28 de abril de 2017

A VERRUGA / Novo Jornal / Luanda /28-4-2017






A VERRUGA


Confesso que fico perplexo quando vejo que no Município do Cazenga continua a existir um bairro com o nome de Adriano Moreira, e por exemplo que o nome do insigne botânico Luis Carriço tenha sido suprimido da toponímia luandense, entre outros casos.


Este é apenas um dos exemplos da confusão instalada nas pessoas sobre o passado recente do território de Angola, e a sua transição para a independência naquele sempre lembrado 11 de Novembro de 1975.


Luis Carriço fez parte da 1ª missão botânica enviada a Angola. Era professor na faculdade de ciências da Universidade de Coimbra e diretor do Jardim Botânico da cidade. Deixou uma vasta obra no seu ramo, fruto de uma recolha feita em todo o território de Angola, abruptamente interrompida pela sua morte ocorrida em 1937 no deserto do Namibe, onde foi sepultado.


Se alguém quiser explicar quem foi Adriano Moreira a um morador do bairro teremos que dizer que foi Ministro do Ultramar de Salazar de 1961 a 1963, depois de ter sido subsecretário de estado da administração ultramarina em 1959. Neste percurso “ultramarino” de Adriano Moreira avulta ter sido o diretor do ISCPU (Instituto de Ciências Sociais e Politica Ultramarina) uma das duas escolas de formação de pessoal administrativo da administração colonial portuguesa (a outra era a escola colonial em Goa). Formava entre outros, administradores, chefes de posto, secretários, intendentes,etc.


Foi um dos responsáveis diretos pela introdução institucional, nos anos 1950 da denominada “Lusotropicalogia” conhecida depois como “luso-tropicalismo”, que teve no brasileiro Gilberto Freyre o seu patrono. A “Casa grande e senzala”, "O Mundo que o Português Criou", "O Luso e o Trópico” são as cartilhas de um defesa de Portugal como “primeira civilização moderna nos trópicos".


Toda a estrutura ideológica do jovem Adriano Moreira assentava na premissa de um Portugal portador da civilização e da ordem em todo o território, defendendo que os “indígenas” teriam que trabalhar segundo regras evolutivas de um “ato colonial” reformista. Foi este senhor que reabriu o Campo do Tarrafal em Abril de 1961, inicialmente como campo de detenção dos angolanos condenados no “processo 50” e depois alargado a nacionalista de todas as colónias, tendo fechado com a revolução do 25 de Abril de 1974 em Portugal. Apesar de refutar essa acusação, Adriano Moreira não se consegue livrar do labéu de ter promovido a organização da PIDE em Angola.


Reconheço ao Dr. Adriano Moreira uma grande sagacidade politica e uma rara inteligência, mas não deixa de ser intrigante o seu tortuoso trajeto politico que lhe tem permitido guindar-se a uma figura “reverente” na democracia portuguesa, depois de ter sido um dos putativos delfins do ditador Salazar.


Assume-se como o criador dos “Estudos Gerais Universitários” em Angola e Moçambique, embrião das universidades de Angola e Moçambique. Provavelmente a criação destas escolas superiores terão criado uma das situações mais rocambolescas dos anos do estertor do salazarismo em Portugal.


Por ironia do destino, Salazar ordena a Adriano Moreira, no âmbito da sua competência enquanto ministro do Ultramar, que nomeie o general Venâncio Deslandes como 117º governador-geral de Angola (Junho de 1961), cargo que ocupa em simultâneo com o de Comandante Chefe das Forças Armadas na “provincia”. As relações entre os dois nunca foram muito amistosas, já que ambos tinham uma sede de protagonismo ilimitado. Deslandes dizia que “chefiava o maior contingente militar de sempre de Portugal” e que “iria acabar a guerra em Angola em seis meses e depois disso passaria ser um caso de altercação de ordem publica e apenas responsabilidade da polícia”. Tudo isto irritava de sobremaneira Moreira que se sentia diminuído perante o seu alter-ego Salazar.


Foram muitas as situações de conflito, mas a que teve maior impacto e levou à saída intempestiva de Deslandes e posteriormente de Moreira foi a criação dos Estudos Gerais Universitários em Angola, velha reivindicação dos colonos que tinham que mandar os seus filhos estudar para a então “Metrópole”. Ressalve-se que no tempo colonial a única “estrutura universitária” que existia nas colónias era uma escola médica de Goa, que não tinha categoria de faculdade e uma escola de teologia na mesma cidade, que tinha encerrado no dealbar dos anos 50 quando a prelatura do Oriente é retirada a Goa e é entregue a Bombaim, que é o primeiro e pouco conhecido golpe contra o edifício colonial português.


