10 de abril de 2026

A casa eo ocaso/ O Interior/ 8-04-2026

 


A Casa e o Ocaso

“A guerra é uma coisa que não se entende, uma coisa que não se vê, mas que se sente em cada esquina”

Cartas de Guerra, António Lobo Antunes.

 

                No quase limiar dos meus setenta anos, quando julgava que já tinha visto tanto que me agradasse ou não, surge algo de novo nos tempos tristes que vivemos quando entramos no segundo quarto de século do milénio.

                Vivem-se tempos em que a irracionalidade parece ter tomado conta do discurso político e a prática do opróbrio passou a ser quase um estado de normalidade comportamental.

                Sentimos que o mundo se começa a assemelhar às traseiras de um circo, onde os malabaristas e o ar fétido dos dejetos dos animais se misturam num ambiente em que a musica, as lantejoulas e o brilho das luzes ofuscam a realidade lúgubre dos bastidores.

                Nem vale a pena falar do que se vê, do que se ouve, do que se comenta e acima de tudo se aceita quotidianamente com toda a naturalidade quiçá como se fosse normalidade.

                Uma das preocupações domésticas é a continuada crise de habitação nas grandes cidades, afinal algo que é o mote dos problemas desde os tempos da primeira República. Um problema com mais de um século em que raras vezes terá havido propostas sérias para se resolver ou minimizar o problema.

                Quando António Costa foi empossado primeiro ministro pela primeira vez foi na sua verve repescar uma medida de Duarte Pacheco, político dos anos 30/40 precocemente desaparecido, que no seu trabalho enquanto Presidente da Camara Municipal de Lisboa e ministro das Obras Publicas de Salazar revolucionou o parque habitacional do País. O que foi feito foi um plano de entrega de terrenos a construtores, com o dinheiro de mutualidades, caixas de socorro, fundos de pensões de militares, misericórdias e outras estruturas para se construírem bairros para a pequena-burguesia que vivia o drama que hoje afeta até a média burguesia urbana, que é a impossibilidade de pagar uma renda ou um empréstimo para uma habitação digna. António Costa propunha que o fundo de pensões da Segurança Social, que tem que ser investido, algo que é feito em todo o mundo, fosse direcionado para a construção de habitação a custos controlados, com apoio de terrenos do Estado Central e das autarquias. Não se fez rigorosamente nada, e tem sido tomadas medidas avulsas, que em nada alterou o status-quo prevalecente.

                Quando olhamos para a quantidade de edifícios públicos abandonados é assustadora a realidade. Devia ser por aí que começaria a revitalização do parque habitacional, aliado à posse administrativa das autarquias de edifícios abandonados por particulares. Tudo isso é muito bom no discurso, mas ultrapassar as quintinhas de cada estrutura a nível central e autárquico é muito difícil porque exige um esforço, que a languidez da estrutura funcional da administração local e central não estão dispostas a fazer.

                Esperar que o mercado regule a questão da habitação é mais uma falácia, porque na realidade é isso que tem acontecido até hoje e os resultados estão à vista.

                Não podemos assistir à leviandade com que a habitação social é tratada por uma conivência entre quem utiliza, quem tem que fazer as regras e quem se obriga a fiscalizá-las. Habitantes de casas que não pagam rendas anos sucessivos, que as subalugam, que tratam as áreas comuns como se fossem espaços sórdidos que não são pertença de ninguém e por aí fora.  Podia elencar aqui um conjunto de problemas, muitos deles só o são porque descumprem-se as regras por parte de quem tem que as fazer cumprir.

                Era um debate grande, mas ninguém o quer fazer e acham que a rua vai alterar o que que seja, porque o problema é mesmo este, demasiadas casas vazias e demasiadas opções vazias nas políticas de habitação.

                “Não há nada de tão absurdo que o hábito não torna aceitável” Marco Túlio Cícero

 

 

Fernando Pereira

22/3/2026

18 de janeiro de 2026

Debaixo da Exceção procurem a regra (Brecht) /O Interior /Guarda 14-01-2026)


 


Debaixo da Exceção procurem a regra (Brecht)

“É uma infelicidade da época que os loucos guiem os cegos” William Shakespeare, Rei Lear (ato 4)

Tempos esquisitos os que vivemos!

Chegamos a este estado de coisas porque por omissão, comodismo e demasiada ignorância coletiva permitimo-nos confrontar com uma sociedade de valores, onde não me revejo, nem tampouco consigo ter força e argumentos para contrariar.

Não vale a pena discutirmos o que é o mundo hoje, quem são os melhores e os piores. A Europa na sua languidez exasperante tenta viver de clichês ultrapassados, para manter os princípios de uma EU que se tornou num catavento, a mudar de posição sistematicamente por causa dos sucessivos vendavais que sopram de todo o lado.

Alguns países da Europa deixaram de ser potencias coloniais e “impérios onde o sol nunca se punha”, mas nunca aceitaram que era preciso mudar a mentalidade em relação ao mundo. A sobranceria como a Europa, principalmente a de inspiração judaico-cristã vê o mundo é aviltante dos valores que nortearam a “Revolução Francesa” no fim do século XVIII.

Anda tudo admirado com a Trumpeirada a que mundo se está a moldar, mas se há alguma réstia de qualidade em Trump é a de dizer ao que vem. Vem ao dinheiro, ao negócio, ao retorno aos combustíveis fósseis, ao supremacismo branco e a prevalência de religiões mais adaptadas a uma hierarquização da sociedade entre a timocracia e a cleptocracia.

Trump faz exatamente o que os EUA sempre fizeram, que foi invadir, raptar, guerrear apenas na defesa do seu interesse. Faziam com frases impactantes de defesa dos direitos do homem, liberdade, democracia e outras, mas as realidades mais não fazem que defender e lutar pelos seus próprios interesses, a começar pela artificialidade do valor do dólar. Trump, como em termos ideológicos sempre ouviu falar em negócios, nunca terá lido um livro, a não ser de cheques, deixou essas subtilezas e ei-lo a deixar o mundo num momento de uma desbundada cacofonia que os ouvidos servis aos EUA não estavam habituados. Trump cortou com a retórica de Woodrow Wilson, que norteou a política económica dos EUA no mundo em todo o século XX. Há uma réstia em tudo isto porque há uma enorme diferença entre coerência e teimosia. Mas nem todos os inteligentes a percebem, nem todos os teimosos.

Vejam quanto valem as companhias norte americanas em termos de negócios. Vejam quanto valem as companhias de Países emergentes que vão fazer parte de um homem que nos vamos habituando a ver construído assim, e tentem ficar descansados. Mark Twain dizia “A profecia é um género muito difícil sobretudo quando aplicado ao futuro”. Sinceramente não tenho nenhum oráculo para saber o que vai acontecer à maior parte das pessoas. Aguardemos novos desenvolvimentos, que infelizmente vão trazer desmesurados envolvimentos.

Quanto mais vazia a carroça mais barulho ela faz.

No fim do ano passado a Guarda perdeu um cidadão de grande carater, e eu perdi um bom amigo.

Fernando dos Santos Cabral era meu amigo há décadas, e não é por sê-lo que sempre admirei a sua forma de estar no quotidiano político da região, e na sua vida enquanto profissional e pessoa de intervenção cívica aliada a uma grande probidade.

