Mostrar mensagens com a etiqueta #Interior. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta #Interior. Mostrar todas as mensagens

13 de agosto de 2026

O SÉCULO DOS IMBECIS / O Interior /12-8-2026

 



O SÉCULO DOS IMBECIS

Já há uns tempos a esta parte que sinto que ando com pouca vontade de escrever.

                Continuo a gostar de ler, e faço-o cada vez mais e vou deixando de ouvir notícias, comentadores e um conjunto de pessoas que vão “palrando” sobre o que vai acontecendo no nosso quotidiano.

                Henry James disse que “todas as pessoas na velhice consumam o milagre da alteração do ponto de vista”, e nos meus provectos setentas acho que é exatamente assim.

                Vivemos tempos que nunca pensei viver, mas talvez Moliére tivesse razão quando terá dito que “vivo de boa sopa, não de boas palavras”. Continuo a achar que o futuro será bem melhor que o passado para a maioria das pessoas, e é essa esperança legítima que nos faz olhar para o futuro com os olhos de quem os vai viver, que não é exatamente o meu caso e que espero que o meu ocaso seja o mais tardio possível.

                Estamos na fase do politicamente correto, que para mim sempre foi pegar num monte de merda pelo lado mais limpo. Mas é o tempo que se vive. Sobre isto faz-me lembrar uma máxima de Luis Fernando Veríssimo: “o futuro era muito melhor antigamente”.

                Quando ligo a televisão, ouço a rádio ou leio a imprensa só vejo paladinos da seriedade e da probidade. Cada um que comenta, escreve e alardeia lugares comuns com nós de gravata esmeradamente feitos são verdadeiras personagens imaculadas. Erro meu pensar que a única imaculada que conhecia era mesmo uma tal Senhora!

                Vejo gente que nunca na vida pediram que não se cobrasse o IVA, para que determinado serviço saia mais barato, que nunca tivesse metido uma cunha para uma consulta num hospital, que nunca pedisse o favor de interceder por um emprego para um familiar, que nunca tivesse transgredido no transito, que nunca por aí fora até não haver situações para que o nunca acabe.

                Eu quero fazer uma prévia declaração de interesse, não estou nos que falei em cima, nem nos que irei falar em baixo. Sou quase um incomum, pelos vistos quase sozinho no pecaminoso e ocasionalmente na pequena transgressão.

                O que se assiste na comunicação social é um espetáculo degradante protagonizado por muitos que deviam ser os primeiros a evitá-lo. Neste coro de hipocrisia desmedida vem-me à memória uma carta de Filipe II de Espanha (legitimamente Filipe I de Portugal) sobre os portugueses: “Sofrem mais com Ventura alheia, do que com a dor própria”.

                Nenhum daqueles jornalistas ou comentadores fala no que é importante para os portugueses, como o derrapar de dinheiros em obras publicas que nunca cumprem prazos, nas dívidas acumuladas pelos serviços públicos a fornecedores, os ordenados a administradores e gestores da coisa pública, a inércia de serviços e por aí fora até que se esgotassem temas importantes.

                O jornalista ou comentador “independente”, do alto da sua verve sem mácula é muitas vezes alguém que já foi assessor de ministro, dono de um gabinete de imagem de um determinado político, ministro, secretário de estado, habitué em caravanas presidenciais ou ministeriais com tudo à tripa forra, e outras “mordomias” que  vão caindo aqui e ali, e o pequeno favor que se vai fazendo neste vale de lágrimas na comunicação social, onde o olho atento dos “citizen kane” domésticos se vão mantendo indiscretos enquanto os “cretos “ fazem todo o trabalho para colocar a gente a discutir trelas e atrelas, para ir fazendo o trabalhinho para a extrema direita florescer.

                Acho que não tenho razões para estar desiludido com o que quer que seja. Iludido às vezes, mas é sinal que entre os que nos  querem iludir há bons profissionais.

                João César Monteiro, in Recordações da casa amarela. “A idade não conta. O que conta são os sentimentos das pessoas. Tenho mais idade que sentimentos. É a minha maneira de ser idoso”.

                O título desde arrazoado é o de um livro de Valter Hugo Mãe, que me foi oferecido recentemente. Tem pouco a ver com o texto? Não sei, vou começar a lê-lo!

 

Fernando Pereira

 31/7/2026

                

10 de abril de 2026

A casa eo ocaso/ O Interior/ 8-04-2026

 


A Casa e o Ocaso

“A guerra é uma coisa que não se entende, uma coisa que não se vê, mas que se sente em cada esquina”

Cartas de Guerra, António Lobo Antunes.

 

                No quase limiar dos meus setenta anos, quando julgava que já tinha visto tanto que me agradasse ou não, surge algo de novo nos tempos tristes que vivemos quando entramos no segundo quarto de século do milénio.

                Vivem-se tempos em que a irracionalidade parece ter tomado conta do discurso político e a prática do opróbrio passou a ser quase um estado de normalidade comportamental.

                Sentimos que o mundo se começa a assemelhar às traseiras de um circo, onde os malabaristas e o ar fétido dos dejetos dos animais se misturam num ambiente em que a musica, as lantejoulas e o brilho das luzes ofuscam a realidade lúgubre dos bastidores.

