11 de janeiro de 2015

Para ti Maria



“De Bragança a Lisboa

São 9 Horas de distância

Q’ria ter um avião

P’ra lá ir mais amiúde(…)

(…)”Outra vez vim de Lisboa

Num comboio azarado”


Esta antiguinha musica dos “Xutos e Pontapés” deu-me o mote para regressar ao presente, das muitas vezes que sou obrigado a viver as peripécias de uma viagem de comboio entre Lisboa, Celorico da Beira e volta.

Aqui há uns anos a CP resolveu, e em boa hora, dotar o país de um serviço mais rápido e confortável de comboios intercidades, que se propunha ligar as cidades do interior a Lisboa e Porto.

O serviço funcionou razoavelmente bem nos primeiros anos. O material circulante era bom, os horários apelativos para que um cada vez maior número de pessoas utilizassem o intercidades, e raríssimas vezes havia atrasos. O preço era aceitável tendo em conta o esforço que a CP tinha feito para instalar esta oferta supletiva.

Com o passar dos anos começámos a assistir ao Intercidades a parar cada vez mais, em locais onde não entra nem sai ninguém, e estações que começam a estar praticamente abandonadas, a maioria das suas instalações com portas e janelas entaipadas e com um ar de desleixo e lúgubres. Da Guarda a Lisboa passou o comboio a sair cada vez mais cedo para chegar à hora inicial, quando o horário é cumprido, situação que não me lembro de ocorrer quer no sentido Lisboa-Guarda, quer Guarda-Lisboa nos últimos anos.

Hoje, o que assistimos é a degradação continuada do serviço, com carruagens cada vez mais sujas, logo no início da rota e cada vez se desespera mais pelas horas que se passam no comboio ou nas esperas em estações com cada vez menos condições de salubridade, para já não falar na pobreza dos serviços disponíveis a bordo.

A maior parte das estações intermédias só abrem as suas bilheteiras num período em que não passam comboios, o que não deixa de ser risível. No interior do comboio, no seculo XXI, não podemos comprar o bilhete por terminal de multibanco, máquinas que também não estão disponíveis na maior parte das estações do percurso. Já tive que pedir emprestado dinheiro a um conhecido para pagar o bilhete, senão arriscava-me a ser punido com coimas, no mínimo!

Já nem me atrevo a pedir wi-fi na carruagem, mas pelo menos que houvesse um local, para além da ficha da máquina de barbear das casas de banho, que permitisse carregar um “Tablet” ou um “hi-phone”, que não conseguem ter carga suficiente para suportar os atrasos “desconsideráveis” para os utentes das linhas de intercidades!

Por vezes apetece-me viajar em primeira classe e começa a ser recorrente chegar a Santa Apolónia para comprar o bilhete e dizerem-me que está esgotado. Resignado, apesar de agradecido por me obrigarem a poupar, lá vou em segunda, e na realidade no Entroncamento a carruagem de primeira classe fica praticamente vazia. Fiquei perplexo quando percebi que têm direito a bilhete a custo zero os trabalhadores da CP e da REFER, pois numa das viagens em ambiente demasiado ruidoso, que fiz no troço entre Lisboa e o Entroncamento, vi um dos bilhetes do meu companheiro do lado esquecido, que confirmou as minhas suspeitas.

Acho que os ferroviários devem ter direito a viagens gratuitas, o que devia ser prática comum nos trabalhadores de todas as empresas de transporte, mas também é meu entendimento que não deve a companhia sair prejudicada, já que o potencial cliente pagante acaba por ser preterido pelos funcionários da empresa. Voltarei a este tema muito em breve.


Por: Fernando Pereira
6-1-2015

13 de dezembro de 2014

Adeus, até ao meu regresso!



Há pouco mais de quarenta anos, num acinzentado Portugal de gentes desesperançadas e hordas de jovens a caminho de uma guerra filtrada numa TV a preto e branco travestida, assistíamos, por esta altura do ano, a um dos mais sórdidos espetáculos que o regime colonial-fascista dava às famílias portuguesas: as mensagens de Boas Festas dos militares.

As mensagens de Natal dos soldados que tentavam sobreviver nos três teatros de guerra, deixavam transparecer, nos olhares de toda uma geração de gente jovem, uma sensação de vazio extremo, que nem as suas poucas palavras conseguiam dissimular, a tristeza e o desencanto de se verem abandonados na defesa de um nada, ou melhor, uma réstia de nada.