Politicamente raras vezes estivemos no mesmo espaço partidário, aliás desde os idos tempos de 1975, mas nunca entrámos em desvarios, nem tampouco deixamos de ter uma relação de amizade de grande proximidade, e de continuadas saudáveis discussões.

Foi governador-civil, deputado da AR, delegado do INATEL e do Instituto da Juventude, membro da Assembleia Municipal, tudo pela Guarda, cidade onde nasceu e onde desenvolveu toda a sua atividade profissional.  

Nunca deixou de participar em combates que sabia perdidos à partida, mas fê-lo sempre com a convicção da defesa dos seus princípios, arreigados a uma defesa humanista num Partido Socialista onde militou até ao fim!

Mesmo no sofrimento da sua doença, nunca deixou de partilhar com os amigos as conversas que sempre tivemos. Foi sempre amigo dos seus amigos e não os fazia por mero interesse que às vezes os ditames partidários condicionam.

Quando sentiu que não era desejado na vida política, voltou à escola para continuar a dar educação física aos seus alunos, e não se ouviu da sua parte um lamento nem participou nas sórdidas estratégias para conseguir um lugar a qualquer preço.

A sua morte deixou um vazio enorme aos seus amigos e claro que a toda a sua família, por quem tinha uma afeição desmesurada.

Como disse George Brassens “Aos amigos perdoamos tudo, menos que morram”.

Fernando Pereira

12/1/2026

  

9 de janeiro de 2026

Prefácio do Livro dos 2ºs jogos da África Central

 



“O passado nunca está morto. Nem sequer faz passado” William Faulkner (Requiem por uma freira).

 

Recordar os segundos jogos da África Central quase quarenta e cinco anos depois é um exercício de nostalgia confortável, num contexto da história de um País com meio século de vida coletiva.

                Os segundos Jogos da África Central que decorreram entre 20 e 31 de agosto de 1981 foram porventura a maior manifestação desportiva de sempre em Angola.

                Da Comissão Organizadora dos Jogos da Afica Central (COJAC) já somos poucos os sobreviventes, mas somos a memória de um tempo em que o voluntarismo, a solidariedade e a indómita vontade de fazer eram valores que deixaram uma marca num tempo em que tudo era novo, e tudo que de bom ou mau fizéssemos era, ou podia ser inovador.

                Sou com enorme orgulho um dos que restam, e por isso não posso deixar de homenagear os meus camaradas do COJAC e também um conjunto enorme de gente anónima,  que fez desses jogos um fazer sentir que a então Republica Popular de Angola era capaz de se afirmar como um País com capacidade de organização, e que tinha gente valorosa para fazer vingar a sua independência conquistada a golpes de vontade!

As palavras de Louis Althusser (1918-1990) em que “um idealista é um homem que sabe de que estação sai o comboio e qual é o seu destino. Sabe-o de antemão e, quando entra no comboio, sabe para onde vai desde que o comboio o leve. O materialista, pelo contrário, é um homem que apanha o comboio, sem saber de onde vem, nem para onde vai” sintetizam muito bem o que se passou nos tempos em que Angola assume a organização dos jogos em Luanda. Aos primeiros tempos de um idealismo de uma ciclópica tarefa sobrepôs-se o materialismo de a ver realizada com toda a alegria esfuziante de ter visto a tarefa acabada com sucesso.

Recordar os jogos de Africa Central é sobretudo sentir quanto foi a perseverança continuada de Rui Alberto Vieira Dias Mingas, secretário de estado de educação física e desportos no fim dos anos setenta e no dealbar dos anos 80. A realidade é que só essa obstinada força de vencer conseguiu que os jogos se realizassem, apesar de tantas contrariedades, dúvidas e escolhos que se manifestaram desde o primeiro dia em que se assumiu realizarem-se os jogos.

Porque fiz parte da equipa acompanhei de perto todas as vicissitudes, as alegrias, as tristezas, as dúvidas, as discussões e outros circunstancialismos que desde essa altura fiquei com a convicção que não há nada tão monótono como a perfeição.

Ao tempo a África, ainda com a África do Sul e a Namíbia não libertadas do regime de apartheid, estava dividida em sete zonas de desenvolvimento desportivo, estipulado pelo CSSA, Conselho Superior de Desportos de África, estrutura diretora do desporto africano ao nível continental.

Angola era a sede da sexta zona de desenvolvimento desportivo e englobava também a República do Zaire, República Popular do Congo, Gabão, Camarões, Guiné Equatorial, Burundi, Ruanda, Chade, República Centro Africana e S. Tomé e Príncipe.

Os primeiros jogos tiveram lugar em Libreville no Gabão em 1976 com os problemas inerentes à primeira organização de uns jogos desta dimensão.  Daqui colheram-se experiências que evitassem erros que pudessem pôr em causa novas realizações, quer em novos jogos, quer em provas sectoriais de modalidades realizadas fora do âmbito de uma competição de maiores recursos, que pontualmente se iam fazendo em campeonatos zonais.

Decidiu-se atribuir a Angola a organização dos 2ªs jogos da África Central, que o governo da RPA aceitou depois de ponderada decisão face às exigências que eram colocadas a um País em guerra, com ameaças externas constantes e com exiguidade de quadros experientes que pudessem responder cabalmente ao desafio. Acrescia a falta de recursos económicos para iniciativas desta dimensão.

Com o reiterado  idealismo e uma mobilização extrema por parte do governo da RPA, e para além dos desportos, houve a  inclusão de agentes dos ministérios da educação, saúde, comércio externo, construção,  defesa, segurança, transportes, plano, relações exteriores e ainda comissariados provinciais e municipais bem como a presença continuada dos órgãos de difusão massiva, como ao tempo se chamava a comunicação social.

As pessoas não fazem ideia dos recursos humanos que isto mobilizou durante um ano e meio, para conseguir que aqueles onze dias de Agosto de 1981 fossem os dias mais impactantes de uma Angola a viver ainda a sua meninice demasiado atribulada.

A então República Popular de Angola precisava de se afirmar com uma identidade própria no contexto das nações africanas e mundiais. Tinha saído de um processo de independência difícil e a gestão política dos primeiros anos tinham sido internamente tumultuosos e ficaram marcas profundas na sociedade angolana no primeiro lustro como nação.  Desporto e a mobilização da juventude para a cultura física, a criação de estruturas organizadas de entidades desportivas, início de campeonatos regulares, o aparecimento de seleções nacionais e integração da RPA nas instâncias desportivas internacionais foram alavancas decisivas para afirmação do País num contexto em que muito mais nos era desfavorável que o contrário.

O desporto e a política andaram de braço dado porque havia um claro objetivo de sentir que a palavra “Desporto para todos” não fosse só um slogan, mas acima de tudo um estar e participar num País novo, com ideias novas em que a cultura física fosse indispensável para a criação de um cidadão novo numa inovadora sociedade mais igualitária.

Talvez tivesse sido idealismo a rodos, mas foi isso que nos fez fazer e conseguir materializar o sonho de fazer os 2º Jogos da África Central. “Pelo Sonho é que vamos”, aproprio-me das palavras de Sebastião da Gama.