Deslandes sem conhecimento de Moreira, seu superior hierárquico reúne o conselho provincial e emana uma norma a criar os “estudos gerais Universitários”, o que deixa o Ministro do Ultramar em transe. Salazar tinha sido consultado por Deslandes e terá dito: “Querem os pretos a estudar, depois não se arrependam”. Naquele quadro de intriga palaciana que Salazar adorava, manhoso e farsolas como era, colocou os dois numa disputa sem quartel quanto à legitimidade da criação dos EGUA. Adriano Moreira ou não assinava o decreto que criava por recomendação do conselho legislativo de Angola, ou o faria e dava a Deslandes a coroa de glória da criação de um embrião de uma Universidade em Angola. Isto já será especulação, mas Adriano Moreira, sagaz e sentindo que o chão lhe poderia fugir resolveu assinar o despacho trazendo à colação os Estudos Gerais Universitários de Moçambique.


Foi a gota de água e Deslandes, que tinha um programa próprio de fomento contrário ao de Moreira, é por este demitido de governador geral de Angola em Setembro de 1962, sendo substituído por Silvério Marques. Salazar observava e naquela sua gestão muito peculiar de alimentar guerrilhas para que o poder se mantivesse forte demite no ano seguinte Adriano Moreira, que volta para o seu ISCPU.


Sobre os Estudos Gerais de Angola e da criação da Universidade de Angola haverei de voltar, mas continuo de facto sem perceber o porquê de um bairro Adriano Moreira na cidade capital de Angola. Também há tanta coisa que despercebo!!!






Fernando Pereira


14/4/2017






19 de abril de 2017

Joaquim Gil - Um homem de causas!



















Texto que publiquei no livro coordenado por mim de homenagem ao Dr. Joaquim Gil.


Muitas vezes é preciso um mau motivo para fazer a coisa certa.

                Um grupo de amigos do saudoso Joaquim Gil reuniu um conjunto de textos, fotos e alguns depoimentos, e concebeu este livro  que nos ajudará a perpetuar a estirpe intelectual de um amigo que nos deixou tão de repente. Ainda hoje achamos que “tudo não passou de um sonho mau que não acabou”.
                Fiquei com a incumbência de juntar o que parecia ideal para  se conseguir fazer um trabalho que possibilitasse a todos aquilatar da excelência intelectual do Joaquim Gil e, simultaneamente,  permitisse vincar valores que sempre lhe foram caros ao longo da sua vida intensa: a liberdade, a justiça e a solidariedade.
                Conheci o Joaquim Gil nos idos setenta do século passado, num tempo de tanta esperança e certeza. Os tempos seguintes vieram demonstrar quão enganados estávamos. O Joaquim Gil, ideologicamente, assumiu a máxima de Willy Brandt : "Quem aos vinte anos não é comunista não tem coração. E quem assim permanece aos quarenta anos não tem inteligência". Nunca renegou a sua passagem pela militância comunista donde se afastou no dealbar dos anos 80 do século passado.