                Nem vale a pena falar do que se vê, do que se ouve, do que se comenta e acima de tudo se aceita quotidianamente com toda a naturalidade quiçá como se fosse normalidade.

                Uma das preocupações domésticas é a continuada crise de habitação nas grandes cidades, afinal algo que é o mote dos problemas desde os tempos da primeira República. Um problema com mais de um século em que raras vezes terá havido propostas sérias para se resolver ou minimizar o problema.

                Quando António Costa foi empossado primeiro ministro pela primeira vez foi na sua verve repescar uma medida de Duarte Pacheco, político dos anos 30/40 precocemente desaparecido, que no seu trabalho enquanto Presidente da Camara Municipal de Lisboa e ministro das Obras Publicas de Salazar revolucionou o parque habitacional do País. O que foi feito foi um plano de entrega de terrenos a construtores, com o dinheiro de mutualidades, caixas de socorro, fundos de pensões de militares, misericórdias e outras estruturas para se construírem bairros para a pequena-burguesia que vivia o drama que hoje afeta até a média burguesia urbana, que é a impossibilidade de pagar uma renda ou um empréstimo para uma habitação digna. António Costa propunha que o fundo de pensões da Segurança Social, que tem que ser investido, algo que é feito em todo o mundo, fosse direcionado para a construção de habitação a custos controlados, com apoio de terrenos do Estado Central e das autarquias. Não se fez rigorosamente nada, e tem sido tomadas medidas avulsas, que em nada alterou o status-quo prevalecente.

                Quando olhamos para a quantidade de edifícios públicos abandonados é assustadora a realidade. Devia ser por aí que começaria a revitalização do parque habitacional, aliado à posse administrativa das autarquias de edifícios abandonados por particulares. Tudo isso é muito bom no discurso, mas ultrapassar as quintinhas de cada estrutura a nível central e autárquico é muito difícil porque exige um esforço, que a languidez da estrutura funcional da administração local e central não estão dispostas a fazer.

                Esperar que o mercado regule a questão da habitação é mais uma falácia, porque na realidade é isso que tem acontecido até hoje e os resultados estão à vista.

                Não podemos assistir à leviandade com que a habitação social é tratada por uma conivência entre quem utiliza, quem tem que fazer as regras e quem se obriga a fiscalizá-las. Habitantes de casas que não pagam rendas anos sucessivos, que as subalugam, que tratam as áreas comuns como se fossem espaços sórdidos que não são pertença de ninguém e por aí fora.  Podia elencar aqui um conjunto de problemas, muitos deles só o são porque descumprem-se as regras por parte de quem tem que as fazer cumprir.

                Era um debate grande, mas ninguém o quer fazer e acham que a rua vai alterar o que que seja, porque o problema é mesmo este, demasiadas casas vazias e demasiadas opções vazias nas políticas de habitação.

                “Não há nada de tão absurdo que o hábito não torna aceitável” Marco Túlio Cícero

 

 

Fernando Pereira

22/3/2026

14 de agosto de 2025

A rua caiu no poder?

                                                                         


                                            

                                                A RUA CAIU NO PODER?

“O que o rebanho mais odeia é aquele que pensa de forma diferente, não é tanto a própria opinião, mas a audácia de pensar por si mesmo, algo que eles não sabem fazer” Artur Schopenhauer.

                Aqui há uns dias “caí na sopa” num grupo de companheiros de jantar de um amigo. Era gente que falava alto, que assumia a autoridade sobre tudo que se passava na mesa, no País e no mundo. A comer havia tiques omnívoros.  O denominador comum nas conversas na mesa era sobre “a desonestidade dos políticos”.

                A indignação subia de tom com a passagem repetida de jarras de vinho pela mesa. Como se perceberá eu estava condicionado porque as minhas relações com a maioria dos do grupo cingiam-se ao educado bom dia ou boa tarde.

                Enquanto se discutiam as malfeitorias dos governantes e autarcas íamos assistindo a um jogo numa TV, e presumi que estávamos a ver à borla num aparelho qualquer de TV pirata, porque segundo as palavras do dono do aparelho “não alimentava chulos”.

                Entre partes e apartes fui constatando que uns e outros iam metendo umas cunhas para agilizarem alguns pendentes, que um cidadão comum sem acesso a “influentes” teria dificuldade em ver resolvidos. Claro que a gratidão por ver a coisa tratada seria objetivada no futuro em algo tangível, ou na troca de favores.

                Cada vez era maior a raiva à impunidade dos políticos perante coisas que apareciam em letras garrafais com títulos apelativos à “justiça popular” de cidadãos, que em certas circunstâncias me fazem lembrar a labreguice dos meus companheiros de deglutição de um jantar que só por ter apanhado uma boleia me desconfortou manter-me até ao fim.

