18 de janeiro de 2026

Debaixo da Exceção procurem a regra (Brecht) /O Interior /Guarda 14-01-2026)


 


Debaixo da Exceção procurem a regra (Brecht)

“É uma infelicidade da época que os loucos guiem os cegos” William Shakespeare, Rei Lear (ato 4)

Tempos esquisitos os que vivemos!

Chegamos a este estado de coisas porque por omissão, comodismo e demasiada ignorância coletiva permitimo-nos confrontar com uma sociedade de valores, onde não me revejo, nem tampouco consigo ter força e argumentos para contrariar.

Não vale a pena discutirmos o que é o mundo hoje, quem são os melhores e os piores. A Europa na sua languidez exasperante tenta viver de clichês ultrapassados, para manter os princípios de uma EU que se tornou num catavento, a mudar de posição sistematicamente por causa dos sucessivos vendavais que sopram de todo o lado.

Alguns países da Europa deixaram de ser potencias coloniais e “impérios onde o sol nunca se punha”, mas nunca aceitaram que era preciso mudar a mentalidade em relação ao mundo. A sobranceria como a Europa, principalmente a de inspiração judaico-cristã vê o mundo é aviltante dos valores que nortearam a “Revolução Francesa” no fim do século XVIII.

Anda tudo admirado com a Trumpeirada a que mundo se está a moldar, mas se há alguma réstia de qualidade em Trump é a de dizer ao que vem. Vem ao dinheiro, ao negócio, ao retorno aos combustíveis fósseis, ao supremacismo branco e a prevalência de religiões mais adaptadas a uma hierarquização da sociedade entre a timocracia e a cleptocracia.

Trump faz exatamente o que os EUA sempre fizeram, que foi invadir, raptar, guerrear apenas na defesa do seu interesse. Faziam com frases impactantes de defesa dos direitos do homem, liberdade, democracia e outras, mas as realidades mais não fazem que defender e lutar pelos seus próprios interesses, a começar pela artificialidade do valor do dólar. Trump, como em termos ideológicos sempre ouviu falar em negócios, nunca terá lido um livro, a não ser de cheques, deixou essas subtilezas e ei-lo a deixar o mundo num momento de uma desbundada cacofonia que os ouvidos servis aos EUA não estavam habituados. Trump cortou com a retórica de Woodrow Wilson, que norteou a política económica dos EUA no mundo em todo o século XX. Há uma réstia em tudo isto porque há uma enorme diferença entre coerência e teimosia. Mas nem todos os inteligentes a percebem, nem todos os teimosos.

Vejam quanto valem as companhias norte americanas em termos de negócios. Vejam quanto valem as companhias de Países emergentes que vão fazer parte de um homem que nos vamos habituando a ver construído assim, e tentem ficar descansados. Mark Twain dizia “A profecia é um género muito difícil sobretudo quando aplicado ao futuro”. Sinceramente não tenho nenhum oráculo para saber o que vai acontecer à maior parte das pessoas. Aguardemos novos desenvolvimentos, que infelizmente vão trazer desmesurados envolvimentos.

Quanto mais vazia a carroça mais barulho ela faz.

No fim do ano passado a Guarda perdeu um cidadão de grande carater, e eu perdi um bom amigo.

Fernando dos Santos Cabral era meu amigo há décadas, e não é por sê-lo que sempre admirei a sua forma de estar no quotidiano político da região, e na sua vida enquanto profissional e pessoa de intervenção cívica aliada a uma grande probidade.

Politicamente raras vezes estivemos no mesmo espaço partidário, aliás desde os idos tempos de 1975, mas nunca entrámos em desvarios, nem tampouco deixamos de ter uma relação de amizade de grande proximidade, e de continuadas saudáveis discussões.

Foi governador-civil, deputado da AR, delegado do INATEL e do Instituto da Juventude, membro da Assembleia Municipal, tudo pela Guarda, cidade onde nasceu e onde desenvolveu toda a sua atividade profissional.  

Nunca deixou de participar em combates que sabia perdidos à partida, mas fê-lo sempre com a convicção da defesa dos seus princípios, arreigados a uma defesa humanista num Partido Socialista onde militou até ao fim!

Mesmo no sofrimento da sua doença, nunca deixou de partilhar com os amigos as conversas que sempre tivemos. Foi sempre amigo dos seus amigos e não os fazia por mero interesse que às vezes os ditames partidários condicionam.

