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9 de maio de 2019

Nem algum Abril nem tanto Novembro! / O Interior / Guarda 9-05-2019





Nem algum Abril nem tanto Novembro!
Nas últimas semanas a SIC tem feito um trabalho notável, ao recuperar memórias e depoimentos de um tempo de grande entusiasmo nos pós 25 de Abril de 1974 no profundo interior de Portugal. Bom trabalho da jornalista Alexandra Neves!
                A memória de uma Nação é a base da sua identidade, e a realidade tem sido um continuado exercício da sua desconstrução, fruto de um desmontar de uma idiossincrasia de momentos passados, para a edificação de uma com prazo de validade encurtado pelas circunstancias.
                Quando se faz um documentário sobre o que foi o “serviço médico à periferia”, ou sobre as campanhas de alfabetização, ou as tão enxovalhadas de forma torpe Campanhas de Dinamização Cultura e Cívica do MFA, conseguimos ver que foi esse voluntarismo de uma juventude engajada numa dinâmica nova, que permitiu lançar as bases de uma constituição de 1976, que salvaguardasse o direito das populações a algo tão comezinho como a saúde, a educação, a liberdade e o direito de escolher quem queremos que nos governe a nível central e local.
                Do Serviço Médico à Periferia, para além dos excelentes resultados no terreno, surgiu a base do SNS que urge manter e valorizar, mesmo que alguns o queiram destruir, perante a complacência de uns quantos decisores que vão assobiando para o lado.
                Tive o privilégio de ter andado nas Campanhas de Dinamização Cultural do MFA, e hoje digo com toda a clareza que foi provavelmente a melhor experiencia política e pessoal em que participei.
                O Portugal que vi nesse tempo era uma miséria construído entre fragas, veredas, tugúrios, cheiros nauseabundos em casas sem água canalizada (nem 40% do País tinha água canalizada e só 29% tinha saneamento básico), eletricidade, em suma lugares onde se sobrevivia de geração para geração. Nascia-se, sobrevivia-se e morria-se cedo!
                Umas poucas casas de emigrantes, davam um toque de discutível modernidade aos povoados, onde nas estradas as pessoas conviviam com a lama e tudo que os animais iam defecando numa urbe que se enchia de moscas no pico do verão e fumo e gelo no inverno. Sobre as vilas e aldeias portuguesas, Hans Magnus Enzenberger dizia: “Surgiu aqui uma arquitetura espontânea, a qual, através da imitação dos outros e, depois, de si própria se foi desenvolvendo em espiral, num pesadelo delirante que ultrapassou os próprios modelos originais”. Em seguida apontava o motivo desse crime: “os emigrantes vingaram-se, de uma forma terrível, do país que não havia conseguido alimentá-los.” Acertou no alvo!
                As campanhas de dinamização cultural do MFA levaram às aldeias teatro com atores profissionais e amadores, cinema, música, desporto e acima de tudo transmitiram a esperança de valores tão caros ao 25 de Abril de 1974 como solidariedade, liberdade, democracia e criação de consciência coletiva pela melhoria das condições de vida das populações. Com a ajuda dos militares rasgaram-se estradas onde até então havia caminhos entre muros, levou-se eletricidade onde só havia candeia, fizeram-se fossas e iniciaram-se saneamentos, criaram-se campos de jogos e ginásios rurais, equiparam-se postos médicos e de enfermagem que pudessem responder às necessidades primárias das populações, entre tanto que se fez em tão pouco tempo.
                Houve excessos, houve voluntarismo a mais talvez porque a revolução se desfazia em ternura, mas o ódio dos que sempre foram privilegiados e a forma soez como a Igreja fomentou a contestação levou-nos a afirmar que estávamos certos no que queríamos fazer valorizando as pessoas.
                Sobre essa campanha só se me oferece citar Nelson Rodrigues: “O mais sórdido dos crápulas tirava o chapéu e tomava a bênção da mãe, estava sempre vestido com aprumo, confessava e comungava aos domingos, fazia o sinal da cruz com água benta e pedia um santinho ao padre”!

Fernando Pereira
6/5/2019




20 de abril de 2018

Património Comum / Ágora/ Luanda 20-4-2018





Património Comum
«A cidade apareceu ocupada e radiosa. Deparámos com colunas militares inundados de sol; e povo logo a seguir, muito povo, tanto que não cabia nos olhos, levas de gente saída do branco das trevas, de cinquenta anos de morte e de humilhação, correndo sem saber exatamente para onde, mas decerto para a LIBERDADE!

