13 de agosto de 2026

O SÉCULO DOS IMBECIS / O Interior /12-8-2026

 



O SÉCULO DOS IMBECIS

Já há uns tempos a esta parte que sinto que ando com pouca vontade de escrever.

                Continuo a gostar de ler, e faço-o cada vez mais e vou deixando de ouvir notícias, comentadores e um conjunto de pessoas que vão “palrando” sobre o que vai acontecendo no nosso quotidiano.

                Henry James disse que “todas as pessoas na velhice consumam o milagre da alteração do ponto de vista”, e nos meus provectos setentas acho que é exatamente assim.

                Vivemos tempos que nunca pensei viver, mas talvez Moliére tivesse razão quando terá dito que “vivo de boa sopa, não de boas palavras”. Continuo a achar que o futuro será bem melhor que o passado para a maioria das pessoas, e é essa esperança legítima que nos faz olhar para o futuro com os olhos de quem os vai viver, que não é exatamente o meu caso e que espero que o meu ocaso seja o mais tardio possível.

                Estamos na fase do politicamente correto, que para mim sempre foi pegar num monte de merda pelo lado mais limpo. Mas é o tempo que se vive. Sobre isto faz-me lembrar uma máxima de Luis Fernando Veríssimo: “o futuro era muito melhor antigamente”.

                Quando ligo a televisão, ouço a rádio ou leio a imprensa só vejo paladinos da seriedade e da probidade. Cada um que comenta, escreve e alardeia lugares comuns com nós de gravata esmeradamente feitos são verdadeiras personagens imaculadas. Erro meu pensar que a única imaculada que conhecia era mesmo uma tal Senhora!

                Vejo gente que nunca na vida pediram que não se cobrasse o IVA, para que determinado serviço saia mais barato, que nunca tivesse metido uma cunha para uma consulta num hospital, que nunca pedisse o favor de interceder por um emprego para um familiar, que nunca tivesse transgredido no transito, que nunca por aí fora até não haver situações para que o nunca acabe.

                Eu quero fazer uma prévia declaração de interesse, não estou nos que falei em cima, nem nos que irei falar em baixo. Sou quase um incomum, pelos vistos quase sozinho no pecaminoso e ocasionalmente na pequena transgressão.

                O que se assiste na comunicação social é um espetáculo degradante protagonizado por muitos que deviam ser os primeiros a evitá-lo. Neste coro de hipocrisia desmedida vem-me à memória uma carta de Filipe II de Espanha (legitimamente Filipe I de Portugal) sobre os portugueses: “Sofrem mais com Ventura alheia, do que com a dor própria”.

                Nenhum daqueles jornalistas ou comentadores fala no que é importante para os portugueses, como o derrapar de dinheiros em obras publicas que nunca cumprem prazos, nas dívidas acumuladas pelos serviços públicos a fornecedores, os ordenados a administradores e gestores da coisa pública, a inércia de serviços e por aí fora até que se esgotassem temas importantes.

                O jornalista ou comentador “independente”, do alto da sua verve sem mácula é muitas vezes alguém que já foi assessor de ministro, dono de um gabinete de imagem de um determinado político, ministro, secretário de estado, habitué em caravanas presidenciais ou ministeriais com tudo à tripa forra, e outras “mordomias” que  vão caindo aqui e ali, e o pequeno favor que se vai fazendo neste vale de lágrimas na comunicação social, onde o olho atento dos “citizen kane” domésticos se vão mantendo indiscretos enquanto os “cretos “ fazem todo o trabalho para colocar a gente a discutir trelas e atrelas, para ir fazendo o trabalhinho para a extrema direita florescer.

                Acho que não tenho razões para estar desiludido com o que quer que seja. Iludido às vezes, mas é sinal que entre os que nos  querem iludir há bons profissionais.

                João César Monteiro, in Recordações da casa amarela. “A idade não conta. O que conta são os sentimentos das pessoas. Tenho mais idade que sentimentos. É a minha maneira de ser idoso”.

                O título desde arrazoado é o de um livro de Valter Hugo Mãe, que me foi oferecido recentemente. Tem pouco a ver com o texto? Não sei, vou começar a lê-lo!

 

Fernando Pereira

 31/7/2026

                

Sem comentários:

Related Posts with Thumbnails