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2 de agosto de 2019

O Passado é um resto! / Ágora / Novo Jornal / Luanda 2-8-2019




O Passado é um resto!
Diógenes (n. 404 a.c.- m. 323 a.c) dizia que” entre os animais ferozes, o de maior mordidela é o delator, entre os animais domésticos, o adulador”, e a realidade vai-nos demonstrando quanto estava certo o “Cínico”, um homem que viveu no pior da indigência, calcorreando Atenas com uma lamparina acesa em busca de um homem honesto!
                Vai-se o cacimbo arrastando, e os assuntos vão sendo discutidos um pouco na base do quase defenestrar José Eduardo dos Santos e glorificar o novo inquilino do Palácio da Cidade Alta, João Lourenço. Pelo que vou vendo quem vai denegrindo um e santificando outro, são exatamente as mesmas pessoas que sempre fizeram isso, salvo as exceções que confirmam a regra!
                Um dos maiores da língua portuguesa, José Régio termina o seu “Cântico Negro” Não sei por onde vou, Não sei para onde vou ... Sei que não vou por aí!”. É mesmo assim, mais que assim, vou-me refugiar nas historietas por uns tempos!
                No dealbar da independência passeava despreocupadamente na Baixa de Luanda, num tempo em que se andava a pé, despreocupadamente e havia Baixa e até Luanda existia, e parei mais ou menos em frente ao Centro de Imprensa Aníbal de Melo, num estabelecimento de fotografia que havia do outro lado da rua, a velhinha “Foto Castro”. Olhei para uns escaparates empoeirados que ladeavam a entrada do estabelecimento, e entre muitas fotos que permaneciam fixas com pioneses enferrujados e amarelecidas pelo tempo encontrei lá uma minha, e durante muito tempo ela lá permaneceu ao lado de muitas outras que mais não éramos que o rosto do colonialismo derrotado pelas “forças populares”!
                Há quarenta anos devíamos ter os sessentas que hoje temos, para não termos feito tanto erro, e não ter hipotecado o País a uma geração que irá sofrer as consequências do nosso voluntarismo, alguma irresponsabilidade, muito oportunismo e sem respeito alguma pela causa publica! “Aos vinte anos reina o desejo, aos trinta anos reina a razão, aos quarenta o juízo” Albert Camus.
                A nossa geração, a que ia promover a igualdade construiu uma sociedade de profundas divisões e uma estratificação social em que os “Condenados da Terra” como dizia Fanon, são a maioria da população do País. Faz-me lembrar uma frase que sintetiza tudo isto: “Pai a pé, filho a cavalo, neto descalço”!  Não nos vamos livrar deste ferrete e continuamos a apostar nos mesmos birbantes que nos conduziram a tudo isto. Sinto que a nova geração tem toda a legitimidade de nos acusar de ter esbanjado recursos, destruir património edificado e natural, ter promovido a incompetência, e não lhes deixar um País solidário e que defenda os mais elementares direitos do cidadão! Nem história deixámos!
                Alguns da nova geração foram beneficiados porque tinham o “papá na algibeira”, e isso dava-lhes notoriedade social, umas passeatas, uns carros de alta cilindrada, mas no fim são a imagem acabada de um período que começou bonito, mas que se transformou num verdadeiro lodaçal, de onde não se vislumbra saída.
                Lembro-me de ver o Afonso Van Dunem M’Binda, ao tempo MRE de Angola estar junto ao passeio, em frente de sua casa em Alvalade, a um sábado de manhã a lavar o seu carro de serviço com uma mangueira, de calções, t-shirt e chinelos, dizendo adeus a quem o cumprimentava. Comentei na altura com um amigo que pontualmente vinha a Luanda dar aulas na faculdade de direito da UAN, com algum indisfarçável orgulho que “devia ser o único País do mundo onde o ministro da Relações Exteriores lavava despreocupadamente o carro na rua”. Tudo isso acabou, e as lavagens começaram a ser de coisas bem mais perigosas e ruinosas para o erário público.
                “Tenho o privilégio de não saber quase tudo. E isso explica o resto”, como disse Manoel de Barros e por isso a minha quota de responsabilidade na forma como entregámos o País às novas gerações é capaz de não ter sido muito grande. Não o  terá sido por participação ativa, na definição da estratégia ruinosa que se assistiu no pós-guerra, mas talvez tenha sido bem maior por omissão, que assume uma enorme dose de grande responsabilidade!
                Quando começam a faltar recursos e soluções discute-se a legitimidade da angolanidade de certas pessoas, mas objetivamente não é esse tipo de discussão que importa e aqui socorro-me de Marguerite Yourcenar: “O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que, pela primeira vez, se lança um olhar inteligente sobre si mesmo.
                Talvez um dia Angola seja um País viável e confiável!

Fernando Pereira
29/07/2019

19 de janeiro de 2019

Ao Silvo da Locomotiva




Ao Silvo da Locomotiva



Em Lisboa e Luanda tem acontecido apresentações de livros em catadupa.
                Nunca me lembro de um tempo tão profícuo das letras angolanos, nem de tanto livro sobre Angola. memórias, reflexões, vivencias, poesia, coletâneas, história, estórias, e tudo o resto. O ritmo é tão grande que as posses de um qualquer remediado não podem dar vazão a tamanho movimento.
                Já li algumas coisas que saíram, algumas até mediatizadas até à medula, e de facto sinto-me impotente para vir aqui falar do muito que não gostei e vou-me limitar a escrever sobre um dos poucos que admirei, repetindo-me que me faltou o folego para tanta coisa que saiu!
                O livro de Bruno José Navarro Marçal, que assenta no seu trabalho de doutoramento na Universidade Nova de Lisboa, editado pela Colibri, “Um império projetado pelo silvo da locomotiva” é uma obra de grande interesse para se perceber como nasceram algumas linhas férreas em Angola e Moçambique, como se desenvolveram e quais foram os entraves para que algumas tivessem ficado nas boas intenções de quem as sonhou.
                O autor, um jovem que não tem rigorosamente nada a ver com Angola ou Moçambique, segundo julgo saber, e desempenha neste momento as funções de diretor do Museu de Foz Coa e do Parque Arqueológico do Vale do Coa, num dos afluentes do Douro internacional, numa zona polvilhada de quintas e vinhedos propriedade de alguns angolanos, que terão optado desenvolver-se por estas paragens!
                Este livro, um trabalho científico, naturalmente muito documentado, poderia até dizer em linguagem de rua, “demasiado picuinhas”, é o primeiro instrumento rigoroso que me chega às mãos sobre as incidências do que foi a batalha para construir caminhos de ferro em Angola, e sobretudo perceber o que foi o desenvolvimento do País em torno do carril, enquanto valor acrescentado.
                Este livro leva-nos a uma Angola imensa num primeiro terço do século XX onde tudo era difícil, e onde as diferentes linhas e ramais do comboio conseguiram ligar o interior ao litoral, juntar gentes, multiplicar recursos e promover a unidade do território. Os avanços e recuos de algumas linhas, as incertezas da sua rendibilidade e as guerras de interesses que se instalaram e que para além das liças parlamentares em Lisboa, levaram a desafios de pancadaria entre mui nobres senhores pelas opções em presença!
                Não venho pormenorizar o que li no livro, mas quero lembrar que não há muitos anos, no tempo em que Angola pensava em grande, esquecendo-se que tinha que resolver o que era maioritariamente pequeno, houve uma ideia que também andou na cabeça do “colono” que seria ligar o Caminho de Ferro de Benguela via Zâmbia pelo saliente de Cazombo, ou na” bota do Dilolo” como também é conhecida a zona sul do Luau, que até 1927 pertencia ao então Congo Belga. Esse estudo, que terá sido pago a “peso de ouro” como vem sendo normal nos muitos que estão nas múltiplas gavetas estatais e privadas, orçava a construção dessa linha em 12biliões de dólares, e para além de ninguém ter tido coragem de avançar com o projeto, terá havido algum decoro em dizer quando haveria um retorno do capital investido! As linhas que a Angola tece. Seria mais um elefante branco, dos muitos que vamos alimentando com tenra erva de ouro.
                Estas decisões e indecisões sobre a via férrea não é coisa de agora! Ficaram umas pontes, uns projetos de um Caminho de Ferro do Congo que ligaria Luanda ao Caxito, Ambriz e iria em direção a Leopoldville, mas não houve financiamento e ficou uma ideia de que muito poucos se lembram.
                Talvez nem tenha muito a ver com o assunto, mas vejam este texto:”. Em qualquer caso, teremos que produzir em boas condições económicas-e essas condições, por vários motivos, não se verificam na colónia. Angola continua, de um modo geral a produzir caro e a não poder economicamente explorar muitas das suas possibilidades. Vários fatores para isso concorrem. Todos eles derivam, em ultima análise, do abandono a que tem sido votados importantes problemas de fomento, que ao Estado, que não aos colonos compete solucionar. Pode, verdadeiramente, dizer-se que nunca se estabeleceu um programa de conjunto, atinente ao desenvolvimento de Angola, em que se compreendessem a racional utilização das múltiplas fontes de riqueza e aproveitamento dos seus imensos recursos- que nesse programa se tivesse entrado em franca execução e que esta fosse levada a cabo. A única tentativa seria ou digna desse nome foi a do Alto Comissário Norton de Matos- e a deplorável sequencia dos acontecimentos, de que temos sucinta notícia diz-nos eloquentemente do fracasso a que, por falta de meios e continuidade essa tentativa conduziu. Assim se descurou a organização do crédito em bases capazes de criar as grandes iniciativas e de assegurar o útil rendimento do esforço dos colonos. O problema dos transportes e comunicações, tanto por caminho de ferro, como por estradas e via fluvial, está infinitamente longe da solução que a área geográfica, o potencial de produção de certas regiões e até a disciplina e metódica utilização do existente exigem. Este é sem dúvida um dos fatores que mais se faz sentir em detrimento da economia de Angola onerando sobremaneira a produção.”
                “O problema da energia, como fonte de desenvolvimento industrial e agrícola tem sido quase totalmente descurado- sem que faltem em Angola imensas possibilidades naturais de aproveitamentos hidroelétricos. Idêntico é o panorama que a colónia oferece em obras de hidráulica agrícola que a levassem à utilização de grandes áreas, ainda abandonadas, e ao racional aproveitamento de outras em benefício do seu rendimento. Nunca pensámos, a fundo e a sério, no problema científico de Angola, que a todos os outros substancialmente domina nos seus aspectos geográfico, geológico, botânico e zoológico, quando é certo que pela sua solução será possível o conhecimento perfeito da colónia e as directizes em que deve assentar a sua reconstrução económica.”
                Este texto foi retirado do livro de Álvaro de Freitas Morna, governador geral de Angola em 1942 e 1943. O livro é “A situação económica de Angola” de 1945, traz um conjunto de problemas, e não deixa de ser curioso como “A história repete-se, a primeira vez como farsa, a segunda como tragédia” (Karl Marx em 18 Brumário de Luis Bonaparte).
                Um discurso coerente nos dias de hoje!!!

