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26 de abril de 2019

Levas as águas/ Ágora/ Novo Jornal / Luanda 26/04/2019





Levas as Águas
Ao ver as desoladoras imagens das consequências das recentes chuvadas nas cidades de Luanda, Lobito, Catumbela e Benguela vejo-me a recuar à noite de 20 para 21 de abril de 1963 na Luanda, que vivia rodeada de arame farpado.
                Era um garoto, mas lembro-me perfeitamente da azáfama que foi desde o fim do jantar até altas horas da madrugada a tirar a água e terra que entrava por todo o lado.
                Vivia num beco que tinha um portão para as traseiras do então Liceu Salvador Correia, onde hoje é a entrada da rua que circunda a escola Alda Lara. A água revoltosa galgava os muros e a maior parte conseguiu que o portão a aguentasse. O nosso quintal contiguo às barrocas do Liceu era terra, que demorou dias a ser removida, para que conseguíssemos desterrar o carro da casa, um velho Chevrolet dos anos 50.
                No dia seguinte, demos conta que nem tínhamos muita razão de queixa pois segundo os relatos a cidade estava um caos, e terão morrido vinte pessoas, mas o “diligente” CITA (Centro de Informação e Turismo de Angola) terá feito circular uma nota “desoficiosa” em que “não se tolerariam mais mortes”!
                Do que me lembro foi ver as ruas que circundavam a Câmara Municipal, hoje Governo Provincial, transformadas em crateras, que quando por lá andei, já tinham tirado os veículos que por lá teriam estado. Na rua do Notícia, a que vai dar ao largo onde está o MIREX, que ao tempo era conhecido como o “Palácio do Comércio”, uma cratera serviu para fazer desaguar na baixa da cidade lama, que inundou armazéns, lojas, oficinas e hotéis. O Colégio de S. José de Cluny, talvez por “imposição divina”, ficou sem uma parte dos seus muros, mas manteve-se altaneiro no morro, desafiando os destinos da natureza, permanecendo hirto e firme! Na Boavista, que já não eram as Quipacas de outros tempos, a terra vermelha inundou armazéns, e misturou-se com terra preta, que era excelente, em sítios onde havia algumas hortas, que eram o sustento suplementar de alguma gente que trabalhava na Textang ou nos Caminhos de Ferro, no Bungo! O Miramar, obra emblemática do orgulho da burguesia luandense de então, quase que desabava nessa noite em que tudo parecia vir abaixo, tantos eram os raios e trovões como a água que jorrava de um céu que nem se via.
                A terra vermelha assolava tudo e desde a Samba, na Maianga do povo até à picada do Prenda era tudo terra vermelha, como que fosse premonitório que um dia outro vermelho e negro pudesse fazer o mesmo à cidade.
                Na verdade, a pronta e decisiva intervenção da então Câmara Municipal de Luanda conseguiu atenuar os efeitos dessa noite, em que nunca terão sido tão pertinentes os versos de Manuel da Fonseca: …que levas as águas/ correndo de par em par/ lava a cidade de mágoas/ leva as águas para o mar/ Lava-a de crimes espantos/ roubos fomes terrores/ leva a cidade de quantos/ do ódio fingem amor…! Este poema adaptado da canção “Tejo que levas águas”, cantada por esse saudoso amigo de Angola, precocemente desaparecido, Adriano Correia de Oliveira!
                Foi aí que se deu um grande impulso às obras de saneamento da cidade, com a construção de um colector central que tentasse minorar os efeitos de tempestades deste tipo. Fizeram-se muros de suporte de terras, que hoje albergam muita habitação precária e construiu-se uma rede de valas a céu aberto, em que a mais conhecida é a do Rio Seco.
                Os efeitos dessas obras foram testados em 1967, quando desabou uma tempestade do tipo da de 1963, em que se repetiu a azáfama lá em casa, em que naturalmente fui mais interveniente.
A Samba, a Boavista e os pontões na Corimba entre outros acabaram por ser as zonas mais fustigadas pelo deslocamento das lamas, mas não se repetiu o cenário dantesco de quatro anos antes.
Luanda hoje tornou-se em dia de chuva uma montureira em movimento, em que tudo vai parar ao mar, transformando um oceano límpido num verdadeiro desastre ambiental, a que todos parecem indiferentes, não se ouvindo sequer um reparo por parte dos responsáveis para evitar a repetição continuada destas situações.
Quando olhamos para um lago de plásticos, metais e detritos de outro tipo, ficamos perplexos, quando se quer vender no exterior Angola como um país de turismo em África.
Há responsáveis que tem nome, rosto e posição e são obrigados por inerência dos cargos a dar respostas claras sobre como se inverte o actual estado de coisas, sem as megalomanias costumeiras e a sobranceria com que  os que ocupam os lugares de topo olham para este tipo de situações.
Voltando ao poema de Manuel da Fonseca:” lava palácios vivendas/ casebres bairros da lata / leva negócios e rendas/ que a uns farta e a outros mata”
Como dizia o ostracizado Padre António Vieira: “Quem fez o que devia, devia o que fez. E ninguém espera paga de quem pagar o que deve”!