                As redes sociais são a caixa de sonância e ressonância de tanto “justiceiro”. Todos denunciamos e anunciamos patifarias, exceto as nossas e dos de quem gostamos. Vou dar um exemplo caricato q.b. de uma determinada situação: Aqui há uns anos uns técnicos de saúde foram condenados por burla ao SNS. As televisões ávidas de reproduzirem até à exaustão montaram um acampamento à porta do tribunal. Pasme-se que passados uns anos “tropeço” nas redes sociais num dos que foram condenados nessa situação e indignado contra os políticos porque defraudam sistematicamente o estado perante o assobiar para o lado da justiça. Um verdadeiro recuperado!

                O calor dilata muita coisa, as redes sociais e a imprensa coscuvilheira fazem pior e a sociedade tem que se conformar com novos espaços de julgamento.

                Para recordar tempos idos aqui está uma das muitas pérolas do almirante Tomaz, o último presidente da ditadura: “Comemora-se em todo o país uma promulgação do despacho número Cem da Marinha Mercante Portuguesa, a que foi dado esse número não por acaso, mas porque ele vem na sequência de outros noventa e nove anteriores promulgados...”

                Começar com Schopenhauer e acabar com Américo Tomaz mostra bem o estado a que se chegou.

                Veraneiem-se muito!

Fernando Pereira

9/8/2025

10 de abril de 2025

A Pílula do dia seguinte / o Interior / 9/4/2025

 

                                                    


A Pílula do dia seguinte

“A mentira constante não serve apenas para enganar—seu verdadeiro propósito é destruir a própria noção de verdade. Quando um povo já não consegue distinguir entre o real e o falso, também perde a capacidade de discernir entre o bem e o mal. E um povo assim, desarmado do pensamento crítico, torna-se presa fácil para qualquer poder que deseje controlá-lo.” (...)Hannah Arendt, in "A mentira como ferramenta de poder"

Há umas décadas, no dealbar da independência de Angola, por razões de serviço tive que fazer uma viagem de serviço a uma povoação no centro-sul do País, que uns anos antes era um florescente entreposto de cereais do Caminho de Ferro de Benguela. Ao tempo essa vila, Longonjo, estava num perfeito estado de abandono, e o último comboio já tinha ali passado há 3 anos (Uma linha da Beira Alta antecipada), e não tornaria a passar nos 25 anos seguintes. Os trabalhadores do CFB sentavam-se a cumprir o horário “inventando coisas novas”, frase roubada ao meu amigo, o escritor Manuel Rui Monteiro dos “Meninos do Huambo”.

                Estive lá três vagarosos dias, num ermo e alojado numa pensão restaurante, de muito má qualidade e ainda por cima sujeita a faltas de produtos de manutenção ou até de apoio a mínimos para a despensa e concomitantemente para a mesa do hóspede único, que era eu. O dono era um português idoso de uma terra entre Moncorvo e Freixo Espada à Cinta, com a sua mulher que também era desses sítios. Ao som do pálido petromax, digo-o porque a luz transformava as nossas caras em bonecos de cera e o som era um silvar constante. Como havia pouco que partilhar, quer comida quer bebida íamos falando de tanto que aconteceu, acontecia e aconteceria. A única coisa certa foi mesmo o que aconteceu. A determinada altura, quando lhe perguntei porque ficou em Angola, naquele ermo, só com a mulher, longe dos filhos, amigos e outros entes queridos ele respondeu-me: “Sabe camarada Fernando, era assim ao tempo o tratamento quotidiano a na então República Popular de Angola, eu tenho um lápis e uma orelha. Pegou no lápis e pendurou-a na orelha, e disse a cobra não tem orelha, portanto não tem onde guardar o lápis. Pedi-lhe que me explicasse, e ele disse que tinha nascido com orelha para pôr lápis e as cobras eram os outros que comiam tudo, e quando não tivessem que comer começavam a comer a própria cauda até acabarem por morrer. O do lápis na orelha ia-os vendo morrer e comerem-se! No fim ele diz: Esta terra sem os dos lápis nas orelhas é um ofidiário tormentoso!

                Toda esta história que tenho contado repetidas vezes talvez tenha a ver sobretudo sobre tanta coisa que aceleradamente estamos a assistir em Portugal e no Mundo. Já tenho idade para ter visto muita coisa e o seu contrário, mas sinceramente nunca me lembro de ver as estrelas tão alinhadas para que tanta coisa má aconteça, e o dramático é que são os sem orelhas que nos tentam dar a receita de como vai ser o nosso futuro.  Os do lápis na orelha são marginalizados e calados.

                Vamos muito em breve para a primeira de três eleições no período de um ano. E volta a estafada teoria da necessidade de se votar útil para derrotar uma qualquer inutilidade política. Eu sempre votei útil, de acordo com a minha consciência, e sem andar a ver se uns são melhores, assim-assim, piores, mas melhores que outros que são muito maus e por aí forma. Se o meu voto, que não tem muita companhia não conta para colocar deputados nacionais, deputados municipais, vereadores a culpa não é minha, é sobretudo de um sistema que se está borrifando para as minorias. Continuam a legitimar e a promover alguns, que deveriam estar a fazer voluntariado em alguns museus, porque muito do acervo é do seu tempo. Mas não é assim, ei-los com aquele ar circunspecto a dizerem banalidades, com a autoridade que o País, a Europa e o mundo estejam à espera de saber se a posição política deles é em decúbito ventral ou dorsal. Mais uma vez vou votar útil, mesmo que isso não me traga representação nenhum (Olhem que nos Açores e na Alemanha todos os votos contam)

                Para acabar que já vai longo recomendo que façam como eu e peguem no livro “Sim Senhor Primeiro Ministro” de Jonhathan Lynn e Antony Jay. Eu estou a relê-lo mais uma vez!