Fernando Pereira
28/11/2018

                 

29 de janeiro de 2016

Diferença entre o Sino e o Signo!/ Novo Jornal / Luanda 29-1-2016





Mais um tema sobre o futebol, dos sorrisos da vitória e da “estúpida vontade de chorar das tardes de derrota", como disse um dia um homem que foi guarda-redes num clube de Argel e se chamou Albert Camus.
Não vou falar da seleção nacional de futebol que continua no continente a manter os seus níveis de incumprimento num quadro que se alastra há tempo demais, e quando se pretendem encontrar culpados mete-se algo escatológico na mão e abre-se a ventoinha espalhando-se tudo para cima dos mais expostos: Selecionador e jogadores!
O problema é mesmo um e difícil de ser agarrado: falta de politica desportiva, e inerentemente criar uma estrutura de responsabilidade partilhada por muitos agentes, de hábitos consolidados, que quando as coisas acontecem de mau, assobiam para o ar, quando das poucas vezes correm bem, eis que aparecem logo na primeira fila e a assumirem um protagonismo risível.
Isto traz-me à lembrança um filme dos anos ontem, o “Trevo de Quatro Folhas” que reproduz num ambiente jocoso a derrota da seleção portuguesa em Madrid em 1934 por 9-0!
Uma das muitas histórias que se conta que, no dia seguinte ao encontro, um jogador português, ao ser interpelado pelo criado do hotel castelhano com o habitual “Desayno?”, respondeu: “Desayuno, não. Nove a Zero!”
Barrigana foi um dos grandes guarda-redes portugueses, e durante muitos anos foi o baluarte das balizas do Futebol Clube do Porto nos anos 50 do século passado. Era corticeiro de profissão, e quando chegou ao Porto não sabia ler nem escrever, situação normal no quotidiano da maioria dos jogadores de futebol ao tempo! Como tinha que dar autógrafos resolveu fazer uma assinatura numa chancela e carimbava todos os papéis que lhe eram estendidos. As crianças nos treinos ovacionavam-no gritando “Barrigana, Barrigana” e ele chegava ao pé deles e dizia: “Barrigana não, Senhor Barrigana”
A propósito, que a crónica é uma conversa e as “conversas são como as cerejas”, lembrei-me que se contava que Sammy Davis no princípio da sua carreira e no final dos seus espetáculos, com uma multidão de admiradores lá fora, manifestou a Sinatra, que o apadrinhava, a sua grande apreensão em relação aos autógrafos. Não sabia escrever. Sinatra disse-lhe o que só um Sinatra poderia dizer: «Não faz mal! Faz uns gatafunhos! Chega…».
Barrigana foi contemporâneo do angolano Miguel Arcanjo, que alguns anos depois de acabar o futebol resolveu estudar e foi colega do filho no curso de direito na Universidade de Coimbra, tendo-se licenciado os dois no mesmo dia.
Num estágio da seleção de Portugal nessa altura e num estágio antes de um Portugal-Áustria, em plena concentração em Braga surgiu um tema aliciante: O problema da existência de Deus.
O debate foi animado, visto que havia uma clara divergência de opiniões.
Até que o Barrigana foi perentório na sua afirmação: Acreditava na existência de Deus e podia prova-lo! Claro que a assembleia “exigiu” imediatamente essa justificação.
“Quando se aproximava da minha baliza um avançado contrário isolado-explicou o guardião nortenho- faço rapidamente uma prece mental e o certo é que acabo por defender”
“Nesse caso - retorquiu-lhe um dos seus companheiros de equipa – tu nunca sofrias um golo…”
A resposta do homem a quem durante muito tempo foram confiadas as balizas da seleção portuguesa de futebol foi rápida e decisiva: “ Eu sou o melhor guarda-redes português. Há bolas que tenho obrigação de defender, mesmo sem recorrer a Deus!”.
Barrigana foi para Angola no dealbar dos anos setenta treinar a equipa dos “Dinizes de Salazar”, que era uma equipa financiada pelo maior capitalista da região, Santos Diniz. Os treinos eram à porta aberta no bar do clube, no Hotel Paixão, na Pensão Chique e acima de tudo no Bar Oásis, onde a hidratação à base de cerveja era continuada, o que levou o Barrigana a estar pouco tempo em Salazar (N’Dalatando). Recordo-me dele se queixar que tinham que fazer uma viagem ao Moxico, ao Lubango, a Porto Alexandre (Tombwa) e demorarem dois dias num autocarro sem a modernice do “ar condicionado” , o que obrigava os jogadores a “acompanhar” o treinador e dirigentes em exercícios de rehidratação continuada em sumo de cevada e lúpulo fermentado!
Os” Dinizes” que andaram uns anos na divisão maior do futebol angolano tinham sob orientação de Barrigana uma equipa onde pontificavam Carlos Alberto, Azevedo, Chipau, Nélson, Lóló, Cardeal, Pirolito, Sá Pereira, Rudolfo, Beto Truka, Jorge, Rómulo, Arlindo Soares, Dudu, Mendonças(2), Oliveira Duarte, Napoleão ,Rosas, Caipira, Bira, Noé e Carmona.
Uma passagem atribulada e curta do Sr. Barrigana por terras de África, pois os resultados desportivos estavam na proporção aritmética da proporção geométrica da cerveja consumida!
Engraçado mesmo, é que o título nada tem a ver com a crónica!

Fernando Pereira
26/1/2016

15 de janeiro de 2016

A geração entupida! / Ágora / Novo Jornal/ 16-1-2016/ Luanda


A geração entupida!
Um dos livros relevantes da literatura angolana é “A Geração da Utopia” de Pepetela, o autor traz para a escrita os anos de sonhos, utopias, poucas dúvidas, excesso de certezas num futuro a construir num quadro de igualdade e solidariedade.
Na sociedade angolana assistimos, há já a alguns anos a esta parte, ao desmoronar de um sonho coletivo assente na solidariedade, na democracia, na liberdade, e todo um conjunto de valores, que levaram a geração dos entas a lutar pela construção de um país e concomitantemente aquele “homem novo” que pertencia a um tempo que havia de vir sem ser futuro.
Habituei-me a olhar para um grupo alargado de pessoas, a grande maioria mais velha que eu, de uma forma quase reverencial do ponto de vista ideológico, alicerçado naturalmente no seu percurso de luta e resistência contra o colonialismo e o fascismo. Vi nessa gente a alegria de construir, a vontade de criar, a persistência no aprender e de facto o MPLA ganhou o respeito, a credibilidade e a adesão de muita gente, um pouco por todos esses exemplos transmitidos.
Para nós, e para esses mais velhos era completamente despiciendo que houvesse desorganização, purgas, fome, tribalismo e racismo na luta armada, como nos confidenciavam os que por lá passaram nas conversas que tínhamos num tempo em que nos juntávamos, e também quando militantemente nos ajuntavam!
Que importavam as dificuldades do quotidiano da novel RPA se o que interessava era construir e “o mais importante era resolver os problemas do povo”! E víamos as pessoas entusiasmadas a fazer, mobilizadas no querer e no meio de tanto voluntarismo, asneiras, imponderáveis ideológicos, as pessoas confiavam que o futuro estaria a passar por ali.
Afirmámos tanta coisa, irritámo-nos com todos os que nos diziam que nunca poderia ser assim nem mais assim, fazíamos juras às convicções mais pueris e gritávamos a plenos pulmões: “Ao inimigo nem um palmo da nossa terra”! Um tempo em que sabíamos que a diferença entre ser membro do governo ou do CC era o azul ou o branco do carro distribuído, e a maior indignação era ter que ver o “Bem-amado” segunda vez porque um qualquer mwata não tinha visto o episódio todo.
Era um tempo em que nos indignávamos pela gravidade de situações que hoje se revelam cândidas e banais no quotidiano da nossa sociedade!
Estávamos com a confiança em pleno e havia inimigos comuns e alguns que ao tempo nos pareciam amigos, deviam ter estado bem disfarçados, para trinta anos depois serem exatamente o que são.
A verdade é que os da minha geração e anteriores se deparam hoje com um dilema terrível, que é não conseguirmos assumir a plenitude do nosso fracasso. Os anglo-saxónicos têm uma frase que sintetiza tudo: Permanecemos com os esqueletos nos armários! A minha geração muito pouco, mas a geração anterior foi quem montou um esquema mental e tentou criar uma carapaça que defendesse a luta por um coletivo que pudesse ser digno de merecer “o seu bocado de pão”!
Essa geração está num perfeito estado de quase “catatonismo” porque não consegue discernir se defende o status-quo prevalecente no País, se aceita passivamente tudo!
Nós, angolanos destas gerações temos um problema grave entre mãos: Ou damos o flanco e vamos dizer aos que durante quarenta anos ou mais, que no essencial tinham razão e que quem estava errado éramos nós, ou perpetuamo-nos nalgumas mentiras agitando as bandeiras descoloradas de uma sociedade em que cada vez nos revemos menos.
Há sempre uma fuga, e isso é patente nas redes sociais, e tem a ver com a dificuldade que com o avançar da idade cada vez temos mais dificuldade de despir uma camisa, que está ideologicamente enrodilhada e com as convicções cheias de buracos.
Do marxismo que tentámos implementar resta muito pouco, e por vezes o que sobra é muito mal utilizado. A partir de determinada altura largou-se Karl Marx para se adequar a sociedade ao Groucho Marx: ”Estes são os meus princípios. Se você não gosta deles, eu tenho outros”.
Olho com um certo esgar os que acham que somos idiotas em defender algumas ideias que dizem ser passadistas, mas na realidade o que assistimos é que o conformismo assaltou muita gente que julgávamos ter convicções inabaláveis. Ortega Y Gasset em pleno na sociedade angolana de hoje com a estafada frase que “a vida somos nós e as circunstancias”?
Agitam os números de participantes em comícios, percentagens eleitorais de grande dimensão, publicitam os encómios dos que perpetuam os mercados dos favores e dos tráficos de toda a ordem e desordem, mas ainda não consegui esquecer que um autocarro completamente lotado ao entrar em contramão numa autoestrada não tem razão nenhuma quando colide com carro de pequena cilindrada com um só ocupante que vinha na via certa. Muitos continuam a usar as palavras de ordem de um passado perdido para justificar o que não é fácil perante as evidências quotidianas.
Hoje tornámo-nos na geração entupida porque nos recusamos a fechar o ciclo virtuoso das nossas convicções para ao invés entrarmos no niilismo que é o ciclo vicioso da Angola atual.

