O SÉCULO DOS IMBECIS
Já há uns tempos a esta parte que
sinto que ando com pouca vontade de escrever.
Continuo
a gostar de ler, e faço-o cada vez mais e vou deixando de ouvir notícias,
comentadores e um conjunto de pessoas que vão “palrando” sobre o que vai
acontecendo no nosso quotidiano.
Henry
James disse que “todas as pessoas na velhice consumam o milagre da alteração do
ponto de vista”, e nos meus provectos setentas acho que é exatamente assim.
Vivemos
tempos que nunca pensei viver, mas talvez Moliére tivesse razão quando terá
dito que “vivo de boa sopa, não de boas palavras”. Continuo a achar que o
futuro será bem melhor que o passado para a maioria das pessoas, e é essa
esperança legítima que nos faz olhar para o futuro com os olhos de quem os vai
viver, que não é exatamente o meu caso e que espero que o meu ocaso seja o mais
tardio possível.
Estamos
na fase do politicamente correto, que para mim sempre foi pegar num monte de
merda pelo lado mais limpo. Mas é o tempo que se vive. Sobre isto faz-me
lembrar uma máxima de Luis Fernando Veríssimo: “o futuro era muito melhor
antigamente”.
Quando
ligo a televisão, ouço a rádio ou leio a imprensa só vejo paladinos da
seriedade e da probidade. Cada um que comenta, escreve e alardeia lugares comuns
com nós de gravata esmeradamente feitos são verdadeiras personagens imaculadas.
Erro meu pensar que a única imaculada que conhecia era mesmo uma tal Senhora!
Vejo
gente que nunca na vida pediram que não se cobrasse o IVA, para que determinado
serviço saia mais barato, que nunca tivesse metido uma cunha para uma consulta
num hospital, que nunca pedisse o favor de interceder por um emprego para um
familiar, que nunca tivesse transgredido no transito, que nunca por aí fora até
não haver situações para que o nunca acabe.
Eu
quero fazer uma prévia declaração de interesse, não estou nos que falei em
cima, nem nos que irei falar em baixo. Sou quase um incomum, pelos vistos quase
sozinho no pecaminoso e ocasionalmente na pequena transgressão.
O que
se assiste na comunicação social é um espetáculo degradante protagonizado por
muitos que deviam ser os primeiros a evitá-lo. Neste coro de hipocrisia
desmedida vem-me à memória uma carta de Filipe II de Espanha (legitimamente
Filipe I de Portugal) sobre os portugueses: “Sofrem mais com Ventura alheia, do
que com a dor própria”.
Nenhum
daqueles jornalistas ou comentadores fala no que é importante para os
portugueses, como o derrapar de dinheiros em obras publicas que nunca cumprem
prazos, nas dívidas acumuladas pelos serviços públicos a fornecedores, os
ordenados a administradores e gestores da coisa pública, a inércia de serviços
e por aí fora até que se esgotassem temas importantes.
O
jornalista ou comentador “independente”, do alto da sua verve sem mácula é
muitas vezes alguém que já foi assessor de ministro, dono de um gabinete de
imagem de um determinado político, ministro, secretário de estado, habitué em
caravanas presidenciais ou ministeriais com tudo à tripa forra, e outras
“mordomias” que vão caindo aqui e ali, e
o pequeno favor que se vai fazendo neste vale de lágrimas na comunicação social,
onde o olho atento dos “citizen kane” domésticos se vão mantendo indiscretos
enquanto os “cretos “ fazem todo o trabalho para colocar a gente a discutir
trelas e atrelas, para ir fazendo o trabalhinho para a extrema direita
florescer.
Acho
que não tenho razões para estar desiludido com o que quer que seja. Iludido às
vezes, mas é sinal que entre os que nos
querem iludir há bons profissionais.
João
César Monteiro, in Recordações da casa amarela. “A idade não conta. O que conta
são os sentimentos das pessoas. Tenho mais idade que sentimentos. É a minha
maneira de ser idoso”.
O
título desde arrazoado é o de um livro de Valter Hugo Mãe, que me foi oferecido
recentemente. Tem pouco a ver com o texto? Não sei, vou começar a lê-lo!
Fernando Pereira
31/7/2026
