar à bola, esse Brasil de Falcão, Sócrates, Júnior, Zico, etc. e por mais futebol que veja desconsigo ver noutros a beleza do futebol desse Brasil de 1982.
            Como já sou novo há muitos anos, ainda me lembro de ver jogar Pelé em dois Mundiais, no de 1966 onde agravou uma lesão, e em 1970 no México onde a seleção do Brasil passeou a sua classe aliando a suprema técnica e habilidade de de Pelé aos talentosos Carlos Alberto, Gerson, Tostão, Rivelino, Jairzinho, Clodoaldo e outros. Pierre Paolo Passolini, o cineasta e poeta italiano, precocemente desaparecido de forma trágica, escreveu sobre a final que o Brasil venceu a Itália por 4-1: “O futebol de prosa é o do chamado sistema (o futebol europeu). Nesse esquema, o golo é confiado à conclusão, possivelmente por um “poeta realista” como Riva, mas deve derivar de uma organização de jogo coletivo, fundado por uma série de passagens “geométricas”, executadas segundo as regras do código (nisso Rivera é perfeito, apesar de Brera não gostar, porque se trata de uma perfeição meio estetizante, não-realista, como a dos meio-campistas ingleses ou alemães).
O futebol de poesia é o latino-americano. Esquema que, para ser realizado, demanda uma capacidade monstruosa de driblar (coisa que na Europa é esnobada em nome da “prosa coletiva”): nele, o gol pode ser inventado por qualquer um e de qualquer posição. Se o drible e o gol são o momento individualista-poético do futebol, o futebol brasileiro é, portanto, um futebol de poesia. Sem fazer distinção de valor, mas em sentido puramente técnico, no México [em 1970] a prosa estetizante italiana foi batida pela poesia brasileira.”
                O futebol é poesia e João Cabral de Melo Neto, poeta brasileiro fez ao futebol um poema que sintetiza a dimensão de algo que é mais que desporto: O Futebol brasileiro “A bola não é a inimiga/ como o touro, numa corrida;/e, embora seja um utensílio/caseiro e que se usa sem risco,/não é o utensílio impessoal,/sempre manso, de gesto usual:/é um utensílio semivivo,/de reações próprias como bicho/e que, como bicho, é mister/(mais que bicho, como mulher)/usar com malícia e atenção/dando aos pés astúcias de mão.”
                Johan Cruyff foi outro dos grandes jogadores que fui vendo espalhar perfume nos estádios de um Mundial. Para além da forma elegante como jogava, tudo fluía a preceito numa seleção que coletivamente era mesmo uma “laranja mecânica”! Cruyff que para além de um talento imenso enquanto profissional de futebol, era um homem de princípios e grande coerência na sua forma de usar a sua cidadania plena, e nesse contexto recusa liminarmente a ida à Argentina para o Mundial de 1978 para não caucionar os assassínios e prisões por parte dos militares que chefiavam a ditadura militar. A Argentina depois de muita violação do espírito desportivo venceu o Campeonato do Mundo, mas a grande estrela acabou por ser o ausente Cruyff.
                Em 1986 o Mundial volta ao México, por renuncia de uma Colômbia economicamente depauperada e com uma guerrilha interventiva. Aqui surge outra das lendas tangíveis do futebol mundial, Diego Maradona, que seis anos antes tinha deslumbrado o mundo do futebol quando a Argentina ganhou o campeonato do Mundo de Juniores em Tóquio. Foi um privilégio de todos os que pudemos assistir a este Mundial e ver jogar Maradona, porque a sua forma de lidar com a bola era inigualável.
                 No filme “O filho da noiva, de 2001, o personagem Rafael, interpretado por Ricardo Darín, chama um amigo ator para fazer as vezes de padre e realizar o sonho do pai, já idoso levar a mãe, então com Alzheimer, até o altar. Depois, na receção aos convidados, ao observar o sacerdote fajuto conversando com um garçom, dizendo que “Ele deu alegria a milhões de pessoas e depois esses mesmos fanáticos o crucificaram”, Rafael adverte: “Acabou o show, chega deste negócio de Cristo”. A resposta do falso padre: “Que Cristo? Estou falando de Maradona”.
                Este episódio é revelador do que foi a gestão do caos na carreira de Maradona, um homem com um percurso profissional acidentado, em termos de vida com momentos menos bons, mas ao mesmo tempo com um espírito solidário e irreverente, descontextualizado do padrão em que se quer transformar o jogador de futebol. Ele foi estrela porque foi só o melhor de todos, e quando é chamado a optar, fá-lo pelos mais fracos e partilha a luta dos que querem um mundo melhor, mais igualitário e menos disponível para as arbitrariedades dos poderosos.
                Esta é o primeiro de uma sequencia de artigos sobre o Campeonato do Mundo, por isso cá viremos em breve.
                Fernando Pereira
13/6/2018