                Dos tempos do PREC recordo esta frase que encontrei, escrita pelo seu punho, num dos muitos papeis por onde andei a “vasculhar”:” Quem não viveu, esqueceu ou renunciou às delícias das ilusões desses grandes dias nunca vai conhecer o exato perfume das flores”. Não sei quem é o autor, mas achei que o que vivemos era mesmo isto.
                Um profissional brilhante, respeitado pelos seus pares e por todos os agentes do universo da justiça, onde granjeou enorme prestígio, pelo brilhantismo das suas intervenções e pelo profissionalismo e empenho com que defendia as suas causas.
                A ligação de Joaquim Gil ao universo desportivo, enquanto dirigente, manteve-se ao longo de muitos anos em Coimbra e na Figueira da Foz.  Continuei a vê-lo ligado ao associativismo e com ele me habituei a partilhar das preocupações de um tempo que cada vez vem sendo menos propiciador de voluntarismos.
                Sophia de Mello Breyner Anderson sintetizou o que me “vai levando” neste tempo em que empobrecemos quando o perdemos naquela infausta noite de janeiro de 2015: “A saudade é a tristeza que fica em nós quando as coisas de que gostamos se vão embora”.
                O Joaquim Gil era um homem de juntar pessoas de matizes políticas diferentes, de atividades profissionais diferenciadas, e tinha um prazer enorme em proporcionar uma discussão e nunca a deixar esmorecer. Conseguia, assim,  por vezes, colocar toda a sua capacidade de intervenção  e alguma sagacidade para que fossem aprofundados os temas, assumindo a dose certa de provocação.
                Aglutinava na sua mesa de café, em Coimbra e na Figueira da Foz, muita gente que sente hoje muito a sua falta, e que o acompanhava pela capacidade de sedução que imprimia às relações com as pessoas, algo que lhe reconheço desde os tempos da juventude.
                Divergimos politicamente muita vez, mas até nisso, às vezes, me desconcertava por não alinhar com estereótipos do pensamento politico recente, e isso valeu-lhe ter perdido a confiança de alguns servidores dos aparelhos partidários.
                Foi sempre cioso da sua liberdade de pensar e, como nasceu no seio de uma família   onde a educação, o respeito e a dignidade da pessoa eram valores que não poderiam ser beliscados,  estavam sempre presentes mesmo nas discussões mais pueris de um homem que sempre esteve bem com a vida.
                Indefetível portista, vivia o Futebol Clube do Porto com toda a intensidade que o clube merece e, nos momentos em que este ganhava, rejubilava e provocava os adeptos de clubes adversários, aceitando de forma contida quando estes ganhavam!
                José Gomes Ferreira, no funeral de Ferreira de Castro: “Quando um amigo morre que nos resta senão ressuscita-lo”
                Foi o que tentámos fazer aqui e acho que o conseguimos todos os dias. Para mim ainda hoje é um luto difícil de abandonar.