Fernando Pereira
22/4/2019

24 de fevereiro de 2017

Contos velhos, rumos ainda mais velhos! / Ágora/ Novo Jornal / Luanda 24-2-2017



Contos velhos, rumos ainda mais velhos!
Luanda transformou-se numa cidade sem identidade e isso é o pior que se pode legar aos vindouros.
                Todas as urbes procuram preservar o conjunto edificado que foi unindo gerações e que são a “marca de água” de uma cidade! Luanda com as suas administrações e o dinheiro facilmente conseguido fazem exatamente o contrário.
                Não é uma situação nova, aliás vem do estertor do período colonial, mas nos últimos tempos, antes da “míngua” que se adivinhava, o que aconteceu à cidade foi um verdadeiro flagelo.
                Vamos dar uma volta ao passado numa viagem por textos de quem por cá andou no antanho!
                Luanda pela pena do médico alemão George Tams, que a visitou em 1841: “ Luanda apresenta-se-nos com um aspeto maravilhoso:_ É edificada em forma de anfiteatro, erguendo-se desde a base até ao cume dos montanhosos socalcos da costa, a qual neste sítio desce até próximo à superfície do mar. A grande porção de casas edificadas ao estilo europeu, muitas das quais espaçosas, umas com telhados vermelhos, outras azuis, os muros caiados de branco ou de amarelo, as lindas torres das igrejas, o palácio do governador e o vizinho forte, excitam grandemente a surpresa do estrangeiro”
                Mas não deixava o aludido médico alemão de escrever: “O ar é tam mao e comunica aos alimentos taes qualidades mortíferas que os que comerem deles logo que ali chegarem, devem ficar certos que serão vítimas da sua imprudência, ou pelo menos que adoecerão gravemente:”
                O Dr. Tams deslumbrou-se com o lugar das Quipacas, lugar que ficava perto do lugar onde se construiu a estação de Caminho-de-ferro, e que se chamará assim já que era um lugar aprazível, onde construíram espaços de lazer gente endinheirada (Kipaka em quimbundo significa dinheiro): “ Neste sombrio retiro, os cantos de numerosas espécies de cigarras ressoavam à tarde, e os seus agudos sons tam penetrantes eram neste profundo silêncio, que se podiam ouvir claramente a mais de uma milha de distância. Aqui um italiano que havia enriquecido com o tráfico da escravatura, tinha formado, uma linda casa de campo, no meio de um intensíssimo pomar, para onde convidava diferentes habitantes de Luanda, os quais nunca deixavam de aproveitar-se daquele deleitoso passeio.” Tams referia-se a Antonio Paris, napolitano que morreu em Luanda com 86 anos em 23 de Dezembro de 1846. Veio para Angola em 1821 com mais 212 compatriotas, condenados a degredo por tribunais napolitanos e a pena era cumprida ao abrigo do acordo celebrado em 11/12/1819, entre o rei D. João VI de Portugal e o rei das Sicílias. (Este conjunto de referencias vem no livro, “Subsídios para a História de Luanda” de Manuel da Costa Lobo, Lisboa-1967). Refira-se que este Paris teria sido dono do famoso Hotel Paris, demolido para dar lugar ao Palácio da Palmeira, onde esteve a Lelo, e que hoje está sentenciada a ter em breve o mesmo destino.
                O livro de George Tams, “Visita às possessões portuguesas na Costa Ocidental de África” descrevia as refeições: “ às oito horas, todos nos reunimos ao almoço, que geralmente se compunha de mãos de vitela cozidas, vagens de pimenta fervidos em água; ou de caracóis cozidos e algumas espécies de marisco. Vinho tinto de Lisboa acompanhava a comida e no final serviam o chá.
                Ao meio dia, tomávamos outra refeição que consistia de queijo e cerveja. Às seis horas era servido um variado e suculento jantar, consistindo a sobremesa duma abundante escolha de frutos, sendo principalmente de amêndoas de caju, laranjas e goiabas.” Situamo-nos em 1854!
                Já que hoje este artigo é quase feito de citações não deixa de ser curioso que em fins do seculo XVIII, os cidadãos de Luanda eram conhecidos por “Volantes”, palavra que no entender de Teixeira de Vasconcelos sintetizava “quão diminutas eram as ligações que existiam entre eles e a terra…”! Já era assim!
                Elias Alexandre da Silva Correia, que esteve em Luanda no segundo quartel do seculo XVIII, escreveu na sua “História de Angola” algo sobre hábitos de grandeza que mais de dois séculos depois mantem-se perenes: “ O Luandense detesta os sufrágios da miséria e prepara um trem de vida, tanto mais pomposo, quanto mais iniquo. Impõe respeito no seu trato doméstico; enche a sua mesa de bocados desusados na sua criação; adopta para o vestuário o uso de custosas alfaias e ricas joias, como espadins de ouro, cravejados de pedras preciosas, fivelas de ouro e de pedras, bons relojios, abotaduras de importância, ricas sedas, etc; faz garbo do desperdício: brilha no jogo com magnanimidade e combate, vício por vício, o dos seus émulos.”
                No contexto que se vive na Luana de hoje seria de todo urgente que se fizesse uma reflexão sobre o que seria a cidade no futuro, sem a megalomania que é uma prodigalidade do angolano, nem abandonada em tempos de crise acentuada.
                Luanda merece este debate e sobretudo que se procure salvaguardar a réstia de passado e que a cidade seja recriada para que seja vivível, e deixe de ser insalubre no que se respira, no que se negoceia, no que se comenta, no que se publica e fundamentalmente no que se decide.
                Baudelaire dizia: “As cidades mudam mais depressa que o coração dos seus habitantes”!
                Nota: Este texto tem muitas transcrições do livro “Subsídios para a história de Luanda” de Manuel Costa Lobo, editado em Lisboa no ano de 1967.