Quando sentiu que não era desejado na vida política, voltou à escola para continuar a dar educação física aos seus alunos, e não se ouviu da sua parte um lamento nem participou nas sórdidas estratégias para conseguir um lugar a qualquer preço.

A sua morte deixou um vazio enorme aos seus amigos e claro que a toda a sua família, por quem tinha uma afeição desmesurada.

Como disse George Brassens “Aos amigos perdoamos tudo, menos que morram”.

Fernando Pereira

12/1/2026

  

9 de janeiro de 2026

Prefácio do Livro dos 2ºs jogos da África Central

 



“O passado nunca está morto. Nem sequer faz passado” William Faulkner (Requiem por uma freira).

 

Recordar os segundos jogos da África Central quase quarenta e cinco anos depois é um exercício de nostalgia confortável, num contexto da história de um País com meio século de vida coletiva.

                Os segundos Jogos da África Central que decorreram entre 20 e 31 de agosto de 1981 foram porventura a maior manifestação desportiva de sempre em Angola.

                Da Comissão Organizadora dos Jogos da Afica Central (COJAC) já somos poucos os sobreviventes, mas somos a memória de um tempo em que o voluntarismo, a solidariedade e a indómita vontade de fazer eram valores que deixaram uma marca num tempo em que tudo era novo, e tudo que de bom ou mau fizéssemos era, ou podia ser inovador.

                Sou com enorme orgulho um dos que restam, e por isso não posso deixar de homenagear os meus camaradas do COJAC e também um conjunto enorme de gente anónima,  que fez desses jogos um fazer sentir que a então Republica Popular de Angola era capaz de se afirmar como um País com capacidade de organização, e que tinha gente valorosa para fazer vingar a sua independência conquistada a golpes de vontade!

As palavras de Louis Althusser (1918-1990) em que “um idealista é um homem que sabe de que estação sai o comboio e qual é o seu destino. Sabe-o de antemão e, quando entra no comboio, sabe para onde vai desde que o comboio o leve. O materialista, pelo contrário, é um homem que apanha o comboio, sem saber de onde vem, nem para onde vai” sintetizam muito bem o que se passou nos tempos em que Angola assume a organização dos jogos em Luanda. Aos primeiros tempos de um idealismo de uma ciclópica tarefa sobrepôs-se o materialismo de a ver realizada com toda a alegria esfuziante de ter visto a tarefa acabada com sucesso.

Recordar os jogos de Africa Central é sobretudo sentir quanto foi a perseverança continuada de Rui Alberto Vieira Dias Mingas, secretário de estado de educação física e desportos no fim dos anos setenta e no dealbar dos anos 80. A realidade é que só essa obstinada força de vencer conseguiu que os jogos se realizassem, apesar de tantas contrariedades, dúvidas e escolhos que se manifestaram desde o primeiro dia em que se assumiu realizarem-se os jogos.

Porque fiz parte da equipa acompanhei de perto todas as vicissitudes, as alegrias, as tristezas, as dúvidas, as discussões e outros circunstancialismos que desde essa altura fiquei com a convicção que não há nada tão monótono como a perfeição.

Ao tempo a África, ainda com a África do Sul e a Namíbia não libertadas do regime de apartheid, estava dividida em sete zonas de desenvolvimento desportivo, estipulado pelo CSSA, Conselho Superior de Desportos de África, estrutura diretora do desporto africano ao nível continental.

Angola era a sede da sexta zona de desenvolvimento desportivo e englobava também a República do Zaire, República Popular do Congo, Gabão, Camarões, Guiné Equatorial, Burundi, Ruanda, Chade, República Centro Africana e S. Tomé e Príncipe.

Os primeiros jogos tiveram lugar em Libreville no Gabão em 1976 com os problemas inerentes à primeira organização de uns jogos desta dimensão.  Daqui colheram-se experiências que evitassem erros que pudessem pôr em causa novas realizações, quer em novos jogos, quer em provas sectoriais de modalidades realizadas fora do âmbito de uma competição de maiores recursos, que pontualmente se iam fazendo em campeonatos zonais.

Decidiu-se atribuir a Angola a organização dos 2ªs jogos da África Central, que o governo da RPA aceitou depois de ponderada decisão face às exigências que eram colocadas a um País em guerra, com ameaças externas constantes e com exiguidade de quadros experientes que pudessem responder cabalmente ao desafio. Acrescia a falta de recursos económicos para iniciativas desta dimensão.