“Adeus até ao meu regresso” ou um “Natal cheio de propriedades”, eram algumas das muitas frases que os soldados dirigiam aos seus familiares, em gravações feitas em outubro, o que levava a situações caricatas de chegarem a dezembro mensagens de soldados que nessa altura já «vinham numa caixa de pinho/do outro lado do mar», como bem dizia Reinaldo Ferreira, outro defenestrado de uma pátria que sempre teimou em fazer isso a quem ousava pensar diferente.

Quando a data libertadora do 25 de Abril de 1974 chegou havia na Guiné, Angola e Moçambique setenta e oito mil militares que lutavam já para sobreviver, pois há muito que havia a certeza de que a guerra estava militar e politicamente perdida. «A guerra é a continuação da política por outros meios», como dizia o prussiano von Clausewitz (1780-1831), é a prova clara de que África, para uma geração sacrificada de portugueses, foi um atoleiro donde se regressou sem glória.

Ainda hoje há uma certa reserva em falar da guerra colonial, como ainda são inconclusivas muitas das sequelas inerentes a um período difícil da história recente de Portugal. Mas tenho a convicção de que começa a ser tempo de se tirarem os “esqueletos dos armários”, para que os vivos que viveram esses anos de podridão se possam sentir de alguma forma, ainda que pequena, recompensados desse esforço inglório que fizeram na defesa do que foi um verdadeiro embuste para perpetuar um regime que só se aguentava com o sangue de gente inocente.

Não há aldeia nenhuma, no mais recôndito lugar de Portugal, onde não haja uma vítima da guerra colonial e há concelhos que perderam muitos dos seus filhos nesses anos de chumbo. É urgente fazer-se uma homenagem pública a essas pessoas que deram a vida a lutar pela Pátria, pois é uma forma de os lembrar e simultaneamente deixar bem vincada a repulsa de todos por um regime caduco, liderado por um velho rato de sacristia, para quem a sua perpetuação no poder dependia de vítimas que pudesse transformar em heróis para fazer aquele espetáculo sórdido do 10 de Junho no Terreiro do Paço. É a homenagem que falta fazer aos homens que tornaram possível o 25 de Abril de 1974.

Tenho a ideia de que não se deve andar a fazer festas à farinheira, ao míscaro, à amendoeira, ou a outra coisa qualquer quando ainda não se fez uma homenagem a quem mais a mereceu nas suas terras: os militares portugueses tombados na injusta guerra colonial. Um “aerograma” enviado com destinatário certo: autoridades civis e militares de todo País. “Que ninguém seja deixado para trás”, como é vulgar utilizar-se no léxico castrense, ou melhor, que nenhum militar seja esquecido!

Este texto poderá dar a ideia que é escrito por alguém que ainda tem contas a ajustar com o passado, mas na realidade assumo que não há aqui qualquer tipo de exercício expiatório. Enquanto o mundo desenvolvido, na década de 60 e parte da de 70, era um pleno de efervescência cultural, de debate, de apogeu económico, de ruturas nas mentalidades, Portugal era governado por um velho, cercado de homens pulverizados mentalmente com água benta que mandavam o seu maior tesouro para terras que mais tarde que cedo iriam ser independentes, já que esse era o desígnio da história. O embaixador americano Elbrick, ao sair, em 1961, de uma conversa com Salazar, sobre a intransigência do ditador em resolver a questão colonial logo no seu início, deixou escapar o seguinte comentário: «Estive duas horas à conversa com Vasco da Gama e Luis de Camões»!

Morria-se pelo passado e não pelo futuro e isso fazia toda a diferença. O “Adeus até ao meu regresso” era a imagem do medo, da angústia, dos olhos vítreos fixados numa câmara onde se desespera de se ser, num Portugal perdido numa África onde gente nova, combativa e determinada semeava militarmente, afinal, a utopia de pátrias novas que também Abril ajudou a dar ao mundo.

A homenagem a esta gente deveria ter sido ontem, mas, como não o pôde ser, que seja num amanhã próximo de hoje! Bom “dia da família” e um bom Ano Novo para quase todos que me leem!