Fernando Pereira

7 de outubro de 2016

REQUIEM / Ágora/ Novo Jornal / Luanda 7-10-2016








REQUIEM


Já começo a estar num patamar da vida em que há cada vez menos coisas que me surpreendam!
A semana passada “perplexei-me” com a leitura do livro de Rita Garcia, “Luanda como ela era 1960-1975”. Desde os tempos da Agencia Geral do Ultramar, ou da componente local CITA  (Centro de Informação e Turismo de Angola), que não conseguia ver um trabalho com tantos encómios a uma cidade pintada de branco. Foi o retorno ao “lava mais branco” onde a cidade branca era o paraíso e onde os não-brancos eram apenas criados, músicos ou meros figurantes.
               O livro em termos gráficos é interessante, as fotografias estão bem enquadradas, tudo o resto é um cantar loas a um modelo de sociedade em fim de festa, e que curiosamente poucos se davam conta disso! Se tivesse que fazer um comentário ao livro nos meus tempos do Liceu Salvador Correia, diria que era um “livro da sanguitada”. Hoje estou mais brando na verve, e não teria feito este artigo se hoje não tivesse lido uma entrevista da Rita Garcia à “Notícias Magazine” cheias de lugares comuns, como no livro, mas referindo-se aos anos da guerra, em Luanda, como "os doces anos em que o espaço não tinha fim e os dias morriam devagar num paraíso tropical". 
               A convicção com que fiquei, e note-se que li outros dois trabalhos da autora, foi que a jornalista Rita Garcia não terá feito uma avaliação cuidada quando resolveu fazer este livro, e provavelmente limitou-se a ouvir quem viveu Luanda a olhar sempre só para o mar.
               “ Luanda como ela era 1960-1975” é o livro que o saudosista puro e duro poderá oferecer aos seus filhos e netos no Natal, depois de pouco mais de quarenta anos a reduzir Luanda à cidade do asfalto, e a esquecer as prisões arbitrárias nos musseques, a segregação nos espaços públicos e o limitado acesso dos negros ao ensino, entre outras coisas que aviltavam a maioria dos naturais da Luanda pintada de cor-de-rosa esbranquiçado.
               As excelentes fotos que vão correndo ao longo do livro não deixam dúvidas sobre a Luanda até 1975: Uma cidade construída para brancos viverem, divertirem-se, trabalharem e esquecerem o dramatismo do que foram tempos coloniais, onde o estatuto do indigenato e o cartão de residência iam segurando um grupo de gente que “merecia o seu bocado de pão”, como dizia o poema do angolano Agostinho Neto.
               As comunidades brancas e negras viviam de costas voltadas. No Liceu Salvador Correia, o mais emblemático do território, a percentagem de negros e mestiços era ridícula comparada com os estudantes brancos. Posso dizer, eu que o frequentei durante cinco anos, que nunca fui a casa de nenhum colega negro, apesar de termos uma relação normalíssima nos bancos da escola. E esta era apenas um dos exemplos do distanciamento na sociedade luandense, que não se cingia ao Clube Naval, Nun’Álvares, Clube dos Caçadores, Barracuda, Mussulo, Dongo, S. Jorge, Restinga, Tamar, Contencioso e outros lugares onde nos esquecíamos de tudo o que se passava nos “bairros da terra vermelha”.
               Carlos Matos Gomes, militar reformado, autor de um conjunto de obras obrigatórias para o estudo da guerra colonial diz: “Luanda pode ter sido inesquecível para muitos e por muitos motivos, mas era caótica, ofensivamente desigual em todos os aspetos, do social à urbanização esse é um facto e a prova de que, tal como Rio de Janeiro, os seus autores tinham conseguido estragar o lhe era natural.” Infelizmente em Luanda todos os trabalhos duros e mal pagos eram para os colonizados e isso fica registado para a história e os seus combates no futuro.
               Simultaneamente ao lançamento deste livro, de que prefiro não perder muito mais tempo, estreou em Lisboa o filme “Cartas da Guerra” de Ivo Ferreira baseado nos “aerogramas” de António Lobo Antunes para a sua mulher durante os dois anos e meio em que fez a guerra colonial em Angola. Ainda não vi o filme, mas li o livro e aqui no NJ fiz ao tempo (25-3-2011) a crónica onde acompanhei as observações escritas pelo então alferes Lobo Antunes sobre a “cidade inesquecível”.
               Cá vai: “Escrevo-te num domingo insuportável de calor, numa esplanada diante da baía...Que cidade horrível. É como passar um domingo em Benfica na esplanada Estrela Brilhante, com o chão cheio de tremoços e de detritos. Uns negros aleijados, arrastam-se a pedir esmolas, outros oferecem-me cinzeiros de madeira, objectos esculpidos, jornais, farrapos e miséria. Nunca pensei vir encontrar tanta pobreza, tanta porcaria, tanto calor. Uns sujeitos sebentos, de pasta, trocam escudos por angolares, com 12% a mais. Mas é tudo caro, tórrido e feio.
...Ontem um amigo daquele outro médico afinal conhecido, levou-nos a visitar a ilha, uma espécie de promontório com praias de um e outro lado, casas, um clube de golfe. Uma espécie de Rodésia vista por um mestre-de-obras de Tomar.
...Luanda está longe de ser uma cidade vivível: toda ela é uma espécie de Areeiro de província, com o mesmo pretensioso gosto suburbano, e os brancos daqui têm todo o mesmo indefinível aspecto dos vendedores de automóveis daí, de patilhas sem classificação social, camisas transparentes, e mulheres tipo locutoras de rádio, demasiado bem vestidas para serem inteiramente honestas. Os musseques são uma espécie de bairro da Boavista ampliado, em que os moradores fossem todos jogadores do Benfica. Só a terra é que é vermelha, como a areia dos estádios, e as noites cheias de murmúrios de insectos e de folhas, mergulhadas num mormanço de suor.
O que irrita é ver as revistas angolanas, de Luanda, cheias de fotografias de bailes e de festas e de eleições de misses, enquanto nós, que nada temos com eles, que pertencemos ao puto, como eles dizem com desprezo, estamos aqui a pôr os testículos no lume por eles. Não pormenorizo muito isto porque, mas os brancos locais, sobretudo os das cidades, são de um tipo de novo-riquismo saloio e soberbo, verdadeiramente insuportável. Luanda é horrível de mau gosto, uma terra onde eu nunca quereria viver, feia pretensiosa, sem categoria de espécie alguma. Sente-se o dinheiro por todo o lado, principalmente nos automóveis americanos, porque a maneira de vestir destes tipos é absolutamente execrável. Não merecem a terra extraordinária em que vivem, e, julgo, não a sabem, sequer, apreciar. Não há em Luanda absolutamente nada que preste: as poucas estátuas que tem, ultrapassam em mau gosto tudo o que se possa suportar, os edifícios são todos no género daquele em que mora o Souto, e que para mim representa o paradigma da fealdade. É uma excrecência absurda e estúpida. E estes tipos aqui acham Luanda um paraíso, uma espécie de Rodésia em melhor. Não nos agradecem o nosso sacrifício por eles, e, no fundo, tratam-nos com uma condescendência desdenhosa de brasileiros ricos. Que diferença de Lisboa. Não se pode viver numa cidade sem passado. Estes tipos são bem os descendentes dos degredados e está tudo dito.”
               Duas visões, e eu que nasci e cresci em Luanda não me revejo em nada com a da Rita Garcia, e pontualmente estou de acordo com a azia que impregna as cartas de Lobo Antunes.

Fernando Pereira

3/10/2016



Recebi este comentário do Leonel Cosme, e por ser extenso não o posso colocar no local dos comentários.Coloco-o aqui pela relevância que tem! Publicado no Artes e Letras!