Com o reiterado  idealismo e uma mobilização extrema por parte do governo da RPA, e para além dos desportos, houve a  inclusão de agentes dos ministérios da educação, saúde, comércio externo, construção,  defesa, segurança, transportes, plano, relações exteriores e ainda comissariados provinciais e municipais bem como a presença continuada dos órgãos de difusão massiva, como ao tempo se chamava a comunicação social.

As pessoas não fazem ideia dos recursos humanos que isto mobilizou durante um ano e meio, para conseguir que aqueles onze dias de Agosto de 1981 fossem os dias mais impactantes de uma Angola a viver ainda a sua meninice demasiado atribulada.

A então República Popular de Angola precisava de se afirmar com uma identidade própria no contexto das nações africanas e mundiais. Tinha saído de um processo de independência difícil e a gestão política dos primeiros anos tinham sido internamente tumultuosos e ficaram marcas profundas na sociedade angolana no primeiro lustro como nação.  Desporto e a mobilização da juventude para a cultura física, a criação de estruturas organizadas de entidades desportivas, início de campeonatos regulares, o aparecimento de seleções nacionais e integração da RPA nas instâncias desportivas internacionais foram alavancas decisivas para afirmação do País num contexto em que muito mais nos era desfavorável que o contrário.

O desporto e a política andaram de braço dado porque havia um claro objetivo de sentir que a palavra “Desporto para todos” não fosse só um slogan, mas acima de tudo um estar e participar num País novo, com ideias novas em que a cultura física fosse indispensável para a criação de um cidadão novo numa inovadora sociedade mais igualitária.

Talvez tivesse sido idealismo a rodos, mas foi isso que nos fez fazer e conseguir materializar o sonho de fazer os 2º Jogos da África Central. “Pelo Sonho é que vamos”, aproprio-me das palavras de Sebastião da Gama.

Como coisa boa de angolano pensa-se em grande e começaram a prepararem-se os jogos para decorrerem em várias cidades do País: Luana, Huambo, Benguela/Lobito e Lubango.

Fizeram-se levantamentos dos equipamentos existentes e os necessários para um conjunto alargado de modalidades. Corria-se atrás de um calendário que era demasiado curto para a prossecução dos objetivos a que nos propusemos. Muito do que se tinha projetado deparava-se com obstáculos múltiplos, face aos problemas da guerra, da falta de resposta da industria local, dos atrasos nas empreitadas das estruturas desportivas e hoteleiras que recebessem os desportistas, ficando a título de exemplo o atraso nas obras de ampliação da casa do desportista na ilha de Luanda e o estádio 1º de Maio em Benguela.

Mas não se esmorecia e a cada contrariedade Rui Mingas, Secretário de Estado de Educação Física e Desportos e o saudoso Helder Moura, secretário geral do COJAC incentivam a continuar, mesmo com irritações, discussões e alguma hilaridade à mistura numa ou noutra circunstância mais tensa.

As obras da Cidadela, e principalmente a sua pista precisaram quase de uma “ponte aérea” para que estivesse pronta no dia da abertura dos jogos. Pintar pavilhões, fazer reparações, asfaltar ruas para que as provas de atletismo de estrada e ciclismo pudessem decorrer sem problemas, perante o rigoroso controle de instâncias internacionais foi uma tarefa de dia e noite para operários engajados no espírito dos jogos. Preparar as torres da Cidadela para alojar mil e quinhentos atletas, treinadores, médicos e outros elementos transformando numa “cidade olímpica” onde tiveram que se fazer de raiz dois refeitórios, salas de imprensa, locais de reuniões, postos médicos e tudo que afinal no dia 20 apareceu feito e funcionou.

Houve muito deixado ao acaso, mas talvez porque houve empenho o acaso acabou por funcionar quase na perfeição.

Acabamos por ser realistas e só Luanda e o Huambo puderam ter os Jogos. 11 Países, 9 modalidades, algumas masculino e feminino, e para além de atletas e corpo técnico era a necessidade de instalar árbitros, juízes, chefes de delegação, presidentes e delegados de federações internacionais, jornalistas, artistas, foi sobretudo necessário mobilizar muita gente para que tudo corresse quase na perfeição, o que ao tempo não era nada fácil que acontecesse.