Como coisa boa de angolano pensa-se em grande e começaram a prepararem-se os jogos para decorrerem em várias cidades do País: Luana, Huambo, Benguela/Lobito e Lubango.

Fizeram-se levantamentos dos equipamentos existentes e os necessários para um conjunto alargado de modalidades. Corria-se atrás de um calendário que era demasiado curto para a prossecução dos objetivos a que nos propusemos. Muito do que se tinha projetado deparava-se com obstáculos múltiplos, face aos problemas da guerra, da falta de resposta da industria local, dos atrasos nas empreitadas das estruturas desportivas e hoteleiras que recebessem os desportistas, ficando a título de exemplo o atraso nas obras de ampliação da casa do desportista na ilha de Luanda e o estádio 1º de Maio em Benguela.

Mas não se esmorecia e a cada contrariedade Rui Mingas, Secretário de Estado de Educação Física e Desportos e o saudoso Helder Moura, secretário geral do COJAC incentivam a continuar, mesmo com irritações, discussões e alguma hilaridade à mistura numa ou noutra circunstância mais tensa.

As obras da Cidadela, e principalmente a sua pista precisaram quase de uma “ponte aérea” para que estivesse pronta no dia da abertura dos jogos. Pintar pavilhões, fazer reparações, asfaltar ruas para que as provas de atletismo de estrada e ciclismo pudessem decorrer sem problemas, perante o rigoroso controle de instâncias internacionais foi uma tarefa de dia e noite para operários engajados no espírito dos jogos. Preparar as torres da Cidadela para alojar mil e quinhentos atletas, treinadores, médicos e outros elementos transformando numa “cidade olímpica” onde tiveram que se fazer de raiz dois refeitórios, salas de imprensa, locais de reuniões, postos médicos e tudo que afinal no dia 20 apareceu feito e funcionou.

Houve muito deixado ao acaso, mas talvez porque houve empenho o acaso acabou por funcionar quase na perfeição.

Acabamos por ser realistas e só Luanda e o Huambo puderam ter os Jogos. 11 Países, 9 modalidades, algumas masculino e feminino, e para além de atletas e corpo técnico era a necessidade de instalar árbitros, juízes, chefes de delegação, presidentes e delegados de federações internacionais, jornalistas, artistas, foi sobretudo necessário mobilizar muita gente para que tudo corresse quase na perfeição, o que ao tempo não era nada fácil que acontecesse.

No festival de abertura presidido pelo Presidente José Eduardo dos Santos que abriu formalmente os jogos, o extraordinário espetáculo de milhares de jovens das escolas de Luanda que fizeram múltiplas encenações de quadros humanos que deixaram boquiabertos os milhares de pessoas que encheram a Cidadela para assistirem a um organizado e entusiasmante desfile e movimentação de alguns milhares de pessoas. Repetiu-se com a mesma intensidade e colorido na cerimónia de encerramento.

Volvido este tempo todo continuo a sentir uma nostalgia, algo mitigada, de cada dia desse longínquo fim de Agosto de 1981, em que enquanto Angola se desmanchava em ternura nuns jogos de empenhamento e competitividade saudável entre todos os participantes, as tropas do regime de Pretória atacavam o sul de Angola ocupando uma série de vilas e aldeias. Foi a tristeza que manchou os jogos, e a três dias do fim o entusiasmo esmoreceu perante as notícias que iam chegando do Cunene.

Hoje tem que se fazer uma homenagem a Rui Mingas porque foi quem se exigiu a si próprio um esforço suplementar para nos exigir a nós determinação, coragem e não ter medo para que estes jogos fossem uma marca indelével nestes cinquenta anos de vida coletiva de um País, que nasceu para ser o que será no futuro: Melhor.

Podia falar de muitos que me acompanharam no COJAC, mas prefiro não o fazer porque iria omitir alguém e todos, de uma forma ou de outra fomos importantes.

Este livro dos 2ºs Jogos da África Central é um documento imprescindível para que gerações no futuro saibam que num País em guerra, com oitenta por cento das pontes cortadas, com dificuldades no abastecimento alimentar das populações, com cortes de água e luz, com limites muitos grandes às importações, com poucos técnicos mas com uma afirmativa vontade de fazer e de construir  foi possível fazer a maior manifestação desportiva de sempre de Angola.

Citando José Saramago, afinal o único Nobel da língua portuguesa: “Sem memória não existíamos. Sem responsabilidade, talvez não devêssemos existir”.

 

Fernando Pereira

 

 

 

 

 

 

 

 


15 de dezembro de 2025

“Perdidos numa espécie de coisa.” / O Interior / Guarda 10/12/2025

 

        



“Perdidos numa espécie de coisa.”

Confesso que andei às voltas para fazer esta crónica. Tenho vários temas, mas também pensei para comigo, quem é que quer saber o que escrevo?

                Há já há uns anos que vamos assistindo à lenta descredibilização do jornalista no espaço mediático em Portugal. No mundo também, mas prefiro ficar pelo quotidiano local. Não sou dos que acham que os meus textos vão mudar o que quer que seja na localidade onde vivo, quanto mais num mundo que discutimos enfaticamente como donos de uma razão pura e dura.

                Hoje não sou jornalista, não sou analista, limito-me a ser um comentador com opinião própria, que poucos se apropriam!

                O jornalismo, que terá sido sempre uma profissão respeitável, nalguns casos nem tanto, mas que não dá para tomar a nuvem por Juno.

                O jornalista foi a profissão que todos os que adoravam a verdade e a firmeza de mudar o mundo abraçavam, num juramento de narrar apenas os acontecimentos, quebrando barreiras e levando ao publico uma realidade assentes em factos verosímeis.

                Há muitas décadas que não é assim porque o tal quinto poder, um termo criado por Ignacio Ramonet para denunciar os media que estavam ao serviço de governos, indústrias, sindicatos e outros espaços de abastardização da organização social tem vindo cada vez a cercear o trabalho do jornalismo e abafá-lo ao serviço dos grupos dominantes.

                Há umas décadas fui a Snagov na Roménia a um congresso da IASI, uma estrutura da UNESCO para a Informação e documentação desportiva. A determinada altura foi-nos oferecida uma apresentação, no que hoje seria uma obsoleta máquina da IBM, do que seria o jornal do futuro e a quase desnecessidade do diretor nomeado pela administração, sair do seu lugar para que uma publicação fosse feita, e que com a conivência do Chefe de redação ou dos diferentes editores as alterações nem tampouco seriam comunicados a quem fez o trabalho. Quando o jornal feito pelos jornalistas chegava ao altar do diretor ele tratava de colocar tudo nos carris, e submeter os valorosos jornalistas a um estatuto de subserviência para defesa do seu ganha-pão. Era um pouco a figura de William Randolph Hearst, o magnata americano dos media do fim do seculo XIX e do dealbar do seculo XX, genialmente revelado no extraordinário filme Citizen Kane de Orson Wells.