Liberdade, Liberdade, gritava-se em todas as bocas, aquilo crescia, espalhava-se num clamor de alegria cega, imparável, quase doloroso, finalmente a Liberdade! cada pessoa olhando-se aos milhares em plena rua e não se reconhecendo porque era o fim do terror, o medo tinha acabado, ia com certeza acabar neste dia, neste Abril, Abril de facto, nós só agora é que acreditávamos que estávamos em primavera aberta depois de quarenta e sete anos de mentira, de polícia e ditadura. Quarenta e sete anos, dez meses e vinte e quatro dias, só agora.»

José Cardoso PiresAlexandra Alpha
                Provavelmente o 25 de Abril de 1974 foi uma das datas mais marcantes em toda a minha vida de cidadania empenhada, não a mais importante já que essa, está reservada no lado esquerdo do peito, é o 11 de Novembro de 1975 do nosso contentamento.
                Tive o privilégio de o ter vivido a cada minuto desse tempo e de ter participado na catarse coletiva que foram esses tempos em que se fez Esperança, e que nos permitiu agarrar o sonho que se vivia a cada transformação que se operava.  
                Sentimos nas praças, nos campos, nas ruas e em todos os lugares que palavras como Solidariedade, Liberdade e Democracia tinham vindo para ficar em Portugal, e tivemos que esperar até 2002 na sofrida Angola.
“O 25 de Abril de 1974 é uma data dos portugueses”” Os angolanos não têm nada a ver com isso”. “Essa data não diz nada aos angolanos” etc . Esta frase é pisada e repisada ao longo das décadas por determinada gente de Angola, desde os tempos da Independência. Nas redes sociais vê-se o efeito a que este tipo de linguagem deixou como legado nas gerações que ainda acreditam que nunca houve nada antes do MPLA, e que o Salazar era um “tipo porreiro” porque era sério e morreu pobre! Pura estultícia.
Lamento que não se tenha evoluído o suficiente para fazer compreender que o 25 de Abril de 1974 foi uma data determinante para a Independência de Angola, e simultaneamente determinada pela luta de libertação dos povos oprimidos pela ditadura e pelo colonialismo nos territórios africanos dominados em Portugal.
Não é uma data dos portugueses, é um momento histórico que aglutina à sua volta um desejo comum de liberdade e de emancipação. Conjuga-se a vontade de se trilharem caminhos diferentes, mas irmanados no muito que nos une apesar de algumas vezes se enfatizar o pouco que nos divide.
Hoje somos do 1º de Agosto e do Futebol Clube do Porto (no meu caso), há os que vibram com as vitórias do Petro, do Benfica, do Libolo e do Sporting, e pelos vistos esses assuntos não são património de ninguém! Este é um exemplo, mas poderia dar milhentos nos domínios culturais, económicos e de natureza social.
Deixemo-nos de argumentos pueris. Em Portugal há quem não tenha digerido de todo o “império perdido”, quando na realidade esse esforço de manter uma “mistificação” de “Portugal dos Pequenitos” custou a Portugal e às colónias sacrifícios que ainda não estão ultrapassados passada uma geração.
A maioria das pessoas em Portugal e Angola já não liga a “arrufos de circunstancia”, e circunscreve-se tudo a um quadro de uma elite económica e politica que se quer aproveitar de “fantasmas” para escamotear a incapacidade de resolver situações que se obrigaram a resolver.
Ainda hoje quase duzentos anos depois da Independência do Brasil (1822) os portugueses são o motivo maior no anedotário do brasileiro, e em Portugal o Brasil é olhado como um local de futebolistas, bonitas raparigas, praia e pouco mais, esquecendo a importância das universidades Brasileiras no contexto das ciências e letras que se expressam em português na comunidade científica mundial, para dar apenas um pequeno exemplo.
Quando se diz a “mentalidade tuga” está-se a tentar marcar um espaço de afirmação identitária de uma determinada angolanidade. É positiva quando empregue com bonomia e perniciosa quando proferida com acrimónia.
Quando em Portugal se diz que os angolanos são “indolentes e uma cambada de corruptos” estão a generalizar de má-fé (“Má-fé é só má-fé e nunca um erro” Jorge de Sena) sobre um povo de características muito próprias, unido na sua diversidade de costumes, crenças, línguas e hierarquias, e isso é lastimável. Talvez por isso se consiga uma “desforra agradável” quando o holandês Jeroen Dijsselbloem dizia dos portugueses o que eles dizem dos angolanos., provocando-lhes a ira.
“Tu, que descobriste o cabo da Boa-Esperança; e o Caminho Marítimo da Índia; e as duas Grandes Américas, e que levaste a chatice a estas Terras e que trouxeste de lá mais chatos p'raqui e qu'inda por cima cantaste estes Feitos...” dizia Almada Negreiros, digo complementando Eça de Queirós” O Brasileiro tem os defeitos dos portugueses só que dilatados pelo calor”.
                Como diria Ary dos Santos, esse grande trovador do 25 de Abril, “O passado é já bastante, vamos passar ao futuro”.
                Vale a pena gritar “Viva o 25 de Abril de 1974” que é uma data da malta!