No festival de abertura presidido pelo Presidente José Eduardo dos Santos que abriu formalmente os jogos, o extraordinário espetáculo de milhares de jovens das escolas de Luanda que fizeram múltiplas encenações de quadros humanos que deixaram boquiabertos os milhares de pessoas que encheram a Cidadela para assistirem a um organizado e entusiasmante desfile e movimentação de alguns milhares de pessoas. Repetiu-se com a mesma intensidade e colorido na cerimónia de encerramento.

Volvido este tempo todo continuo a sentir uma nostalgia, algo mitigada, de cada dia desse longínquo fim de Agosto de 1981, em que enquanto Angola se desmanchava em ternura nuns jogos de empenhamento e competitividade saudável entre todos os participantes, as tropas do regime de Pretória atacavam o sul de Angola ocupando uma série de vilas e aldeias. Foi a tristeza que manchou os jogos, e a três dias do fim o entusiasmo esmoreceu perante as notícias que iam chegando do Cunene.

Hoje tem que se fazer uma homenagem a Rui Mingas porque foi quem se exigiu a si próprio um esforço suplementar para nos exigir a nós determinação, coragem e não ter medo para que estes jogos fossem uma marca indelével nestes cinquenta anos de vida coletiva de um País, que nasceu para ser o que será no futuro: Melhor.

Podia falar de muitos que me acompanharam no COJAC, mas prefiro não o fazer porque iria omitir alguém e todos, de uma forma ou de outra fomos importantes.

Este livro dos 2ºs Jogos da África Central é um documento imprescindível para que gerações no futuro saibam que num País em guerra, com oitenta por cento das pontes cortadas, com dificuldades no abastecimento alimentar das populações, com cortes de água e luz, com limites muitos grandes às importações, com poucos técnicos mas com uma afirmativa vontade de fazer e de construir  foi possível fazer a maior manifestação desportiva de sempre de Angola.

Citando José Saramago, afinal o único Nobel da língua portuguesa: “Sem memória não existíamos. Sem responsabilidade, talvez não devêssemos existir”.

 

Fernando Pereira

 

 

 

 

 

 

 

 


15 de dezembro de 2025

“Perdidos numa espécie de coisa.” / O Interior / Guarda 10/12/2025

 

        



“Perdidos numa espécie de coisa.”

Confesso que andei às voltas para fazer esta crónica. Tenho vários temas, mas também pensei para comigo, quem é que quer saber o que escrevo?

                Há já há uns anos que vamos assistindo à lenta descredibilização do jornalista no espaço mediático em Portugal. No mundo também, mas prefiro ficar pelo quotidiano local. Não sou dos que acham que os meus textos vão mudar o que quer que seja na localidade onde vivo, quanto mais num mundo que discutimos enfaticamente como donos de uma razão pura e dura.

                Hoje não sou jornalista, não sou analista, limito-me a ser um comentador com opinião própria, que poucos se apropriam!

                O jornalismo, que terá sido sempre uma profissão respeitável, nalguns casos nem tanto, mas que não dá para tomar a nuvem por Juno.

                O jornalista foi a profissão que todos os que adoravam a verdade e a firmeza de mudar o mundo abraçavam, num juramento de narrar apenas os acontecimentos, quebrando barreiras e levando ao publico uma realidade assentes em factos verosímeis.

                Há muitas décadas que não é assim porque o tal quinto poder, um termo criado por Ignacio Ramonet para denunciar os media que estavam ao serviço de governos, indústrias, sindicatos e outros espaços de abastardização da organização social tem vindo cada vez a cercear o trabalho do jornalismo e abafá-lo ao serviço dos grupos dominantes.

                Há umas décadas fui a Snagov na Roménia a um congresso da IASI, uma estrutura da UNESCO para a Informação e documentação desportiva. A determinada altura foi-nos oferecida uma apresentação, no que hoje seria uma obsoleta máquina da IBM, do que seria o jornal do futuro e a quase desnecessidade do diretor nomeado pela administração, sair do seu lugar para que uma publicação fosse feita, e que com a conivência do Chefe de redação ou dos diferentes editores as alterações nem tampouco seriam comunicados a quem fez o trabalho. Quando o jornal feito pelos jornalistas chegava ao altar do diretor ele tratava de colocar tudo nos carris, e submeter os valorosos jornalistas a um estatuto de subserviência para defesa do seu ganha-pão. Era um pouco a figura de William Randolph Hearst, o magnata americano dos media do fim do seculo XIX e do dealbar do seculo XX, genialmente revelado no extraordinário filme Citizen Kane de Orson Wells.