Fernando Pereira            
                                        

                        

24 de fevereiro de 2017

Contos velhos, rumos ainda mais velhos! / Ágora/ Novo Jornal / Luanda 24-2-2017



Contos velhos, rumos ainda mais velhos!
Luanda transformou-se numa cidade sem identidade e isso é o pior que se pode legar aos vindouros.
                Todas as urbes procuram preservar o conjunto edificado que foi unindo gerações e que são a “marca de água” de uma cidade! Luanda com as suas administrações e o dinheiro facilmente conseguido fazem exatamente o contrário.
                Não é uma situação nova, aliás vem do estertor do período colonial, mas nos últimos tempos, antes da “míngua” que se adivinhava, o que aconteceu à cidade foi um verdadeiro flagelo.
                Vamos dar uma volta ao passado numa viagem por textos de quem por cá andou no antanho!
                Luanda pela pena do médico alemão George Tams, que a visitou em 1841: “ Luanda apresenta-se-nos com um aspeto maravilhoso:_ É edificada em forma de anfiteatro, erguendo-se desde a base até ao cume dos montanhosos socalcos da costa, a qual neste sítio desce até próximo à superfície do mar. A grande porção de casas edificadas ao estilo europeu, muitas das quais espaçosas, umas com telhados vermelhos, outras azuis, os muros caiados de branco ou de amarelo, as lindas torres das igrejas, o palácio do governador e o vizinho forte, excitam grandemente a surpresa do estrangeiro”
                Mas não deixava o aludido médico alemão de escrever: “O ar é tam mao e comunica aos alimentos taes qualidades mortíferas que os que comerem deles logo que ali chegarem, devem ficar certos que serão vítimas da sua imprudência, ou pelo menos que adoecerão gravemente:”
                O Dr. Tams deslumbrou-se com o lugar das Quipacas, lugar que ficava perto do lugar onde se construiu a estação de Caminho-de-ferro, e que se chamará assim já que era um lugar aprazível, onde construíram espaços de lazer gente endinheirada (Kipaka em quimbundo significa dinheiro): “ Neste sombrio retiro, os cantos de numerosas espécies de cigarras ressoavam à tarde, e os seus agudos sons tam penetrantes eram neste profundo silêncio, que se podiam ouvir claramente a mais de uma milha de distância. Aqui um italiano que havia enriquecido com o tráfico da escravatura, tinha formado, uma linda casa de campo, no meio de um intensíssimo pomar, para onde convidava diferentes habitantes de Luanda, os quais nunca deixavam de aproveitar-se daquele deleitoso passeio.” Tams referia-se a Antonio Paris, napolitano que morreu em Luanda com 86 anos em 23 de Dezembro de 1846. Veio para Angola em 1821 com mais 212 compatriotas, condenados a degredo por tribunais napolitanos e a pena era cumprida ao abrigo do acordo celebrado em 11/12/1819, entre o rei D. João VI de Portugal e o rei das Sicílias. (Este conjunto de referencias vem no livro, “Subsídios para a História de Luanda” de Manuel da Costa Lobo, Lisboa-1967). Refira-se que este Paris teria sido dono do famoso Hotel Paris, demolido para dar lugar ao Palácio da Palmeira, onde esteve a Lelo, e que hoje está sentenciada a ter em breve o mesmo destino.
                O livro de George Tams, “Visita às possessões portuguesas na Costa Ocidental de África” descrevia as refeições: “ às oito horas, todos nos reunimos ao almoço, que geralmente se compunha de mãos de vitela cozidas, vagens de pimenta fervidos em água; ou de caracóis cozidos e algumas espécies de marisco. Vinho tinto de Lisboa acompanhava a comida e no final serviam o chá.
                Ao meio dia, tomávamos outra refeição que consistia de queijo e cerveja. Às seis horas era servido um variado e suculento jantar, consistindo a sobremesa duma abundante escolha de frutos, sendo principalmente de amêndoas de caju, laranjas e goiabas.” Situamo-nos em 1854!
                Já que hoje este artigo é quase feito de citações não deixa de ser curioso que em fins do seculo XVIII, os cidadãos de Luanda eram conhecidos por “Volantes”, palavra que no entender de Teixeira de Vasconcelos sintetizava “quão diminutas eram as ligações que existiam entre eles e a terra…”! Já era assim!
                Elias Alexandre da Silva Correia, que esteve em Luanda no segundo quartel do seculo XVIII, escreveu na sua “História de Angola” algo sobre hábitos de grandeza que mais de dois séculos depois mantem-se perenes: “ O Luandense detesta os sufrágios da miséria e prepara um trem de vida, tanto mais pomposo, quanto mais iniquo. Impõe respeito no seu trato doméstico; enche a sua mesa de bocados desusados na sua criação; adopta para o vestuário o uso de custosas alfaias e ricas joias, como espadins de ouro, cravejados de pedras preciosas, fivelas de ouro e de pedras, bons relojios, abotaduras de importância, ricas sedas, etc; faz garbo do desperdício: brilha no jogo com magnanimidade e combate, vício por vício, o dos seus émulos.”
                No contexto que se vive na Luana de hoje seria de todo urgente que se fizesse uma reflexão sobre o que seria a cidade no futuro, sem a megalomania que é uma prodigalidade do angolano, nem abandonada em tempos de crise acentuada.
                Luanda merece este debate e sobretudo que se procure salvaguardar a réstia de passado e que a cidade seja recriada para que seja vivível, e deixe de ser insalubre no que se respira, no que se negoceia, no que se comenta, no que se publica e fundamentalmente no que se decide.
                Baudelaire dizia: “As cidades mudam mais depressa que o coração dos seus habitantes”!
                Nota: Este texto tem muitas transcrições do livro “Subsídios para a história de Luanda” de Manuel Costa Lobo, editado em Lisboa no ano de 1967.

