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5 de março de 2010

"O GOLO" /Ágora /Novo Jornal/ Luanda/ 5-3-2010



De vez em quando, tenho fases de misantropia assumida. Nessas alturas, faço sempre coisas diferentes, e tanto quanto possível em locais irrepetíveis. Há um denominador comum nesta fase, para além da irascibilidade, que é a de não dispensar a releitura dos Cantos de Maldoror, obra “que nos ensina a voar sobre o abismo”, do Conde de Lautremont, um francês de nome Isidore Ducasse, nascido no Uruguai em 1846, e falecido em Paris em 1870.
Tenho sentido uma inquietude incomum, que será passageira, e nesses momentos para não vasculhar as ideias, vou desarrumar armários, baús e estantes onde possa encontrar algo de tangível que me faça sair de períodos de torpor prolongados.
Reencontrei nas minhas buscas, uns exemplares da “Revista Golo”, que em Novembro de 1987, representou o primeiro esforço de se fazer uma publicação graficamente apelativa, simultaneamente informativa e com objectivos formativos interessantes sobre a cultura física e o desporto em Angola.
Superiormente dirigida por Gustavo Costa, que me substitui melhoradamente, enquanto director do CNDI da então Secretaria de Estado dos Desportos, dos tempos entusiasmantes do Ruy Mingas, a “Golo” tornou-se o primeiro elo editorial da lusofonia, no plano da educação física e desportos.
A revista era excelente, com o malogrado Alexandre Gourgel, Luís Costa e Miguel Correia Filho na redacção, Miguel Magalhães e Carlos Lousada na fotografia. Dos colaboradores permanentes, o saudoso Matos Fernandes, Paulo Murias, Helder Moura, Arlindo Macedo, Aguiar dos Santos, Américo Gonçalves, Severino Carlos, Raquel Grácio, João Madeira , Graça Campos e eu próprio.
Colaboradores “internacionais” era o Luís Fernando em Cuba, o saudoso amigo e enorme jornalista português Carlos Pinhão, o prof. António Sousa Santos, o prof. Manuel Sérgio e a extraordinária professora brasileira Drª Maria Licia Marques, que foi a minha companhia quase permanente, quando eu debutava no Congresso da IASI, nessa circunstância em Bucareste em 1981.
Vou provavelmente em futuras crónicas, tentar mostrar o que foi o dealbar do desporto angolano no período que se seguiu à independência, e as razões que permitiram que o basquetebol e o andebol, tenham sido campeões crónicos em campeonatos africanos, e com participações meritórias nos campeonatos do mundo e jogos olímpicos.
Resumidamente, o que se pode dizer é que a opção por estas modalidades corporizada pelo Ruy Mingas, e partilhada por todos os quadros superiores e responsáveis da SEEFD de então, deu os resultados esperados, apesar de haver tentativas, que nalguns casos tiveram protagonismos soes, na defesa do “colocar tudo no cesto do futebol”.
Só o facto de haver uma política desportiva definida, alicerçada num projecto político em que a cultura física e o desporto fossem determinantes na educação do jovem, e simultaneamente que servissem para a afirmação de Angola como nação num contexto internacional, ao tempo adverso, em relação à nada Republica Popular de Angola, permitiu que ainda hoje se prolongue com êxito o trabalho então encetado e tantas vezes vilipendiado.
Voltarei a este tema, e foi bom estar assim como que emocionalmente fragilizado, para ler “o Golo” que se metia de três em três meses, nesses anos oitenta de tanta ausência e simultaneamente de tanto empenho.
Já agora, o “Golo” nada tem a ver com os “Cantos de Maldoror”, indispensável livro de cabeceira de há trinta anos a esta parte.