Por: Fernando Pereira

14 de novembro de 2014

Cut, copy and paste




As pessoas não vendem a terra onde vivem» - frase Sioux


Conta uma velha anedota que o reitor de uma universidade americana, de visita a Inglaterra, via com sorriso superior e condescendente as instalações de uma famosa universidade britânica: na América tudo era maior, tudo era melhor, o equipamento superior; só uma coisa invejava, e essa coisa era a maravilhosa e impecável frescura dos relvados que se estendiam entre os edifícios vetustos da universidade. Como obtinham os ingleses relva tão magnífica? Nos Estados Unidos não se conseguia coisa que se comparasse. Qual era o segredo?

O reitor britânico que acompanhava na sua visita o ilustre colega yankee, até aí visivelmente agastado, não pôde esconder um sorriso de malícia e esclareceu com falsa candura: «O segredo? Muito simples. Basta regar e cortar a relva, voltar a regar e a cortar periodicamente; ao fim de trezentos anos fica assim…»

Gosto desta anedota: não é aquilo a que costuma chamar-se cultura qualquer coisa como o relvado britânico? Apenas a persistência do esforço, a rega e a poda regulares, a continuidade do empreendimento, a paciência e a perseverança do exercício, alcançam, no âmbito do saber e da criação, produzir esses frutos de polpa rica, densa, nutritiva, saborosa que são o tesouro das nações. E não basta que uns quantos se apliquem à tarefa por desfastio; é preciso que as gerações se sucedam, acumulando a experiência, suscitando a tradição do trabalho bem feito, renovando o viço.

«O Povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem portuguesa, só vos falta as qualidades». Esta frase de Almada Negreiros, um poeta português do grupo Orpheu, cúmplice e contemporâneo de Pessoa, nascido em S. Tomé e Príncipe no fim do século XIX, adequasse-nos na perfeição, que nunca temos tempo para nada, fazemos tudo a correr, e enleamo-nos em projetos múltiplos para no fim nos habituarmos a atamancar qualquer coisa, preocupando-nos mais com os “exteriores” do que propriamente com a solidez e eficácia dos “interiores”.

Como não sei se volto a escrever antes do Natal, aqui vai a minha oferta em forma de verso deste homem maior da literatura portuguesa: Jorge de Sena.

Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?

Todos os são, mesmo os melhores, às suas horas,

e todos estão contentes de se saberem sacanas.

Não há mesmo melhor do que uma sacanice

para poder funcionar fraternalmente

a humidade de próstata ou das glândulas lacrimais,

para além das rivalidades, invejas e mesquinharias

em que tanto se dividem e afinal se irmanam.

Dizer-se que é de heróis e santos o país,

a ver se se convencem e puxam para cima as calças?

Para quê, se toda a gente sabe que só asnos,

ingénuos e sacaneados é que foram disso?

Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora.

Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice,

porque no país dos sacanas, ninguém pode entender

que a nobreza, a dignidade, a independência, a

justiça, a bondade, etc., etc., sejam

outra coisa que não patifaria de sacanas refinados

a um ponto que os mais não são capazes de atingir.

No país dos sacanas, ser sacana e meio?

Não, que toda a gente já é pelo menos dois.

Como ser-se então nesse país? Não ser-se?

Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia.

Mas isso foi no teatro, e o gajo morreu na mesma.

Como é uma crónica entediante, porque não Saramaguear: «O passado é um imenso pedregal que muitos gostariam de percorrer como se de uma auto-estrada se tratasse, enquanto outros, pacientemente, vão de pedra em pedra, e as levantam, porque precisam de saber o que há por baixo delas». (José Saramago em “A Viagem do Elefante”).