Fernando Pereira

16 de dezembro de 2016

Mínimas / Ágora/ Novo Jornal / Luanda 16-12-2016



Mínimas
Estamos a viver um período pós-catártico, em que cada cêntimo de subida do preço do petróleo é recebido com uma euforia inimaginável em tempos não muito recuados.
               Continuamos a assistir a um País que desde os tempos do antanho só consegue viver em dois estados: o da euforia e o da descrença. Foi assim na alta do mercado dos escravos e na sua proibição. Foi no tempo do comércio da borracha e o seu declínio por concorrência com os mercados asiáticos. Foi no tempo da cultura do sisal em alta de preços no tempo da 2ª Guerra Mundial, e passou a uma planta quase ornamental por causa do aparecimento dos sintéticos. O café, essa cultura que construiu avenidas em Lisboa e bairros em Luanda, caiu a pique no dealbar dos anos 70 do século passado quando a Organização Internacional do Café (um cartel de meia dúzia de produtores de café muito fechado) se vê confrontada com outros produtores, principalmente de países em que acabadas convulsões internas puderam colocar no mercado um produto melhor e a preços mais competitivos. A partir do fim dos anos 70 tem sido o sobe e desce do preço do crude a alimentar o quotidiano maniqueísta do angolano!
               Da esperança à desesperança vão uns dólares menos no preço do petróleo, e os que governam ufanos da sua capacidade de gestão no tempo da largueza, entram imediatamente num estado de catatonismo gericence , com os resultados a evidenciarem-se todos os dias em largos sectores da atividade social e um pouco na incipiente atividade produtiva do País.
Nestes dias assistimos ao Congresso do MPLA, que poderá ser decisivo para o futuro próximo de um País exaurido das suas riquezas, manietado por falta de recursos para o futuro e desconfiado de todos os que governam ou mandam, que nalguns casos não acumulam as mesmas competências. Claro que o quadro não será tão mau dirão alguns, é pior ainda dirão outros.
Parece-me que mais uma vez vai prevalecer o bom senso possível no partido que nos governa desde a Independência, e na minha opinião pessoal ainda bem!
 A substituição requentada de José Eduardo dos Santos pode trazer “sangue novo” ao MPLA e trazer alguma modernidade de métodos e mudança de léxico.
O significado maior das mudanças que se estão a operar, e eu corro o risco de estar a escrever isto sem ter dados concretos, assentam sobretudo num fim de ciclo. Não tanto pela saída de José Eduardo dos Santos, que merece um obrigado generalizado pela forma como dirigiu o País em situações de grande dificuldade, mas acima de tudo pelo fim do repisado “guerrilheiro”, do “maquis” e da “luta contra o colonialismo”.
Acabou isso, hoje isso é para começar a ser trabalhado pelos historiadores, antropólogos e documentalistas, e temos que utilizando uma frase de Agostinho Neto “passar a puxar as noras com as nossas próprias bestas”, fazer melhor o trabalho e arranjar cada vez menos desculpas. Não podemos continuar a culpar o colonialismo de uma parte do que não conseguimos fazer, e atirar responsabilidades para as “minas e armadilhas” que foram os últimos discursos de responsáveis máximos que tiveram um eco risível nas caixas-de-ressonância dos “yes men” do regime.
A oposição ao MPLA é frouxa porque não se consegue libertar dos escolhos de outros tempos, e está sempre com receio que os pardacentos esqueletos saiam do armário e que contaminem a sociedade angolana. São só uma franja do MPLA com outros fantasmas e uns e outros acham que o Halloween é permanente e os seus fantasminhas, justificam a inoperância e a falta de dinâmicas novas que promovam mudanças, e acima de tudo façam os angolanos mais felizes.
Angola pode ser um bom País, não é necessário pensar-se que tem que ser um grande Pais, porque também não tem condições para o ser. Ter alguns cidadãos com 10 Rolexes no braço não é sintoma de nada, melhor significa “parolice de novo-riquismo”, pois o que dignifica um País são valores sedimentados de probidade na administração pública, um povo culto, bem alimentado, com saúde, com emprego e que traga a dignidade a gente  que merece deixar de ser sofredora e pasto fácil para que ONGs duvidosas e Igrejas de dogmas misturadas com cifrões, consigam continuar a trabalhar e a minar os alicerces de uma ordem institucional que tem que ser garante da cidadania plena dos angolanos.
Muitas vezes, é preciso um mau motivo para fazer a coisa certa! A minha grande experiencia da torpeza humana ensinou-me que o dinheiro não se perde. Engana-se no bolso, é tudo! Julgo haver bolsos onde se dê uma volta porque caiu lá mal o dinheiro!
Desculpem o devaneio, mas quando se discutem o lugar das “bundas” num congresso, neste caso do partido do poder, uma bunda de luxo americana recebe uns milhares de dólares por se passear sem se submeter a sufrágio. Uma desbunda! Este é um dos exemplos que me desgosta no País!