Fernando Pereira
10/1/2015


6 de novembro de 2015

Cultura Física e Desporto na Angola independente. / Revista Dipanda 40 anos/ Luanda /6-11-2015

Artigo que saiu na revista DIPANDA 40 ANOS.
Revista do Novo Jornal e do Expansão

Cultura Física e Desporto na Angola independente.
Nestes quarenta anos de Angola enquanto País, a cultura física e o desporto foram um poderoso aliado da afirmação da unidade da nação angolana, e um fator agregador de múltiplas vontades num dinamismo associativo participativo.
O desporto no tempo colonial jamais conseguiu sair do espartilho em que as autoridades o ataram e a realidade é que, em nenhuma modalidade, a colónia de Angola conseguia alguma notoriedade no paupérrimo espaço do “império português”. Nos chamados confrontos com equipas da então “Metrópole”, os resultados eram confrangedores com a agravante de que Portugal era dos países europeus com piores desempenhos ao nível de modalidades coletivas ou individuais, para além da reduzida percentagem de praticantes que tinha no conjunto da sua população.
Porque este artigo é uma tentativa limitada de fazer uma retrospetiva do que foram estes quarenta anos de construção de um desporto na afirmação de um país, não é muito importante fazer um exercício de memória sobre o tempo colonial, onde a atividade desportiva pouco mais conseguia ser para além de um desporto recreativo e de competição doméstica sem expressão.
Houve no fim do período da administração colonial uma tentativa de se criar um conjunto de estruturas que permitissem, de uma forma profissional e com métodos pedagógicos inovadores, melhorar a qualidade desportiva através de um exercício que possibilitasse o acesso das crianças e jovens em idade escolar à prática regular da educação física e desporto.
Cercearam-se entretanto as atividades da Mocidade Portuguesa que era, no contexto do ensino primário e secundário, a única estrutura organizada que permitia a prática de educação física, contaminada por uma forte componente ideológica assente nos valores que eram indispensáveis à sobrevivência da estrutura ideológica salazarista.
Quando da independência existia um Conselho Provincial de Educação Física e Desportos, a entidade do governo que supervisionava todo o desporto no território e, simultaneamente, fiscalizava o movimento associativo que se “desejava” cordato e portador da ideologia prevalecente. Ao tempo já existia uma escola de formação de professores de educação física, de nível médio, que pretendia que os recém formados ocupassem as vagas nas escolas onde normalmente militares e alguns antigos praticantes lecionavam.
No dealbar da independência, o quadro no desporto era semelhante ao que aconteceu nos outros sectores: fuga maciça de quadros, um abandono e degradação de muitas estruturas físicas pelo País inteiro.
Havia que começar a trabalhar e no primeiro governo de Angola criou-se, na dependência do Ministério da Educação, o Conselho Nacional dos Desportos, liderado pelo António Augusto, que teve um curto e atribulado período, tendo acabado o seu mandato no 27 de Maio de 1977. Em 30 de Agosto de 1977 é empossado Hermenegildo de Sousa, como Secretário Nacional do Conselho Superior de Educação Física e Desportos que cumpre o seu mandato até 4 de Julho de 1979,altura em que a lei 7/79 extingue o CSEFD e cria em sua substituição a Secretaria de Estado de Educação Física e Desportos, autónoma do Ministério da Educação. Como Secretário de Estado toma posse Rui Alberto Vieira Dias Mingas e este facto marca o início de um período, provavelmente o mais pujante, do grande desenvolvimento no desporto de Angola.
Refira-se que em 21 de Janeiro de 1978 são nacionalizados todos os bens que integram o património desportivo da Cidadela Desportiva de Luanda, que compreendia o estádio, o pavilhão desportivo, os prédios inacabados em redor e os terrenos circundantes. No seguimento desta nacionalização, o Secretário de Estado exara um despacho publicado em 19 de Fevereiro de 1980 que “determina que todas as instalações municipais, assim como as instalações de clubes da era colonial que se encontrem em estado de abandono, passem para a gestão direta da SEEFD” .
Iniciam-se os primeiros passos para a edificação de uma estrutura desportiva que permitia iniciarem-se campeonatos nacionais federados e simultaneamente proverem-se os lugares que, no contexto das associações desportivas internacionais, cabiam a Angola. Durante o período entre Agosto de 1979 e Fevereiro de 1980 decorreu a instalação das Federações desportivas da maior parte das modalidades e, inerentemente, a criação de associações provinciais. Este edifício organizativo associado à publicação do diploma orgânico da SEEFD, publicado em DR em 16 de Novembro de 1981, permite que tudo comece a correr dentro da legalidade institucional.
Em Novembro de 1980 Luanda recebe a organização de uma competição continental, a primeira em solo angolano, o Campeonato Africano de Juniores em Basquetebol, que a RPA ganhou numa final épica contra a República Centro-Africana. Foi a partir dessa conquista que a RPA se consolidou como uma das maiores potências africanas na modalidade tendo conquistado, a nível de seleção, onze títulos continentais, o que tem permitido a presença do País nos diferentes Jogos Olímpicos e Campeonatos Mundiais.
O Comité Olímpico de Angola fundado no início de 1979, teve como primeiro presidente o Dr. Augusto Lopes Teixeira seguido de Augusto Germano de Araújo, de Rogério Nunes da Silva e de Gustavo Vaz da Conceição. O COA permitiu ao longo dos anos levar aos Jogos Olímpicos uma representação que dignificasse o País, mesmo em momentos em que a vida coletiva era difícil e o futuro da Nação incerto.
Em Agosto de 1981 organizaram-se em Luanda os 2ºs Jogos da África Central, a maior realização de sempre na Angola independente. Milhares de participantes, voluntários, árbitros e dirigentes aliados ao entusiasmo e engajamento das populações nas cidades que acolheram os jogos, fizeram deste evento algo inolvidável. “A realização destes jogos em Angola não acontece por acaso, nem é fachada vistosa que escondemos para utilizar as debilidades de um desporto sem princípios, sem organização, sem praticantes. E nem persegue sequer outros objetivos senão os bem generosos que norteiam as relações desportivas internacionais, particularmente entre os Países do nosso continente”; estas palavras fazem parte do discurso proferido pelo Secretário de Estado de Educação Física e Deportos Rui Mingas, no dia 20 de Agosto de 1981, no ato de abertura dos Jogos, numa Cidadela recuperada e com as bancadas cheias de público e animadas por um extraordinário trabalho de quadros humanos, escolhidos entre a juventude das escolas de Luanda que aceitaram o desafio que lhes foi proposto de forma empenhada e voluntária.
Entretanto, ia-se reconstruindo o parque desportivo que se degradara fruto do abandono a que tinha sido votado. Simultaneamente iam-se construindo novas infraestruturas, nomeadamente campos relvados, pavilhões cobertos e centros de Estágio para desportistas. Instalaram-se por todo o País novas “Casas do Desportista”, para alojar com dignidade os atletas dos diferentes campeonatos nacionais de modalidades coletivas e individuais.
Desde 1980 que iam decorrendo os Conselhos Consultivos da SEEFD, o primeiro dos quais no Bié, que eram fóruns de intervenção de eleição por parte de dirigentes e responsáveis das estruturas centrais e descentralizadas da Secretaria de Estado e dos dirigentes máximos das federações nacionais.
Simultaneamente ia-se construindo a estrutura organizativa de todos os organismos ligados ao desporto e cultura física no País, e dois instrumentos fundamentais para o futuro saíram nos anos 80: a Lei de Bases do Sistema Desportivo em 1986 e 1987 e a Lei das Associações Desportivas. Esta legislação foi o corolário da ampla discussão do 1º encontro Nacional de Desporto realizado em Luanda (7 a 29/10/1984).
Em 1985, ano em que começa a ser disputada em futebol a Supertaça de Angola, defrontam-se, para a sua conquista, os vencedores do “Girabola” e da Taça de Angola (nessa 1ª edição o Estrela 1º de Maio de Benguela, campeão, vence o Ferroviário da Huíla, vencedor da Taça). Em 1985 foram inauguradas, a 10 de Dezembro, a “Casa do Desportista” na Ilha do Cabo e o Estádio da Cidadela Desportiva assim como alguns pavilhões anexos construídos de raiz. Neste mesmo ano realizou-se em Angola o prestigiado torneio internacional de Andebol Marien Ngouabi, o primeiro torneio de uma modalidade que, no sector feminino, tem trazido ao longo de quarenta anos um prestígio enorme ao País (onze títulos africanos, medalha de ouro em seis jogos africanos). A par do basquetebol masculino e feminino (vencedores do campeonato africano em 2011 e 2013) o andebol feminino é o orgulho de toda uma nação pelo conjunto de títulos conquistados.
A deterioração da situação militar no território não conseguiu parar os campeonatos, mas impôs uma degradação das infraestruturas desportivas que obrigou a deslocalizar algumas equipas para outros locais, onde a segurança dos protagonistas fosse assegurada.
Os esforços em manter a prática desportiva redobravam-se num contexto de valorização do cidadão, e como processo integrador não só no desenvolvimento físico como no seu conteúdo educativo e formativo.
Foi muito fácil integrar as crianças e jovens na prática desportiva, quer na componente de recreação quer na competição e consequentemente inseri-las nas estruturas federadas. A educação física e desporto mobilizavam as pessoas, e muita gente aderiu às atividades desportivas. Nas empresas, nos organismos do Estado a nível central e provincial, nas forças armadas, nos bairros, na comunicação social e naturalmente nas escolas havia uma apetência quase generalizada para se organizarem uma quantidade de torneios e campeonatos que engajavam muita gente, recorrendo aos parcos recursos que ia havendo. A título de exemplo podia referir o extraordinário torneio dos “Caçulinhas da Bola”, uma organização da Rádio Nacional de Angola, que nos anos 80 mobilizou milhares de crianças num torneio de futebol infantil, com um êxito que não conseguiu ver repetido noutras iniciativas. Desse torneio saíram alguns jogadores que acabaram em clubes de primeiro plano no País.
Apesar de terem participado como convidados nos Jogos Olímpicos de Moscovo em 1980, oficialmente Angola entra pela primeira vez nos JO em Seul 1988, com uma delegação em várias modalidades individuais, depois de ter boicotado os Jogos de Los Angeles em 1984.
Em 1989, a SEEFD dá lugar ao Ministério da Juventude e Desportos ao abrigo da Lei Nº 3/89 , sendo nomeado ministro o Dr. Marcolino Moco, passando a ocupar o lugar de Vice-ministro do Desporto o Professor José da Rocha Sardinha de Castro, pessoa que desde 1979 ocupava o lugar de Diretor Nacional dos Desportos com grande competência e sobriedade.
É uma opinião muito subjetiva, mas ao alterar-se a missão do Ministério e ao ser-lhe configurado um novo quadro orgânico, alguma importância terá sido retirada ao enquadramento político do desporto no País, alijando uma parte significativa das responsabilidades da ex-SEEFD e remetendo-as para as Federações desportivas. Convenhamos que já se antecipava alguma mutação ideológica no quadro da política global da República Popular de Angola, e obviamente a cultura física e o desporto teriam outro figurino nos novos tempos que se adivinhavam.
Em 1992 toma posse como Ministro, por um ano, Osvaldo Serra Van-Dunen que mantém Sardinha de Castro como Vice-ministro, num período fervilhante da política angolana. Nesta fase, só acabou por ser relevante a participação nos Jogos Olímpicos de Barcelona em 1992, onde a equipa masculina de Angola de basquetebol, campeã africana, venceu a superfavorita seleção espanhola, ainda hoje um feito nos anais da modalidade.
A Osvaldo Van-Dunen sucede, também durante um ano, Justino Fernandes, ex-defesa direito do ASA nos anos sessenta, que entretanto passara por algumas pastas ministeriais e que deixa o Ministério para ir ocupar o lugar de Governador de Luanda. Foi mais uma passagem transitória em que, dadas as circunstâncias, também nada de desportivamente notório aconteceu.
Em 1994 toma posse como Ministro o Dr. José da Rocha Sardinha de Castro e como Vice-Ministro para o desporto o Prof. Guilherme Espirito Santo Carvalho, dois homens da “casa” e que acompanharam todo o desenvolvimento do desporto angolano e foram protagonistas ativos nas suas múltiplas transformações.
O Dr. Sardinha de Castro é um profundo conhecedor da realidade do desporto angolano, professor de educação física e uma pessoa de convicções saudavelmente fortes, o que por vezes lhe trouxe algumas situações muito incómodas por parte de uns quantos, habituados a tentar colher benefícios por meios pouco claros e cumplicidades com ligações espúrias. Foi durante o seu mandato que se reorganizou o Ministério da Juventude e Desportos sendo publicada a lei n.º 10/98, (Lei de Bases do Sistema Desportivo Angolano).É aprovado o diploma do regime de prémios aos Atletas na Alta Competição em Novembro de 1996, regulamentação que veio colocar um ponto final num critério pessoalizado e aleatório sobre a distribuição de prémios e outras menções aos que representavam o País em competições internacionais. O Estatuto Orgânico do Ministério da Juventude e do Desporto, Lei 7 /97, foi também aprovado nesse mandato.
Os problemas que o País ia vivendo nesses anos 90 eram transversais a todos os sectores da sociedade angolana, e as dificuldades em conseguir que os campeonatos federados decorressem a um ritmo normal exigiam uma mobilização total dos recursos, que naturalmente eram parcos dada a dimensão das exigências colocadas. Simultaneamente, ia-se assistindo à destruição das infraestruturas desportivas um pouco por todo o País, e ao tempo, até as próprias instalações desportivas nas escolas e clubes, serviram para acolher refugiados de uma guerra sem quartel e que se generalizou a todo o território.
As participações das seleções nacionais em campeonatos continentais, campeonatos do mundo, Jogos Olímpicos e outros compromissos internacionais iam sendo cumpridos, com grande dignidade, por parte de todos e com algumas excelentes performances.
A juventude angolana continuava a ver na prática desportiva a única hipótese de preencher os seus tempos livres, que aumentavam com o encerramento prolongado de escolas e o atrofiamento da atividade económica, por razões perfeitamente justificadas.
Em 1999 Sardinha de Castro é substituído pelo seu Vice-ministro da Juventude, Dr. José Marcos Barrica, e o ministério tenta adaptar-se aos novos tempos de Angola.
Havia que começar a reconstruir todo o equipamento que foi sendo destruído e, simultaneamente, disponibilizar aos delegados provinciais meios para promoverem o reequipamento dos clubes, dotarem-nos de quadros técnicos e reativar as associações provinciais.
Com o fim da guerra em 2002, com a abertura da circulação em todo o País e com fundos postos à disposição, Angola assiste a um período de grande euforia, as infraestruturas de apoio às seleções são significativamente melhoradas e os clubes mais representativos na capital e nas províncias começam a construir todo um conjunto de equipamentos, úteis para o desenvolvimento do desporto de competição no País.
Com a nova orientação política, o Estado começa a demitir-se de algumas competências e atribuições passando a entregá-las às federações, associações e, claro, aos clubes. A formação de técnicos, árbitros, dirigentes foi saindo da órbita do Ministério da Juventude e Desportos e só a escola e os clubes passaram a mobilizar a iniciação desportiva.
Em 2005 Angola apura-se, pela primeira e única vez, para a fase final de um campeonato do mundo de futebol que decorre na Alemanha em 2006, não tendo o País logrado passar da fase de grupos.
Em 2008, o Ministro Marcos Barrica é substituído pelo Vice-Ministro Gonçalves Manuel Muandumba, que herda o pesado encargo de organizar no País o Campeonato Africano das Nações em Futebol (CAN), ideia que germinou do Mundial da Coreia Japão (2002).
Este era, indiscutivelmente, o maior desafio que se colocava à Angola em paz, já que organizar um CAN em 2010 exigia um esforço enorme para conseguir que um evento deste nível pudesse correr de forma satisfatória. Construíram-se estádios de raiz em Luanda, Huíla, Cabinda e Benguela, todos eles com lotações superiores a 25.000 espectadores. Alteraram-se profundamente as infraestruturas circundantes desses estádios, tal como a construção de novas vias a envolverem esses parques desportivos, que cresciam como fruto de trabalho continuado para cumprimento de prazos. Emergiram dezenas de novos hotéis, muitos deles de excelente qualidade, adaptaram-se e construíram-se de raiz novas instalações aeroportuárias e houve necessidade de se disponibilizarem novos campos relvados, ginásios, spas, instalações para apoio médico, em síntese: montou-se uma pequena parte do País.
A verdade é que tudo correu quase bem, ensombrado apenas pelo que ocorreu com a seleção do Togo em Cabinda,o que terá diminuído o pleno êxito dum CAN disputado por 16 nações, a maior parte delas atuais estrelas do futebol mundial. Angola mais uma vez fracassou no aspeto desportivo, mas no cômputo geral foi positiva e muito boa a organização por parte do COCAN, liderado pelo ex-Ministro Justino Fernandes.
Em 2013 Angola organiza o campeonato do Mundo de hóquei em patins, distribuído nas cidades de Luanda e Namibe, cidades onde se constroem dois novos pavilhões para receber um evento de importância relativa, já que é uma modalidade de pouca expressão ao nível internacional, e que mesmo no País tem muito poucos praticantes.