                Confesso que fiquei relativamente desconfiado da mostra e julguei que seria impossível.  Desaparecer uma redação com o frenesim  dos repórteres e jornalistas a matraquearem nas teclas de pesadas máquinas, com o fumo dos cigarros a deixar um espaço com uma nuvem junto ao teto, com alguém a perguntar como se escrevia determinada palavra, com “bocas” aqui e ali, e a necessidade de acabar o trabalho para que o chumbo dos tipógrafos, os ouvintes da rádio ou os telespectadores, enfim os cidadãos ávidos das notícias tivessem em tempo útil o desígnio de poderem ter uma verdade, servida em bandeja e decorada pelos bastidores. Pelos vistos não esperei muitos anos.

                O jornalismo hoje, não por culpa dos profissionais, na sua maioria dedicados e mal pagos vive um pouco as mudanças sem que se saiba o que será o futuro. De um passado que hoje muitos querem fazer reviver, deixo esta frase de Salazar, um homem que diabolizava tudo que pudesse sair do ar fétido da sacristia em que o País vivia: “Um engenheiro forma-se e procura ser um bom engenheiro. Um advogado forma-se e procura ser um bom advogado, mas se algum deles não dá para nada, ou alguém não dá para nada, vai ser jornalista. São uns biltres.”

                Era um tema que gostava de desenvolver e quiçá mesmo envolver, porque o futuro do jornalista está em risco de se confundir com um promotor de eventos, um ficcionista, um roteirista, um panegirista, um publicitário, enfim tanta coisa respeitável, mas que não é efetivamente um profissional da verdade, da isenção e  promover a comunicação com o universo dos sobre as realidades do seu quotidiano.

                “Quanto mais a sociedade se distancia da verdade, mais ela odeia aqueles que a revelam” George Orwell.

                Isto vai longo, mas quero aqui prometer que vou fazer um texto sobre o meu amigo Fernando Santos Cabral, recentemente falecido e a quem a Guardo tanto deve. Porque ainda não consegui a serenidade suficiente para fazer um texto com a dignidade que ele merece, fica para uma próxima crónica.

                Convém esclarecer que o título é de um poema de José Mário Branco.

                Para o ano há mais. Boas Festas.

 

Fernando Pereira

8/12/2025

12 de outubro de 2025

Apego à memória / O Interior / Guarda 8/10/2025

 

                    



Apego à memória

“Aprendemos com a história que não aprendemos com a história” foi uma frase legada por Hegel que se adapta bem aos tempos conturbados que vivemos.

                Nunca fui apoiante do Bloco de Esquerda embora tenha muitos amigos e ex-companheiros percurso por lá. Há um conjunto de propostas do BE que subescrevo sem hesitação, embora globalmente não concorde com a sua prática política quotidiana.

                A presença da Mariana Mortágua e dos outros ativistas portugueses merecem o meu aplauso, porque foram fazer o que não fui capaz, para denunciar o sionismo nazi dos governantes israelitas, que não podem ser confundidos com os israelitas, nem com os judeus, vítimas também deste verdeiro crime de guerra continuado. O Hamas é uma organização terrorista, inicialmente financiada pelo governo de Israel para dividir a OLP e a Autoridade palestiniana. Depois como acontece amiúde deixa de haver controle por parte dos “pais fundadores”!

                Fico entusiasmado com as manifestações e com a presença massiva da juventude, o que faz acreditar que afinal temos gente para o futuro e futuro com esta gente. Sempre defendi que qualquer manifestação de juventude, por mais discutível que seja o mote é sempre um espaço de vitalidade, de uma geração que não se conforma com o que lhe dão. É a razão da idade em oposição à instaladíssima idade da razão. Quando vemos esta gente, recuamos umas décadas em que fizemos o mesmo e apelando a propostas que mais tarde nós próprios admitimos serem absurdas. Mas no cinzentismo onde nos encontramos, esta gente dá-nos esperança, que afinal os tristes somos mesmo nós e a geração que nos governa.

                Não esqueçamos que Gandhi, Mandela, Ho-Chi-Min, Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Eduardo Mondlane e tantos que foram terroristas num determinado contexto da história. O que se revelou depois é que estavam do lado certo. Neste caso houve alguém que lembrou a epopeia do “Lusitânia Expresso”, onde até ia o General Ramalho Eanes e que simbolicamente queriam apenas mostrar ao mundo a forma como os dirigentes indonésios tratavam os timorenses. Na altura as críticas vieram dos mesmos sectores de hoje, embora com outros intervenientes, e a verdade é que Timor é hoje um País independente e chora os milhares de mortos assassinados por Suharto.

                Das autárquicas que se aproximam, julgo que não me engano que fica tudo mais ou menos na mesma, embora ache que nas autarquias onde tem que inevitavelmente haver mudanças por estarem autarcas condicionados ao fim do mandato, poderão haver algumas mudanças de partidos políticos nas cadeiras das presidências de Camaras e juntas!  O Chega irá ter uma relevante expressão, e talvez não seja mau de todo começarem a olhar para esse partido sem a altivez de que aquilo é um bando de maltrapilhas, tentando colá-lo ao pior e fechando-os numa bolha que vai crescendo cada vez mais à medida que se promove a sua marginalização continuada.  O Ventura sabe ao que vem, tem alguma comunicação social a promovê-lo e outra parte a tentar menorizá-lo de forma às vezes muito pouco inteligente, diga-se de passagem.

                O Chega é o resultado primeiro de ocupar um vazio ideológico que havia no espaço político português, e a organização reiterada e copiada da proliferação das igrejas evangélicas que enxameiam o País.

                Julgo que não vai ser muito significativa a sua expressão autárquica, mas a sua implantação é um facto, e Ventura e seus títeres tem que ser chamados às decisões, para quando as coisas correrem naturalmente mal, não atirem a responsabilidade para cima dos outros, ficando com a vantagem de terem estado de fora dos problemas e da sua resolução.

Mais vale haver saudosistas da ditadura em democracia que haver saudosistas da democracia na ditadura.

 

Fernando Pereira

5/10/2025

13 de setembro de 2025

Lipotímia da Democracia/ O Interior/10-9-2025

 


Lipotimia da Democracia?

Eis-nos na “antecâmara” das eleições autárquicas.

                Vamos ter um mês de propostas requentadas, de proposituras em reprise e sobretudo muito folclore. Depois tudo amança e volta-se ao quotidiano do repetível.

                Talvez não fosse mau as pessoas saberem à partida quanto ganha um autarca, desde os membros das juntas aos executivos, e quanto custam as ajudas para os membros das assembleias municipais e freguesias. Julgo que iria surpreender muita gente quando soubessem os valores que auferem os “eleitos do povo”.

                Não pretendo pôr em causa o pagamento aos eleitos, achando que a democracia merece esse preço a pagar pelo erário público, e que as pessoas devem receber pelo trabalho em favor da comunidade. Não partilho, contudo, da ideia que as pessoas façam discursos tão inflamados em que misturam o amor declarado à terra ao sacrifício pessoal e familiar. Ninguém lhes pede isso. Mantenham convictamente as promessas, muitas delas incumpríveis, mas evitem pedir aos eleitores o voto para o supremo sacrifício do poder.