Fernando Pereira

12/11/2014

18 de junho de 2014

Pontuem o texto! / O Interior /12-6-2014





Semana cheiinha foi mesmo boa aqui na malta pouco habituada a estas coisas de muita gente engomada e engravatadamente falando alto e bom som no meio de aviões e tanques com muitas balas que presumo serem a fingir para comemorarem o aniversário do nascimento do olho nu que até devia ser um tipo cheio de sainete pois andava sempre a acoitar-se nos leitos das casadas e veio do oriente com um escravo para lhe pedir esmola nas ruas de Lisboa ao mesmo tempo que jazia nalguma enxerga já que ainda eram distantes os tempos dos colchões de esmolas que hoje vamos tendo para nos decubitar ventral ou dorsalmente na busca de um conforto que cada vez menos vamos encontrando no nosso quotidiano de dificuldades que cada dia são acrescidas e mais crescidas o que não deixa de ser uma valente estopada só mesmo comparável à postura das pessoas que cada vez mais confundem com impostura de estado e acham que o país avança a bom ritmo porque há novos sabores nos anúncios dos gelados e porque se consome muito mais cerveja nos festivais de verão que pululam um pouco por todo o lado com o beneplácito de tudo o que é autarca que já não se contenta com o conjunto da terra e por este andar qualquer dia temos mesmo que arranjar pastel para pagar um daqueles tipos que emergem no meio da fumaça com um camião grande cheio de material e umas poucas aves canoras algo despidas de preconceitos nomeadamente no que ao cantar diz respeito pois quanto ao resto estamos versados e conversados também abusados pelas circunstancias em que temos na fatura da luz a taxa do audiovisual e a alegria de saber que uma parte do nosso IMI é para cantorias acompanhadas de fontes iluminadas e luminosas com um funil virado ao contrário num local onde havia uma taberna que colocava o funil como devia ser ou melhor para o que servia de facto que era para encher garrafas e garrafões que iam ver-se esvaziados em copos que goelas esfalfadas permitiam doutas opiniões e em casos extremos poucos termos no comportamento habitual de cidadãos de um tempo em que a violência doméstica ultrapassava as portas e janelas de várias casas com o guarda noturno a assobiar para o ar e a farfalhar o bigodame que lhe dava um ar de grande autoridade e alguma pouco bem cheirosa importância talvez porque a farda fosse poucas vezes levada ao sabão ou aos glutões do Presto coisa que muita gente devia dizer de si que não mas limitam-se a comentar o que os outros fazem e a gesticular porque os outros são todos uns aldrúbias e uns ladrões que até querem que o pobre do tasqueiro pague impostos e que se fez mais movimento com o dez de Junho não tem nada que dar mais a esta quantidade de malandros que anda aí a gastá-lo à tripa-forra sem respeito pelos cidadãos que têm direito a dez TACs por ano e recusam-se a aceitar a energia nuclear como alternativa por causa das radiações e outras tretas que a malta vai falando um pouco por aí assim sem pontuação para se entender ainda menos e tornar o artigo mais difícil de ler e assim ter direito a ser comparado a Saramago já que muitos dizem que não gostam dele porque não pontua os escritos e as edições que faz e que li devem ser contrafeitas pois trazem pontuação mas como quem o critica muito mesmo nem a lombada se atreveu a ler quanto mais a badana não ousando sequer lembrarmo-nos que havia um livro escrito pelo que só me apetece acabar lembrando-me que não foi boa ideia o Camões trazer o escravo Jau que come e bebe todos os dias quando podia ter trazido do oriente uma arca de cânfora que talvez lhe valesse um visto gold pela contribuição que deu à semiótica no sentido real da palavra e não noutras aleivosias de intelectualidade.
Fernando Pereira-7/06/2014