SINTESE FINAL

Neste pequeno e incompleto percurso nos caminhos da educação física e desporto angolano ao longo dos quarenta anos de Angola, enquanto País soberano e independente, um fator que não deve ser negligenciado: foi através da expressão desportiva que Angola conseguiu uma visibilidade exterior importante, que dificilmente seria possível noutros sectores de atividade, quer na área social, quer na área económica.
Quando da opção socialista do País, a educação física e o desporto foi uma área onde se terão conseguido assinaláveis progressos, pela mobilização de recursos, na constante procura de formação de quadros e otimização de novas competências,na promoção de acordos de cooperação assertivos com partilha continuada de experiências e, acima de tudo, a vontade de promover uma República Popular de Angola nova, com dificuldades, mas orgulhosa da sua soberania e acima de tudo muito ciosa em defender valores solidários no contexto das nações.
Não foi fácil edificar uma estrutura deste tipo, e ainda hoje se vão colhendo os frutos das sementes que se colocaram nesses anos em que muito se discutia, mas que também muito se fazia.
O basquetebol e o andebol feminino continuam a ser as nossas mais honoráveis representações a nível internacional, mas são urgentes novos desafios porque aquilo a que vamos assistindo é a um niilismo, que substituiu a erradamente chamada “massificação”. Pouco mais se faz que navegação à vista o que não é nada bom augúrio para o futuro!
É muito importante repensar estratégias, e também fazer um apelo a contribuições que permitam que não se perca a formação, porque será aí que se irão buscar os que hoje precisam de ser substituídos. Não se pede necessáriamente “injeção de sangue novo”, mas alerta-se para que talvez seja a hora de oxigenar o sangue que existe.
Convém também alertar que o desvario urbanístico e imobiliário impediu as pessoas de terem espaços para a prática de modalidades, e nem o jogo de futebol de rua, tão popular entre nós,pode ser praticado, já que os largos, os terrenos baldios e os becos desapareceram para se construir a esmo.
Nunca teremos gente para os estádios inaugurados por toda a parte se não tivermos muita juventude a praticar um pouco por todo o lado, num País em que as condições climáticas aliadas à apetência inata da nossa população pela prática da educação física e desporto são motivos suficientes para termos muita gente engajada.
Viva o 11 de Novembro de 1975!