                Quem estiver empenhado na campanha, aproveite e leia os livros das intervenções parlamentares dos deputados eleitos pelo distrito da Guarda, no ultimo ano e porque não pegar nos livros dos deputados eleitos há mais de 30 anos. Era um excelente exercício.

                E em Maio saberemos quem toma a pilula do dia seguinte!

                Já agora, comemorem como puderem o 25 de Abril de 1974. Essa data sim, merece respeito!

 

Fernando Pereira

7/4/2025

               

16 de dezembro de 2023

"Felizmente, há luar"/ O Interior 14/12/2023

 

                                                        


                                     "Felizmente, há luar"

Nelson Rodrigues é provavelmente um dos nomes maiores da escrita brasileira do século XX. Truculento quanto baste, polémico quase sempre, de direita assumido e democrata de corpo inteiro deixou reflexões numa obra que foi recentemente reeditada em Portugal e que merece leitura atenta.

                “A opinião deixou de ser um acto pessoal, uma posição solitária, um gesto de orgulho e desafio. É o jornal, é o rádio, é a televisão, é o anúncio, é o partido que pensa por nós. Há sujeitos que nascem, envelhecem e morrem sem ter jamais ousado um raciocínio próprio. Há toda uma massa de frases feitas, de sentimentos feitos, de ódios feitos.” Estas palavras de Nelson Rodrigues tornaram-se um eco comum numa sociedade que seria “tendencialmente de liberdade”.

                Vivem-se momentos nebulosos no quotidiano do país, embora não queira afirmar que se chegou ao estado em que o imorredoiro João César Monteiro dizia: «A primeira condição para se ser ministro da Cultura, neste país, é distinguir uma vaca de um boi.»

                Quando se esperava serenidade no governo do País, o António Costa e o Marcelo Rebelo de Sousa fizeram o que normalmente se diz juntar a fome com a vontade de comer. Um porque queria o protagonismo e os rodriguinhos que sempre foram o quotidiano do seu percurso pessoal e político, e o outro porque estava farto de não se conseguir ver livre da teia que montou, e que poderia ser um obstáculo perigosos para a sua mais que evidente vontade de candidatar a Belém.

                Esta demissão inesperada deixou os putativos candidatos a primeiro-ministro numa situação e desorientação, pois as contas estavam a ser feitas a um ritmo lento. Sairiam das eleições europeias as lideranças de pesos pesados, embora se saiba que na prática a governação de alguma gente desta tenha mais resultados pesados do que o peso que levavam.

                O combate político que se avizinha, que não é bem isso, será consequência de uma luta nos aparelhos partidários e não de propostas concretas num País que não é tão mau como a maioria dos portugueses o pinta, nem tão bom quanto os governantes e responsáveis nos querem fazer crer.

                Hoje como ontem o Bloco Central de interesses continuará no seu afã de domesticar a democracia, depois do Partido Socialista ter esvaziado uma esquerda que talvez lhe venha a fazer falta quando chegar a hora das contas. O PSD no seu desnorte quotidiano continua a fazer a figura de um elefante fechado numa loja de louça, vendo uma extrema-direita trauliteira e nalguns casos niilista, repetindo um discurso de moscambilhas com uma histeria que vai de encontro ao que as pessoas querem ouvir, com grande apoio de uma comunicação social ávida de situações de crime de faca e alguidar transportadas para o politiqueiro quotidiano.

                Estamos mal, estaremos pior, mas é da vida. Tenho pena que nos 50 do 25 as coisas estejam assim, mas “pelo sonho é que vamos”, como dizia Sebastião da Gama.

                Porque estamos numa época festiva, não quero deixar de vos desejar Boas Festas, e deixar esta do João César Monteiro em “Uma semana noutra cidade”: São 10 da noite. Estou a escrever no Monte Carlo, onde só há homens. Precisava de apanhar o Fernando para lhe cravar umas aguardentes. É meu desejo estar completamente grosso por volta da meia-noite e com o espírito propenso à obscenidade. Se arranjasse 100 paus ia às putas. Deve ser fabuloso ir às putas na noite de Natal. Duvido é que haja alguém que esteja para me aturar a bebedeira por 100 paus.
"Não estamos em Itália, não há grappa alla ruta, não há comoções nocturnas da Zé, não há nada. Nem sequer o direito ao vómito. Não há nada, mas ainda há vida. Ainda estrebucho, minha senhora. Ainda digo merda e embarco no tudo ou nada do amor. Ainda me jogo inteiro no real e no possível, no confronto entre o que sou e o que podia ser. Ainda simpatizo (ao longe é certo) com as lutas históricas do proletariado de todo o Mundo.”