ANGOLA nas memórias das guerras modernas
Há anos que deixei de ler livros sobre a chamada Guerra Colonial – que, conforme os tempos e as circunstâncias, também foi chamada Guerra do Ultramar e Guerra de Libertação. O último que ainda me mereceu um relance de olhos foi um trabalho da jornalista Rita Garcia, S.O.S.Angola – Os dias da ponte aérea, editado em 2011, do qual guardei uma impressão positiva, não obstante o facto de a autora, nascida em 1979 e em Lisboa, não ter feito parte directa da saga dos retornados. Baseando-se naturalmente em memórias alheias e escritos sobre aquele evento ocorrido em 1974-1975, considero que, literariamente, produziu um trabalho respeitável. Depois, escreveu mais dois livros, cuja publicação só vi noticiada, sobre “os que vieram de África” e “Luanda como ela era-1960-1975”, este sendo recentemente objecto de reparos num conceituado semanário de Luanda, Novo Jornal, em recensão de um seu reputado colunista, nascido e criado em Angola, Fernando Pereira.
Pese embora alguma reserva, logo pensei: terá a autora, desta vez, seguido a tentação do sapateiro que foi além da chinela? Se assim foi, terá navegado naquela nau aventureira do mau jornalismo que, pela irresistível tentação do sensacionalismo, não acrescenta nada de novo, repetindo o que está visto e sabido.
Concedo que é comum acreditar nas palavras e memórias de quem não temos razão para duvidar. E que se aceite como válida – como teorizou um comentador do último livro de António Lobo Antunes – (…) “a palavra que se deseja longeva, ou seja, a sobrevivência da literatura à passagem do tempo, às brancas que a memória possa ter no espetáculo da vida.” Só que, tratando-se de literatura escrita em papel (digitalizada é outra coisa, como sabemos), toda a prudência será pouca se pensarmos que com documentos, bons ou maus, se faz história. Donde, em princípio, a prudência aconselha que o testemunho de quem passou por Angola (por África, melhor dizendo), nela viveu e, pressionado pelas vicissitudes da dita Guerra Colonial, teve de fugir deixando tudo quanto exprimia o seu sentido de pátria (original ou adquirida) – ubi bene, ibi pátria diziam os latinos – seja tomado como a “sua” memória e não como a memória de “todos”.
Neste pressuposto, decidi avocar o testemunho do consagrado escritor António Lobo Antunes, transcrito naquele citado artigo de Fernando Pereira – significativamente intitulado “Requiem” – que nas Cartas da Guerra dirigidas à esposa verte a sua diatribe por Luanda (e Angola por envolvência) de oficial–médico do exército português compelido para a Guerra do Ultramar. Respigo:
“O que irrita é ver as revistas angolanas, de Luanda, cheias de fotografias de bailes e de festas e de eleições de misses, enquanto nós, que nada temos com eles, que pertencemos ao puto, como eles dizem com desprezo, estamos aqui a pôr os testículos no lume por eles. Não pormenorizo muito isto, mas os brancos locais, sobretudo os das cidades, são de um tipo de novo-riquismo saloio e soberbo, verdadeiramente insuportável. Luanda é horrível de mau gosto, uma terra onde eu nunca quereria viver, feia, pretensiosa, sem categoria de espécie alguma. Sente-se o dinheiro por todo o lado, principalmente nos automóveis americanos, porque a maneira de vestir destes tipos é execrável. Não merecem a terra extraordinária em que vivem, e, julgo, não a sabem, sequer, apreciar. (…) Não nos agradecem o nosso sacrifício e, no fundo, tratam-nos com uma condescendência de brasileiros ricos. Que diferença de Lisboa. Não se pode viver sem passado. Estes tipos são bem os descendentes dos degredados e está tudo dito.”
 Em minha opinião, nada desculpa tão errónea visão da capital angolana e seus moradores obviamente brancos e da classe economicamente privilegiada, manifestada logo na maneira de vestir e na posse de automóveis americanos... Enfim, ”gente que vive sem passado, quais descendentes dos degredados”.
 Tolere-se que o militar compelido, por alegado dever patriótico, a fazer e sofrer, no mato, durante dois anos, uma guerra com que não concorda, acumule tensões psicológicas que distorcem até a visão da realidade e o sentido das coisas. Mas não menos sofrido será o colono culturalmente impreparado para compreender e aceitar os ventos de mudança que lhe arrasaram uma vida conseguida à custa de muito trabalho, renúncias, sacrifícios e, não raro, lágrimas. Para este, a Guerra é só uma, a despeito dos rótulos, quer seja o de Ultramar, Colonial ou de Libertação, conforme respeite ao regime de Portugal, ao critério da ONU e à luta dos povos colonizados.
   Pois essa vida de “portugueses-outros”, que não poderá ter começado sequer com a última geração dos “lançados” ou “degredados” em África (já o tinham sido no Brasil, igualmente ao que acontecera, ainda no século XIX, com os ingleses, franceses, holandeses, espanhóis e outros, expatriados para as colónias da América, África e Oceania), não se confundem sequer com os “portugueses-novos” que  arribaram a Luanda, de fato e gravata, vindos directamente da Metrópole, ostentando  a sua classe montados em automóveis americanos… O comum dos brancos naturais ou há muito residentes era  uma vida frugal, casa alugada ou, se própria, geralmente paga em prestações através de  cooperativas de habitação ou de crédito bancário. Não conheciam a palavra aforro… Com o que lhes “sobrava” de um salário geralmente mediano podiam, quando muito, comprar um carro utilitário também a prestações.   
A meio da década de 50 começara o “boom” do café e das explorações mineiras (os diamantes, o marfim, a cera e o couro já vinham de trás) e, geridos em Lisboa, os primeiros negócios da exploração do petróleo, logo a seguir impulsionados pela “abertura” do Regime aos Planos de Fomento e à implantação da Banca privada. A última Guerra do Ultramar tinha começado em 1961 e os novos descobridores de oportunidades aproveitaram as marés para lançarem as suas naus… Então a população de Luanda explodiu em número, qualidades e defeitos, originando os ricos-novos de várias cores, fazendo jus ao provérbio quimbundo: Mu Luuanda, mu uauaba: mu izê mukûku, ubiluka ndua. (Luanda é boa: não vem cuco que não se transforme em andua).     
Vale registar, para quem não saiba ou se esqueceu, que na capital angolana – segundo o investigador Francisco Lopes Roseira -, em 1832, dos seus 5.059 habitantes  966 eram elementos das instituições religiosas, militares do Destacamento de Portugal e funcionários públicos em comissão de serviço. Os desterrados por delito comum estavam distribuídos por presídios criados em várias regiões, de Norte a Sul, devendo-se a eles, em muitos casos, as primeiras pedras do edifício colonial.
Mas não se confunda com generalizações. A colonização de Moçâmedes foi iniciada, em 1849-50, por portugueses sem mácula criminal fugidos de Pernambuco às pressões da Revolta Praieira, e a colonização da Huíla, em 1884-85, por gente simples da Madeira. A “pior canalha do Reino”, como lhe chamou o Governador Paiva Couceiro em 1910, estava fixada sobretudo nos principais centros populacionais, como Luanda e Benguela, em Depósitos Penais, criados em 1883. E não se confunda também quem foram os desterrados do Brasil, implicados na Inconfidência Mineira, em 1789, como o naturalista José Álvares Maciel, o poeta Inácio José de Alvarenga Peixoto, o coronel Domingos de Abreu Vieira, o tenente-coronel Luís Vaz de Toledo e o sargento-mor Francisco António de Oliveira Lopes.
 Ainda mais inconfundível: já no começo do século XX, foram desterrados, em 1927, os dissidentes do 3 de Fevereiro no Porto e do 7 de Fevereiro  em Lisboa: Henrique Galvão, Camilo de Oliveira, Luciano Augusto Dias, Gervásio Campos de Carvalho, Agatão Lança e Manuel Marques Teixeira – alguns revertidos, mais tarde, em governadores.
Sendo também jornalista, não falo de outiva: cheguei a Angola em 1950, onde vivi até finais de Outubro de 1975, quando a invasão do Sul de Angola pelas tropas sul-africanas e o conluio com a UNITA, a FNLA e o ELP me obrigaram e à minha famíliia, in limine, a regressar a Portugal, com recurso à ponte aérea. Voltei a Angola para cumprir um contrato de trabalho entre 1982-87. Em 2005, fiz a última visita a Luanda. Foi neste período que vi as velhas casas de sobrado substituídas por inimagináveis arranha-céus; muitos moradores que tinham trocado o calção de caqui e a camisa sem mangas por fatos de casaco e gravata; outros moradores que chegavam, nos períodos de descanso, outrora a pé ou saídos do machimbombo, à livraria Lello para comprar ou conhecer as últimas novidades literárias (permitidas ou proibidas) ou ao vizinho café Biker para cavaquear (já conspirando…) em torno de um copo de cerveja, agora impedidos pelo trânsito infernal dominado por vistosos carros, importados de todo o mundo, rumo ninguém imaginava a quê. O tempora! o mores!
  Enfim, seja por resgate, catarse ou moenda que se continuam a escrever livros dizendo o mesmo (às vezes deliberadas mentiras ou falsidades) sem acrescentar nada de novo ao que se conhece, manterei o propósito de não ler mais livros com estórias de vida de regressados, civis ou militares, ao único país onde não serão estrangeiros.
                                                                                               LEONEL COSME
  P.S. Em consideração do espaço, faltou dizer que, só com a segunda chegada de Diogo Cão, em 1484, a Angola, foi estabelecido um curto período de verdadeira “colonização missionária”, usando a expressão de Adriano Moreira.