Nem prós nem contras / O interior/ Guarda 15-6-2018




Há cerca de quinze dias aceitei “violentar-me” e eis-me a ver o “Prós e Contras”.
Em relação ao programa deixei há muito de ter reservas, ultrapassei a fase pueril e deixei pura e simplesmente de ver. A jornalista que conduz o programa tenta dar uma imagem de moderadora, até ao momento em que os intervenientes estão em desacordo com o que ela julga que pensa, e vai daí entra num estado de “mordedora”, não conseguindo disfarçar a sua opção de classe, no caso falta dela!
Como estava de sobreaviso, a falta de qualidade do programa acabou por nem me surpreender e, sinceramente, se o “movimento pelo interior” estivesse à espera que este espaço sensibilizasse uma ou outra pessoa para algum problema do interior desengane-se. A pobreza da quase generalidade dos argumentos colocados num espaço de “prós e prós” deixaram grande maioria dos poucos que o viram defraudados, por mais baixas que fossem as expectativas sobre o programa.
Desvou repetir a ladainha que ocasionalmente vou debitando nas intervenções publicadas, acho que nem assumem foros de pública, mas o interior está enterrado há décadas e por isso assumido no quadro mental do português embora ninguém goste de o partilhar publicamente.
Pode haver muito boa vontade, sucessivas reuniões, discursos e cerimónias de circunstância, porventura uma ou outra medida avulsa, o essencial é o que cá vivemos e a única visibilidade que temos são fruto de tragédias como o fogo ou, no Inverno, quando aparecem uns jornalistas a perguntarem às pessoas se está frio, ou como é a sua vida com neve! Acresce a isto os estafados discursos de governantes, autarcas e “comentadeiros” de serviço sobre uma causa que rapidamente desabraçam!
Para se ter uma ideia da contínua degradação a que isto está a chegar dou este exemplo vivido a cores e em direto: estou a escrever este artigo num Intercidades que invariavelmente sai atrasado da Guarda, sem água nas casas de banho imundas, e outros pormenores com que a CP brinda quem paga! Este serviço quando começou há vinte anos demorava ao tempo vinte minutos menos que hoje, no mesmo percurso entra a Guarda e Lisboa!
Portugal é um interior profundo, salvo o Porto (estendido a Aveiro e Braga) e a macrocéfala Lisboa, capital do “Impériosinho” (inclui Setúbal, uma parte do distrito de Santarém e um pouco acima das emblemáticas Linhas de Torres das Invasões Francesas).
O interior precisa de gente pois, mas só uma indesejada desgraça com a comunidade portuguesa na Venezuela ou África do Sul pode dar uma ténue esperança ao repovoamento deste vasto território, fora de Lisboa onde até as decisões mais comezinhas acontecem, excetuando o título de campeão nacional de futebol que o meu Futebol Clube do Porto resgata para dar algum valor ao resto do país.
Um movimento de africanos ou do Médio Oriente seria uma solução, mas os locais olham-nos com relutância, esquecendo as suas convicções cristãs e a herança de povos ancestrais que deixaram saber nas terras que hoje habitamos, e que ainda vai fazendo parte do nosso quotidiano de ruralidade.
Era bom que se deixasse o folclore politiqueiro e deixemo-nos de pedir centros de decisão no interior. São importantes boas decisões sobre o interior, mas isso é algo que nos fomos desabituando há muito e mesmo os eleitos, melhor elegidos, por cá fazem o jogo dos que são sufragados pelos de lá e no fim demagogisa-se tudo!
Quando na emblemática Serra da Estrela, concessionada sem critério a privados, em fins de semana de enchente julgando estarmos em plena 2ª circular em Lisboa, vemos à venda pantufas de Alcanena, queijo de Sever do Vouga, pólen da China, varas de Loures, entre outras bizarrias, tudo com o pomposo nome de “produto regional”, estaremos mesmo à espera que mude alguma coisa?
Voltando ao programa, não queria deixar de perguntar que estava lá a fazer aquela plateia de eleitos (o Bispo é nomeado) tipo “feira de vaidades”, com nula ou irrelevante intervenção no debate!
Até ver, tudo de pouco que tem mudado é para ficar tudo rigorosamente na mesma!

 Fernando Pereira
10/6/2018

Expresso 27/4/1991


25 de maio de 2018

Rosa de Porcelana / Novo Jornal/ Luanda 25-5-2018













Rosa de Porcelana

“Por enquanto não passa de uma noção, mas penso que posso obter o dinheiro suficiente para fazer dela um conceito e, mais tarde, transformá-la numa ideia.”
Woody Allen em Annie Hall

A caminho dos 443 anos de vida, Luanda, curiosamente fundada durante o reinado que os portugueses consideram ser um dos piores reis da sua história, D. Sebastião, morto numa expedição africana e que levou à perda da independência de Portugal.