Fernando Pereira

5/12/2016

21 de outubro de 2016

“Conde de Abranhos” nos trópicos / Ágora/ Novo Jornal / Luanda 21-10-2016




“Conde de Abranhos” nos trópicos
“Infalível, também, era o Doutor, aquele cavalheiro estimável, mas de aspeto lúgubre, que todos apenas conheciam por este nome: o Doutor.
Sempre vestido de preto, sempre de luvas, amarelo como uma cidra, persistia na sua mudez taciturna; porém, continuava a escutar com uma atenção intensa, a testa franzida, piscando vivamente os olhos, como num profundo trabalho cerebral.
Respeitador fervente das instituições, das personalidades oficiais, ninguém sabia ainda onde ele vivia, nem de que vivia: mas precipitava-se com tanta veneração (porque era homem de sociedade) a tomar as xícaras vazias das mãos das senhoras, dizia com tanta convicção, na sua voz cavernosa, «tem V. Exª carradas de razão»; que era geralmente considerado como um excelente moço.”
Este é só um delicioso detalhe, da farsa o “Conde de Abranhos” ,que o escritor português Eça de Queiroz (1845-1900) fez sobre a sociedade do seu tempo no período conturbado da 1ª experiencia constitucional portuguesa!
O “Conde de Abranhos” era a personagem típica do carreirismo, “carneirismo” e bajulice no seu pior, e infelizmente acontecendo em várias latitudes e na vivência quotidiana de sociedades que não passam de ter este “status”.
O Conde de Abranhos estudou na Universidade de Coimbra, onde começou por denunciar um colega, o que lhe permitiu passar a usufruir favores dos seus superiores. Simultaneamente envolve-se com a “criada”, que fica grávida e imediatamente abandonada, e o rapaz recém-nascido completamente esquecido. Vai para Lisboa, trabalho no escritório do causídico Vaz Correia, que o guinda a redator chefe do Jornal “Bandeira Nacional”.
Percorrendo os corredores do poder, casa-se com a filha do Desembargador Amado, Virgínia de seu nome, o que lhe assegura de imediato 10 mil cruzados de renda, e fundamentalmente abre-lhe as portas de S. Bento (Assembleia Nacional de Portugal). É eleito deputado por Freixo de Espada à Cinta, onde faz discursos, vazios de conteúdo, sobre a reforma das instituições, a política colonial e o caminho-de-ferro do leste. Como os tempos não corriam a favor da sua linha política, não faz disso um problema, e passa-se com armas e bagagens para oposição que em troca o coloca como um “cinzento” Ministro da Marinha, lugar que ocupa como “estátua” durante dois anos sem que alguém dê por ele.
Trouxe aqui o “Conde de Abranhos” porque ilustra o quotidiano do poder, dos títulos tantas vezes conseguidas à custa de coisa pouca ou coisa nenhuma, e da influência que certas criaturas tem nos corredores do mando sem que possuam qualquer tipo de competência, legitimidade académica e comprovada experiencia na gestão de qualquer coisa pública.
Fazem-se as cadeiras em função dos rabos de quem usa argumentos para se lá sentar, nem sempre os mais ortodoxos, e frequentemente a cadeira é feita para à medida de gente que se encostou a quem tenha força suficiente para os lá colocar. Temos que recuar ao império romano, que com toda a sua corrupção e nepotismo nas hierarquias do poder havia um cuidado muito especial para se escolherem os rabos dos cavalos que equipavam as quadrigas, por forma a não destabilizarem toda a carruagem nas lutas que se iam fazendo nos jogos, nas batalhas e no transporte de pessoas de elevada importância.
Acho que um exercício saudável seria o regresso aos clássicos, e já agora porque não voltarem-se a ler alguns vultos das letras que em português escreveram, e muito bem, e pegar num Eça de Queiroz, Olavo Bilac, Manuel Bandeira, Ramalho Ortigão, Guimarães Rosa, Camilo Castelo Branco, Fialho de Almeida, Mário de Andrade, Nelson Rodrigues (Recentemente o Elinga encenou “Mulher sem pecado”), Jorge de Sena, Aquilino e tantos outros para que reaprendamos a escrever, e ver que a frase de Marx do “Dezoito Brumário de Louis Bonaparte” (!852)A história repete-se, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa.” É de uma acuidade permanente no quotidiano vivível.
O “Conde de Abranhos” é uma farsa, e é também um vivendo para onde os angolanos vão sendo involuntariamente empurrados, fruto das realidades que se vem na mudança de cadeiras do governo central, e nos governos provinciais, o que deixa no ar que há poucas soluções para os rasgos da política económica e social que caminha de crise em crise sem solução à vista.
Aguardemos melhores dias!