Fernando Pereira
25/4/2018




29 de abril de 2016

ABRIL SEMPRE DENTRO DE NÓS /Àgora/ Novo Jornal / Luanda 29-4-2016




ABRIL SEMPRE DENTRO DE NÓS

Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade
José Afonso

               Foi esta a senha que deu início às movimentações militares que mudaram tudo, que há muito esperava uma sapatada definitiva.
               Atolado em três frentes de combate, com os empresários a exigirem a integração europeia em detrimento do atávico mercado colonial, assoberbado pela fuga desenfreada de trabalhadores para uma Europa onde se lidava com a reconstrução dos Países devastados da 2ª Guerra mundial,  a braços com uma crescente multiplicação de greves, lutas estudantis e com a oposição ao regime a florescer nas classes sociais que o tinham apoiado até então , era por demais evidente que se esperava o rápido estertor do regime que há 48 anos governava Portugal e colónias.
               O 25 de Abril de 1974 foi a vontade de uns valorosos, ajudados pelas circunstâncias e encontraram o modelo corporativista-colonial em estado de prostração final.
               Há quarenta e dois anos vivia em Coimbra e preparava-me para ingressar na Universidade, e naturalmente avultava o receio de mais cedo que tarde ser mobilizado para a guerra colonial. A minha posição era partilhada por muitos colegas portugueses, que à surdina iam dizendo que quando chegasse a altura “davam o salto”! Poucos dos que iriam à “inspeção” esse ano estavam dispostos a defender “a fé e o Império”, que mais não eram que os Espírito Santo, Fonsecas e Burnay, Mellos, Champalimaud, Quina, Feiteira-Bordalo, Vinhas, Abecassis, Sousa Lara e as suas componentes locais Mota Veiga, Mota & Irmão, Herdeiros de Mário Cunha e outros. Como diria muitos anos antes Alexandre O’Neill: “Portugal, o meu remorso de todos nós”!
               O” Império Português” que como dizia C. R. Boxer era “essencialmente, uma talassocracia, um império marítimo e comercial (…) vazado em molde militar e eclesiástico”, estava-se a preparar para restar encaixotado, por ironia do destino, no mesmo local onde os achadores portugueses partiam “navegando desenhavam os mapas que não tinham”, como dizia Sophia de Mello Breyner Anderson.
               Durante muitos anos fui discutindo com compatriotas angolanos a importância do 25 de Abril de 1974 em Angola. Talvez pelo facto de o ter vivido a cada minuto com grande entusiamo, nos locais onde “se construiu a democracia”, tenha uma relação militantemente afetiva com o Movimento das Forças Armadas, e confesso que me custa aceitar que haja pessoas angolanas com responsabilidade e já homens feitos ao tempo queminimizem a importância do golpe de estado de Abril em Portugal e os reflexos que isso teve na libertação dos povos sob dominação colonial.
               O 25 de Abril de 1974 foi sempre olhado em Angola como uma data estranha no contexto das efemérides externas que os angolanos vão dando enfase! “Isso é uma data dos portugueses”, “Se não fossem os movimentos de libertação o 25 de Abril nunca teria acontecido”, “Que ganharam os angolanos com o 25 de Abril?”, e outros dislates que normalmente surgem quando se fala do Movimento das Forças Armadas.
               O 25 de Abril de 1974 não surgiu da vontade de um punhado de militares, apareceu num contexto, e naturalmente que quando eles corporizaram o golpe o fim da guerra colonial era um dos objetivos principais. Foi depois um corolário de movimentações, de gente das mais variadas profissões, de um amplo espectro político que obrigaram a tomarem-se certas decisões em relação às colónias, diferentes das que alguns se propunham perpetuar de outras formas.
               Nós enquanto angolanos devemos ter orgulho no 25 de Abril, porque foi uma luta comum, que afinal surtiu em objetivos comuns nomeadamente a Independência de Angola em Novembro de 1975.
               Posso entender que o meu entusiasmo pelo 25 de Abril de 1974 seja olhado de forma indiferente pelas gerações mais novas, por exemplo a da minha filha, visto da mesma forma como eu olhava atónito o entusiasmo do meu avô a falar da Republica ou até do meu pai na sua participação na campanha presidencial de Norton de Matos, que lhe valeu o despedimento da Sociedade Agrícola do  Cassequel na vila da Catumbela!
               Mas tenha-se em atenção que este esquecimento, justificado, das gerações do 25 de Abril de 1974, é o mesmo que gerações tem da luta de libertação e da batalha do Kuito-Kanavale. Estou a falar de gente jovem mas já politicamente enquadrada, e inseridas no atual tecido económico e social angolano Deixemo-nos de romantismos serôdios, porque Savimbi já morreu há doze anos, e pelos números do censo recentemente divulgado 46% da população tinha entre 10 a 12 anos, quando isso aconteceu, por isso já nada lhe começam a dizer essas “batalhas do antanho”!
               Hoje como ontem e como amanhã espero comemorar o 25 de Abril de 1974, talvez com cada vez menos gente que esteve comigo por razões de desaparecimento físico de gerações.
               Como diria José Gomes Ferreira, esse tão esquecido poeta português: Tenho “saudades de não poder inventar o futuro”.