                Confesso que fiquei relativamente desconfiado da mostra e julguei que seria impossível.  Desaparecer uma redação com o frenesim  dos repórteres e jornalistas a matraquearem nas teclas de pesadas máquinas, com o fumo dos cigarros a deixar um espaço com uma nuvem junto ao teto, com alguém a perguntar como se escrevia determinada palavra, com “bocas” aqui e ali, e a necessidade de acabar o trabalho para que o chumbo dos tipógrafos, os ouvintes da rádio ou os telespectadores, enfim os cidadãos ávidos das notícias tivessem em tempo útil o desígnio de poderem ter uma verdade, servida em bandeja e decorada pelos bastidores. Pelos vistos não esperei muitos anos.

                O jornalismo hoje, não por culpa dos profissionais, na sua maioria dedicados e mal pagos vive um pouco as mudanças sem que se saiba o que será o futuro. De um passado que hoje muitos querem fazer reviver, deixo esta frase de Salazar, um homem que diabolizava tudo que pudesse sair do ar fétido da sacristia em que o País vivia: “Um engenheiro forma-se e procura ser um bom engenheiro. Um advogado forma-se e procura ser um bom advogado, mas se algum deles não dá para nada, ou alguém não dá para nada, vai ser jornalista. São uns biltres.”

                Era um tema que gostava de desenvolver e quiçá mesmo envolver, porque o futuro do jornalista está em risco de se confundir com um promotor de eventos, um ficcionista, um roteirista, um panegirista, um publicitário, enfim tanta coisa respeitável, mas que não é efetivamente um profissional da verdade, da isenção e  promover a comunicação com o universo dos sobre as realidades do seu quotidiano.

                “Quanto mais a sociedade se distancia da verdade, mais ela odeia aqueles que a revelam” George Orwell.

                Isto vai longo, mas quero aqui prometer que vou fazer um texto sobre o meu amigo Fernando Santos Cabral, recentemente falecido e a quem a Guardo tanto deve. Porque ainda não consegui a serenidade suficiente para fazer um texto com a dignidade que ele merece, fica para uma próxima crónica.

                Convém esclarecer que o título é de um poema de José Mário Branco.

                Para o ano há mais. Boas Festas.

 

Fernando Pereira

8/12/2025

12 de outubro de 2025

Apego à memória / O Interior / Guarda 8/10/2025

 

                    



Apego à memória

“Aprendemos com a história que não aprendemos com a história” foi uma frase legada por Hegel que se adapta bem aos tempos conturbados que vivemos.

                Nunca fui apoiante do Bloco de Esquerda embora tenha muitos amigos e ex-companheiros percurso por lá. Há um conjunto de propostas do BE que subescrevo sem hesitação, embora globalmente não concorde com a sua prática política quotidiana.

                A presença da Mariana Mortágua e dos outros ativistas portugueses merecem o meu aplauso, porque foram fazer o que não fui capaz, para denunciar o sionismo nazi dos governantes israelitas, que não podem ser confundidos com os israelitas, nem com os judeus, vítimas também deste verdeiro crime de guerra continuado. O Hamas é uma organização terrorista, inicialmente financiada pelo governo de Israel para dividir a OLP e a Autoridade palestiniana. Depois como acontece amiúde deixa de haver controle por parte dos “pais fundadores”!

                Fico entusiasmado com as manifestações e com a presença massiva da juventude, o que faz acreditar que afinal temos gente para o futuro e futuro com esta gente. Sempre defendi que qualquer manifestação de juventude, por mais discutível que seja o mote é sempre um espaço de vitalidade, de uma geração que não se conforma com o que lhe dão. É a razão da idade em oposição à instaladíssima idade da razão. Quando vemos esta gente, recuamos umas décadas em que fizemos o mesmo e apelando a propostas que mais tarde nós próprios admitimos serem absurdas. Mas no cinzentismo onde nos encontramos, esta gente dá-nos esperança, que afinal os tristes somos mesmo nós e a geração que nos governa.

                Não esqueçamos que Gandhi, Mandela, Ho-Chi-Min, Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Eduardo Mondlane e tantos que foram terroristas num determinado contexto da história. O que se revelou depois é que estavam do lado certo. Neste caso houve alguém que lembrou a epopeia do “Lusitânia Expresso”, onde até ia o General Ramalho Eanes e que simbolicamente queriam apenas mostrar ao mundo a forma como os dirigentes indonésios tratavam os timorenses. Na altura as críticas vieram dos mesmos sectores de hoje, embora com outros intervenientes, e a verdade é que Timor é hoje um País independente e chora os milhares de mortos assassinados por Suharto.