28 de agosto de 2015

FECHOU A LELLO / Ágora/ Novo Jornal/ Luanda 28-8-2015




Fiquei perplexo, quando li a notícia do recente encerramento definitivo da livraria Lello de Luanda. Era uma situação expectável porque os “mujimbos” eram mais que muitos, sobre o encerramento de uma das mais emblemáticas lojas da nossa cidade capital.
Por causa do capital na cidade, é que há muito o “Palácio da Palmeira” estava na mira dos que se vão encarregando de aumentar a bolha imobiliária, e quando rebentar serão os angolanos a pagar por estes desmandos de grande calibre!
Um dos edifícios mais nobres da baixa luandense, o seu nome refere-se à característica palmeira estilizada na grade que protege as escadas, do edifício na praça Rainha N’ZINGA, em frente, à outrora mais majestática Sonangol. Há muito que se sabia que era um espaço cobiçado, como é qualquer canteiro em determinada zona da cidade, mas os anos foram passando e lá se ia mantendo com o ar vetusto, a lembrar tempos do antanho em que o popular e Angola se confundiam num quotidiano político, que deixa saudades a muitos de nós.
Foi adquirido por uma daquelas sociedades que compram coisas, que não se sabem a quem pertence e quando aparece alguém a colocar nomes dos societários é uma inquietação a todo o tamanho para muita gente. Compraram o edifício para o deitar abaixo, é um dado mais que adquirido, e já estou a ver os olhos raiados de cifrões de alguns, a verem surgir mais um megatério, de uma sordidez visual e conceptual que nada tem a ver com uma urbe, com cada vez menos pessoas e com cada vez um maior número de habitantes.
Não vou voltar ao estafado tema da degradação continuada que estão a fazer ao coração da cidade, o que me deixa muito triste, mas neste momento o que interessa é mesmo é o encerramento da Lello.
A Lello já lá estava há umas décadas quando eu vim ao mundo há sessenta anos, na Casa de Saúde de Luanda (Augusto Ngangula). Curiosamente o primeiro livro que recebi foi lá comprado, conforme a minha mãe anotou num “livro do bebé”, algo habitual nos nascimentos desse tempo no seio da burguesia colonial!
Na Lello foram-me comprando livros infantis, de colorir, de pano, escolares e tantos outros que me aborreciam um pouco no desafio continuado por parte dos meus vizinhos para as brincadeiras de rua.
Apesar de muitas vezes desejar que não optassem por livros nas datas em que era habitual dar prendas, a verdade é que gostava muito de os ir lendo, e lembro-me de ter lido toda a coleção do Tintin em francês, o Ben-Hur, o Marco Polo, o Simbad, os irmãos Grimm, Charles Perrot, Hans Cristian Anderson, a Enid Blyon com os famosos “Cinco”, o Nodi e os “Sete”, enfim “varri” tudo e a Lello era um dos maiores “filões” na pachorrenta e algo provinciana Luanda colonial, de um tempo em que o ar condicionado era para uns poucos e que o calor se mantinha dia e noite.
Durante os anos 50 e 60 Luanda tinha para além da Lello, a “Lusitana”, acima do hotel Globo, a “Minerva”, hoje em ruinas, a ABC, quase em frente ao “esqueleto” do que foi em tempos o garboso edifício da Biker, e a Mondego, mais conhecida pela “Argente Santos”, que hoje encolheu o mais possível para passar a ser um bar, em frente ao Chá de Caxinde. É da mais elementar justiça falar da “Livraria Popular” de José Marques da Cunha, numa loja pequenina na ex-“Av. dos Restauradores de Angola”, e que foi durante muito tempo o único alfarrabista de Angola. No meio de um amontoado de livros saia sempre qualquer coisa que o Senhor Cunha convencia o meu pai a comprar, por “dez reis de mel coado” , como diria o mestre Aquilino Ribeiro. O Senhor Cunha desapareceu e a sua livraria fechou há muitas décadas, mas cada vez que por ali passo olho para aquele lugar com a saudade de” um homem muito bom, mas que tinha tido pouca sorte na vida”, como ouvia dizer em Luanda nos meus tempos de descuidada meninice.
Mas a Lello era o sítio! Era lá que me compravam os meus livros da escola primária e no “Salvador Correia”. Foi da papelaria que os meus pais levaram os estojos de desenho Kern e a Pelikan, que era uma caneta de tinta permanente, um pouco uma Montblanc de remediados. Comprava-se a tinta-da-china, os godés, as aguarelas e o papel cavalinho; Tudo material que invariavelmente ia parar aos calções, pernas e camisa porque fui um verdadeiro desastre em desenho.
Continuava a comprar na Lello, os dicionários, as enciclopédias juvenis e livros de todo o tipo, pois fui-me tornando um leitor compulsivo, chegando a alternar entre o David Copperfield do Dickens e as fotonovelas interiores da “Crónica Feminina”!
A partir de determinada altura, começo a partilhar na Lello a amizade com o pai de um colega de Liceu, que era uma pessoa notável, e que muitos em Angola maltrataram, o mais velho Felisberto Lemos.
Quando fui estudar para Coimbra no dealbar dos anos 70 despedi-me do Felisberto oferece-me um livro do Dr. Videira, “Angola”, com desenhos de Neves e Sousa, editado pela Lello, que também era editora e reproduzia excelentes postais de artistas angolanos.
O Felisberto Lemos, o “Livreiro da Esperança” como lhe chamou Manuel Alegre, foi uma referência importante no combate à ditadura e ao colonialismo português, já que foi “desterrado” para Angola, e tantos lhe agradeceram o muito que fez por todos os muitos que chegavam a Luanda, e iam ter com o Felisberto para terem acesso a livros e a prepararem conspirações. Melo Antunes, Fernando Assis Pacheco, José Carlos de Vasconcelos, Bessa Murias, e tantos outros deixaram o seu testemunho reconhecido a um homem de quem nunca ouvi um queixume pela forma “cobarde” como foi tratado, tendo regressado a Portugal pobre, e valendo-se da ajuda de amigos que não o esqueceram, mas que nunca lhe conseguiram mitigar a tristeza. Morreu amargurado e com muitas dificuldades económicas, esquecido por muitos, a quem deu guarida e matou a fome, e que em determinada altura foi acusado de deslealdade e “traição” porque entre vários livros na montra da Lello tinha o livro do Nito Alves em exposição e para venda.
Outra figura da Lello foi o poeta Ricardo Manuel, autor de vários livros de poesia, e que nos anos 80 foi galardoado com um prémio literário na Coreia do Norte, num concurso onde foi o mais encomiasta relativo a Kim-Il Sung e à doutrina Juche. Foi receber o prémio a Pyongyang, e durante meses a fio o “Grande Líder” teve direito a uma foto gigante, numa montra toda decorada com cetim e cheia de livros coreanos traduzidos para português e espanhol, sobre as ideias centrais de uma deriva marxista-leninista algo bizarra.
Na Lello, ao fim da tarde, reuniam-se no fim dos anos 70 e durante a década de 80 um conjunto de pessoas de gerações diferentes, que constituiu uma das tertúlias mais interessantes da Luanda solidária que se vivia. Os irmãos Guerra Marques, Osvaldo Pinto, Galeano, Chaves, o velho Lello, Antero de Abreu, Dionísio Rocha e outros onde me incluía, juntavam-se ali o fim de tarde numa amena e salutar cavaqueira, em que quase todos tínhamos uma visão diferente das coisas e pasme-se soluções para elas, o que não deixava de ser algo pueril entre pessoas, a maioria ao tempo ao tempo já com 50 anos ou mais.
Foi na Lello que comprei Jorge de Sena, Garcia Marques, Hemingway, Camilo José Cela, Maria Teresa Horta, Carlos Malheiro Dias, Castro Soromenho, Albert Camus, Alvin Toffler, Frantz Fannon, Mário Pinto de Andrade, Agostinho Neto e tantos que me enriqueceram para a minha afirmação de cidadão solidário e politicamente interventivo.
Quando vejo fechar a Lello, vejo encerrar algo que fazia parte do coletivo da cultura de um País, que tem cada vez menos livrarias e se conformou com os esforços de bem-sucedidas campanhas de alfabetização, de um tempo em que o homem não era mercadoria, nem número de mercado.
A iliteracia prevalecente vai aumentando e o resultado terá consequências perniciosas na vida quotidiana dos angolanos. A cidade empobreceu e de que maneira com o encerramento da Lello.
Limito-me a agradecer os sessenta anos em que fui convivendo com ela.
“Sic transit gloria mundi”