 

Fernando Pereira

11/12/2023

8 de março de 2023

ESCREVER NA ÁGUA / o Interior / 8-3-2023

 


ESCREVER NA ÁGUA

 

“Há sempre qualquer coisa que está para acontecer, qualquer coisa que eu devia perceber”

José Mário Branco “Ser Solidário”.

 

Há mais de quarenta anos que escrevo em jornais, revistas e em publicações diversas. Durante anos fui um profissional da imprensa, e nunca deixei de exprimir as minhas opiniões, apesar de por vezes as circunstâncias não serem as mais favoráveis para se escrever de acordo com o muito que havia para mostrar. É a vida!

Continuo sem saber exatamente o que se passa na transferência de competências da administração central para os municípios, e acima de tudo gostava de perceber como é que algo que vai mexer com tanta gente, alterar status quo prevalecente consegue ser ignorado entre os pingos da chuva de uma informação cada vez mais marcada pelo sensacionalismo e por agendas abastardadas por interesses que tem tudo menos a ver com o interesse público.

A transferência de competências tem trazido muitos problemas no País todo a pessoas, associações, IPSSs, municípios, etc. Não parece trazer à administração central que cada vez alija mais as suas responsabilidades para outros, num eufemismo do tipo de “espírito descentralizador”, “aproximar as estruturas dos cidadãos”, e outras estultices do tipo.

Nada disso. Perceber-se-ia o espírito mas quando se promove esta atabalhoada e rudimentar transferência esquecem-se dos recursos que existem, e o pior é que evitam lembrar-se que há recursos suplementares que tem que ser entregues para que os serviços transferidos funcionem, e que depois não andem nos habituais jogos de troca de acusações quando as coisas correrem mal, e tem tudo para correr muito mal.

Os professores, uma profissão indispensável em qualquer sociedade de exigência, tem estado na luta pelos seus direitos. No essencial estou de acordo, mas recuso-me a aceitar que uma das reivindicações seja não aceitar a municipalização do ensino, algo que já acontece na maioria dos países da EU. O argumento é algo torpe para com estruturas do poder local, de grande importância na Constituição da República de 1976, e reconhecidamente como fator de desenvolvimento da democracia e da liberdade.

O anátema que colocam sobre as autarquias é aviltante, porque infelizmente também há compadrio e corrupção na administração central, empresas publicas ou participadas pelo estado, pelo que o que acontece nas Camaras é só a extensão de tudo o resto. Os professores, que são respeitados pela grande maioria da população não devem partilhar as ideias de grupos de pessoas detratoras do estado democrático, e devem exigir que a sua luta seja para que as estruturas onde assenta a democracia sejam transparentes e organizadas.

Sobre os recentes desenvolvimentos da pedofilia da ICAR nada de novo e também sei que o futuro próximo vai tudo ser ungido com santos óleos e as mãos lavadas com água benta. O exemplo do PR a “engolir” o anel cardinalício não indicia nada a preceito. Há muitos anos que é assim.

Recomendo sobre o assunto o filme Spotlight - Segredos Revelados, de 2015, em que o tema são os abusos sexuais e pedofilia na Igreja dependente do Cardeal de Boston. Os jornalistas do “The Boston Globe” foram premiados com o prémio Pullitzer, neste grande trabalho de investigação que abalou a Igreja Católica nos EUA e no Canadá no dealbar do seculo XXI. Um dos melhores trabalhos de investigação do jornalismo recente, e que teve consequências invulgares num sórdido esquema de violação e pedofilia que a ICAR faz há seculos, sem que haja uma punição exemplar que possa dar exemplo que provavelmente há um estado laico a funcionar.

Como dizia um “trânsfuga” do Seminário do Fundão, o beirão Vergílio Ferreira: “Somos um povo de analfabetos. Destes há alguns que não sabem ler”.

 

Fernando Pereira

5/3/2023

14 de dezembro de 2022

Bonitas palavras não engordam gatos! / o Interior 14-12-2022

 




Bonitas palavras não engordam gatos!

 

O meu saudoso companheiro de algumas horas boas que vivi, o Ruy Duarte de Carvalho, um dos mais brilhantes escritores da lusofonia, tem uma frase que vai fazendo o meu quotidiano, e que é tão útil nos tempos que desvivemos: “Há o que vi porque mo disseram, há o que vi sem mo terem dito, há o que conto e o que não conto”!

Vivemos tempos estranhos e simultaneamente entranhos, porque estamos perante uma realidade que tem um léxico ficcionalmente otimista e exageradamente enganoso.

Perante um conjunto de problemas que nos vão afetando a todos, na saúde, na educação, nos transportes, nas respostas sociais entre outros assiste-se a uma verve de tantos milhões que às vezes não sei se estou em Portugal ou trancado no cofre forte do tio Patinhas, uma das detestadas figuras do delator Walt Disney.