Fernando Pereira
28/2/2010

29 de janeiro de 2010

Quem conta um conto…/ Ágora/ Novo Jornal / Luanda 29-1-2010



Num lugar esconso da minha estante, fui encontrar um livro de “Contistas Angolanos”, exemplar poli copiado da Casa dos Estudantes do Império, edição de 1960, com capa de Luandino Vieira e uma reflexão de Fernando Mourão.
Foi nalguma das minhas deambulações por alfarrabistas, que comprei este livro, pois doutra forma dificilmente me teria chegado à mão. Textos de Agostinho Neto, Arnaldo Santos, Costa Andrade, Helder Neto, Luandino Vieira, Mário de Andrade, Orlando Távora (Pseudónimo literário de António Jacinto), Mário António, Oscar Ribas e mais uns quantos, que foram fazendo estas colectâneas, primeiras obras conhecidas da literatura, enquanto arma de ruptura política, com o sistema colonial prevalecente.
Por falar em António Jacinto, que tem sido injustamente esquecido desde a sua morte, vem-me à memória uma situação insólita. Quando por ocasião, do 1º Congresso Extraordinário do MPLA, em Dezembro de 1980 foram colocados uns outdoors, um pouco por todo o País, com palavras de ordem de apoio à realização do congresso, com a matriz ideológica assente no “irreversível caminho para o socialismo científico”, “ao inimigo nem um palmo da nossa terra” e outras que me lembro, e que foram ficando no baú de recordações da história, embora com muitos protagonistas politicamente muito activos hoje. Num desses cartazes emergia a figura de Lenine, ao lado de um outro com os Presidentes Neto e José Eduardo dos Santos, e o motorista do meu serviço, informado militante, identificou logo os três: “Neto, José Eduardo, e o camarada António Jacinto”.
Nos anos setenta, com o dealbar da independência, houve aspectos deliciosos no monopartidarismo, que convenhamos foi indispensável para a coesão e unidade do País. Havia uma denominação que achava simultaneamente risível e bizarra, que era a designação de dirigentes e responsáveis. Nunca percebi muito essa distinção, pois para ser dirigente, parte-se sempre do pressuposto que se tem que ser responsável, embora indesejavelmente muitas vezes já se tenha verificado, que se pode ser dirigente, sendo até irresponsável, tendo em consideração ulteriores avaliações de desempenho.
Houve necessidade de em determinada altura, se adquirirem veículos para a máquina do Estado, já que o depauperado parque de veículos do tempo colonial, não respondia às necessidades.
Uma das primeiras importações de viaturas para dirigentes e responsáveis foram precisamente os LADAS, da então URSS, e os Volkswagen, Modelo Brasília, importados do Brasil num lote que incluía as Kombis e um jipe Gurgel de aspecto patusco. Continuavam-se a montar em Luanda os Land-Rover e as Renault 4L, e lá ia havendo uns carros para que as coisas funcionassem, ainda que de forma limitada.
Em determinada altura, já no fim da década de setenta, aconteceu a “Fiatocracia”, em que se importaram Fiats para quase tudo que era responsável, dirigente e alguns familiares ou dependentes.
Os Fiats inundaram Luanda, e algumas capitais de província, onde os delegados provinciais tiveram direito aos novos 128. Os membros do comité central do MPLA tiveram direito a Fiat, modelo 132 brancos: Os membros do governo não pertencentes ao comité central tinham direito ao mesmo 132, mas num azul-marinho carregado, assim como alguns majores das FAPLA, que tiveram direito ao 132 verde, de farda militar. Os militares de patente mais elevada, no tempo não havia nada acima de coronel, tinham direito ao soviético Volga Gaz, e no topo a Range Rovers, todos verdes. Os membros do Bureau Político do CC do MPLA tinham Mercedes preto e os Comissários Provinciais e alguns directores das famigeradas UEEs tinham os Range Rovers, então os jipes de topo no mercado mundial. Os directores nacionais e chefes de departamento nacionais de ministérios, e dirigentes de empresas ou serviços desconcentrados dos ministérios tinham direito ao Fiat 128, que só tinham três cores: branca, verde e cor de laranja. Também a juízes, quadros superiores de empresas e a alguns professores universitários foram distribuídos os 128. Na Sonangol proliferava o Volkswagen carocha amarelo.
As Renaults 4 montadas em Angola, e os “Zedus”, nome como foram carinhosamente baptizados os Volkswagen carochas importados do Brasil, foram substituindo paulatinamente a “Fiatocracia” instalada, que iniciaram outro período na história do veículo importado em Angola, que curiosamente tem acompanhado as mutações políticas e o modelo económico do País ao longo destes trinta e cinco anos.
Como um parque automóvel faz a história de um País!