Fernando Pereira 26/8/2015



12 de fevereiro de 2010

Hay Goberno? /Ágora / Novo Jornal/ Luanda /12-2-2010



Conheço a "estória" do anarquista espanhol contada assim: o anarquista fazia uma viagem de barco, quando naufragou. Nadou, nadou, nadou até chegar a uma ilha onde viviam miseravelmente, algumas pessoas que tinham naufragado num outro naufrágio. Quando chegou à praia, exausto, perguntou: "Hay Gobierno?". Responderam-lhe que sim e ele disse: "Soy contra!". Fez-se ao mar e continuou a nadar…
Ultrapassado este primeiro parágrafo, com as reticências inerentes, só posso dizer que estou entusiasmadíssimo pois resolvi rever “La Dolce Vida” de Frederico Fellini. Estreado há cinquenta anos (5-2-1960), com Marcello Mastorianni e Anita Ekberg, é um filme icónico da sua filmografia, recheada de uma visão social de uma sociedade italiana e europeia do pós-guerra. É uma marca de um cinema europeu, que urgia ser reinventado.
Por falar em revisões da matéria dada, recuperei o livro de BD de Quino, “Potentes, Prepotentes e Impotentes”, editado pela D.Quixote em 1972. O livro tinha sido emprestado a alguém, que felizmente ao mudar de casa, descobriu-o e devolveu ao seu lídimo proprietário. Porque é um autor referente para mim, porque é um livro de indiscutível mérito, fiquei naturalmente satisfeito por reavê-lo. Um livro obrigatório para os “Potentes, Prepotentes e Impotentes”, e para todos os que o são sem o saberem, e para os que os outros sabem que há gente que não o é!
O ultimo livro de Francisco José Viegas, foi o mais desinteressante do que dele li até hoje, “O Mar em Casablanca”. É pouco mais que um arremedo de um policial, em que o personagem central é talvez um cadáver encontrado num hotel de umas termas decrépitas do Norte de Portugal, e que teria estado ligado ao 27 de Maio de 1977. Toda uma história que não percebi porque ligava o homem ao 27, aos diamantes, e por aí fora! Um livro, talvez mesmo a evitar, embora o Francisco José Viegas seja um excelente escritor e um prestigiado divulgador cultural.
Na esteira dos livros, uma verdadeira pedrada no charco são os “Cadernos de Memórias Coloniais” de Isabel Figueiredo da Angelus Novus, pequena editora de Coimbra. Esta obra, embora fossem memórias de Moçambique, terá aberto a caixa de Pandora do que procurou ser escondido pelos retornados que viveram em África. Um livro sem margem, sem fronteiras, com descrições duras de realidades vividas ou de histórias ouvidas, mas sem recorrer ao artificio, e sem procurar qualquer exercício, ainda que dissimulado de expiação, ou abjurar o que quer que seja. Um livro duro de ler, mas como tem levado tanta pancadaria em fóruns e na blogosfera, por parte de retornados das ex-colónias em Portugal, já há garantia de que de facto mexeu com eles e bem.
Fui no dia 4 de Fevereiro à Casa do Alentejo em Lisboa, à apresentação do livro “Lucio Lara, imagens de um percurso”, e gostei do que vi; Numa das salas mais bonitas da cidade, completamente cheia, muitos colunáveis e outros nem por isso, prestaram uma homenagem a um Homem, que merece de Angola a eterna gratidão e o redobrado respeito. Zeferino Coelho, da Caminho, Conceição Neto e Veiga Pereira, recordaram um pouco o percurso do Tchiweka, e relembraram-nos na necessidade de apoiar a Associação, que a paciente organização de Lucio Lara, permite hoje ter divulgado esta obra magnífica.
Mais um 4 de Fevereiro muito bem passado!

Fernando Pereira
7/2/2010

25 de outubro de 2009

A emenda vem do ouvido, o juízo da multidão/ Ágora/ Novo Jornal/ Luanda/ 23-10-09




“O que faz uma nação grande não é tanto os seus grandes homens, mas a estrutura dos seus inumeráveis medíocres”
Ortega Y Gasset (Madrid 1883-1955)
A propósito de um vídeo de uma multifacetada actriz brasileira, Maitê Proença, com talentos sublimados há tantos anos, levantou-se um coro de indignação que há muito se não via por terras de “além ar”(Portugal).
Vi o vídeo, que é uma parte de um programa “Saia Justa” do canal de cabo, GNT, e sinceramente a única coisa que consegui, foi mesmo encontrar alguma similitude na forma como Angola e os angolanos são tratados na blogosfera por alguns expatriados que falam o português, e que trabalham em Angola, de forma recorrente.
Só me apetece citar Eça de Queiroz, que no fim do século XIX, e ainda o número dos países que falavam português no mundo se limitava ao Brasil, dizia:” O brasileiro tem o defeito dos portugueses só que dilatados pelo calor”.
Desapetece-me ter que vir aqui, usar os estafados argumentos de um e outro lado, sobre a forma algo ignara como por vezes se embeiçam as partes envolvidas, mas a realidade é que o angolano pode ter muito defeito, pode dizer muito mal de tudo o que é seu, mas detesta que escarneçam das suas idiossincrasias colectivas.
Tudo isto me fez recuar no tempo, e resolvi reler um dos poucos exemplares que existem de literatura colonial, “ O Velo de Oiro” do escritor Henrique Galvão. Quando se diz literatura colonial, procura distinguir-se do que depois se apelidou de “literatura ultramarina”, que teve um serviçal permanente, Amândio César; acolitado por uns quantos apaniguados ideológicos, como Forjaz Trigueiros, Joaquim Paço de Arcos e outros.
Henrique Galvão (1895-1970) era um integralista indefectível, foi governador da Huíla, inspector superior do Ministério das Colónias, Secretário da Exposição Colonial do Porto, Director da Emissora Nacional e depois disso tudo intransigente opositor de Salazar, o primeiro homem no mundo a desviar um avião por motivos políticos, assim como a figura central do desvio do paquete português “Santa Maria”, que para além da denúncia do regime salazarista (Salazar, que tem como seu maior panegírico, com visibilidade, Jaime Nogueira Pinto), terá tido uma enorme importância, senão determinante, no levantamento de 4 de Fevereiro de 1961.
“O Velo de Oiro” (1931) é uma obra que deveria ser reeditada em Portugal, e devia ser lida pelos portugueses que demandam Angola na busca do dinheiro fácil, ou na procura de resolver os problemas que deixaram noutros lados, e que nalgumas circunstâncias só os agravam! É curioso como é que um livro escrito há 73 anos, tem tanta actualidade, pois “ o sonho que comanda a vida”, nem sempre tem um final razoável, e raras vezes um final feliz. “ O Velo de Oiro”, é basicamente a história de Rodrigo que embarca para África atraído pelo enriquecimento fácil, buscando muito dinheiro e pouco trabalho, e toda a narrativa é construído nas ilusões e desilusões numa África, que nada tinha a ver com o que ouviu e imaginava na sua aldeia distante.
Henrique Galvão ainda tem outro dentro da mesma sequencia, “O Sol dos Trópicos” (1936), mas já contextualizado de outra forma, talvez mais parecido com uma intervenção de Lobo Antunes na fase do “Esplendor de Portugal” ou o seu quase ignorado livro “As Naus”, uma critica muito conseguida ao colonialismo, socorrendo-se das figuras históricas, tão ao gosto da ideologia corporativista.
Há um provérbio popular umbundo que diz: “Ndao lia esila ku ka pohgolole. Ci kasi oko, haiko ci kasi oko”, que quer dizer mais ou menos “não devemos esperar escapar às dificuldades, indo para outra aldeia!
Gostava de poder integrar aqui, porque julgo pertinente no enquadramento do que se tem escrito, a obra de Gilberto Freyre, adaptada às circunstâncias de hoje, e a todo este movimento de gente que faz do “aeroporto 4 de Fevereiro”, primeiro local de peregrinação da lusofonia.
Por razões de enquadramento gráfico, e como pode ser um tema servido de forma “requentada”, sem que perca actualidade, a ele havemos de vir mais cedo que tarde!
Fernando Pereira 14/10/09