Acho que o que se está a assistir acaba por ser kafkiano, porque me parece estarmos com um discurso político de euforia por parte dos que dirigem, quando no terreno a realidade é muito diferente e os problemas avolumam-se sem que haja respostas locais. Em muitos sectores da atividade económica e social há verdadeiros dramas, e quando os dirigentes são confrontados com falta de recursos, por incumprimento do Estado as pessoas pouco conhecedoras desafiam a mostrar os milhões apregoados todos os dias nas parangonas da imprensa ou redes sociais.

Enquanto se conseguir estancar  a montante, tudo vai correndo na perfeição do discurso do otimismo e as situações desagradáveis que se vão desenvolvendo, sempre vão tendo a desculpa dos danos causados por uma guerra que veio mesmo a calhar numa altura em que se anteviam momentos difíceis na União Europeia e no tal mundo globalizado que deixámos construir!

Confesso que faço minhas as palavras do Millor Fernandes, escritor brasileiro recentemente falecido: “O desespero eu aguento. O que me apavora é essa esperança”!

Cada vez temos menos respostas para tudo aquilo que julgámos adquirido, e alguma falta de recato de quem nos dirige, traz em cada vez mais sectores da população uma vontade de mudar para quem lhe oferece tudo que não lhe pode dar, na proposta de alterar os princípios da democracia!

A estupidificação começou com a concorrência entre canais de televisão e generalizou-se através do uso das redes sociais, onde prolifera a devassa, a ignorância e a altivez de tantos, local ideal para denegrir instituições e pessoas que são gente valorosa e que lutam ou lutaram pela democracia e liberdade.

            É nestas alturas que me recordo sempre de uma ideia de Umberto Eco. O escritor e filósofo italiano apontou uma característica às redes sociais, que dão o direito à palavra aos "imbecis que antes apenas falavam nos bares, depois de uma taça de vinho, mas sem prejudicar a coletividade". Acrescentou Umberto Eco que "normalmente, eles eram imediatamente calados, mas agora têm o mesmo direito à palavra que um Prémio Nobel".

Esta ideia de Umberto Eco, que também foi uma autoridade no campo da semiótica, foi lançada em 2015. Já lá vão uns anos. Mas o escritor fez questão de acrescentar a seguinte ideia: "Antes das redes sociais, a televisão já havia colocado o 'idiota da aldeia' num patamar em que este se sentia superior. O drama da Internet é que ela promoveu o “idiota da aldeia” a detentor da verdade", disse Umberto Eco quando um recebia mais um prémio na sua prestigiada carreira. (José Abranches).

 

Resta-me desejar umas Boas Festas e um Bom dia da Família a quase todos!

 

 

 

Fernando Pereira

10/12/2022

 

 

 

15 de setembro de 2022

Au revoir Silvye! /O Interior /13-09-2022

 




Au revoir Silvye!

 

“E setembro chegou/ vamo-nos separar/o Verão terminou/diremos au revoir/ela vai pra Paris e eu vou ficar/ Vou ficar infeliz e Sylvie vou lembrar.”

Esta canção surgiu nos anos sessenta pela voz imorredoira do saudoso “Duo Ouro Negro”, e rapidamente entrou pelos ouvidos dos cidadãos desses tempos, que a cantavam com grande entusiasmo. Tinha um estribilho simples e que não causava engulhos às zelosas autoridades de então.

Lembrei-me desta canção porque Setembro chegou e acabou o Verão, com a rentrée política dos partidos, com os lideres e o resto da malta com um bronzeado interessante a falarem do futuro de todos, do dos outros, tudo em abono do seu próprio.

Julho e Agosto foram sempre meses de ciclismo de estrada, com entusiasmo no acompanhamento das voltas, as festas, as romarias e os pasme-se, os incêndios!

Há muitas décadas, das muitas que começo a ter, que vou assistindo aos incêndios, uns com maior intensidade, outros com menos, mas sempre tema recorrente na agenda dos políticos nesta altura do ano.

Ao longo das décadas o incêndio tem sempre culpados; Antes do 25 de Abril eram os terroristas, depois de 1974 passaram a ser os comunistas, que queriam o País queimado, depois os madeireiros, entretanto a culpa passou a recair nos pastores, anos depois nas celuloses, e entre outros culpados de menor expressão, o aquecimento global.

Não pretendo ser mais um especialista em fogos, que muitas vezes são os mesmos que discutem na imprensa pandemias, guerra na Ucrânia, SNS, e a partir deste último fim de semana mortes de reis, valetes e damas!

Durante uns dias o interior de que ninguém fala durante o ano inteiro e que o País real só sabe que é um território vasto para lá de Vila Franca de Xira é notícia porque está a arder.

Aí aparecem as soluções de sempre para que tudo normalmente fique na mesma, e muitos debitam opiniões no mínimo ridículas para quem vive o quotidiano destas regiões o ano inteiro. A culpa é do eucalipto, dizem algumas mentes brilhantes, mesmo quando os fogos deflagram e desenvolvem-se onde não há uma única árvore dessas. A culpa é do pinheiro que é resinoso, mesmo que haja poucas espécies. O que é preciso é plantar azinheiras, carvalhos, sequoias ou mesmo liquidâmbar ou magnólias. Muita desta gente não sabe a diferença entre um freixo, um plátano, uma olaia, um choupo ou jacarandá. Mas as televisões dão-lhe voz e falam com uma autoridade tamanha, que só o desconhecimento total do entrevistador lhe permite o desfilar continuado de dislates.