                Não sei porquê vem-me à lembradura nestas circunstâncias esta texto do truculento poeta brasileiro Nelson Rodrigues em “óbvio ululante”: “Uma verdade historicamente demonstrada: o canalha, quando investido de liderança, faz, inventa, aglutina e dinamiza massas de canalhas. Façam a seguinte experiência: ponham um santo na primeira esquina. Trepado num caixote, ele fala ao povo. Mas não convencerá ninguém, e repito: ninguém o seguirá. Invertam a experiência e coloquem na mesma esquina, e em cima do mesmo caixote, um pulha indubitável. Instantaneamente outros pulhas, legiões de pulhas, sairão atrás do chefe abjeto.”

                Talvez mesmo que seja do meu mau feitio esta de citar outros com um pior que o meu!

                Há anos que ando a clamar no deserto pela alteração desta legislação eleitoral ridícula nos tempos que correm. 

                A autonomia do poder local foi uma das grandes conquistas do 25 de Abril de 1974, a par de muitas outras que vão sendo silenciosamente esmagadas.

                Quando se criou esta estrutura de poder autárquico teve-se em consideração a necessidade de haver uma representatividade acrescida dos presidentes de junta, sem que estes ficassem na dependência de amores ou maus humores dos presidentes de Camara. Tinham, e mantém uma representatividade na Assembleia Municipal para levarem os seus problemas a um fórum aberto. A situação prevalecente traz-me à memória alguns aspetos da Camara Corporativa em que havia membros nomeados pelo parlamento, organizações sindicais, patronais, grémios e outros. Era um órgão consultivo ao invés da Assembleia Municipal que é um órgão que tem poderes para vetar e aprovar documentos emanados do executivo, incluindo o orçamento municipal, instrumento indispensável para a prossecução do trabalho de uma autarquia.

                A bizarrice de tudo isto tem a ver com o facto dos membros da AM serem eleitos pelos eleitores do concelho e quase metade serem eleitos só pela população de uma freguesia. Podemos ter um eleito para um órgão alguém com 400 votos e uma força partidária com 5000 votos não conseguir eleger alguém para um órgão em que a legitimidade democrática fosse salvaguardada pela representatividade das pessoas pelo número de votos.

                Não vou alongar-me muito mais, mas acho que os executivos deviam sair de uma Assembleia Municipal eleita nos mesmos moldes da Assembleia da República, podendo o Presidente da Camara fazer o executivo como quisesse sem se cingir ao absurdo critério dos vereadores eleitos. Aí a AM tinha uma importância maior nos concelhos. Os Presidentes de Junta fariam parte de um Conselho Consultivo, ou uma estrutura com alguma hibridez que obrigasse a que a Camara Municipal ouvisse as suas queixas e recomendações e fosse obrigada a aceitar quando houvesse propostas de alterações estruturantes.

                Acho que era um tema interessante para salvaguardar a democracia e que deixe de continuar a haver alguma demagogia no atual modelo desatualizado pelas alterações do status quo político.

                Fernando Pereira

                7/9/2025

 

 

14 de agosto de 2025

A rua caiu no poder?

                                                                         


                                            

                                                A RUA CAIU NO PODER?

“O que o rebanho mais odeia é aquele que pensa de forma diferente, não é tanto a própria opinião, mas a audácia de pensar por si mesmo, algo que eles não sabem fazer” Artur Schopenhauer.

                Aqui há uns dias “caí na sopa” num grupo de companheiros de jantar de um amigo. Era gente que falava alto, que assumia a autoridade sobre tudo que se passava na mesa, no País e no mundo. A comer havia tiques omnívoros.  O denominador comum nas conversas na mesa era sobre “a desonestidade dos políticos”.

                A indignação subia de tom com a passagem repetida de jarras de vinho pela mesa. Como se perceberá eu estava condicionado porque as minhas relações com a maioria dos do grupo cingiam-se ao educado bom dia ou boa tarde.

                Enquanto se discutiam as malfeitorias dos governantes e autarcas íamos assistindo a um jogo numa TV, e presumi que estávamos a ver à borla num aparelho qualquer de TV pirata, porque segundo as palavras do dono do aparelho “não alimentava chulos”.

                Entre partes e apartes fui constatando que uns e outros iam metendo umas cunhas para agilizarem alguns pendentes, que um cidadão comum sem acesso a “influentes” teria dificuldade em ver resolvidos. Claro que a gratidão por ver a coisa tratada seria objetivada no futuro em algo tangível, ou na troca de favores.

                Cada vez era maior a raiva à impunidade dos políticos perante coisas que apareciam em letras garrafais com títulos apelativos à “justiça popular” de cidadãos, que em certas circunstâncias me fazem lembrar a labreguice dos meus companheiros de deglutição de um jantar que só por ter apanhado uma boleia me desconfortou manter-me até ao fim.

                As redes sociais são a caixa de sonância e ressonância de tanto “justiceiro”. Todos denunciamos e anunciamos patifarias, exceto as nossas e dos de quem gostamos. Vou dar um exemplo caricato q.b. de uma determinada situação: Aqui há uns anos uns técnicos de saúde foram condenados por burla ao SNS. As televisões ávidas de reproduzirem até à exaustão montaram um acampamento à porta do tribunal. Pasme-se que passados uns anos “tropeço” nas redes sociais num dos que foram condenados nessa situação e indignado contra os políticos porque defraudam sistematicamente o estado perante o assobiar para o lado da justiça. Um verdadeiro recuperado!

                O calor dilata muita coisa, as redes sociais e a imprensa coscuvilheira fazem pior e a sociedade tem que se conformar com novos espaços de julgamento.

                Para recordar tempos idos aqui está uma das muitas pérolas do almirante Tomaz, o último presidente da ditadura: “Comemora-se em todo o país uma promulgação do despacho número Cem da Marinha Mercante Portuguesa, a que foi dado esse número não por acaso, mas porque ele vem na sequência de outros noventa e nove anteriores promulgados...”

                Começar com Schopenhauer e acabar com Américo Tomaz mostra bem o estado a que se chegou.

                Veraneiem-se muito!

Fernando Pereira

9/8/2025

13 de junho de 2025

"De olho Neles" / O Interior/ Guarda 12-6-2025

 


                                    


                                                DE OLHO NELES

 

                               “Por trás de todo o paladino da moral, vive um canalha”

                               Nelson Rodrigues

Aí temos o tempo dos Santos Populares. Confesso que despercebo quais são mesmo os santos impopulares, ou melhor terei percebido em parte pela votação no Pedro Nuno Santos!

                Este ano para além dos santos populares vão aparecer os andores de indivíduos (as) que se querem afirmar resolvedores de todos os problemas nas urbes pelo País todo. Vai ser um fartar de febras, entremeada, imperiais em copos de plástico, vinho de qualidade duvidosa, e sorrisos em barda para tentar agradar a gregos, troianos e beócios!

                Para abrilhantar o período vão aparecer uma parafernália de candidatos presidenciais de todos os tamanhos, cobertos de ética e sobretudo “assumidores” convictos da defesa de uma Constituição da República que muitos não conhecem. Mas começa a ser o quotidiano dos atores da política espetáculo a que nos fomos ambientando nos últimos anos. “O essencial é invisível aos olhos” Saint Exupery

                Vamos ter festa redobrada e a sensação que teremos tudo resolvido. Como diria alguém, “não há nada tão monótono como a perfeição”!