10 de outubro de 2009

Anatomia a som de caixa/ Ágora/ Novo Jornal/ Luanda/ 9-10-09


Aleixo de Abreu, médico alentejano licenciado em Coimbra, vem para Angola em 1594, como médico pessoal de Furtado de Mendonça, nomeado por Filipe I, governador de Angola.
Durante os quinze anos em que esteve em Angola, o licenciado tentou estudar dois flagelos horríveis, o mal de Luanda e o bicho. Para o primeiro os barbeiros e curandeiros, tentavam encontrar a cura, já o segundo a mezinha era beber todas as madrugadas um cálice de aguardente.
O mal de Luanda era o escorbuto, como provou Aleixo de Abreu no seu livro sobre enfermidades tropicais, e o bicho era uma doença intestinal originada por vermes, uma “rectite epidémica gangrenosa” como hoje pode ser dito.
O livro escrito em latim e traduzido para castelhano tem o título completo: Tratado de las siete enfermedades, de la inflammacion universal del hígado, zirbo, piloron e riñones, y la obstrucion, de la satiriasi, y fievre maligna y pasion hypocondríaca. Llena otros três tratados, del mal de Loanda, del guzano, y las fuentes e sedades, e é publicado em Lisboa em 1623, tornando-se o primeiro tratado de medicina tropical publicado no mundo.
Já que se fala em medicina, é bom que se saiba que a 11 de Setembro de 1791, na folha 2, verso, do livro V do registo de bandos, Anos 1790-1793, o coronel de cavalaria Manuel de Almeida e Vasconcelos, a propósito da chegada a Loanda do “ilustre médico formado nas melhores academias europeias”, Doutor José Pinto de Azevedo, decidiu abrir uma “escola com aula de medicina prática, com instruções anatómicas, em benefício de todos aqueles que quiserem seguir a profissão”.
Terá sido provavelmente a primeira tentativa de criar uma “faculdade de medicina” em Luanda, pois pouco se soube da sua duração para além da oficialização. Em 1845 é criada em Luanda uma escola médica, à semelhança de Goa, mas para além do decreto nada andou, e Angola teve de esperar pelo dealbar dos anos sessenta do século XX para finalmente ver instalada uma faculdade de medicina, nuns Estudos Gerais Universitários, que se transformaram em Universidade de Luanda.
Há uma história interessante sobre a criação dos Estudos Gerais Universitários, em que são intérpretes Salazar, Adriano Moreira ao tempo ministro do Ultramar, Galvão Teles, ministro da Educação, Veiga Simão, pela comissão instaladora da universidade de Lourenço Marques e André Navarro, da mesma comissão mas de Luanda. Veiga Simão, contou-me que entraram todos para uma sala escuríssima e gelada do palacete de S. Bento em Lisboa, instados a sentarem-se por Salazar, que ofereceu mantas a todos os presentes, num dia de fim de Inverno. Era um quadro surrealista com várias pessoas de mantas partilhadas sobre as pernas!
Começaram a conversar sobre o assunto que os levava ali, e tinha a ver com a instalação do ensino universitário nas colónias, em que Salazar enfatizava o discurso com “ a demasiada instrução que os terroristas poderiam vir a usufruir, e a criarem-se focos de tensão semelhantes às que se viviam em Portugal” (Recorde-se que ainda estavam frescas as grandes movimentações estudantis de 1962, que paralisaram as academias portuguesas durante um lapso grande de tempo). Todos contrariavam esta opinião de Salazar, com os cuidados habituais de não entrar em choque, com as opiniões do chefe supremo. A conversa ia fluindo, e entretanto Salazar levanta-se, e diz a todos: “Se querem dar cursos superiores aos pretos é lá convosco, mas também já não acho que seja tempo de insistir muito, pelo que podem sair daqui com a certeza que assinarei o decreto da criação dos Estudos Universitários em Luanda e Lourenço Marques”, como aliás acabou por ser assinado a 21 de Abril de 1962.
O contentamento era enorme, não partilhado pelo sisudo Salazar, e Veiga Simão era de todos o mais efusivo, pedindo a Salazar para telefonar para Lourenço Marques onde estava muita gente ansiosa por saber o desenvolvimento da conversa. Salazar, com aquela figura mista de seráfico e sardónico aconselha Veiga Simão: “ Senhor Professor, era bom começar a reduzir gastos de instalação, o telefone é caro e o telegrama faz o mesmo efeito”
Parte deste artigo foi feito com recurso ao livro de Ilídio Rocha. Portugueses em África, editado pelo Círculo dos Leitores em 1993.