Fernando Pereira
20/4/2015


17 de setembro de 2009

O que interessa é a Associação! / Ágora / Novo Jornal/ Luanda/ 17-09-09



Quando titubeantemente, a então Republica Popular de Angola, dava os seus primeiros passos de uma independência sofrida, um grupo de portugueses cooperantes fundou no fim dos anos setenta, em Luanda a Associação 25 de Abril.
Eram portugueses progressistas, solidários e que partilhavam com os angolanos as dificuldades de um quotidiano de uma Luanda onde nada era fácil, e a frugalidade e a escassez andavam de braço dado.
Cadete Leite, Vasco Grandão Ramos, António Sousa Santos, Augusto Nelson Batista, Campos da Lito-Tipo e tantos outros, constituíram as bases de um projecto de intervenção cívica na comunidade luandense, e reconstruíram um espaço em ruínas, que se tem perpetuado, em frente ao portão da polícia nas traseiras da vetusta Lello.
Num bonito edifício de traça colonial do século XIX, com um pátio interior, entre paredes de pedra grossas, colunatas e madeiras exóticas, surgiu um local de encontro, um lugar de partilha e sobretudo um espaço de entusiasmo colectivo, pelos avanços de um País que teimosamente queria ser novo.
Era um local de boas tertúlias, em frente ao bilhar ou numa mesa com uma chávena de um descolorado café à frente, nas noites quentinhas de uma Luanda, que esperava calmamente o pôr do recolher obrigatório, que envolvia a cidade num manto de silencio.
Festas, folias, exposições, apresentações de livros ou só mesmo uma conversa, tudo se “apretextava” para nos deslocarmos à associação, onde os angolanos se sentiam em casa.
Eram tempos interessantes, e ainda hoje gosto de por lá passar, ver gente, comer e beber, e sentir que ali foi tudo construído com enorme voluntariado, quiçá mesmo militância em torno de valores de solidariedade e respeito entre comunidades que se estimavam.
Era para falar nesses tempos em que se importava pouco e importávamo-nos muito já que hoje, curiosamente importamos muito e importamo-nos pouco! Quando olhamos para uma blogosfera, para alguns locais em Luanda, em aviões, ou para os comentários quotidianamente feitos em praias e festas sobre Angola por parte de alguns portugueses e brasileiros, ficamos atónitos, tal a forma despudorada e soes como alguns escrevem, falam e publicitam Angola.
Tem total liberdade para o fazer, algo que se esquecem de referenciar, mas realmente acaba até por ser execrável ler e ouvir certa gente a falar do País que lhes mitiga a fome (desculpem o excessivo da expressão mas estou exasperado!).
Aos portugueses em Angola, não se lhes pede o que muitos portugueses fizeram pelo País, porque provavelmente tem uma formatação em que valores como a solidariedade e a militância, já não fazem parte sequer de um léxico quanto mais de uma prática quotidiana, mas pede-se-lhes algum comedimento, pois não é bonito insultar-se a casa de acolhimento, ainda que temporária.
Estão em Angola porque são precisos, e necessitam também de estar, por isso limitem-se a trabalhar já que são pagos para isso! Os cubanos, os chineses, os franceses, os russos e outras comunidades, trabalham tanto ou mais que os estrangeiros de língua veicular portuguesa, e não andam a inundar a blogosfera de que tudo que em Angola se passa é corrupção, miséria, nepotismo ou fartar vilanagem.
Este artigo é direccionado a um pequeno grupo de cidadãos lusófonos, não devendo tomar-se a nuvem por Juno, pois a crescente comunidade que fala português que escolheu Angola como País de trabalho, nada tem a ver com desvarios de alguns dos seus membros.
Vão até à Associação 25 de Abril, ali na baixa de Luanda e vejam que há coisas interessantes em Luanda, e esta sim, muito dignifica a lusofonia.

Fernando Pereira
14/09/09
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