                Como o Verão se aproxima, vamos aligeirar as vestes e tentemos voltar a irritar-nos com coisas pequenas para ficarmos um pouco mais confortáveis.

                Uma das coisas que mais me “perplexam” é o facto de quando há uma alteração significativa do quotidiano dos portugueses a primeira reação é uma corrida desenfreada ao papel higiénico. Sinceramente gostava que me explicassem este assalto às prateleiras dos supermercados. Desculpem a brejeirice, mas o português parece que perante uma situação anómala gosta do olho limpo! Verdadeiros herdeiros do “semiótico” Camões!

                Esta história do papel higiénico faz-me lembrar uma conversa com um velho amigo português que se manteve em Angola depois da independência. Eu tentava mostrar-lhe as virtudes da revolução, do que então se chamava, “trincheira firme da revolução em África” e ele calmamente ouvia-me e rematou uma vez com esta: Enquanto Angola não resolver o problema donde entra e donde sai não há revolução que aguente. Falava disto pela falta quotidiana de pão e papel higiénico nas lojas estatais então criadas no dealbar da revolução.

                Uma outra coisa que me irrita é encontrar as pessoas nos supermercados a abrir tampas de detergentes, amaciadores, sabonete líquido e correlativos para cheirarem e depois fecharem mal, para o cliente seguinte ficar com as compras cheias de produto no saco. Que sagradas pituitárias que tanto mal vão fazendo.

                Hoje é uma crónica leve, ao saber do sol num Portugal que em certos casos foi bem definido por José Cardoso Pires no Alexandra Alpha: “Isto não é um País, é um sítio mal frequentado”.

Fernando Pereira

6/6/2025

10 de abril de 2025

A Pílula do dia seguinte / o Interior / 9/4/2025

 

                                                    


A Pílula do dia seguinte

“A mentira constante não serve apenas para enganar—seu verdadeiro propósito é destruir a própria noção de verdade. Quando um povo já não consegue distinguir entre o real e o falso, também perde a capacidade de discernir entre o bem e o mal. E um povo assim, desarmado do pensamento crítico, torna-se presa fácil para qualquer poder que deseje controlá-lo.” (...)Hannah Arendt, in "A mentira como ferramenta de poder"

Há umas décadas, no dealbar da independência de Angola, por razões de serviço tive que fazer uma viagem de serviço a uma povoação no centro-sul do País, que uns anos antes era um florescente entreposto de cereais do Caminho de Ferro de Benguela. Ao tempo essa vila, Longonjo, estava num perfeito estado de abandono, e o último comboio já tinha ali passado há 3 anos (Uma linha da Beira Alta antecipada), e não tornaria a passar nos 25 anos seguintes. Os trabalhadores do CFB sentavam-se a cumprir o horário “inventando coisas novas”, frase roubada ao meu amigo, o escritor Manuel Rui Monteiro dos “Meninos do Huambo”.

                Estive lá três vagarosos dias, num ermo e alojado numa pensão restaurante, de muito má qualidade e ainda por cima sujeita a faltas de produtos de manutenção ou até de apoio a mínimos para a despensa e concomitantemente para a mesa do hóspede único, que era eu. O dono era um português idoso de uma terra entre Moncorvo e Freixo Espada à Cinta, com a sua mulher que também era desses sítios. Ao som do pálido petromax, digo-o porque a luz transformava as nossas caras em bonecos de cera e o som era um silvar constante. Como havia pouco que partilhar, quer comida quer bebida íamos falando de tanto que aconteceu, acontecia e aconteceria. A única coisa certa foi mesmo o que aconteceu. A determinada altura, quando lhe perguntei porque ficou em Angola, naquele ermo, só com a mulher, longe dos filhos, amigos e outros entes queridos ele respondeu-me: “Sabe camarada Fernando, era assim ao tempo o tratamento quotidiano a na então República Popular de Angola, eu tenho um lápis e uma orelha. Pegou no lápis e pendurou-a na orelha, e disse a cobra não tem orelha, portanto não tem onde guardar o lápis. Pedi-lhe que me explicasse, e ele disse que tinha nascido com orelha para pôr lápis e as cobras eram os outros que comiam tudo, e quando não tivessem que comer começavam a comer a própria cauda até acabarem por morrer. O do lápis na orelha ia-os vendo morrer e comerem-se! No fim ele diz: Esta terra sem os dos lápis nas orelhas é um ofidiário tormentoso!

                Toda esta história que tenho contado repetidas vezes talvez tenha a ver sobretudo sobre tanta coisa que aceleradamente estamos a assistir em Portugal e no Mundo. Já tenho idade para ter visto muita coisa e o seu contrário, mas sinceramente nunca me lembro de ver as estrelas tão alinhadas para que tanta coisa má aconteça, e o dramático é que são os sem orelhas que nos tentam dar a receita de como vai ser o nosso futuro.  Os do lápis na orelha são marginalizados e calados.

                Vamos muito em breve para a primeira de três eleições no período de um ano. E volta a estafada teoria da necessidade de se votar útil para derrotar uma qualquer inutilidade política. Eu sempre votei útil, de acordo com a minha consciência, e sem andar a ver se uns são melhores, assim-assim, piores, mas melhores que outros que são muito maus e por aí forma. Se o meu voto, que não tem muita companhia não conta para colocar deputados nacionais, deputados municipais, vereadores a culpa não é minha, é sobretudo de um sistema que se está borrifando para as minorias. Continuam a legitimar e a promover alguns, que deveriam estar a fazer voluntariado em alguns museus, porque muito do acervo é do seu tempo. Mas não é assim, ei-los com aquele ar circunspecto a dizerem banalidades, com a autoridade que o País, a Europa e o mundo estejam à espera de saber se a posição política deles é em decúbito ventral ou dorsal. Mais uma vez vou votar útil, mesmo que isso não me traga representação nenhum (Olhem que nos Açores e na Alemanha todos os votos contam)

                Para acabar que já vai longo recomendo que façam como eu e peguem no livro “Sim Senhor Primeiro Ministro” de Jonhathan Lynn e Antony Jay. Eu estou a relê-lo mais uma vez!

                Quem estiver empenhado na campanha, aproveite e leia os livros das intervenções parlamentares dos deputados eleitos pelo distrito da Guarda, no ultimo ano e porque não pegar nos livros dos deputados eleitos há mais de 30 anos. Era um excelente exercício.

                E em Maio saberemos quem toma a pilula do dia seguinte!

                Já agora, comemorem como puderem o 25 de Abril de 1974. Essa data sim, merece respeito!

 

Fernando Pereira

7/4/2025

               

13 de março de 2025

Vamos revisitar o futuro? / O Interior / 11-3-2025

         




Vamos revisitar o futuro?

 

Com tudo que se tem passado, só se me oferece fazer uma adaptação do que dizia Almada Negreiros sobre Portugal, diria “Isto não é o Mundo. É um sítio. E ainda por cima, mal frequentado!"

            Estas semanas que foram particularmente pródigas em notícias,  não auguram nada de bom nas relações internacionais, e a degradação que se vinha acentuando nos últimos anos no contexto das relações económicas, nas alianças militares e nos alinhamentos políticos deixam no horizonte tempos de grande indefinição. A ausência de uma liderança na Europa, a inversão de valores na nova administração nos EUA, a firme autocracia russa e o olhar matreiro dos governantes chineses conseguem fazer um cadinho de soluções que podem vir a ser irreversivelmente explosivas.