Fernando Pereira
27/10/2015


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15 de outubro de 2015

Lentidão das Facas / O Interior / !5/10 /2015



Lentidão das Facas
Já muitos falaram do resultado das eleições portuguesas. Vamos, porém, aguardar serenamente pelo que aí vem, embora o meu ceticismo quanto a alterações importantes permaneça inalterado, apesar de algumas movimentações.
Talvez muitos dos poucos que me leem não saibam, mas durante muitos anos tive apenas nacionalidade angolana e só muito recentemente readquiri a portuguesa, mantendo naturalmente a angolana.
Angola comemora quarenta anos de independência. A 11 de Novembro de 1975, a então República Popular de Angola emerge no conjunto de nações independentes.
Marcada por uma saída generalizada de quadros que asseguravam o quotidiano de uma colónia muito dependente das opções pouco assertivas de uma Lisboa centralista, Angola enfrenta, simultaneamente, uma guerra civil que se prolongou até 2004.
Com índices de pobreza enormes, mesmo num contexto terceiro-mundista, e com uma sociedade onde a segregação racial era profunda, a jovem Angola é confrontada com o abandono quase generalizado dos portugueses, o que acaba por destruir o único sistema de distribuição que existia por todo o território, para além de outras implicações que levaram à paralisia de todo o sector económico e social do território.
Neste contexto, o esforço dos angolanos foi de enorme estoicismo, embora tivessem sido tomadas algumas opções estratégicas erradas, assumiu-se algum radicalismo ideológico que trouxe constrangimentos institucionais a médio prazo. Claro que é fácil dizer-se hoje que “tudo poderia ter sido diferente”, mas as circunstâncias exigiam respostas rápidas, com necessidades óbvias de reafirmar militarmente a soberania do território e a resolução dos problemas imediatos de um povo que se libertava das “grilhetas do colonialismo”.
Conhecemos a história do que foram estes 40 anos de Angola, ou melhor, uns quantos conhecem, mas, como em tudo, muitos, não sabendo,opinam e dão palpites com argumentos do mais risível possível.
Não tenho pretensões a explicar o que foi este percurso de quarenta anos de Angola enquanto afirmação de um País, já que hoje é cada vez mais fácil explicar-se que um País africano, economicamente dependente das receitas petrolíferas, vive em sobressalto permanente, um pouco pela oscilação na cotação internacional do petróleo e também pelas opções económicas e políticas erradas que os dirigentes do País vão tomando ocasionalmente.
Fico triste com algumas situações, por outro lado fico indiferente, e fico particularmente entusiasmado com o muito que o País foi conseguindo fazer numa tentativa de inverter o marasmo e a destruição que a guerra justificou.
Há ainda um caminho longo a percorrer mormente na defesa dos princípios constitucionalmente consagrados no que concerne aos direitos dos cidadãos e ao direito de reunião e manifestação.
Convenhamos que não alinho com as posições da maior parte das manifestações que se fazem em Angola, mas também tenho que admitir que a forma de as impedir ou dispersar é demasiado violenta no quadro da legalidade prevalecente.
Quando se perpetua a prisão de um conjunto de pessoas por um período demasiado longo, invocando-se um argumento perfeitamente bizarro de “tentativa de golpe de estado", só se contribui para desacreditar as instituições angolanas, e a ausência de respostas para este caso revela que há muitas dúvidas na estrutura de topo, legalmente constituída, no País.
Não partilho das convicções nem da linguagem desbragada que os prisioneiros utilizam, alguns dos quais conheço pessoalmente, mas há uma coisa que insisto em defender que é a preservação da liberdade e dos direitos dos cidadãos a manifestarem-se de forma ordeira. É urgente que se acabem as prisões arbitrárias pelo crime de “delito de opinião”. Só assim o País passará a merecer respeito por parte das pessoas que não andam a ver a cotação do petróleo para tomarem uma posição.
Até lá, continuamos a não conseguir fazer o 11 de Novembro de 1975!

Fernando Pereira
13/10/2015

2 de outubro de 2015

DECEPÇÃO À REGRA / Ágora / Novo Jornal/ Luanda /2-10-2015



Estamos a pouco mais de um mês do dia da independência do País, e convém começarmo-nos a habituar que “o colonialismo acabou”!
As desculpas sistemáticas para os erros que cometemos nos tempos de Angola como País independente têm invariavelmente um culpado: o colonialismo!
No dealbar de Angola enquanto País independente e durante um período relativamente dilatado da nossa vida coletiva, justificavam-se perfeitamente grande parte das críticas, embora pontualmente atirávamos para cima do “fantasma”, erros que nós próprios cometíamos, algumas vezes avisados nem que fosse pela sua repetição.
“Quem não viveu, esqueceu, ou renunciou às delícias das ilusões desses grandes dias nunca vai conhecer o exato perfume das flores” dizia um velho camarada, já falecido há poucos anos, quando confrontado com a realidade de um contexto completamente diferente do que ele e muitos sonharam naquele Novembro nunca esquecido. Justificava a sua alegria do onze do onze de mil novecentos e setenta e cinco, para esquecer a frase tantas vezes pisada e repisada entre muitos que da utopia julgavam fazer um País: “Não foi isto que combinámos”.
É um dado adquirido, o colonialismo morreu, e não vale a pena matraquear em volta de um argumento estafado! Sem errar, penso que entre oitenta a noventa por cento da população angolana não tinha nascido para assistir ao estertor do colonialismo, ou viveu-o num período em que a perceção das desigualdades inerentes ao sistema ainda são demasiado difusas, para poderem ter a verdadeira dimensão de quão mau e degradante foi o que se procurou enterrar naquela noite de Novembro!
Não vale a pena continuarmo-nos a enganar, remetendo tudo que é mau para as sequelas do colonialismo, porque na realidade esse argumento começa a ter pouca ou nenhuma justificação, perante uma opinião pública diferente que temos no nosso País, a quem raras vezes é dada alguma importância.
Os responsáveis por investimentos errados, má administração da coisa pública, venalidade nos negócios em que o Estado é parte interessada, desmandos, perseguições e prisões feitas de forma injustificada tem rostos, nomes, apelidos, cognomes, nomes de guerra e paz, urge que sejam responsabilizados, de forma a evitar o abastardamento das instituições.
A oposição ao MPLA clama por liberdade, mas a realidade que se nos depara quotidianamente, é que internamente os partidos e organizações políticas que corporizam o “contra” o governo, acabam por usar métodos internos, que não indiciam nada de bom para recuperar os valores de liberdade e democracia que badalam aos quatro ventos.
Se o MPLA, enquanto maior força política, alicerçada pela vitória no voto popular, se apropriou de forma algo imprudente do aparelho de Estado, para usar alguma brandura nas palavras, a realidade é que a contestação dos partidos da oposição é pouco aglutinadora em propostas e muito débil em convicções.
Urge o debate no seio do MPLA fora do “folclore comicieiro” que arrasta multidões, mas de onde não surge uma proposta ou uma ideia que proporcione desenvolvimento e uma maior e mais cuidada distribuição de riqueza.
Não devemos continuar a perpetuar um País onde se cortam as árvores para que não façam sombra aos arbustos, e para não corrermos o risco de amanhã termos parido uma geração de ressabiados e desesperançados formatados num espírito individualista que só se une para desancar nos que não lhe deixaram perspetivas e odiarem toda uma geração onde há muita gente que não é venal e defendeu as suas convicções de liberdade e socialismo!
Angola tem hoje uma cobertura de internet do melhor que há em África, e tem um número crescendo de internautas que enxameiam as redes sociais com propostas, comentários, insultos, apoios e outras formas de intervenção. O tempo dos “órgãos de difusão massiva” acabou, por isso é perfeitamente dispensável fazer cercos aos meios de comunicação estatais para evitar as opiniões do contraditório.
O que se nota, da leitura quotidiana que faço nas redes sociais, é que encontro muita gente a divergir do status quo vigente, com comentários inteligentes, fundamentações interessantes e assentes em realidades presenciadas, vividas ou investigadas. Também há o aviltamento gratuito de pessoas e instituições, mas isso não se consegue evitar, e acaba por ser irrelevante quando não se dá importância.
Esta gente já passou da decisão da idade para a idade da razão, o que quer dizer que é gente que já passou a juventude e estão na fase de maturação, e muita destas pessoas tem lídimas razões para terem maiores ambições profissionais e políticas. Urge começar a falar-se de uma hierarquia de competências em detrimento de fidelidades, algumas caninas, ao superior hierárquico no “partido e estado”, para recuperar uma saudosa frase de um tempo em que tínhamos todas as esperanças do mundo.
Angola no quadro dos países aparece em desonrosos lugares nos itens de desenvolvimento, e a culpa não é do colonialismo, é nossa! Não vale a pena tapar o sol com a peneira, pois a continuar assim a degradação vai ser continuada e continuamos a ser zombados e olhados com desconfiança em tudo, tolerando-nos pontualmente em certos lugares como por exemplo Portugal onde alguns gastam à tripa-forra, compram empresas a falir e dão chorudas gorjetas em restaurantes e cabarets. Deixemos de ter dinheiro para gastar, que os portugueses deixam de ligar alguma coisa aos angolanos.
“Uma sociedade só é democrática quando ninguém for tão rico que possa comprar alguém e ninguém seja tão pobre que tenha de se vender a alguém”, dizia Rousseau, e esse devia ser um dos pilares do nosso quotidiano de vida coletiva. Estamos muito longe disto!
Infelizmente, continuamos há quarenta anos a arranjar as desculpas, quando devíamos era enfrentar as adversidades e ter a humildade para reconhecer os nossos erros, sem que isso macule o orgulho na angolanidade construída em quarenta anos de lutas, de vitórias, de derrotas, muitas delas que a opinião publicada transformou em vitórias.
Urge fazer a exumação do cadáver “colonialismo”, e nada melhor que o fazer neste início de novo ciclo que se aproxima. A história passará a tomar conta dele, nós é que não devemos continuar a perpetuá-lo com desculpas de mau pagador.
“É horrível assistir à agonia de uma esperança” Simone de Beauvoir.
Fernando Pereira
26/9/2015