Fernando Pereira
26/9/2016



14 de outubro de 2016

O lugar do morto - O Interior- Guarda 13/10/2016



O lugar do morto
As forças vivas da Guarda, e algumas que se julgam vivas e estão mais que moribundas vão-se entretendo com alguns jogos florais.
               Entre o bate e o abate de árvores, de manter ou fazer desaparecer “bucho” vou olhando com interesse para o edifício de Vasco Palmeirim (Regaleira), o Hotel Turismo, obra de tomo do Estado Novo, no âmbito de um conjunto de hotéis entregues à supervisão do arquiteto Raul Lino. A verdade é que há anos que encerrou as portas, depois de um período de morbidez de vários anos e sucessivos executivos da Camara Municipal da Guarda.
               Por estar no centro da cidade, a sua degradação vai-se evidenciando e fundamentalmente acentua-se a indefinição do que será o seu futuro! Aguardemos as cenas dos próximos episódios, e que promessas novas virão abrilhantar a pré-campanha eleitoral que já se começa a viver.
               Eu não vivo na Guarda, embora tenha no meu quotidiano a maioria da atividade social na cidade.
               Ocasionalmente tenho que ir a velórios, de pessoas que me merecem consideração, seus familiares próximos ou até meus familiares e confesso que é confrangedor como a cidade trata os seus mortos.
               Sei que os autarcas não gostam de gastar dinheiro com “mortos”, ou melhor enterrar dinheiro em obras que tenham a ver com gente que tenha falecido. A síndroma “Odorico Paraguaçu” da novela brasileira “O Bem-amado” do dealbar dos anos 70 no Brasil, e que foi um êxito em meados dos anos 80 na TV portuguesa, ainda se vai mantendo no subconsciente dos autarcas, e recusam ao máximo alterar o que quer que seja que tenha a ver com mortos. Para os que não conhecem a história, ela decorre em Sucupira cidade do nordeste brasileiro onde Odorico, um perfeito venal, corrupto e demagogo decide como obra grande do seu mandato a construção de um cemitério na cidade, com o argumento que os mortos deixassem de ser sepultados numa cidade vizinha. A excelente telenovela tem o seu enfoque na ausência de mortos para o cemitério, que se terá revelado um “elefante branco”, naturalmente aproveitado pela oposição. Odorico tenta tudo mas ninguém morre, e não consegue inaugurar o cemitério, e contrata um “cangaceiro” para arranjar uma vítima. O homem, que se queria regenerar acaba por assassinar o perfeito, que vê o cemitério inaugurado pela oposição graças ao seu próprio cadáver.
               A Guarda devia ter um local com alguma dignidade para que amigos, familiares e conhecidos de alguém que morra, lhe possa fazer um velório com a dignidade que qualquer pessoa merece no momento da despedida.
               Os amortalhados vão para um anexo da Igreja da Misericórdia, onde ficam numa sala exígua, mal iluminada, fria, sem apoio de sanitários decentes num lugar com uma entrada quase clandestina, que dá para uma rua onde o vento no inverno nos “embala e abraça”!
               A Guarda merecia um local condigno, ventilado no Verão, aquecido no Inverno, com algum apoio (águas, cafés, por exemplo) e onde as pessoas pudessem confortar os familiares do defunto no féretro.
 Outro detalhe não negligenciável tem a ver com a falta de um local de recolhimento a defuntos que não professem a religião católica, e que não conseguem ver salvaguardados os seus direitos de cidadania na hora do seu passamento.
Acho que a Guarda mereceria a construção, ou mesmo adaptação de um centro funerário que dignificasse a cidade, e não o espaço onde se fazem quase todos os velórios das Ex freguesias da Sé e S. Vicente.
Acho que era um bom motivo de reflexão e debate com caracter de urgência!

Fernando Pereira

9/10/2016

8 de outubro de 2016

Cantilena do povo

Fui encontrar um dos artigos que escrevi com o pseudónimo de "Vila Cândida" no Correia da Semana nº3 de 30 de Janeiro de 1993. Já nem me lembrava dos meus tempos de "Pena de Ouro" do jornalismo angolano,eheheh!!!





Artigo no "Jornal de Angola" de 17 de Setembro de 1994

Hoje andei a arrumar umas tralhas e fui descobrir um artigo que escrevi para o "Jornal de Angola", onde colaborei uns anos. Este artigo saiu precisamente no dia 17 de Setembro de 1994.
Engraçado como as coisas naquele tempo já aconteciam!!!




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