            Não sei se terá sido por acaso, revi o filme de John Ford, “A grande Esperança”, título em português do “Young Mr. Lincoln”, uma das minhas películas de eleição. Um filme de 1939, com um pujante Henri Fonda, que dá corpo à personagem de um dos mais extraordinários presidentes dos EUA Abraham Lincoln. O enredo não é sobre a vida de Lincoln enquanto presidente, mas é sobre o seu tempo enquanto um jovem advogado confrontado na defesa de dois irmãos de um caso de homicídio evidente.

            O filme é dos mais admiráveis da filmografia mundial, mas o que é importante reter quando estamos a vê-lo é a estrutura moral e ética de um cidadão impoluto que foi dos mais marcantes presidentes dos EUA, o republicano Lincoln, assassinado há mais de 150 anos.

            É confrangedor assistirmos nos EUA o que tem sido a magistratura dos últimos presidentes do País, com evidentes reflexos na instabilidade passada e  presente em diversos locais do mundo.

O edifício democrático em que assentam os EUA, afinal um continente com uma diversidade cultural, com assimetrias económicas, com falta de uma unidade religiosa, com um mosaico de raças tem conseguido sobreviver uma nação unida a um enorme desgaste que alguma gestão algo cataventista que tem imperado na Casa Branca e no Capitólio.  Os lóbis, as alianças espúrias por regimes de discutível espírito democrático, a falta provável de um antagonista forte em termos militares, a ultrapassagem demasiado rápida da sua estrutura económica tem levado os EUA a esta situação, e ainda por cima acresce que já há décadas que é um País pouco confiável na perenidade das suas relações externas. Como bem dizia o cínico Henri Kissinger: Ser inimigo dos EUA pode ser perigoso, mas ser amigo é fatal.”, ou ainda,A América não tem amigos permanentes ou inimigos, apenas interesses”.

            Num tempo em que se assiste a um espetáculo permanente, e nalguns episódios até confrangedores, no quotidiano das relações internacionais vemos com preocupação um futuro que julgámos sempre ser impossível de acontecer.

            Voltando a Lincoln, um homem que obstinado venceu uma guerra civil por uma causa, a abolição da escravatura, afinal ironia do destino a bandeira dos republicanos e a oposição forte dos democratas, deixou um legado no seu discurso no filme de John Ford: “O poder começa quando cada um sentir como sua a lei de todos”.

               

                Quando me desapetece falar de questões internas há sempre o recurso às externas.

 

 

Fernando Pereira

10/03/2021

               

18 de janeiro de 2025

NADA NOS SALVA DESTA PORRA TRISTE/ O Interior / 15-01-2025

 




NADA NOS SALVA DESTA PORRA TRISTE

 

Fui buscar este título longo a um desalentado Jorge de Sena, quando falava do País, no seu exílio californiano. Acho que infelizmente temos que começar a fazer coro com ele porque o futuro não é fiável.

Existem pessoas que sabem tudo. Infelizmente é tudo que sabem. São os especialistas. Sabem quase tudo de praticamente nada.

Esta introdução tem a ver com o muito que o mundo está a ter ao nível  da “tudologia” comunicacional no quotidiano da cada vez mais depauperada comunicação social, entregue ao patobravismo arrivista dos grupos económicos, e ao crescente domínio das redes sociais, tuteladas por pessoas sem escrúpulos e que se julgam capazes de implantar projectos políticos e modelos económicos que nada tem de inovadores, porque redundam sempre na existência da segregação social e económica entre cidadãos.

Sente-se que o ar começa a ser irrespirável,e eis-nos indiferentes quando assistimos à banalização do horror nas imagens que vemos entre umas garfadas, dois copos e umas gargalhadas, achando que tudo aquilo é coisa que só acontece aos outros.

Conseguimos ser tu cá tu lá com o Putin, Trump, Musk, Maduro, Netanyahu e outros, da mesma forma que dizemos no café, ou no emprego que a vizinha do andar de cima comprou uns sapatos novos porque os saltos que se ouvem são diferentes.

“Nada é mais desastroso do que iniciar-se uma experiência social com gente imprópria”, diz uma personagem do “Também o cisne morre” de Aldous Huxley.

Hoje estamos perante esse contexto, e quando nos encontramos para conversar com os nossos pares e ímpares o que de facto conseguimos é trazer para o diálogo pouco mais que os monólogos que nos oferecem a “rádio, tvdisco e a cassete pirata”, desculpem as redes sociais! Estamos literalmente prisioneiros da falta de graça que a maior parte das coisas tem e as desgraças que se vão avolumando à nossa volta sem que consigamos dar conta quão enleados estamos.

Nelson Rodrigues (1912-1980), um excecional jornalista, escritor, dramaturgo, politicamente alinhado com a direita, sem apoiar a ditadura brasileira, disse que “O ser humano é cego aos próprios defeitos. Jamais um vilão se proclama vilão. Nem o idiota se diz idiota”.

Hoje era para escrever outra coisa, mas como os tempos são penumbrosos resolvi partilhar este magnífico texto do historiador e economista italiano Carlo Cipolla, que condensa em cinco leis a sua teoria da estupidez:

“1. Sempre se subestima o número de estúpidos em circulação.

2. A probabilidade de que uma pessoa seja estúpida é independente de sua educação, riqueza, inteligência, etc.; ou seja, a estupidez se distribui igualmente em todos os segmentos da população.

3. O estúpido causa dano a outras pessoas e a si mesmo, sem obter nenhum benefício.

4. Eles são imprevisíveis. As pessoas NÃO estúpidas sempre subestimam o poder danoso dos estúpidos.

5. Os estúpidos são mais perigosos que os bandidos e os malvados. Não há nada mais perigoso que um estúpido com poder.”

Quando o governo ou o regime social que produz a estupidez coletiva entra em colapso ou em crise, as pessoas podem se libertar dela e da dor que começa a surgir pela contradição entre seus pensamentos e seus atos (Bonhoeffer)

Sigo Mark Twain numa velha máxima “Sempre que você se encontrar do lado da maioria é hora de parar e refletir”, e tenho-o feito no meu quotidiano na politica, no desporto, na vivencia cultural e até social.

Tempos maus, muito maus! Pelo menos desejo a quem me lê um bom ano 2025!

 

Fernando Pereira

13/01/2025

 

14 de novembro de 2024

Deitar veneno no champanhe! / O Interior / 13/11/2024

 


Deitar veneno no champanhe!

Acho que a eleição de Trump não é muito importante para inverter a interioridade em que todos vamos caindo a cada geração que passa! Penso que com a Harris a situação seria exatamente a mesma! Contra o interior marchar, marchar!

                Não vou entrar em detalhes sobre a cobertura, ou a sua presencial ausência nas eleições americanas porque seria desagradável para uma classe que um pouco por todo o lado se engana muito, mas que os enganos são tolerados e a maior parte das vezes esquecidos. Estou a falar dos jornalistas, que cada vez menos são vistos como referências de verdade e rigor. A culpa não será porventura dos que ganham os míseros ordenados, sem horários, a trabalharem em condições deploráveis, enquanto os seus diretores e editores vão amansando a ira dos administradores que por sua vez são servis ao poder económico e político.