No terreno uns pobres jornalistas, mal pagos e com o editor a exigir-lhes num quase “bulling” informativo, que insistam nas perguntas mais idiotas, num cenário de fumo, vento, desorientação perfeitamente justificada por parte das pessoas. Um verdadeiro serviço de calamidade pública é exatamente o que esta situação na informação merece ser referenciado.

Os bombeiros, gente de grande voluntarismo, e por vezes algum excesso de aventureirismo acabam por ser a parte mais fragilizada de tudo isto. A maior parte do equipamento disponível é para fogos urbanos aliada à deficiente preparação do quadro de pessoal que se reforça no Verão, acaba por resultar algumas vezes na incompreensão por parte dos que vão vendo os seus bens em perigo. Todos opinam, tratam-nos mal, mas na hora da aflição chamam-nos. Se um bombeiro porventura soubesse quanto ganha um militar numa missão no Kosovo ou no Mali por conta da ONU talvez pensasse duas vezes antes de responder com prontidão à sirene. Mas é da vida!

Acho que não são necessários relatórios, nem visitas de grupos de ministros ou secretários de estado porque tudo vai ser sempre igual, e cada Verão que temos vai arder o que ardeu há cinco anos, pois já há material combustível “recuperado” para o “espetáculo” incêndio, e por incúria ou crime a coisa repete-se. Nada a fazer!

Talvez seja eu que não percebo nada de fogos e sou irrealista, mas só vos digo que para o ano há mais!

 

 

Fernando Pereira

12/09/2022

 

 

 

 

 

8 de junho de 2022

DESALENTO / o Interior / Guarda 8-6-2022


 

DESALENTO

Os Monty Python não seriam admitidos na TV hoje, disse em 2008, Terry Jones, diretor e ator de um dos mais notáveis filmes do grupo, a “Vida de Brian”.

                Se ainda fosse vivo, Jones iria ainda sentir hoje quão atuais são as suas palavras, e pelo caminho que as coisas estão a levar a perenidade do que disse no fim do segundo lustro do século.

                Vive-se hoje num permanente estado de censura à opinião discordante do status quo prevalecente.  Chafurda-se no maniqueísmo absoluto em que ou se está com tudo que nos fazem crer que é verdade, ou contra a outra verdade que alguns podem acreditar que seja válida, mas que aos olhos do absoluto esta última é algo de herético ou demoníaco!

                Não são bons os momentos que vivemos, e não auguram nada de bom nos difíceis tempos que se avizinham.

                Vamos vivendo com as recordações de outros tempos onde a diferença e a tolerância eram fator de progresso, de estímulo, de liberdade e de democracia participada.

                Lord Acton é o autor da famosa frase: "O poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente”. Infelizmente é a verdade que as situações que nos criam obrigam, e  que a maioria ache que a inevitabilidade das poucas opções que existem sejam sempre produto de entidades difusas, que não tem nada a ver com os que mandam, que efetivamente só não repetem a estafada frase salazarenta que  “se soubessem quanto custa governar todos obedeciam”, e alguns que só a não dizem por pudor.

                Maquiavel sintetiza de certa forma os termos com que a política e a informação com que quotidianamente vamos vivendo: “Os poderosos criam dificuldades para vender facilidades”!

                Num tempo de “Guerra quente” em que se vive,  está-se perante uma invasão injustificada e ilegítima  de um autocrata a uma Ucrânia governada por um protagonista que aparece mais vezes a teatralizar do que a apresentar propostas que ajudem a resolver uma situação em que o seu povo será sempre o único sacrificado de obscuros interesses económicos e estratégicos que o transcendem.

                Não vou entrar em pormenores porque há especialistas a esmo, mas isto tudo tresanda-me a um jogo de interesses, a um realinhamento económico e a algo que não vai dar bom resultado, para a maior parte dos intervenientes, nomeadamente a obesa e abúlica União Europeia. Vai olhando para o seu umbigo com um olho e com o outro para os inimigos que os EUA lhes arranjam. O problema dos americanos é tentarem um “New Deal” requentado, onde falta provavelmente um homem da dimensão do Roosevelt, provavelmente o último grande presidente de um País que é bem mais que um continente, e que não deixa de ter aspirações de controlar o mundo.

                O invasor Putin, que curiosamente tem como único partido de oposição, o partido comunista com 20% na Duma, sabe que a Europa está de cócoras, sem um exército determinado a fazer valer a sua soberania e os seus interesses económicos, decidiu atacar de forma algo cobarde outra absurdocracia que é a Ucrania onde o Zelensky ilegalizou 11 partidos, desde a esquerda ao centro, um dos quais o social-democrata. Talvez tenha lido Gil Vicente: “ Mais vale um asno que me carregue do que um cavalo que me derrube”!