16 de março de 2014

Empreendedorismo à la minute.-O Interior- !3/03/2014




Em tempos não demasiadamente idos incumbiram-me de marcar um lanche num restaurante da região.
O restaurante não servia nada de especial e a qualidade e o preço eram mais ou menos iguais a dezenas de estabelecimentos do tipo nas redondezas. Justifiquei a escolha aos meus companheiros de refeição por saber que o “tasco” tinha uma maravilhosa mousse caseira que levava ali muita gente a comer a iguaria.
Quando acabámos o repasto pedimos a célebre mousse, ex-libris da casa. Nas primeiras colheradas notei que nada tinha a ver com a que estava habituado a comer. Todos os meus parceiros começaram numa gozação enorme, já que estavam perante uma vulgaríssima mousse instantânea de sabor demasiado aguado. Chamei o proprietário e perguntei-lhe pela caseira e responde-me da forma mais cândida do mundo: “Dava muito trabalho e acabava muito rapidamente. Todos os dias a minha mulher tinha que a fazer duas e três vezes e mesmo assim esgotava. Esta dá até para dois ou três dias!”.
Perante este argumento não houve palavras, nem tampouco novas idas a esse restaurante. Sei que já fechou há uns tempos e os donos terão emigrado.
Com alguma regularidade costumava ir a um barzinho esconso beber umas cervejas com uns amigos onde entre outras trivialidades se falavam mal de outros e bem de alguns. Nada de extraordinário, se o proprietário e único empregado do bar sistematicamente não trouxesse amendoins descascados e dois pratos. Um era com amendoins e outro nunca percebemos para que servia. Uma vez alguém lhe perguntou para que era o segundo prato e pela reação ficámos com a convicção que a questão era de resposta muito difícil. Pensou e saiu-se com esta: “Isto é para as cascas dos amendoins”! “Mas os amendoins vêm descascados” replicámos quase em uníssono perante a nossa incredulidade. “Mas também servem para o milho das pipocas” , e de facto calou-nos imediatamente pois nunca houvéramos visto tal sucedâneo do milho naquele lugar. A tirada final foi deliciosa quando ele diz: “É o que aprendemos nas escolas de hotelaria”! Por razões de desavenças familiares fechou, segundo me disse o referido “bacharel” em hotelaria uns tempos mais tarde.
Na estrada, aqui nas cercanias da cidade parei num café que não tinha rigorosamente ninguém. Bati palmas, quase que gritei e perante muita insistência veio uma senhora algo despenteada com as mãos cheias de sangue e penas. Pedi um café e surpresa das surpresas vi a mulher ir à máquina, colocar a chávena e tirar o café. Bem, a asa da chávena vinha com sangue, o pires com uma pena ensanguentada e talvez o pacote de açúcar tivesse qualquer coisa. Educadamente disse que não bebia aquilo, nem pagava e logo a megera resolveu insultar-me porque a fui incomodar no meio de um abate de um galináceo e não tomei o que me deu. Voltei as costas e fiquei incomodado porque talvez tenha errado em ter pedido um café num estabelecimento aberto para o efeito. Não faço ideia se ainda está aberto porque não passo por ali há muito tempo.
Para os lados da raia entrei num misto de minimercado, bar e taberna. Estava um tipo deliciado a ver uma tourada na TVE e retorquiu à saudação com um boa-tarde murmurável sem olhar para mim. Lá continuou entretido e eu pedi-lhe uma água, e ele: “Um momento”; dois minutos depois nova insistência e lá veio o tipo a resmungar alguma coisa imperceptível mas que teria talvez a ver com o facto de lhe ter estragado a tarde. Deu-me a garrafa, sem me perguntar se queria copo e paguei. Voltou para a sua cadeira e continuou a delirar com a selvajaria. Pedi outra água e aí acho que só não me bateu porque a desproporção era enorme. Depois de me servir com toda a antipatia possível pareceu-me ouvir quando ia a sair: “ Olha o azar, com tantos cafés por aí tinha logo que vir ao meu”!
A culpa disto estar assim foi minha porque estes casos passaram-se comigo. Assumo a minha mea-culpa!