Fernando Pereira
26/01/10

23 de dezembro de 2009

Engenheiros de Almas? / Ágora/ Novo Jornal/ Luanda/ 23/12/09




Estamos nataliando, e esperava-se provavelmente uma crónica à volta de renas, pais natais, presépios, cabazes, doçarias, bacalhaus e outras vitualhas, adaptadas às circunstâncias do desenvolvimento e inerente envolvimento!
Hoje o tema é sobre uma situação que trouxe em polvorosa algumas pessoas, meios políticos e culturais do País, por João de Melo, ter vencido o prémio de Literatura e Artes atribuído pelo Ministério da Cultura em 2009.
Quero fazer desde já uma declaração prévia de interesses: Sou amigo de João de Melo. Foi meu colega de turma vários anos no Salvador Correia, percorremos juntos locais de Coimbra enquanto estudantes, fui seu colaborador regular no “Correio da Semana”, sou admirador da sua obra literária, e acompanho com entusiasmo qualquer projecto onde participe, pois habituei-me a dimensionar a o seu civismo impoluto.
Acho que João de Melo há muito que merecia este prémio, e não o digo por simpatia, mas porque acho que é um dos escritores angolanos com obra solidificada e com leitores fiéis, sem ter procurado colocar-se em bicos de pés, ou na busca quase doentia de protagonismo a qualquer preço, para se promover, como há exemplos suficientes na escrita doméstica e exportada.
João de Melo, foi sempre uma pessoa discreta, simultaneamente sagaz e hábil na construção das palavras assertivas, num espaço de intervenção política que sempre foi seu, geneticamente herdado, e militantemente afirmado. Nunca foi pessoa a quem se pedissem meias-palavras, penumbras lógicas e matizes indecisas. Foi deputado pelo seu MPLA de sempre, e se hoje faz parte dos quatro milhões de militantes (?), houve momentos em que ele era militante e à sua volta estavam apenas quatro múltiplos de cem, depois 4 múltiplos de mil e por aí fora, até não termos uma praça em lado nenhum para juntar tanto militante, tanta divergência ideológica, política, religiosa, económica e étnica num quadro muito difuso de “socialismo democrático”, ou “partido de esquerda”, matrizes tão enfatizadas recentemente no VI Congresso do MPLA.
Viriato da Cruz merece este prémio, mas antes disso merecia que não fosse tão ostracizado da memória colectiva dos angolanos, e do próprio MPLA, movimento que fundou e liderou.
Não conheci Viriato da Cruz, e sempre que tentei saber algo sobre ele, vi barreiras demais, o que ainda aumentava o número de interrogações. O que conheci primeiro dele, foram os seus poemas, e acho que ele há-de vir a ser Prémio Nacional de Literatura e Artes, mas tenho a convicção que primeiro é necessária uma catarse, para que Viriato da Cruz não continue a ser ignorado pelos angolanos, e que o seu papel na história de Angola e da sua libertação seja relevado da forma solene, com dignidade, e que Angola se obrigue a olhar para as pessoas que lutaram e acreditaram nela como País, de uma forma reverente.
Em síntese, é indiscutível o merecimento de João de Melo pelo prémio, como é indiscutível que é urgente dignificar Viriato da Cruz, independentemente de percursos descontinuados em determinadas circunstancias.
Angola necessita pouco de “Engenheiros de Almas”, como Estaline chamava aos intelectuais e jornalistas em 1936, e este episódio da atribuição do prémio, ainda vai deixando pairar que não terão findado alguns tiques de ortodoxia dispensável, pelo menos nestes casos. Acabou por ser levado para um campo falacioso, e só algum bom senso manteve a dignidade do prémio, premiados e júri, que mereciam pouco esta exposição pública, pelo menos da forma como aconteceu.
Quis comparar-se, e mal, diga-se de passagem, a atribuição do prémio Camões, e recusado por Luandino Vieira. As razões aduzidas não tinham comparação nenhuma com este caso, e se querem manter o argumento, não deixem de se lembrar que quando Luandino recusou, o prémio foi entregue ao extraordinário Luis Miguel Cintra, um dos melhores actores do teatro e cinema português, encenador emérito e fundador em 1973 do Teatro da Cornucópia. Pode-se dizer que um ao recusar e o outro ao aceitar, equivaleram-se em prestígio, pois são ambos excelentes, e nenhum deles perdeu as qualidades com que foram distinguidos.
Um bom “Dia da Família” para quem vai tendo paciência de me ler.
Fernando Pereira
15/12/09
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