Fernando Pereira
5/10/09

26 de setembro de 2009

Algumas Malhas que o Império Teceu/ Ágora / Novo Jornal / Luanda/ 25-09-09


Numa das recentes edições deste jornal, vieram um conjunto de artigos sobre a falência do projecto de Aldeia Nova, no município de Waku-Kungo.
Não me surpreende esta situação, pois em Waku-Kungo aproveitaram-se recursos físicos de um projecto que foi um sorvedouro de dinheiro no tempo colonial, sem contrapartidas, aliado ao conceito de kibutz, que em Israel se revelaram um fracasso económico e social, só mantido por questões de natureza política.
Na fase de arremedo socialista de Angola, e no ano da agricultura, resolveram fazer-se experiencias que não lembravam a ninguém, e também o fracasso económico foi uma evidência ao fim de pouco tempo, com experiencias búlgaras de discutível natureza até do ponto de vista do equilíbrio ambiental.
A Cela, tal como a Matala, foram uma “exposição do Portugal rural dos tamancos” nos trópicos, patrocinado pela propaganda do Império Colonial. Santa Comba, em homenagem ao sinistro Salazar, era o centro de um conjunto de aldeias, que começaram por sorver e talvez em premonição assim se há-de manter. No tempo colonial, não sei se por caturrice, por onirismo, por onanismo patriótico ou por laivos de nescialidade, insistiu-se nos colonatos do tipo do sec. XIX. Uma colónia Amish na África Austral, até que não devia ficar mal nos conceitos bafientos do centro decisório do Império! Sobram exemplos maus para não se bater na tecla errada de novo!
Já que começámos a falar de heranças más, lembro que uma que se perpetuou ao longo do tempo, e tem a ver com a entrava massiva de familiares em determinados lugares quando alguém da família ascende a uma estrutura de direcção. Contava-se nos anos 50, que no Porto do Lobito, entrou um funcionário superior de apelido Rato, e nos meses seguintes entraram quatro Ratos para esse serviço, tendo o director do Porto, perguntado “se com tanto Rato não seria melhor admitir um gato para dar conta desta rataria”!
Ainda no mesmo contexto, houve um governador-geral que polvilhou a administração pública de muitos afilhados, até que quando vagou o cargo de arcebispo, a piada que constava em Luanda era: “Bem, aguentem a vaga, tenho um primo seminarista lá na santa terrinha que está quase padre…”
Nos anos 40 circulava pouca moeda em Angola, e os comerciantes utilizavam o chamado “vale”, ou a caderneta de débito (ou “aponte”).
Um vale era um pequeno papel, situação aparentemente privilegiada para o devedor, pois podia perder-se com facilidade, onde escrevia: Vale 12 angolares, punha assinatura, a data e podia levar a mercadoria. O pagamento era para as “calendas gregas” , ou dia de S. Nunca.
Contava-se uma piada de que um comerciante não conseguia acabar com os ratos que lhe dizimavam a mercadoria no armazém. Eram segundo a terminologia oficial, colonos ratos. Eram espertos, vorazes e começaram a “explorar as riquezas do País”. Alguém o aconselhou a colocar um pedaço de queijo na ratoeira, mas como na década de 40 não se fabricavam queijos industriais, ele seguindo o processo mercantil em curso, colocou na ratoeira um vale onde escreveu: 1 queijo; No dia seguinte foi lá e estava no local, um vale que tinha escrito 1 rato.
Agradeço algumas destas histórias ao Luis do Chinguar, mas há uma que aconteceu comigo em N’Dalatando, quando lá fui a um casamento. Numa sala cheia de gente, chamou-me à atenção, um idoso, branco, vestido com um fato algo antiquado, e que destoava de todo da generalidade dos convidados.
Disseram-me que era Santos Diniz, um colono que terá sido dos maiores do norte de Angola no tempo colonial, e que resolveu ficar “porque já tinha saído da terra há quase 60 anos”. Depois de uma conversa interessante, já que tínhamos conhecidos comuns, ele pergunta-me: “Sabe, camarada Fernando Pereira, qual a diferença entre uma cobra e um cantineiro?”; Disse que não, e nem esbocei pensar nalguma resposta! SD disse-me então “A cobra não tem orelha para colocar o lápis”!
Sei que morreu passado pouco tempo, mas nunca mais esqueci esta conversa, com o dono dos “DINIZES” , onde conheci o Barrigana, grande guarda redes do FC Porto recentemente falecido, então treinador da equipa “que mais cerveja bebia em Angola”, pois deslocava-se num autocarro Mercedes ao Moxico, a Tombwa, enfim a todo o lado, já que só Luanda, o Negage e o Uige eram mais perto.
As malhas que o Império foi tecendo!

Fernando Pereira
20/9/09

17 de setembro de 2009

O que interessa é a Associação! / Ágora / Novo Jornal/ Luanda/ 17-09-09



Quando titubeantemente, a então Republica Popular de Angola, dava os seus primeiros passos de uma independência sofrida, um grupo de portugueses cooperantes fundou no fim dos anos setenta, em Luanda a Associação 25 de Abril.
Eram portugueses progressistas, solidários e que partilhavam com os angolanos as dificuldades de um quotidiano de uma Luanda onde nada era fácil, e a frugalidade e a escassez andavam de braço dado.
Cadete Leite, Vasco Grandão Ramos, António Sousa Santos, Augusto Nelson Batista, Campos da Lito-Tipo e tantos outros, constituíram as bases de um projecto de intervenção cívica na comunidade luandense, e reconstruíram um espaço em ruínas, que se tem perpetuado, em frente ao portão da polícia nas traseiras da vetusta Lello.
Num bonito edifício de traça colonial do século XIX, com um pátio interior, entre paredes de pedra grossas, colunatas e madeiras exóticas, surgiu um local de encontro, um lugar de partilha e sobretudo um espaço de entusiasmo colectivo, pelos avanços de um País que teimosamente queria ser novo.
Era um local de boas tertúlias, em frente ao bilhar ou numa mesa com uma chávena de um descolorado café à frente, nas noites quentinhas de uma Luanda, que esperava calmamente o pôr do recolher obrigatório, que envolvia a cidade num manto de silencio.
Festas, folias, exposições, apresentações de livros ou só mesmo uma conversa, tudo se “apretextava” para nos deslocarmos à associação, onde os angolanos se sentiam em casa.
Eram tempos interessantes, e ainda hoje gosto de por lá passar, ver gente, comer e beber, e sentir que ali foi tudo construído com enorme voluntariado, quiçá mesmo militância em torno de valores de solidariedade e respeito entre comunidades que se estimavam.
Era para falar nesses tempos em que se importava pouco e importávamo-nos muito já que hoje, curiosamente importamos muito e importamo-nos pouco! Quando olhamos para uma blogosfera, para alguns locais em Luanda, em aviões, ou para os comentários quotidianamente feitos em praias e festas sobre Angola por parte de alguns portugueses e brasileiros, ficamos atónitos, tal a forma despudorada e soes como alguns escrevem, falam e publicitam Angola.
Tem total liberdade para o fazer, algo que se esquecem de referenciar, mas realmente acaba até por ser execrável ler e ouvir certa gente a falar do País que lhes mitiga a fome (desculpem o excessivo da expressão mas estou exasperado!).
Aos portugueses em Angola, não se lhes pede o que muitos portugueses fizeram pelo País, porque provavelmente tem uma formatação em que valores como a solidariedade e a militância, já não fazem parte sequer de um léxico quanto mais de uma prática quotidiana, mas pede-se-lhes algum comedimento, pois não é bonito insultar-se a casa de acolhimento, ainda que temporária.
Estão em Angola porque são precisos, e necessitam também de estar, por isso limitem-se a trabalhar já que são pagos para isso! Os cubanos, os chineses, os franceses, os russos e outras comunidades, trabalham tanto ou mais que os estrangeiros de língua veicular portuguesa, e não andam a inundar a blogosfera de que tudo que em Angola se passa é corrupção, miséria, nepotismo ou fartar vilanagem.
Este artigo é direccionado a um pequeno grupo de cidadãos lusófonos, não devendo tomar-se a nuvem por Juno, pois a crescente comunidade que fala português que escolheu Angola como País de trabalho, nada tem a ver com desvarios de alguns dos seus membros.
Vão até à Associação 25 de Abril, ali na baixa de Luanda e vejam que há coisas interessantes em Luanda, e esta sim, muito dignifica a lusofonia.

Fernando Pereira
14/09/09
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