Debaixo da Exceção
procurem a regra (Brecht)
“É uma infelicidade da época que
os loucos guiem os cegos” William Shakespeare, Rei Lear (ato 4)
Tempos esquisitos os que vivemos!
Chegamos a este estado de coisas
porque por omissão, comodismo e demasiada ignorância coletiva permitimo-nos
confrontar com uma sociedade de valores, onde não me revejo, nem tampouco
consigo ter força e argumentos para contrariar.
Não vale a pena discutirmos o que
é o mundo hoje, quem são os melhores e os piores. A Europa na sua languidez
exasperante tenta viver de clichês ultrapassados, para manter os princípios de
uma EU que se tornou num catavento, a mudar de posição sistematicamente por
causa dos sucessivos vendavais que sopram de todo o lado.
Alguns países da Europa deixaram
de ser potencias coloniais e “impérios onde o sol nunca se punha”, mas nunca
aceitaram que era preciso mudar a mentalidade em relação ao mundo. A
sobranceria como a Europa, principalmente a de inspiração judaico-cristã vê o
mundo é aviltante dos valores que nortearam a “Revolução Francesa” no fim do
século XVIII.
Anda tudo admirado com a
Trumpeirada a que mundo se está a moldar, mas se há alguma réstia de qualidade
em Trump é a de dizer ao que vem. Vem ao dinheiro, ao negócio, ao retorno aos
combustíveis fósseis, ao supremacismo branco e a prevalência de religiões mais
adaptadas a uma hierarquização da sociedade entre a timocracia e a
cleptocracia.
Trump faz exatamente o que os EUA
sempre fizeram, que foi invadir, raptar, guerrear apenas na defesa do seu
interesse. Faziam com frases impactantes de defesa dos direitos do homem,
liberdade, democracia e outras, mas as realidades mais não fazem que defender e
lutar pelos seus próprios interesses, a começar pela artificialidade do valor
do dólar. Trump, como em termos ideológicos sempre ouviu falar em negócios,
nunca terá lido um livro, a não ser de cheques, deixou essas subtilezas e ei-lo
a deixar o mundo num momento de uma desbundada cacofonia que os ouvidos servis
aos EUA não estavam habituados. Trump cortou com a retórica de Woodrow Wilson,
que norteou a política económica dos EUA no mundo em todo o século XX. Há uma
réstia em tudo isto porque há uma enorme diferença entre coerência e teimosia.
Mas nem todos os inteligentes a percebem, nem todos os teimosos.
Vejam quanto valem as companhias
norte americanas em termos de negócios. Vejam quanto valem as companhias de
Países emergentes que vão fazer parte de um homem que nos vamos habituando a
ver construído assim, e tentem ficar descansados. Mark Twain dizia “A profecia
é um género muito difícil sobretudo quando aplicado ao futuro”. Sinceramente
não tenho nenhum oráculo para saber o que vai acontecer à maior parte das
pessoas. Aguardemos novos desenvolvimentos, que infelizmente vão trazer
desmesurados envolvimentos.
Quanto mais vazia a carroça mais
barulho ela faz.
No fim do ano passado a Guarda
perdeu um cidadão de grande carater, e eu perdi um bom amigo.
Fernando dos Santos Cabral era
meu amigo há décadas, e não é por sê-lo que sempre admirei a sua forma de estar
no quotidiano político da região, e na sua vida enquanto profissional e pessoa
de intervenção cívica aliada a uma grande probidade.
Politicamente raras vezes
estivemos no mesmo espaço partidário, aliás desde os idos tempos de 1975, mas
nunca entrámos em desvarios, nem tampouco deixamos de ter uma relação de
amizade de grande proximidade, e de continuadas saudáveis discussões.
Foi governador-civil, deputado da
AR, delegado do INATEL e do Instituto da Juventude, membro da Assembleia
Municipal, tudo pela Guarda, cidade onde nasceu e onde desenvolveu toda a sua
atividade profissional.
Nunca deixou de participar em
combates que sabia perdidos à partida, mas fê-lo sempre com a convicção da
defesa dos seus princípios, arreigados a uma defesa humanista num Partido
Socialista onde militou até ao fim!
Mesmo no sofrimento da sua
doença, nunca deixou de partilhar com os amigos as conversas que sempre
tivemos. Foi sempre amigo dos seus amigos e não os fazia por mero interesse que
às vezes os ditames partidários condicionam.
Quando sentiu que não era
desejado na vida política, voltou à escola para continuar a dar educação física
aos seus alunos, e não se ouviu da sua parte um lamento nem participou nas
sórdidas estratégias para conseguir um lugar a qualquer preço.
A sua morte deixou um vazio
enorme aos seus amigos e claro que a toda a sua família, por quem tinha uma
afeição desmesurada.
Como disse George Brassens “Aos
amigos perdoamos tudo, menos que morram”.
Fernando Pereira
12/1/2026

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