Fernando Pereira 11/3/2014


14 de fevereiro de 2014

Nada é irrepetível! / O Interior/ 13-2-2014


Ainda não consegui perceber porque é que cada vez que vejo certa gente no ecrã a cores da televisão, me vem à memória o Américo Tomás a preto e branco.
Para quem andava distraído, antes do 25 de Abril, lembro as "sábias palavras" do então mais alto magistrado da Nação, Américo Tomás vulgo cabeça de Tarro. Era só para lembrar que nessa altura ele era o Chefe de Estado do Minho a Timor!
"Memórias de Tomás" (I)"Eu por mim próprio, não me decidi a escrever as «Minhas Memórias». Decidiram-me. É que, estando quase toda a gente, ex-chefes de gabinete, ex-subsecretários de Estado, ex-secretários de Estado, ex-ministros, ex-chefes de Governo, escrevendo as suas memórias, a minha família começou a insistir comigo para que escrevesse as minhas «Memórias», na medida em que, disseram-me, mal me ficaria não escrever, também eu próprio, as minhas «Memórias».
Habituado a falar e não a escrever, contando, segundo as minhas contas, nove mil trezentos e sessenta e quatro alocuções por sobre o território nacional, isto é, continente, ilhas adjacentes e províncias ultramarinas, não minto!, nove mil trezentos e sessenta e cinco alocuções por sobre o território nacional e internacional, ligadas ao meu cargo de Presidente da República, - eu nunca me afoitei a usar a caneta, coisa que disse repetidamente a minha família.
Não tive sucesso, como é obvio, dado que me compraram uma caneta e ma deixaram fechada na mão.Foi então que, pegando na caneta, carreguei no botão do gravador e comecei: "Senhor bispo da diocese, senhor ministro das Obras Públicas, senhor governador civil, senhor presidente da câmara municipal, senhor presidente da junta de freguesia, minhas senhoras e meus senhores" [in, revista Opção, Ano II, nº 30]"É esta, portanto, a ultima cerimónia que se passa na cidade da Guarda e eu não quero deixar passar esta oportunidade sem agradecer ao bom povo desta terra o seu entusiasmo, o carinho com que recebeu o Chefe do Estado. A chuva não teve qualquer influência no entusiasmo das populações. Elas vivem numa terra de granito, e a chuva não as apoquenta (...) A Guarda é um distrito de bons portugueses, de portugueses de uma só face, portugueses, portanto, sempre prontos a defender a terra que os viu nascer. E a Guarda tem uma particularidade: é a cidade mais alta da Metrópole" [ididem, discurso na Guarda, in Século]"... É uma terra [Gouveia] bem interessante, porque estando numa cova, está a mais de 700 metros de altitude. Pois o que desejo, sr. Presidente, para poder pagar, de qualquer forma a dívida que contraí, é que esta gente tenha um futuro feliz, abençoado por Deus. Que assim seja, para contentamento vosso e para contentamento meu! " [ibidem, em Gouveia, segundo O Século, 1/6/1964]
E dizia o Américo Tomás ao inaugurar a fábrica Riopele, que tinha como inovação, um refeitório para os trabalhadores: “Só tenho um adjetivo para qualificar aquilo que vi: Gostei!”
Bem vos dizia que ao lerem isto se lembram de alguns atuais!
Fernando Pereira
10/2/2014

27 de janeiro de 2014

Antropologia da pobreza / O Interior / 16-01-2014



«Estes são os meus princípios, e se vocês não gostarem deles... Bem, tenho outros» (Groucho Marx)

Estava preocupado com a crónica que tenho que escrever todos os meses. Isso acontece-me amiúde, porque às vezes os temas que temos pensado para determinado momento perdem atualidade quando é o nosso momento de entregar a crónica.

Enquanto andava às voltas vi um artigo sobre os conceitos de gestão social do Banco Mundial que me deixaram perplexo, num momento em que os sacrossantos ditames do mercado condicionam toda a atividade económica e social nos países e na nova ordem de desenvolvimento que se está a impor e aceite de forma passiva por cada vez maior número das pessoas, que são afinal as vítimas maiores de toda esta movimentação.

O Banco Mundial estabelece, em 1996, uma doutrina à volta do conceito de gestão social cujas linhas gerais foram plasmadas, em 2001, num documento intitulado “From Safety Net to Springboard”. Nela desenvolve-se uma extraordinária antropologia da pobreza. Vejamos então o que diz o supra citado documento: «Como temem cair na miséria e não poder sobreviver, os pobres não querem correr riscos e têm dúvidas em lançarem-se para atividades de maior risco mas que são também mais lucrativas. Em consequência não estão somente em situação de não aproveitar as oportunidades que lhe são oferecidas pelo processo de globalização como estão mais expostos aos riscos acrescentados que muito provavelmente derivam desta. Como não podem correr riscos e levar a cabo atividades produtivas mais rentáveis, é muito provável que não possam, assim como os seus filhos, sair da pobreza. É por isso que a melhoria da sua capacidade de gestão do risco é um potente meio de reduzir a pobreza de forma duradoura». Mais adiante refere-se que «a experiência dos países da OCDE mostra que a proteção contra o risco por parte de um Estado do Bem-estar Social reduz o espírito empreendedor».

«Quem tem muito dinheiro, por mais inepto que seja, tem talentos e préstimo para tudo; quem o não tem, por mais talentos que tenha, não presta para nada». (Padre António Vieira)

Conclusão lógica: se querem prosperar assumam riscos seus mandriões.
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