                No momento singelo em que os restos mortais são transladados para o Panteão Nacional, não fica mal recordar as suas palavras sobre o jornalismo: “É o grande dever do jornalismo fazer conhecer o estado das coisas públicas, ensinar ao povo os seus direitos e as garantias da sua segurança, estar atento às atitudes que toma a política estrangeira, protestar com justa violência contra os actos culposos, frouxos, nocivos, velar pelo poder interior da pátria, pela grandeza moral, intelectual e material em presença de outras nações, pelo progresso que fazem os espíritos, pela conservação da justiça, pelo respeito do direito, da família, do trabalho, pelo melhoramento das classes infelizes.” (Eça de Queirós, Jornal Districto de Évora, nº 1, 6 de Janeiro de 1867)

                Da “comentadorice” colhida e escolhida a dedo nada me surpreende, e a figura entristecida como os ouço e vejo, só me fatiga alguma sensatez que resiste em mim perante as verdades absolutas que mudam a cada passo e espaço. Como sou comentador e tenho carteira de jornalista tenho que me limitar a quase calar, sem, contudo, consentir algumas diatribes que nem sempre são honradas e raras vezes raiam a coerência!

                Às vezes apetece ser a abelha que diz às moscas que mel é melhor que merda, mas como bem diz Luis Fernando Veríssimo “Tem muita gente honesta neste país. Só não se identificam para não ficar de fora se aparecer um bom negócio”.

                Mudando de agulha. Vai reabrir com uns anos de atraso, umas derrapagens enormes nas empreitadas, salvaguardadas a favor dos mesmos por contratos leoninos feitos por excelsos escritórios de advogados, a linha da Beira Alta. Não sei se esta reabertura parcialíssima do troço Celorico da Beira- Vilar Formoso, vai servir para as comemorações do 25 de Novembro de 1975, uma data muito querida do Melo de Olivença e correlativos?

                Já vi o horário e mais uma vez me parece completamente desadequado porque poderia permitir, ainda que transitoriamente, que se pudesse fazer um transbordo para o Intercidades da Beira Baixa para que as pessoas de Celorico da Beira e Vilar Formoso se possam deslocar ao Barracão, Benespera, Maçainhas, Belmonte Caria e eventualmente à menos importante cidade de Lisboa, num confortável comboio muito rápido.

                Não vou escrever muito mais, senão ainda entro no rol dos da língua azul e lembrar alguém de quem partilho muito pouco da sua obra, Nietzsche: “Não foi o conflito de opiniões que tornou a história tão violenta, mas sim a fé nas convicções”.

 

Fernando Pereira

10/11/2024

13 de outubro de 2024

Jornal de Angola 26/9/1993

 Mais uma descoberta no baú de um artigo meu no "Jornal de Angola" em tempos difíceis!!

Jornal de Angola 26/9/1993






Devagar, Devagarinho, Parado! / O Interior / Guarda 11/10/2024

Devagar, Devagarinho, Parado! Andei a arrumar uma tralha cá por casa, e olhei para uma caixa que estava por cima de um armário intocada há anos, e sem qualquer referência ao que teria o seu interior. Quando a abri, foi como se tivesse reaberto a caixa de Pandora. Tinha por lá um conjunto significativo de artigos dos muitos que fui fazendo ao longo da vida em jornais, rádio e outras publicações por várias andanças. Perderam-se muitos, mas pelos vistos ainda se recuperam alguns. Entre os que me fui deliciando a recordar, encontrei um conjunto de artigos de um tempo em que colaborei semanalmente na Radio Altitude, onde mantive uma presença regular. Há sexta-feira durante dois anos lá me esforçava para dizer o que julgava certo, com o cuidado de omitir o muito certo, porque havia muitos que não gostavam. Tudo isto porquê? Porque há um conjunto de crónicas desse tempo, e estamos a falar dos últimos cinco anos do milénio passado, que podiam ser escritas hoje que a atualidade do tema não se perdia. Esta é de 18/10/1997, e não vou alterar uma vírgula ao que li ao tempo nos microfones da vetusta Altitude. “Anda toda a gente muito preocupada com a desertificação do distrito da Guarda, e simultaneamente com o facto de nada vir cá parar. As preocupações aumentam quando alguns “bibelots” daqui são levados para outros lugares. Não pactuo com este discurso da moda. E porque é que é um discurso de moda? Porque a realidade é que isto se passa há muitas décadas e ninguém se preocupou com isso. Agora, em que a competitividade e o mercado impõem regras, a Guarda e os outros municípios do distrito acordam para uma realidade que com eles convivem há muitos anos a esta parte. … O distrito da Guarda foi vivendo ao longo de décadas das migalhas das remessas dos emigrantes que de cá saíram na busca de melhores condições de vida para si e para os seus. O folclore de Agosto, quando vem de férias, era motivo de chalaça e dichotes, quando na realidade é que essa situação era a parte visível de um tumor que corroía o interior abandonado a uma sorte madrasta. Não será por ter lobbies que a Guarda vai ter mais qualquer coisa importante, é fundamentalmente porque não tem atividade empresarial e dinâmica política que altere o estado atual das coisas. O poder político da Guarda é de pouco peso, isto é quase uma frase batida, mas só poderia ter algum peso se fosse sustentado por um grande empenhamento das dinâmicas empresariais, intelectuais, culturais ou outras e não poder político que se tem que é um pouco igual à imagem da região: sectário, individualista, com laivos aqui e ali de caciquismo e acima de tudo mais preocupado em rotular pessoas do que discutir que afinal são de todos os que cá moram, e os que querem continuar a viver por aqui com melhores condições. Veja-se o quadro global da cultura média dos ocupantes de lugares políticos, por eleição ou nomeação no distrito. É demasiado confrangedor para nós sentirmos que não estamos de facto a viver um pesadelo. O dinamismo empresarial só se consegue com exigência e isso só se pode auferir com a elevação cultural dos cidadãos. Isto é um processo mecanicamente dialético, e só depois de se despir o sectarismo dos que estão no poder, e dos que fazem oposição para estar no poder a fazer exatamente igual é que é possível trabalhar para o bem comum. É um tema aliciante, mas que não cabe nos minutos desta crónica, nem tão pouco me sinto com capacidade de ser eu a levá-lo às pessoas. Reconheço as minhas insuficiências, mas gostaria que outros as reconhecessem também e não se escondessem atrás dos biombos que os lugares lhes facultam, para lhes dar a autoridade de “engenheiros de almas” rebuscando uma máxima de Estaline. … Algo está podre no Reino da Dinamarca.” Esclareça-se que a crónica era um pouco mais longa, e a própria verve é de rádio, com pouco cuidado na pontuação, para além de outras construções. Só trouxe aqui o essencial de uma crónica escrita há 27 anos, que bem podia ser de hoje. Prometo que trarei outras e todos verão que o tempo passou, mas as questões, os problemas e o quotidiano das intervenções publicas em nada se alteraram. Fernando Pereira 5/10/2024
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