28 de agosto de 2015

FECHOU A LELLO / Ágora/ Novo Jornal/ Luanda 28-8-2015




Fiquei perplexo, quando li a notícia do recente encerramento definitivo da livraria Lello de Luanda. Era uma situação expectável porque os “mujimbos” eram mais que muitos, sobre o encerramento de uma das mais emblemáticas lojas da nossa cidade capital.
Por causa do capital na cidade, é que há muito o “Palácio da Palmeira” estava na mira dos que se vão encarregando de aumentar a bolha imobiliária, e quando rebentar serão os angolanos a pagar por estes desmandos de grande calibre!
Um dos edifícios mais nobres da baixa luandense, o seu nome refere-se à característica palmeira estilizada na grade que protege as escadas, do edifício na praça Rainha N’ZINGA, em frente, à outrora mais majestática Sonangol. Há muito que se sabia que era um espaço cobiçado, como é qualquer canteiro em determinada zona da cidade, mas os anos foram passando e lá se ia mantendo com o ar vetusto, a lembrar tempos do antanho em que o popular e Angola se confundiam num quotidiano político, que deixa saudades a muitos de nós.
Foi adquirido por uma daquelas sociedades que compram coisas, que não se sabem a quem pertence e quando aparece alguém a colocar nomes dos societários é uma inquietação a todo o tamanho para muita gente. Compraram o edifício para o deitar abaixo, é um dado mais que adquirido, e já estou a ver os olhos raiados de cifrões de alguns, a verem surgir mais um megatério, de uma sordidez visual e conceptual que nada tem a ver com uma urbe, com cada vez menos pessoas e com cada vez um maior número de habitantes.
Não vou voltar ao estafado tema da degradação continuada que estão a fazer ao coração da cidade, o que me deixa muito triste, mas neste momento o que interessa é mesmo é o encerramento da Lello.
A Lello já lá estava há umas décadas quando eu vim ao mundo há sessenta anos, na Casa de Saúde de Luanda (Augusto Ngangula). Curiosamente o primeiro livro que recebi foi lá comprado, conforme a minha mãe anotou num “livro do bebé”, algo habitual nos nascimentos desse tempo no seio da burguesia colonial!
Na Lello foram-me comprando livros infantis, de colorir, de pano, escolares e tantos outros que me aborreciam um pouco no desafio continuado por parte dos meus vizinhos para as brincadeiras de rua.
Apesar de muitas vezes desejar que não optassem por livros nas datas em que era habitual dar prendas, a verdade é que gostava muito de os ir lendo, e lembro-me de ter lido toda a coleção do Tintin em francês, o Ben-Hur, o Marco Polo, o Simbad, os irmãos Grimm, Charles Perrot, Hans Cristian Anderson, a Enid Blyon com os famosos “Cinco”, o Nodi e os “Sete”, enfim “varri” tudo e a Lello era um dos maiores “filões” na pachorrenta e algo provinciana Luanda colonial, de um tempo em que o ar condicionado era para uns poucos e que o calor se mantinha dia e noite.
Durante os anos 50 e 60 Luanda tinha para além da Lello, a “Lusitana”, acima do hotel Globo, a “Minerva”, hoje em ruinas, a ABC, quase em frente ao “esqueleto” do que foi em tempos o garboso edifício da Biker, e a Mondego, mais conhecida pela “Argente Santos”, que hoje encolheu o mais possível para passar a ser um bar, em frente ao Chá de Caxinde. É da mais elementar justiça falar da “Livraria Popular” de José Marques da Cunha, numa loja pequenina na ex-“Av. dos Restauradores de Angola”, e que foi durante muito tempo o único alfarrabista de Angola. No meio de um amontoado de livros saia sempre qualquer coisa que o Senhor Cunha convencia o meu pai a comprar, por “dez reis de mel coado” , como diria o mestre Aquilino Ribeiro. O Senhor Cunha desapareceu e a sua livraria fechou há muitas décadas, mas cada vez que por ali passo olho para aquele lugar com a saudade de” um homem muito bom, mas que tinha tido pouca sorte na vida”, como ouvia dizer em Luanda nos meus tempos de descuidada meninice.
Mas a Lello era o sítio! Era lá que me compravam os meus livros da escola primária e no “Salvador Correia”. Foi da papelaria que os meus pais levaram os estojos de desenho Kern e a Pelikan, que era uma caneta de tinta permanente, um pouco uma Montblanc de remediados. Comprava-se a tinta-da-china, os godés, as aguarelas e o papel cavalinho; Tudo material que invariavelmente ia parar aos calções, pernas e camisa porque fui um verdadeiro desastre em desenho.
Continuava a comprar na Lello, os dicionários, as enciclopédias juvenis e livros de todo o tipo, pois fui-me tornando um leitor compulsivo, chegando a alternar entre o David Copperfield do Dickens e as fotonovelas interiores da “Crónica Feminina”!
A partir de determinada altura, começo a partilhar na Lello a amizade com o pai de um colega de Liceu, que era uma pessoa notável, e que muitos em Angola maltrataram, o mais velho Felisberto Lemos.
Quando fui estudar para Coimbra no dealbar dos anos 70 despedi-me do Felisberto oferece-me um livro do Dr. Videira, “Angola”, com desenhos de Neves e Sousa, editado pela Lello, que também era editora e reproduzia excelentes postais de artistas angolanos.
O Felisberto Lemos, o “Livreiro da Esperança” como lhe chamou Manuel Alegre, foi uma referência importante no combate à ditadura e ao colonialismo português, já que foi “desterrado” para Angola, e tantos lhe agradeceram o muito que fez por todos os muitos que chegavam a Luanda, e iam ter com o Felisberto para terem acesso a livros e a prepararem conspirações. Melo Antunes, Fernando Assis Pacheco, José Carlos de Vasconcelos, Bessa Murias, e tantos outros deixaram o seu testemunho reconhecido a um homem de quem nunca ouvi um queixume pela forma “cobarde” como foi tratado, tendo regressado a Portugal pobre, e valendo-se da ajuda de amigos que não o esqueceram, mas que nunca lhe conseguiram mitigar a tristeza. Morreu amargurado e com muitas dificuldades económicas, esquecido por muitos, a quem deu guarida e matou a fome, e que em determinada altura foi acusado de deslealdade e “traição” porque entre vários livros na montra da Lello tinha o livro do Nito Alves em exposição e para venda.
Outra figura da Lello foi o poeta Ricardo Manuel, autor de vários livros de poesia, e que nos anos 80 foi galardoado com um prémio literário na Coreia do Norte, num concurso onde foi o mais encomiasta relativo a Kim-Il Sung e à doutrina Juche. Foi receber o prémio a Pyongyang, e durante meses a fio o “Grande Líder” teve direito a uma foto gigante, numa montra toda decorada com cetim e cheia de livros coreanos traduzidos para português e espanhol, sobre as ideias centrais de uma deriva marxista-leninista algo bizarra.
Na Lello, ao fim da tarde, reuniam-se no fim dos anos 70 e durante a década de 80 um conjunto de pessoas de gerações diferentes, que constituiu uma das tertúlias mais interessantes da Luanda solidária que se vivia. Os irmãos Guerra Marques, Osvaldo Pinto, Galeano, Chaves, o velho Lello, Antero de Abreu, Dionísio Rocha e outros onde me incluía, juntavam-se ali o fim de tarde numa amena e salutar cavaqueira, em que quase todos tínhamos uma visão diferente das coisas e pasme-se soluções para elas, o que não deixava de ser algo pueril entre pessoas, a maioria ao tempo ao tempo já com 50 anos ou mais.
Foi na Lello que comprei Jorge de Sena, Garcia Marques, Hemingway, Camilo José Cela, Maria Teresa Horta, Carlos Malheiro Dias, Castro Soromenho, Albert Camus, Alvin Toffler, Frantz Fannon, Mário Pinto de Andrade, Agostinho Neto e tantos que me enriqueceram para a minha afirmação de cidadão solidário e politicamente interventivo.
Quando vejo fechar a Lello, vejo encerrar algo que fazia parte do coletivo da cultura de um País, que tem cada vez menos livrarias e se conformou com os esforços de bem-sucedidas campanhas de alfabetização, de um tempo em que o homem não era mercadoria, nem número de mercado.
A iliteracia prevalecente vai aumentando e o resultado terá consequências perniciosas na vida quotidiana dos angolanos. A cidade empobreceu e de que maneira com o encerramento da Lello.
Limito-me a agradecer os sessenta anos em que fui convivendo com ela.
“Sic transit gloria mundi”