            Tinha tudo para não ser um lugar vivível, e paradoxalmente hoje é uma urbe com quase 7.000.000 de habitantes. Carente de água, sem vegetação, com um calor e uma humidade permanente e sem árvores foi durante séculos um lugar muito pouco atrativo para todos.
            Gosto de Luanda e invariavelmente traz-me sempre à memória a frase de Marguerite Yourcenar: Quando se gosta da vida, gosta-se do passado, porque ele é o presente tal como sobrevive na memória.”.
            Nasci na pachorrenta Luanda de meados dos anos 50, numa clinica de um bairro que o meu pai chamava o “Bairro da Exposição Feira”, e que nós passámos a conhecer como o “Bairro do Miramar”, perto do cemitério dos Ingleses, que depois passou a ser conhecido pelo “Alto das Cruzes”, vulgo “cemitério velho”, hoje lugar de eleição para “repouso etéreo” das proeminentes figuras do dominante politico e económico destes novos tempos de Angola. A avenida ia com asfalto até ao limite do Bairro do Miramar começando a partir daí o “fecha a janela”, quando nos cruzávamos com outro carro, tanta era a poeirada, que se fazia soltar da maioria das ruas dos subúrbios da nossa “cidade capital”.
            Quando fui viver para o Braga, já se chamava “Bairro do Café”, nascido e desenvolvido pelo dinheiro de um tempo de grande subida do preço do café no mercado internacional do pós-guerra! Fez uma parte de Luanda e os prédios das avenidas novas na então cidade capital do “Império”, Lisboa.
            O asfalto ia tomando conta do areal, mas ainda me chega a lembrança, por exemplo, da “António Barroso” (Marian Ngouabi) ter uma picada desde o início da subida até aos depósitos da água contíguos a um bairro clandestino, onde se construía em todo o canto e que curiosamente se chamava Bairro Salazar. Não deixa de ser algo bizarro que os bairros clandestinos no tempo colonial eram todos de dignitários do regime colonial, veja-se o Bairro Salazar, Américo Tomaz, Adriano Moreira e Silva Tavares, entre outros!
            Com o 4 de Fevereiro de 1961 Luanda mudou, e começámos a ver as ruas com gente diferente, muitos militares, e os musseques a terem que se afastar cada vez mais do centro. A estratificação social existente passou a ser mais evidenciada, e a convivência quotidiana entre brancos e negros é cada vez mais dificultada por razões de toda a ordem.      
Luanda nasceu feia, e só a baia lhe dava alguma graça, e foi crescendo sem qualquer nexo. O avulsíssimo e o pato-bravismo transformaram uma cidade, que tinha crescido paulatinamente com um modelo de “português-suave” adaptado aos trópicos, que até era inovadora num determinado contexto de arquitetura, num espaço anárquico com construções em altura em que as identidades se foram perdendo.
            Luanda teve sempre uma identidade muito própria, até mesmo solidária nalguns aspetos, apesar do sistema colonial marcar bem as fronteiras entre as raças numa hierarquização perfeitamente soez da sociedade. Os quintais, os bares, as cantinas, as lojas, os largos, os terrenos libertos eram sítios de encontro, de cumplicidades, de brincadeiras e tudo isso se foi perdendo nos tempos finais do sistema colonial. A Luanda colonial asfixia-se nas suas contradições e quando chega a hora da decisão, os colonos que assistiram acomodados a um espaço posto e imposto sentem que essa terra não era sua, e encaixotaram o que puderam e embarcaram o rancor para com os que provavelmente foram os menos culpados da situação, os militares portugueses e as novas autoridades angolanas.
            Com o advento da independência os Luandenses voltaram a dispor da sua cidade, onde cresceu uma vontade algo pueril de fazer tudo diferente e bom, mas que efetivamente redundou num período de grandes dificuldades com carências e com a degradação do parque habitacional e as infraestruturas a colapsarem por falta de manutenção.
            Luanda voltou ao acumular do lixo, aos esgotos a escorrerem pelos prédios e ruas, em síntese o início de um tempo que se tem prolongado e que nenhuma operação de cosmética tem conseguido inverter, mormente a partir do momento em que a esfarrapada desculpa da guerra deixou de ter significado.
            Luanda hoje cheira à parte de traz de um circo, o que não é grande referencia para as pituitárias. Quando Luanda vai a caminho de Catete, de Porto-Quipiri ou das Palmeirinhas, o que temos não é uma cidade, é um território pouco harmonioso, sem identidade, impessoal e sem futuro.
            Nesta Luanda não há passado, há passados e a memória é plural.
            Como já sou novo há muitos anos posso dizer com certo orgulho, que nasci nas Ingombotas, porque Luanda como era raros a reconhecem, e cada vez menos as pessoas se revem na de hoje!
            “Só podemos esquecer o tempo servindo-nos dele” Luandino Vieira (Papeis da Prisão)
            