                Nesta guerra de informação de um sentido só, para onde enviam jornalistas sem conhecimentos e com a cartilha posta e imposta vai-se tentando moldar opiniões, sem tampouco saber que quando isto estiver a doer no quotidiano das pessoas, já não haja resposta para a propaganda, que é muito diferente de informação.

                Porque gosto de ser informado precisava de saber o que pensa e dizem os outros lados da guerra, mas isso foi-nos retirado de forma abrupta, e assim só há inimigos ou amigos, não nos dando a possibilidade de questionar se podemos nem estar de um lado ou de outro, ou mesmo em lado algum.

                “Os medíocres falam de pessoas, os sofríveis comentam factos e os bons debatem ideias”

 

Fernando Pereira

5/6/2022

14 de abril de 2022

“Enquanto há morte há esperança” / o Interior / Guarda 14-04-2022

 




“Enquanto há morte há esperança”

 

Esta frase de Lampedusa serve de título a uma crónica que desdesejaria ter alguma vez escrito.

No dealbar da invasão da Ucrânia por parte do exército russo escrevi aqui que iria haver um povo e uma terra sacrificada e esses seriam os ucranianos e a Ucrânia. Tudo o resto são os habituais “danos colaterais”, um devaneio semântico que os americanos nos foram habituando nas suas múltiplas intervenções ao nível global ao longo dos anos, com assassínios em massa!

Os ucranianos estão completamente sós a verem as bombas a caírem-lhe em cima, e talvez seja altura de perguntar porque é que não houve esforços suficientes para que não se chegasse a esta situação, e as que aí virão com consequências inevitavelmente piores.

Vamos assistindo ao cinismo habitual das circunstâncias, um desfilar de solidariedades que o tempo revelará muito ténues, e um espetáculo soez de manipulação entre desgraça e morte. Churchil, uma das figuras marcantes da política inglesa do século XX disse que “em tempos de guerra a verdade é tão preciosa que precisa de ser protegida por uma muralha de mentiras”.

O futuro de ontem vai ser diferente do futuro de amanhã e o que vamos assistir é ao desmoronar das ideologias, o crescimento da xenofobia e o polvilhar de nacionalismo serôdios que irão mostrar que o mundo vai ser menos tolerante e equilibrado.

Em vez de se buscarem oportunidades para a paz, continua-se num frenesim armamentista que dificilmente irá melhorar o que quer que seja, e quando se chegar ao tempo de reconstrução de uma Ucrânia dilacerada e destruída aí virão os de sempre a enviarem ajuda que vai parar a engordar organizações obesas tipo ONU e ONGs na sua quase totalidade.

Quando em 2001 o Afeganistão se livrou dos talibãs os EUA pegaram em Hamid Karzai para estabelecer um regime democrático. A comunidade internacional achou que o país precisava de ajuda internacional. Logo chegaram a Cabul uma horda de representantes da ONU, e uma miríade de ONGs com uma legião de trabalhadores humanitários em jactos privados e acampamentos dignos das mil e uma noites.

No Afeganistão entraram milhares de milhões de dólares e antes de reconstruir os escombros em que estava o País, que continuou até ao recente regresso dos talibans, sem escolas, hospitais e outros serviços públicos importantes para a generalidade dos afegãos. A primeira fatia do dinheiro foi, pasme-se, para contratar uma linha aérea para transportar funcionários da ONU e outros funcionários internacionais de um lado para o outro. Contrataram-se professores e burocratas anglófonos para apoiarem o trabalho (?) desses funcionários, pagando ordenados de luxo para o nível afegão. Retiraram-nos de um esforço de apoio colectivo a comunidades para fazerem serviços que se revelaram dispensáveis e aumentaram os níveis de corrupção, que os talibans exploraram para o seu regresso ao poder.

 A título de exemplo, num distrito remoto do Afeganistão esses funcionários   promoveram a construção de abrigos, com ajuda de fundos da comunidade internacional. Ismail Khan, governante do novo poder afegão era o líder de um cartel de camionagem que transportou uns desadequados barrotes de madeira, que pouco mais serviram que para lenha. Dos milhões prometidos a essa comunidade, a distribuição foi esta: 20% foram retidos para cobrir as despesas da sede da ONU em Genebra, do restante foi distribuído por 3 ONGs em lotes de 20% tendo uma delas construído com esse dinheiro a sua sede em Bruxelas. O que restou foi pago a Khan para comprar os barrotes no Irão. Ainda chegou alguma coisa, muita sorte tiveram os aldeões, algo que outros não o podem dizer.

Isto que aconteceu no Afeganistão não é caso virgem, e segundo estudos e relatórios sobre fraudes destas distribuições de fundos internacionais, apenas entre 10 e 20% dos fundos atribuídos chegam ao destino. Perde-se o resto por tantos “humanitários”, ONGs e ONU por todo o mundo, e pela corrupção gerada pela gestão destes fundos!!

Este será só um dos filmes que se espera na Ucrania?

Como diria John Lennon: “Lutar pela paz é como fazer amor pela virgindade”!

Para não esquecer porque estamos em Abril. 25 de Abril de 1974 SEMPRE!!

 

 

Fernando Pereira

11/4/2022

Related Posts with Thumbnails