Fernando Pereira 26/8/2015



14 de agosto de 2015

Judeus em Angola / Ágora / Novo Jornal / Luanda 7-8-2015



Amiúde, ouve-se falar da vontade de António Salazar em instalar em Angola uma colónia de judeus, expulsos da Europa, na sequência da onda de antissemitismo que precedeu a segunda-guerra mundial.
Uma perfeita estultice esta afirmação repisada ao longo dos tempos. Eu ouvia-a frequentemente nos serões de minha casa, onde os meus pais e alguns amigos discutiam estes assuntos, e durante anos eu próprio ia defendendo esta inverdade.
A primeira ideia “consistente” de colonização judaica em Angola surgiu em 1915 pelo judeu russo Walter Terlo, apresentada no Almanaque Israelita, estabelecia a fixação no “Planalto de Angola”, mais propriamente em Benguela. Esta proposta teria surgido do republicano José Relvas no dealbar da Republica em Portugal em 1910, por proposta de emissários da Jewish Territorial Organization (JTO).
Este projeto era concebido pela JTO, que sondou parlamentares portugueses no sentido de instalar uma colónia judaica em Angola. Esta ideia já vinha de 1903, na sequência do pogrom contra os judeus ocorrido em Kishinev, na Rússia, em que se colocava como alternativa de refúgio o Uganda ou Angola.
Houve propostas concretas no parlamento português e só a instabilidade política dos anos da 1ª republica em Portugal impediram a aprovação dessa instalação pelas duas camaras, que concedia a naturalização e punha à disposição de cada judeu , que se apresentasse, 250 hectares de terreno cultivado.
Em 1917 o processo é abandonado e retomado em 1930, já no período de vigência da ditadura em Portugal. A 7 de Janeiro de 1934 o jornal britânico Daily Herald faz referência a uma pretensa autorização dada pelo governo português, à emigração de um número limitado de judeus para a colónia. O artigo, reproduzido no “Século”, que acabou por ser censurado pelo regime, noticiava ainda que Portugal não tinha “capacidade para colonizar a região” e que, por outro lado, não se adequando “os seus meios agrícolas obsoletos” às “necessidades de uma economia agrícola mecanizada”, esta deveria ser “instalada na colónia”.
O putativo artigo do “Século”, acrescentava que o governo estava disposto a assistir-lhes com empréstimos a fim de lhes permitir que se dedicassem a trabalhos agrícolas e outras indústrias, na condição de se naturalizarem portugueses e cumprirem serviço militar nas Forças Armadas Portuguesas.
Em Londres, o embaixador português recebia insistentes pedidos de judeus alemães para a instalação de uma colónia de judeus em Angola, lembrando que em 1912 o Parlamento Português tinha aprovado essa fixação, ao que o MNE português lembrava que para aprovar essa legislação ao tempo era necessária a aprovação das duas camaras, algo que não sucedeu, não passando pois de um projeto lei.
O então ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal Macelo Mathias, ia colocando alguma contenção no entusiasmo do embaixador em Londres relativamente ao assunto, pois Salazar e o seu regime viam com muitas reservas a presença de grupos de estrangeiros organizados nas colónias, mesmo com as promessas de avultados fundos por parte de Fritz Seidler e Ernest Meyer, representantes da JTO.
Como era hábito na diplomacia portuguesa ao tempo, prolongava-se o “nim” até onde fosse possível, e só já no fim de 1934 é que saiu uma circular para os consulados de Portugal a impedir que fossem “visados passaportes de cidadãos estrangeiros que quisessem exercer atividades económicas em Angola”. Objectivamente era para impedir qualquer veleidade por parte de grupos de judeus.
O argumento usado pelo governo da ditadura para recusar a criação de um colonato judeu em Angola, foi um argumento do medo de abrir um “problema semita”, com a entrada em Portugal de judeus, “cuja tendência nómada e diferenciação rácica e religiosa os tornam praticamente inassimiláveis”. Marcelo Mathias, MNE ao tempo, atribuía aos judeus “certo caracter comunista” que os tornara “suspeitos à maioria dos estados capitalistas”.
Era necessário ter em consideração a matriz ideológica da Constituição de 1933 e simultaneamente a componente religiosa subjacente à Concordata assinada entre Portugal e a Santa Sé, que incluía o Estatuto Missionário, para justificar as reservas mantidas por Salazar em relação a qualquer hipotética instalação de colonatos de judeus em Angola. Nunca terá visto com bons olhos esta remota hipótese, e só a sua diplomacia de contemporizar terá permitido alimentar ilusões a alguns, que nunca terão passado disso mesmo.
A presença da figura discreta, mas de uma influência impar na diplomacia portuguesa nas décadas de 30 e 40 de Luis Teixeira de Sampaio, um germanófilo assumido, que contribuiu decisivamente para cortar cerce algumas tentativas deste tipo por parte de Armindo Monteiro, por exemplo, ministro das colónias (1931-1935), ministro dos Negócios Estrangeiros (1935-1936) e embaixador de Portugal em Londres (1937-1943), ao tempo figura de primeiro plano na constelação salazarista.
Julgo ter contribuído para repor alguma verdade sobre um tema que tem trazido múltiplas discussões e afirmações perentoriamente erradas ao longo de décadas, mas que face aos documentos que entretanto estão disponíveis, tudo que coloquei está muito próximo dos factos ocorridos. Perante a teimosia dos factos nada a fazer!
Em breve tentarei fazer um artigo sobre a espionagem alemã na segunda guerra mundial em Angola, para se acabar também com algumas suposições!

Fernando Pereira
3/8/2015

24 de julho de 2015

Ouçam o que se diz na rua / Ágora / Novo Jornal / Luanda 23-7-2015



Ouçam o que se diz na rua
ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua e deixem-me continuar a sonhar que o MPLA ainda tem os seus princípios e pode ver restituída aos angolanos alguma da sua dignidade perdida ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua e façam investimentos no sector produtivo em vez de esbanjarem fortunas em bens de luxo ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua hão-de vir para a rua ouvir ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua quando vierem para a rua ouvir o que se disse na rua já ninguém quer saber de vós para nada ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua a porta da rua é a serventia da casa ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua farto de ouvir falar de coisas que infestam a rua ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua perco a paciência com muitos que andam na rua para tentarem por na rua outros por quem não tenho paciência nenhuma de os lá ver e estou morto por vê-los na rua ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua faço anos em Maio podem dar-me uma prenda mesmo que estejam para ir para a rua ou fiquem lá porque os não puseram na rua ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua e não coloquem na prisão meia dúzia de miúdos a quem acabam por conseguir ter maior publicidade que alguma vez suporiam ter ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua e comecem a recolher o lixo em Luanda ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua e resolvam definitivamente o problema da luz e do transito na cidade capital ouçam o que se diz na rua diz-se que um País com tanto dinheiro devia ter um dos melhores sistemas de saúde de África e uma vacinação alargada a toda a população infantil ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua e comecem a premiar o mérito das pessoas ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua que há falta de liberdade de expressão e uma justiça lenta e parcial ouçam o que se diz na rua e não tentem esconder as dificuldades como tem feito na Sonangol ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua numa altura que precisamos de uma política que privilegie o cidadão nacional numa mobilização de recursos para a construção de uma sempre adiada sociedade nova ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua e não façam uma lei laboral que quase recua aos tempos do Código de Trabalho Indígena ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua que ando esbaforido de tanto dizer mal de tanta coisa e tudo permanecendo piorando ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua e vão pensando que a eternização no poder não é bom conselheiro em lado nenhum ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua que não temos nada que andar a pedinchar o que quer que seja que está à partida consignado na legislação ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua deixem-me ver televisão à vontade sem ouvir os tudólogos apoliptólogos politólogos achólogos e alem de tudo isso os tipos que discursam para os que falei falarem deles ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua politiqueiros são flatulência da politica ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua politica nada tem a ver com politiqueiros comissários e serventuários do sistema ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua ouçam o que se diz na rua PORQUE QUALQUER DIA ESTÂO TODOS NO OLHO DA RUA A OUVIREM O QUE SE DISSE NA RUA PORQUE NÂO QUISERAM OUVIR O QUE SE DIZIA NA RUA.
Este pequeno texto é um devaneio da “Guidinha” do injustamente esquecido Luis Sttau Monteiro, que ao tempo escrevia na “Mosca” do Diário de Lisboa e posteriormente no “Jornal” .
Fernando Pereira
21-07-2015

15 de maio de 2015

As árvores morrem de pé- Ágora- Novo Jornal-Luanda- 15/5/2015


Quando vi muito difundido nas redes sociais o abate de uma árvore centenária no largo fronteiro à sede e serviços administrativos da ex-Sociedade Agrícola do Cassequel veio-me à lembrança o título de uma peça de Alejandro Casona, e as recordações do meu pai que trabalhou nos serviços administrativos e sempre se lembrou delas existirem por ali desde que para lá foi nos anos quarenta.
Acho que apenas serviria de nota de rodapé numa crónica, este ato de vandalismo cometido pelas autoridades da Catumbela, mas infelizmente o que se passou nesse espaço é quotidianamente repetido pelo País fora com a complacência e cumplicidade até das autoridades da tutela.
Angola viveu durante muitos anos uma situação de desbaste continuado de árvores, fruto da falta de abastecimento de combustíveis alternativos às populações que viviam no campo ou nas próprias cidades, incluindo Luanda. Era a fase da sobrevivência a todo o custo!
Durante demasiado tempo o carvão de madeira era a única alternativa para a maioria das pessoas cozinharem ou aquecerem o que quer que fosse. Foi um negócio que permitiu a sobrevivência de muitos, mas levou a um desbaste de árvores praticamente em todo o País e a renovação não existiu. O que é lamentável é que a situação continua a não ter resposta nem de entidades públicas nem empresas privadas.
Esta é uma situação muito preocupante na generalidade dos países africanos e Angola confronta-se com essa realidade, sem que se vá dando conta de que a mancha verde que cobria uma parte do País foi sendo cada vez mais reduzida devido à falta de controlo no abate de árvores nos tempos que correm.
As cidades foram crescendo para locais onde antes existiam pequenas lavras e zonas com vegetação, mais luxuriante no norte e centro que no sul. O solo degrada-se e o manto verde, rico em húmus, ficam vulneráveis e substituídos pelas camadas de argila, calcário e areia, paupérrimas para qualquer atividade agrícola ou pecuária.
Este fenómeno é comum no campo, onde a inclemência do clima, com uma exposição solar continuada, a que acrescem as chuvadas diluvianas, aumentam os níveis de degradação dos solos que vão sendo mais estéreis e os terrenos cada vez mais pobres e, concomitantemente, pouco disponíveis para a fixação de gente, dada a cada vez menor rendabilidade na sua exploração.
Angola vive esta situação dolorosa que parece indiferente à maioria dos cidadãos, e as próprias autoridades tendem a ignorar algumas malfeitorias que os pouco escrupulosos madeireiros vão fazendo um pouco por todo o lado, abatendo espécies arbóreas que deveriam ser protegidas. A lei que existe talvez seja suficiente, mas era de todo indispensável que as sanções aos prevaricadores fossem maiores porque na realidade não estão a prejudicar as pessoas de hoje, estão a deixar um futuro degradado e sem expectativas às gerações vindouras. Salvo a ADRA e pouco mais, vejo muito poucos na sociedade civil a tentarem impor outras regras.
Conheci locais luxuriantes como a Gabela ou o Songo, isto a título de exemplo, e o que se vê hoje é quase paisagem lunar, o que me deixa muito preocupado porque nas colinas, quando chove copiosamente, a camada produtiva é empurrada para os vales, tornando-as inóspitas e de todo indisponíveis para fazer o que quer que seja para o seu aproveitamento a favor de uma agricultura sustentada e com possibilidade de fixar gente!
Talvez me repita com o que aconteceu com a Ilha de Páscoa, e talvez ajude a mostrar alguma coisa em que o caso Catumbela ou o corte das árvores na antiga estrada do Cacuaco são apenas alguns casos que se generalizaram no País, com as consequências já perceptíveis.
Recupera-se periodicamente a história da Ilha de Páscoa, território chileno com cinco mil habitantes, a maior parte deles idos do continente. A ilha de Páscoa é famosa pelas suas inúteis estátuas.
Num filme, Rapa Nui, contava-se a história dos Moai, povo que, vindo da Polinésia, se tinha instalado na ilha, onde desenvolveu uma civilização.As gigantescas estátuas de pedra, património da Humanidade, eram construídas como oferendas a divindades e, naturalmente, para serem transportadas até ao seu destino final onde estão esculpidas, houve necessidade de abater árvores para as arrastar desde a pedreira.
Esse foi o princípio do fim dos Moai, segundo o filme que afinal corrobora a opinião da maior parte dos investigadores. Em determinada altura começaram algumas tribos a digladiar-se com o objetivo de atingir a supremacia de uns sobre os outros, e cada um dos vencedores ia fazendo estátuas maiores para oferecer às divindades. A guerra acabou, provavelmente por falta de guerreiros, míngua de árvores e de Moai em número suficiente para obter os favores ou aplacar as fúrias dos sempre silenciosos deuses. As árvores eram mais necessárias que os Moai, mais férteis, e ofereciam sombra e abrigo contra os ventos oceânicos. Sem elas, depressa os solos se degradaram e a ilha ficou desértica. O ecossistema da ilha foi destruído e acabou para se revelar insuficiente para alimentar a população de dezenas de milhares de pessoas.
Quando os primeiros europeus ali aportaram, num qualquer domingo de Páscoa, encontraram pouco mais de dois mil habitantes, depauperados fisicamente, sem a grandeza dos Moai, que acabaram por legar ao futuro uma ilha deserta, inóspita e habitada por continentais que vivem do turismo, a sua única fonte de receita. As doenças que os europeus trouxeram acabaram com o que restava dos Moai, porque os habitantes não tinham defesas para elas.