Fernando Pereira
            20/5/2018
              

18 de maio de 2018

Todo o poder abusa, o poder absoluto abusa absolutamente! / Jornal de Angola -17/05/2018




Todo o poder abusa, o poder absoluto abusa absolutamente!

Provavelmente o Maio de 1968 em França terá sido o ultimo movimento utópico mobilizador de gente na história contemporânea da Europa.
                Há obviamente muita subjetividade nesta afirmação, mas quando se faz uma retrospetiva do que foram esses dias fervilhantes, onde havia uma avidez por fazer tudo que acontecia de diferente do que tinha sido até então.
                A Europa vivia um período de relativa acalmia social e política, e a economia tinha adquirido uma estabilidade que ainda não se tinha observado no pós-guerra. Isso não conseguia esconder as contradições inerentes ao modelo capitalista prevalecente, nem à ideologia agregada ao convencionalismo burguês, assente em valores suportados por um ensino ainda fortemente matizado pela herança cristã.
                A União Soviética que tinha sido uma esperança para muito cidadão da Europa, e para um conjunto de intelectuais, enleou-se pela “burocracia da ideologia” e deixou de ser apelativa substituindo-se o “realismo soviético” por Trotsky, Mao Tsé-Tung, Fidel de Castro, Che Guevara e outros contemporâneos da luta pela libertação.
                O Maio de 1968 é o corolário de um tempo de contestação contra a guerra do Vietname, que tinha cada vez mais adesões a nível mundial particularmente nos EUA, e contra as ditaduras na América Latina e em Portugal e Espanha. Apoiava-se abertamente Cuba, a luta armada na América Latina e em África, a luta dos negros americanos pelos direitos cívicos e a Revolução Cultural na China (1966-1969).
                Em simultâneo agudizavam-se as lutas estudantis na Alemanha (organizada em Berlim pela SDS- Sozialisticher Deutscher Studentbund, tendo o seu líder Rudi Dutschke sofrido um atentado em 11 de Abril de 1968). Em Berkeley nos EUA iniciou-se um rastilho de contestação por parte dos estudantes, que rapidamente alastrou um pouco por universidades em todos os Estados dos EUA. No Brasil a repressão contra os estudantes foi violenta, mas não atingiu as proporções de Tlatelolco no México, onde o exército é mobilizado para calar a contestação estudantil saldando-se o balanço final em mais de 200 mortos, 500 feridos e 2000 pessoas presas.
                Um pouco por todo o mundo germinava a contestação estudantil, e os estudantes assumiam então que era altura de apoiar as lutas dos trabalhadores, e apoiar as conceções políticas inovadoras que emergiam em vários locais, nomeadamente na China, onde só muito mais tarde chegaram as terríveis descrições de uma então idolatrada Revolução Cultural.
                No Senegal afrontando a subserviência francesa de Senghor, e na procura de um ensino mais adequado à realidade africana, procuraram imitar os estudantes franceses, e através da UDES (União de Estudantes Senegaleses) que reagrupava os estudantes locais e a UED (união de Estudantes de Dakar, que aglomerava os estudantes de diferentes países africanos, fizeram um conjunto de manifestações fortemente reprimidas com muitas prisões de premeio e expulsão de centenas de estudantes do País.
                Voltando a França, e ao já distante 1968 importa referir que tudo começou no dealbar de Maio na Universidade de Nanterre, uma escola de subúrbios onde a origem social dos estudantes era claramente diferente das universidades do centro de Paris, frequentadas pelos filhos da burguesia, ao tempo os únicos que tinham acesso ao ensino superior.
                As reivindicações dos estudantes inicialmente eram de natureza corporativa, em que se pedia entre várias reformas o fim de que “as grandes disciplinas (ciências, direito, medicina, letras, sociologia, etc.) eram ensinadas em faculdades separadas”; pediam-se universidades pluridisciplinares para favorecer as evoluções científicas que acontecem nas fronteiras das disciplinas”.
                A realidade é que a repressão sobre os estudantes de Nanterre a 3 de Maio de 1968, acabou por despoletar uma irrupção social que chegou a colocar 10.000.000 de trabalhadores em França, incendiou a Bolsa de Paris, ocuparam-se escolas, universidades, teatros, fábricas, em suma tudo foi diferente naquela primavera de 1968.
                O ensino foi contestado no seu todo e pretendeu-se questionar a utilidade social de um conhecimento abstrato, separado da prática.
                O marxismo estava arredado do ensino superior nas ciências sociais e na economia, e exigiu-se que passasse a ter uma prevalência maior em todo o ensino, de forma a tornar-se mais identificada com a luta dos trabalhadores, inicialmente desconfiados dos estudantes pela sua origem de classe, mas depois aliados nos propósitos de alterar a sociedade.
                Os intelectuais participaram no movimento de Maio de 1968, principalmente nas conferencias que se realizavam um pouco por todo o lado, aproveitando-se os lugares mais incríveis como velhos armazéns ao longo do sena, ou os anfiteatros austeros de uma Sorbonne ocupada pelos estudantes. Charles Bettelheim, Lucian Goldmann, Louis Altusser, Henri Lefebvre, Henri Dennis, Jean Paul Sartre, Roger Garaudy, Simon de Beauvoir, e naturalmente Marcuse e Guy Debord, o anarquista que criou o “situacionismo”. Não esqueçamos Alain Krivine o trotskysta fundador da UEC, entre tantos outros.
                Para além de Marx, recuperou-se Gramsci, o “livro Vermelho de Mao”, Nicos Poulantzas, Giap, Freud e emerge William Reich, trazendo a sexualidade e o prazer para o centro do debate político, tema tabu até então.
                A comunicação social detida pelo Estado, ou pelos grandes grupos económicos tentaram através de manipulação de fotos e filmes inverter a situação para repor a ordem “velha” que o presidente de Gaulle exigia para recuperar a França que tinha idealizado. A verdade é que influenciados pela China, os jornais de parede tiveram uma influencia decisiva na mobilização, e na permanente informação aos cidadãos empenhados em fazer valer as suas convicções. Os jornalistas da rádio oficial, a ORTF, assumiram a sua postura de informar sem pressões, o que lhes valeu serem despedidos quando o poder recuperou as rédeas da situação. A própria ORTF fez uma greve solidária com a luta dos estudantes e trabalhadores. Os panfletos, as serigrafias e os cartazes encheram as ruas. Milhões de panfletos, 500.000 cartazes com cerca de 400 motivos diferentes executados por artistas, operários, estudantes, tipógrafos, etc. mostra bem o grau de engajamento das pessoas no Maio de 1968. Apareceu a figura do jornalista militante, que acaba por dar origem ao quotidiano “Libération”, onde colaborou Sartre entre outros e que ainda hoje existe com todo o seu prestígio acumulado desde então.
                Um dos pormenores pouco difundido no Maio de 1968 tem a ver com a instalação das Universidades Populares, locais de discussão permanente e partilha de conhecimentos que transformaram radicalmente a mentalidade dos que viveram o Maio de 1968. Outro aspeto pouco divulgado tem a ver com a atenção que os intervenientes deram aos problemas do terceiro mundo, e não devemos olvidar que havia colónias francesas que tinham ascendido à independência meia dúzia de anos antes. Outra ação de grande importância foi o trabalho de alfabetização feito pelos estudantes aos emigrantes africanos que enxamearam Paris para trabalharem duramente na recuperação da França no pós-guerra.
                Claro que houve detratores do Maio de 1968, nomeadamente Raymond Aron, que escrevo um libelo acusatório veemente “La revolution impossible”, mas “ninguém conseguiu impedir que as flores de Maio desabrochassem”!
                O Maio de 1968 foi claramente uma luta contra a ordem capitalista prevalecente. Não conseguiu vencê-la, mas ter-se-ão conseguido conquistas importantes em áreas que marcaram os anos seguintes, ou mesmo as décadas, até à inflexão que se vai assistindo na implantação de um liberalismo desregulado que se tem imposto na Europa e no mundo.
                Seria difícil de imaginar a Jacques Sauvageot, Alain Geismar e Daniel Cohn- Bendit e a outros, que a sua tenacidade em Nanterre iria provocar este abanão com consequências, a primeira das quais a demissão do General de Gaulle de Presidente da Republica francesa, para além de outras de maior significado no quotidiano das pessoas.
                Controversa sobre o significado dos acontecimentos de 1968, não se pode negar a sua importância na história da ultima metade do seculo XX.
                Uma geração de estudantes e jovens trabalhadores ficou marcada por esses acontecimentos. Uma grande parte dessa gente participou nos debates universitários e manifestações de rua. Algo mudou no quotidiano de vida de muita gente, no relacionamento interpessoal, na visão do mundo e na afirmação clara entre o que se gosta e o que se detesta.
                Sonhou-se um poder numa premissa de igualdade, e de distribuição equitativa de riqueza. Pura estultícia, pois mesmo nas fases mais duras o capitalismo regenera-se e aparece travestido de novas roupagens. Ficam as lembranças vivas do que se tentou!
                Ficaram palavras que sintetizam muito do que foram aqueles dias e noites em que alguma Europa sonhou que tudo ia ser diferente, e outros tinham pesadelos porque podia ser o fim de um tempo que se perpetuava devagarzinho, como convinha ao poder instalado.
                Ainda hoje ecoam as palavras, os grafitis e de vez em quando aí voltam a ser palavras de ordem num tempo que episodicamente é de esperança: "Abaixo a sociedade de consumo.”, “Abaixo o realismo socialista. Viva o surrealismo." ,"A ação não deve ser uma reação, mas uma criação.”, "O agressor não é aquele que se revolta, mas aquele que reprime." , "Amem-se uns aos outros." ,"O álcool mata. Tomem LSD." ,"A anarquia sou eu.”, “as armas da crítica passam pela crítica das armas." ,"Parem o mundo, eu quero descer." ,"A arte está morta. Nem Godard poderá impedir." ,"A arte está morta, liberemos nossa vida cotidiana." "Antes de escrever, aprenda a pensar.”, "A barricada fecha a rua, mas abre a via." ,"Ceder um pouco é capitular muito.”, “Corram camaradas, o velho mundo está atrás de vocês.”, “A cultura é a inversão da vida." ,"10 horas de prazer já." ,"Proibido não colar cartazes." ,"Abaixo da calçada, está a praia.", "A economia está ferida, pois que morra!" ,"A emancipação do homem será total ou não será.”, "O estado é cada um de nós.”, “A humanidade só será feliz quando o último capitalista for enforcado com as tripas do último padre.”, “A imaginação toma o poder." ,"A insolência é a nova arma revolucionária.", "É proibido proibir." ,"Eu tinha alguma coisa a dizer, mas não sei mais o quê." ,"Eu gozo.”, “Eu participo. Tu participas. Ele participa. Nós participamos. Vós participais. Eles lucram.”, “os jovens fazem amor, os velhos fazem gestos obscenos." ,"A liberdade do outro estende a minha ao infinito.", "A mercadoria é o ópio do povo.", “As paredes têm ouvidos. Seus ouvidos têm paredes." ,"Não mudem de empregadores, mudem o emprego da vida." ,"Nós somos todos judeus alemães." ,"A novidade é revolucionária, a verdade, também." ,"Fim da liberdade aos inimigos da liberdade." ,"O patrão precisa de ti, tu não precisas do patrão.", "Professores, vocês nos fazem envelhecer." ,"Quanto mais eu faço amor, mais tenho vontade de fazer a revolução. Quanto mais faço a revolução, mais tenho vontade de fazer amor.”, “A poesia está na rua." ,"A política se dá na rua." ,"Os sindicatos são uns bordéis." ,"O sonho é realidade." ,“Só a verdade é revolucionária.”, “Sejam realistas, exijam o impossível.",
"Trabalhador: você tem 25 anos, mas seu sindicato é de outro século." "Abolição da sociedade de classes." ,"Abram as janelas do seu coração.”, “A arte está morta, não consumamos o seu cadáver. “,"Não nos prendamos ao espetáculo da contestação, mas passemos à contestação do espetáculo. “,"Autogestão da vida quotidiana", "A felicidade é uma ideia nova." ,"Teremos um bom mestre desde que cada um seja o seu." ,"Camaradas, o amor também se faz na Faculdade de Ciências." ,"Consuma mais, viva menos." ,"Escrevam por toda a parte!" ,"Abraça o teu amor sem largar a tua arma.”, "Enraiveçam-se!", "Ser rico é se contentar com a pobreza?", "Um homem não é estupido ou inteligente: ele é livre ou não é.", "Adoro escrever nas paredes." ,"Decretado o estado de felicidade permanente." ,"Milionários de todos os países, unam-se, o vento está a mudar.”, “Não tomem o elevador, tomem o poder."
            Uma coisa é certa, o debate nunca está encerrado!