Velhas Árvores

Olha estas velhas árvores, mais belas
Do que as árvores novas, mais amigas:
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas...
O homem, a fera, e o inseto, à sombra delas
Vivem, livres de fomes e fadigas;
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E os amores das aves tagarelas.

Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo! envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem:

Na glória da alegria e da bondade,
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!

Olavo Bilac


Fernando Pereira
11/5/2015

6 de fevereiro de 2010

Angola Avante/ Ágora/ Novo Jornal / Luanda /5-2-2010



Passaram quarenta e nove anos do 4 de Fevereiro de 1961. Não vou contar a história, porque na realidade nem os próprios intervenientes estiveram de acordo, com tudo que aconteceu nesse dia, que acabou por ser o princípio do fim do colonialismo português em África, que tem tentado ser branqueado de há uns tempos a esta parte.
Na polémica levantada no texto Constitucional, recentemente aprovado pela Assembleia Nacional de Angola, uma das questões que tem sido controversa, tem a ver com os símbolos do País.
Não conheço o texto, mas vou estando atento às críticas, e fico extraordinariamente agradado, com o facto de não se terem alterado os símbolos do Pais, no caso da Bandeira, do Brasão de Armas e do Hino. Já em relação a várias outras alterações não estou tão satisfeito, mas isso são “outros quinhentos”.
Esta discussão dos símbolos no nosso País, e a sua contestação é demonstrativo de alguma ignorância, do que representam os símbolos nos países do mundo, e principalmente mostram uma indisfarçável ausência, da mais elementar cultura e neste caso, é bem aplicada a frase “A cultura é como a marmelada, quanto menos se tem mais se espalha”.
Em relação ao Brasão de Armas não há grande rebuliço opinativo, embora vá recebendo os remoques, dos outros símbolos quando são exprobrados em conjunto. No caso da Bandeira Nacional já escrevi o que pensava, reiterando apenas o que sempre defendi.
Em relação ao Hino Nacional de Angola, com musica de Ruy Mingas e letra de Manuel Rui Monteiro, há talvez a maior controvérsia, pois a letra é adaptada a “outros tempos, e outras realidades”, como algumas bizarras opiniões salientaram numa tentativa vã de exigir a sua substituição.
O que esses “verdadeiros vituperadores” do hino não sabem, ou pelo menos mostram ignorar, que os hinos nacionais não são propriamente canções para festivais, que se realizam com determinada periodicidade, e vestidos com roupagens da moda.
O Hino de Angola foi o hino da independência do País, e a letra, que parece ser o pomo de uma discórdia que uns poucos querem fomentar, é adaptada às circunstâncias e ao sentir do tempo, embora numa hermenêutica do seu texto podemos admitir que não está nada descontextualizado.
Saúda-se o quatro de Fevereiro, enaltecem-se os que combateram e tombaram pela independência do País, afirmam-se propósitos de Homem Novo no trabalho, apela-se à solidariedade com povos de África e apoiam-se povos oprimidos, e escolhem-se os povos que combatem a liberdade. O refrão é uma reafirmação da soberania popular, de valores de liberdade e de unidade da Pátria. Desculpem qualquer coisinha, mas alguém consegue contestar estes valores?
Acabem-se definitivamente com discussões acessórias e discutam-se coisas importantes, porque o Hino Nacional está bem e recomenda-se, e espero continuar a cantá-lo com a emoção com que o ouvi pela primeira vez.
Por acaso sabem: que a Holanda tem o hino mais antigo do mundo, escrito em 1572? O da Alemanha, que nem Hitler ousou mudar, é de 1841 com um texto adaptado de uma peça de Haydn em 1797? Que o da França, com o violento texto da Marselhesa, é instituído como Hino Nacional em 1795? Que a Portuguesa de Alfredo Keil e Lopes de Mendonça, foi a hino dos republicanos contra a monarquia, e acabou por ser instituída em 1911, sem sequer Salazar a ter alterado? O hino da África do Sul é uma adaptação do Hino do ANC, pelo musico brasileiro Djavan?
Podia dar mais exemplos, mas acho que é uma discussão despicienda, porque em Angola encontramos de quando em vez pessoas isoladas, ou em grupo disponíveis para trazer para a ribalta da limitada opinião pública e publicada, temas que noutros países nem merecem atenção, independentemente de mutações políticas, ideológicas e económicas que se vão operando.
Ficas bem connosco “Angola Avante” !

Fernando Pereira 31/1/2010

29 de janeiro de 2010

Quem conta um conto…/ Ágora/ Novo Jornal / Luanda 29-1-2010



Num lugar esconso da minha estante, fui encontrar um livro de “Contistas Angolanos”, exemplar poli copiado da Casa dos Estudantes do Império, edição de 1960, com capa de Luandino Vieira e uma reflexão de Fernando Mourão.
Foi nalguma das minhas deambulações por alfarrabistas, que comprei este livro, pois doutra forma dificilmente me teria chegado à mão. Textos de Agostinho Neto, Arnaldo Santos, Costa Andrade, Helder Neto, Luandino Vieira, Mário de Andrade, Orlando Távora (Pseudónimo literário de António Jacinto), Mário António, Oscar Ribas e mais uns quantos, que foram fazendo estas colectâneas, primeiras obras conhecidas da literatura, enquanto arma de ruptura política, com o sistema colonial prevalecente.
Por falar em António Jacinto, que tem sido injustamente esquecido desde a sua morte, vem-me à memória uma situação insólita. Quando por ocasião, do 1º Congresso Extraordinário do MPLA, em Dezembro de 1980 foram colocados uns outdoors, um pouco por todo o País, com palavras de ordem de apoio à realização do congresso, com a matriz ideológica assente no “irreversível caminho para o socialismo científico”, “ao inimigo nem um palmo da nossa terra” e outras que me lembro, e que foram ficando no baú de recordações da história, embora com muitos protagonistas politicamente muito activos hoje. Num desses cartazes emergia a figura de Lenine, ao lado de um outro com os Presidentes Neto e José Eduardo dos Santos, e o motorista do meu serviço, informado militante, identificou logo os três: “Neto, José Eduardo, e o camarada António Jacinto”.
Nos anos setenta, com o dealbar da independência, houve aspectos deliciosos no monopartidarismo, que convenhamos foi indispensável para a coesão e unidade do País. Havia uma denominação que achava simultaneamente risível e bizarra, que era a designação de dirigentes e responsáveis. Nunca percebi muito essa distinção, pois para ser dirigente, parte-se sempre do pressuposto que se tem que ser responsável, embora indesejavelmente muitas vezes já se tenha verificado, que se pode ser dirigente, sendo até irresponsável, tendo em consideração ulteriores avaliações de desempenho.
Houve necessidade de em determinada altura, se adquirirem veículos para a máquina do Estado, já que o depauperado parque de veículos do tempo colonial, não respondia às necessidades.
Uma das primeiras importações de viaturas para dirigentes e responsáveis foram precisamente os LADAS, da então URSS, e os Volkswagen, Modelo Brasília, importados do Brasil num lote que incluía as Kombis e um jipe Gurgel de aspecto patusco. Continuavam-se a montar em Luanda os Land-Rover e as Renault 4L, e lá ia havendo uns carros para que as coisas funcionassem, ainda que de forma limitada.
Em determinada altura, já no fim da década de setenta, aconteceu a “Fiatocracia”, em que se importaram Fiats para quase tudo que era responsável, dirigente e alguns familiares ou dependentes.
Os Fiats inundaram Luanda, e algumas capitais de província, onde os delegados provinciais tiveram direito aos novos 128. Os membros do comité central do MPLA tiveram direito a Fiat, modelo 132 brancos: Os membros do governo não pertencentes ao comité central tinham direito ao mesmo 132, mas num azul-marinho carregado, assim como alguns majores das FAPLA, que tiveram direito ao 132 verde, de farda militar. Os militares de patente mais elevada, no tempo não havia nada acima de coronel, tinham direito ao soviético Volga Gaz, e no topo a Range Rovers, todos verdes. Os membros do Bureau Político do CC do MPLA tinham Mercedes preto e os Comissários Provinciais e alguns directores das famigeradas UEEs tinham os Range Rovers, então os jipes de topo no mercado mundial. Os directores nacionais e chefes de departamento nacionais de ministérios, e dirigentes de empresas ou serviços desconcentrados dos ministérios tinham direito ao Fiat 128, que só tinham três cores: branca, verde e cor de laranja. Também a juízes, quadros superiores de empresas e a alguns professores universitários foram distribuídos os 128. Na Sonangol proliferava o Volkswagen carocha amarelo.
As Renaults 4 montadas em Angola, e os “Zedus”, nome como foram carinhosamente baptizados os Volkswagen carochas importados do Brasil, foram substituindo paulatinamente a “Fiatocracia” instalada, que iniciaram outro período na história do veículo importado em Angola, que curiosamente tem acompanhado as mutações políticas e o modelo económico do País ao longo destes trinta e cinco anos.
Como um parque automóvel faz a história de um País!

Fernando Pereira
26/01/10
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