Fernando Pereira
12/5/2018
               

4 de maio de 2018

“Proibido Proibir”/ Ágora/ Novo Jornal - Luanda 4-05-2018


                “Proibido Proibir”


            Comemora-se o cinquentenário da aventura de uma geração, em que nada a partir de então ficou como tinha sido até àquele momento!
            O Maio de 1968 surge numa Europa, que curiosamente vivia um dos melhores períodos de euforia económica do pós 2ªguerra mundial aliada a uma paz social como ainda não se tinha visto no século XX, e o seu epicentro é numa das cidades do mundo que foi sempre um local de culto pela defesa da liberdade, Paris.
            O dia 3 de Maio de 1968 é a data marcante da grande revolta estudantil, quando em resposta à concentração contra o encerramento da Sorbonne se inicia um período de grande explosão social, sem paralelo na europa contemporânea de então.
Os estudantes barricam-se no Quartier Latin e rapidamente as manifestações e confrontos generalizam-se por toda a cidade e um pouco por todo o País. As adesões à luta dos estudantes por novos valores e outras opções de participação popular multiplicaram-se, e de um momento para o outro 10 milhões de trabalhadores dos mais variados sectores de atividade estavam em greve paralisando toda a atividade económica de França.
Os estudantes e os movimentos cívicos contestavam a “velha ordem” instalada nos estabelecimentos de ensino superior, e reclamam um ensino conservador equidistante da realidade quotidiana dos cidadãos.
De Gaulle, ao tempo presidente francês, herói da resistência ao nazismo perde por completo o controle da situação, entrando em clara rotura com a rua que diariamente se agiganta em adesões e também em choque com o seu primeiro ministro Pompidou que tenta arranjar uma solução de compromisso que permita à França sair de uma situação de caos quase generalizado.
O movimento do Maio de 1968 furou o convencionalismo dos partidos tradicionais, e foi olhado com alguma reserva inicial pelo movimento sindical francês, muito cético “porque os estudantes eram os filhos da burguesia”, mas a verdade é que em determinada fase a própria CGT, a maior confederação sindical francesa aderiu a uma contestação que não tinha liderança e que queria discutir tudo.  Para se ter a dimensão da mobilização, a título de exemplo, foram editados em serigrafia, litografia ou gravura mais de 500.000 cartazes com cerca de 400 motivos diferentes, feitos por estudantes, professores, artistas e grupos de bairro.
A Bolsa de Paris ardeu, algumas igrejas foram locais de reunião, as salas de aula foram utilizadas para se discutir a ordem, a desordem e a pós-desordem.
 Tudo era posto em causa e palavras como: “O sonho é realidade”, “Todo o poder abusa. O poder absoluto abusa absolutamente”, “Não me libertem, eu encarrego-me disso”, “A poesia está na rua”,” A ação não deve ser uma reação, mas uma criação”, “A Revolução tem de deixar de ser para existir”,” Abram o vosso cérebro tantas vezes como a braguilha”,” É proibido proibir”, “Tomem os vossos desejos pela realidade”, “Não reivindicaremos nada. Não pediremos nada. Conquistaremos. Ocuparemos,” Um homem não é estúpido ou inteligente: ele é livre ou não é” e muitas outras que passaram a entrar no quotidiano das revoluções que se foram operando um pouco por todo o mundo.
Numa reportagem um jornalista ouvia um conjunto de intervenções e quando se dizia “Contestai, é preciso contestar tudo”, perguntou: “Mas não há nada que vocês não contestem?”” Há” respondeu alguém: “O direito que todo o homem tem a viver dignamente”.
No Odeon, um dos lugares míticos de debate contínuo nesses dias de permanente agitação há este diálogo captado por um jornalista: Uma mulher magra, de meia idade, algo irritada com frases do tipo “enforcar o ultimo padre nos intestinos do ultimo capitalista” grita do alto do balcão: “Atenção, Irmãos, Deus está vivo, está lá fora à porta”. Logo, alguém lhe respondera: “Então que entre depressa, já vem atrasado”.
O Maio de 1968 marca uma viragem em novas conceções políticas, abertas a novas doutrinas e mobilizadoras para vivencias diferentes do contexto centrado nalgum dogmatismo organizativo do seculo XIX e no princípio do seculo XX. Foi um tempo em que Marcuse, Sartre, Dérrida, e outros aparecem a ocupar os lugares que Marx, Engels, Lenine, Trotsky,Staline, Mao e outros disputam. Volta-se a Saint Simon, Fourier, Owen, Hegel e Goethe para perceber Dabord, Aragon, Althusser, Aron, Garaudy, Beauvoir, etc. Reinventa-se a história sem que o dogmatismo da luta de classes permaneça, e procura-se algo de hedonismo social, mas de contornos muito difusos, e nalguns casos pouco coerentes.
Nos EUA a contestação à guerra do Vietnam torna-se o motivo central da contestação estudantil, e o início das conversações de paz entre os EUA e o Vietname começam em Paris em Maio de 1968, o epicentro das múltiplas revoltas que se espalham um pouco por todo o mundo e que nalguns casos se revelam dramáticas para os manifestantes, por exemplo no México onde morrem algumas centenas pelo uso desproporcionado da policia e exército no que foi o triste massacre de Tlatelolco.
Cinquenta anos depois no mundo parece que quase não houve nenhum Maio de 1968, pois os o voluntarismo, o apelo de libertação, o espírito solidário,e outros valores desvaneceram-se, e a geração desse tempo engravatou-se e esgaravata-se em fazer prevalecer a ordem económica assente numa economia de mercado, de desmesurada ferocidade para com os trabalhadores, imigrantes e povos de países em vias de desenvolvimento.
Passou-se à concorrência feroz, à disputa de mercados e um apelo ao consumismo desregrado que empobrece povos, enriquece alguns e multiplica a fome e a indigência por milhões que não tem direito a rigorosamente nada. As mais valias que eram extorquidas aos trabalhadores no processo produtivo, gerando emprego, foram substituídas na forma de ações, títulos, participações e outras formas subtis de transferência de capital ao nível global.
O ano de 1968 foi o ano de todas as contestações desde as sucessivas manifestações contra a guerra do Vietname um pouco por todo o lado, o início da Primavera de Praga e o seu esmagamento por tropas soviéticas, revoltas estudantis em Espanha, Alemanha, Bélgica e Itália, para além do assassinato de Marthin Luther King em Menphis quando se preparava o maior movimento grevista nos EUA.
Na musica, nas artes-plásticas, no vestuário e noutras áreas da cultura houve uma mudança com o aparecimento de novas tendências e o ousar passou a ser o banal, acabando com o convencionalismo que então era quotidiano nas sociedades tecnologicamente e economicamente mais desenvolvidas.
Se ao tempo nada ficou como antes, passados os 50 em que Geismer, Sauvageot e Cohn-Bendit deram a cara por um Maio que fez abanar os fundamentos do “estado burguês”, temos hoje um mundo mais desigual, ideologicamente monocromático e que a democracia passou apenas a ser instrumentalizada para domínio do económico em detrimento de um social cada vez mais apagado.
“Sejamos realistas, exijamos o impossível”

Fernando Pereira
29/5/2018






20 de abril de 2018

Património Comum / Ágora/ Luanda 20-4-2018





Património Comum
«A cidade apareceu ocupada e radiosa. Deparámos com colunas militares inundados de sol; e povo logo a seguir, muito povo, tanto que não cabia nos olhos, levas de gente saída do branco das trevas, de cinquenta anos de morte e de humilhação, correndo sem saber exatamente para onde, mas decerto para a LIBERDADE!

Liberdade, Liberdade, gritava-se em todas as bocas, aquilo crescia, espalhava-se num clamor de alegria cega, imparável, quase doloroso, finalmente a Liberdade! cada pessoa olhando-se aos milhares em plena rua e não se reconhecendo porque era o fim do terror, o medo tinha acabado, ia com certeza acabar neste dia, neste Abril, Abril de facto, nós só agora é que acreditávamos que estávamos em primavera aberta depois de quarenta e sete anos de mentira, de polícia e ditadura. Quarenta e sete anos, dez meses e vinte e quatro dias, só agora.»

José Cardoso PiresAlexandra Alpha
                Provavelmente o 25 de Abril de 1974 foi uma das datas mais marcantes em toda a minha vida de cidadania empenhada, não a mais importante já que essa, está reservada no lado esquerdo do peito, é o 11 de Novembro de 1975 do nosso contentamento.
                Tive o privilégio de o ter vivido a cada minuto desse tempo e de ter participado na catarse coletiva que foram esses tempos em que se fez Esperança, e que nos permitiu agarrar o sonho que se vivia a cada transformação que se operava.  
                Sentimos nas praças, nos campos, nas ruas e em todos os lugares que palavras como Solidariedade, Liberdade e Democracia tinham vindo para ficar em Portugal, e tivemos que esperar até 2002 na sofrida Angola.
“O 25 de Abril de 1974 é uma data dos portugueses”” Os angolanos não têm nada a ver com isso”. “Essa data não diz nada aos angolanos” etc . Esta frase é pisada e repisada ao longo das décadas por determinada gente de Angola, desde os tempos da Independência. Nas redes sociais vê-se o efeito a que este tipo de linguagem deixou como legado nas gerações que ainda acreditam que nunca houve nada antes do MPLA, e que o Salazar era um “tipo porreiro” porque era sério e morreu pobre! Pura estultícia.
Lamento que não se tenha evoluído o suficiente para fazer compreender que o 25 de Abril de 1974 foi uma data determinante para a Independência de Angola, e simultaneamente determinada pela luta de libertação dos povos oprimidos pela ditadura e pelo colonialismo nos territórios africanos dominados em Portugal.
Não é uma data dos portugueses, é um momento histórico que aglutina à sua volta um desejo comum de liberdade e de emancipação. Conjuga-se a vontade de se trilharem caminhos diferentes, mas irmanados no muito que nos une apesar de algumas vezes se enfatizar o pouco que nos divide.
Hoje somos do 1º de Agosto e do Futebol Clube do Porto (no meu caso), há os que vibram com as vitórias do Petro, do Benfica, do Libolo e do Sporting, e pelos vistos esses assuntos não são património de ninguém! Este é um exemplo, mas poderia dar milhentos nos domínios culturais, económicos e de natureza social.
Deixemo-nos de argumentos pueris. Em Portugal há quem não tenha digerido de todo o “império perdido”, quando na realidade esse esforço de manter uma “mistificação” de “Portugal dos Pequenitos” custou a Portugal e às colónias sacrifícios que ainda não estão ultrapassados passada uma geração.
A maioria das pessoas em Portugal e Angola já não liga a “arrufos de circunstancia”, e circunscreve-se tudo a um quadro de uma elite económica e politica que se quer aproveitar de “fantasmas” para escamotear a incapacidade de resolver situações que se obrigaram a resolver.
Ainda hoje quase duzentos anos depois da Independência do Brasil (1822) os portugueses são o motivo maior no anedotário do brasileiro, e em Portugal o Brasil é olhado como um local de futebolistas, bonitas raparigas, praia e pouco mais, esquecendo a importância das universidades Brasileiras no contexto das ciências e letras que se expressam em português na comunidade científica mundial, para dar apenas um pequeno exemplo.
Quando se diz a “mentalidade tuga” está-se a tentar marcar um espaço de afirmação identitária de uma determinada angolanidade. É positiva quando empregue com bonomia e perniciosa quando proferida com acrimónia.
Quando em Portugal se diz que os angolanos são “indolentes e uma cambada de corruptos” estão a generalizar de má-fé (“Má-fé é só má-fé e nunca um erro” Jorge de Sena) sobre um povo de características muito próprias, unido na sua diversidade de costumes, crenças, línguas e hierarquias, e isso é lastimável. Talvez por isso se consiga uma “desforra agradável” quando o holandês Jeroen Dijsselbloem dizia dos portugueses o que eles dizem dos angolanos., provocando-lhes a ira.
“Tu, que descobriste o cabo da Boa-Esperança; e o Caminho Marítimo da Índia; e as duas Grandes Américas, e que levaste a chatice a estas Terras e que trouxeste de lá mais chatos p'raqui e qu'inda por cima cantaste estes Feitos...” dizia Almada Negreiros, digo complementando Eça de Queirós” O Brasileiro tem os defeitos dos portugueses só que dilatados pelo calor”.
                Como diria Ary dos Santos, esse grande trovador do 25 de Abril, “O passado é já bastante, vamos passar ao futuro”.
                Vale a pena gritar “Viva o 25 de Abril de 1974” que é uma data da malta!

Fernando Pereira
25/4/2018




13 de abril de 2018

Verão do nosso descontentamento / o Interior / 11/4/2018




Verão do nosso descontentamento

Acabou o período determinado pelo governo para que se fizessem as limpezas das áreas circundantes das casas. Vem o tempo de fiscalizar e multar os prevaricadores.
Esta intervenção na floresta mais não foi que um eufemismo, pois nas florestas nada aconteceu de especial a não ser o corte da lenha queimada, o que irá fazer com que seguramente a área ardida este ano seja muitíssimo inferior à do ano passado.
Irão aparecer os balanços com os sorrisos habitueis a salientarem o trabalho coordenado de todos, não se poupando a autoelogios, e a darem a imagem de grande empenho no combate continuado aos incêndios e a um maior ordenamento florestal, como gostam de dizer os dignitários do eixo Terreiro do Paço - S. Bento, quando se contorcionam para tropeçar numa camara ou num microfone.
O que importa mesmo é que as populações sejam protegidas, e que as poucas pessoas que resistem a viver no interior, consigam deixar de ter os sobressaltos do Verão já que o País decisor passa no Algarve ou noutras paragens mais longínquas as suas férias.
Não vou fazer como certas pessoas, que despercebendo o que é o fator produtivo vem com indisfarçável histeria para as TVs clamarem contra determinado tipo de árvores, esquecendo-se que as pessoas do interior vivem sobretudo da floresta, afinal a que lhe permite fazer face a despesas tão comezinhas como comer, pagar água, luz, gás, escola dos filhos, medicamentos, etc.
As populações das zonas de floresta não podem ser transformadas em “vigilantes de um qualquer jardim botânico”, pois talvez as pessoas não saibam que direta ou indiretamente representam 11% do PIB português. Convenhamos que é algo não negligenciável para os tudólogos que enxameiam os canais de TV, falando de florestas, futebol, inundações, guerras púnicas ou qualquer assunto, que lhes sirva para aparecerem e manterem a sua notoriedade construída e perpetuada pela pobreza em que se está a tornar a comunicação social, principalmente o audiovisual.
                Já agora, convém lembrar que há muito espaço florestal dependente do Estado e das autarquias que permanece ao abandono, e que talvez não seja mau de todo cumprirem o que fazem cumprir aos privados.
                Aguardemos que não tenhamos outro “Verão do nosso descontentamento”.

Fernando Pereira
8/04/2018


27 de março de 2018

99-Uma capicua com começo feliz Jornal de Angola- Luanda- 27-03-2018


  
            

99-Uma capicua com começo feliz!
No passado dia 24 de março de 2018 foi inaugurado num dos mais emblemáticos edifícios da nossa cidade capital, o Magistério Mutu ya Kevela, escola de formação de professores do ensino primário.
            A solução encontrada, é minha opinião reveladora de clarividência por parte de quem decidiu o princípio de um novo futuro que se revela auspicioso no domínio da educação no País.
            Durante os oito longos anos que demorou a reconstruir o edifício muito se especulou sobre qual seria o seu futuro, e logo vozes bastantes em surdina iam dizendo que iria acabar como património de uma universidade privada, um hotel de luxo, um condomínio, enfim uma panóplia de conjeturas sobre um edifício que para além da arquitetura impactante,  foi lugar onde muitos dos que foram figuras de referencia nestes quarenta anos de País, por lá estudaram e onde fizeram cumplicidades que ainda hoje prevalecem.
            Para o ano o Liceu de Luanda cumpre a vetusta data de cem anos, pois foi a 22 de fevereiro de 1919, pela portaria nº 51, o então governador-geral Filomeno da Camara Melo Cabral com a designação de Monsenhor Manuel Alves da Cunha, seu primeiro reitor (o único que se manteve na sua peanha antes e depois da independência no jardim fronteiro ao ex-Colégio S. José de Cluny). Monsenhor Alves da Cunha era também conhecido por ser o “Senhor Kuribeka”, pois era curiosamente membro da maçonaria!
            A instalação do Liceu que teve como aluno nº 1 Álvaro Galiano, funcionou desde 15 de setembro de 1919 na Rua da Misericórdia, numa casa da Companhia de Ambaca, tendo-se transferido para a Av. do Hospital em outubro desse ano, em edifício demolido para dar lugar ao prédio onde hoje funciona o Ministério da Justiça.
            Em 1924 o Liceu passa a chamar-se de Liceu Nacional de Salvador Correia, equiparado aos liceus da então metrópole. Em 1972 o liceu passa a servir de local de estágio de professores e até 1975 altera a denominação de Nacional para Liceu Normal.
            O edifício era pequeno e logo foram detetadas insuficiências que levaram a que se apresasse a construção de um edifício que respondesse ao crescendo de numero de alunos, quer de filhos de colonos, quer de famílias negras e mestiças que viram uma oportunidade de poderem dar aos filhos uma formação, que lhes pudesse permitir ter um emprego com alguma dignidade e futura na segregacionista sociedade colonial.
            O arquiteto José Costa e Silva é o autor de um projeto arrojado pois conseguiu compatibilizar o modelo de português-suave, uma corrente da arquitetura portuguesa muito cara a determinada fase do salazarismo, com o clima de Luanda. Não sou um adepto do estilo, mas reconheço que é um modelo onde muitos arquitetos se deveriam rever para evitar a perfeita “balbúrdia arquitetónica” que se transformou Luanda, que em alguns aspetos parece uma Disneylandia para adultos!
            O edifício é arrojado, com paredes duplas para a circulação de ar, claustros onde se consegue evitar a inclemência do sol alto da cidade e janelas com luz suficiente e protegidas da estia de Luanda.
            O Liceu Nacional de Salvador Correia deu os dois primeiros presidentes do País, Agostinho Neto e José Eduardo dos Santos e deu uma plêiade de gente que lutou pela libertação do País. Formou gente de grande qualidade científica e intelectual e a maior parte dos poetas angolanos saíram dos bancos do Liceu, tendo debutado no “Estudante”, órgão dos alunos do Liceu Salvador Correia, sendo o 1º número de 1933.
            Seria fastidioso, e ao mesmo tempo indelicado pois poderia esquecer alguém, vir aqui dizer os nomes de tantos que em Angola, em Portugal, nos EUA, no Brasil, em Macau se tem notabilizado em várias áreas do conhecimento e da política. É indisfarçável o orgulho de todos os milhares que passaram por este Liceu, que continuou enquanto Mutu-Ya-Kevela, a fazer sair gente de grande qualidade que ajudaram a construir uma Angola renovada e independente.
            A degradação física do edifício e as sucessivas deficiências pedagógica do Mutu-ya-Kevela retiraram algum brilho nos últimos vinte anos, mas ei-lo que regressa para dar uma alegria coletiva aos do Salvador Correia e aos do Mutu, e julgo que há uma unanimidade na celebração da recuperação, e um aplauso pela sábia decisão de dignificar um espaço de eleição com uma escola de formação de professores.
            Esta decisão consegue esbater definitivamente os fantasmas que havia em relação ao estatuto de escola de formação de quadros do sistema colonial, como o surgir em contraponto uma escola que pudesse criar “o homem novo” sucessivamente adiado da escola pós-independência! O surgimento deste Magistério Mutu-Ya-Kevela vai seguramente unir todos para que se comemorem os 100 anos de um tempo que é mais para recordar, para acordar para um futuro que se deseja consequente e brilhante num ciclo novo que começa.
            Eu andei no Liceu desde o meu 1º ao 5º ano, tendo saído em 1972 e há milhentas histórias que me recordo e muitas outras que me são recordados em inúmeros encontros que nos fomos habituando a fazer em Portugal, em Luanda, no Brasil ou em Macau. É impressionante o espírito solidário dos antigos alunos do Salvador Correia / Mutu-Ya-Kevela, e os encontros são sempre um retorno a um tempo pueril e irresponsavelmente sonhador.
            Num momento em que se tornou um hábito quotidiano defenestrar governantes, é justo realçar a decisão de se ter recuperado fisicamente a escola, e simultaneamente aplaudir a ministra da Educação, Maria de Cândida Teixeira pela decisão que tomou em relação ao futuro do “nosso Liceu”!
                   Porque muita gente ignora quem foi Mutu Ya Kevela convém destacar que foi um dos mais notáveis membros da Corte do Bailundo, um herói de uma das nações ancestrais do Centro de Angola e liderou uma revolta contra a presença portuguesa, tendo sido derrotado em 1902, depois de ter conseguido reunir um conjunto de reinos da região, e ao tempo ter disposto do maior numero de guerreiros.
                   Também por isto uma boa homenagem!
Fernando Pereira
26/03/2018

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