                Das autárquicas que se aproximam, julgo que não me engano que fica tudo mais ou menos na mesma, embora ache que nas autarquias onde tem que inevitavelmente haver mudanças por estarem autarcas condicionados ao fim do mandato, poderão haver algumas mudanças de partidos políticos nas cadeiras das presidências de Camaras e juntas!  O Chega irá ter uma relevante expressão, e talvez não seja mau de todo começarem a olhar para esse partido sem a altivez de que aquilo é um bando de maltrapilhas, tentando colá-lo ao pior e fechando-os numa bolha que vai crescendo cada vez mais à medida que se promove a sua marginalização continuada.  O Ventura sabe ao que vem, tem alguma comunicação social a promovê-lo e outra parte a tentar menorizá-lo de forma às vezes muito pouco inteligente, diga-se de passagem.

                O Chega é o resultado primeiro de ocupar um vazio ideológico que havia no espaço político português, e a organização reiterada e copiada da proliferação das igrejas evangélicas que enxameiam o País.

                Julgo que não vai ser muito significativa a sua expressão autárquica, mas a sua implantação é um facto, e Ventura e seus títeres tem que ser chamados às decisões, para quando as coisas correrem naturalmente mal, não atirem a responsabilidade para cima dos outros, ficando com a vantagem de terem estado de fora dos problemas e da sua resolução.

Mais vale haver saudosistas da ditadura em democracia que haver saudosistas da democracia na ditadura.

 

Fernando Pereira

5/10/2025

13 de setembro de 2025

Lipotímia da Democracia/ O Interior/10-9-2025

 


Lipotimia da Democracia?

Eis-nos na “antecâmara” das eleições autárquicas.

                Vamos ter um mês de propostas requentadas, de proposituras em reprise e sobretudo muito folclore. Depois tudo amança e volta-se ao quotidiano do repetível.

                Talvez não fosse mau as pessoas saberem à partida quanto ganha um autarca, desde os membros das juntas aos executivos, e quanto custam as ajudas para os membros das assembleias municipais e freguesias. Julgo que iria surpreender muita gente quando soubessem os valores que auferem os “eleitos do povo”.

                Não pretendo pôr em causa o pagamento aos eleitos, achando que a democracia merece esse preço a pagar pelo erário público, e que as pessoas devem receber pelo trabalho em favor da comunidade. Não partilho, contudo, da ideia que as pessoas façam discursos tão inflamados em que misturam o amor declarado à terra ao sacrifício pessoal e familiar. Ninguém lhes pede isso. Mantenham convictamente as promessas, muitas delas incumpríveis, mas evitem pedir aos eleitores o voto para o supremo sacrifício do poder.

                Não sei porquê vem-me à lembradura nestas circunstâncias esta texto do truculento poeta brasileiro Nelson Rodrigues em “óbvio ululante”: “Uma verdade historicamente demonstrada: o canalha, quando investido de liderança, faz, inventa, aglutina e dinamiza massas de canalhas. Façam a seguinte experiência: ponham um santo na primeira esquina. Trepado num caixote, ele fala ao povo. Mas não convencerá ninguém, e repito: ninguém o seguirá. Invertam a experiência e coloquem na mesma esquina, e em cima do mesmo caixote, um pulha indubitável. Instantaneamente outros pulhas, legiões de pulhas, sairão atrás do chefe abjeto.”

                Talvez mesmo que seja do meu mau feitio esta de citar outros com um pior que o meu!

                Há anos que ando a clamar no deserto pela alteração desta legislação eleitoral ridícula nos tempos que correm. 

                A autonomia do poder local foi uma das grandes conquistas do 25 de Abril de 1974, a par de muitas outras que vão sendo silenciosamente esmagadas.

                Quando se criou esta estrutura de poder autárquico teve-se em consideração a necessidade de haver uma representatividade acrescida dos presidentes de junta, sem que estes ficassem na dependência de amores ou maus humores dos presidentes de Camara. Tinham, e mantém uma representatividade na Assembleia Municipal para levarem os seus problemas a um fórum aberto. A situação prevalecente traz-me à memória alguns aspetos da Camara Corporativa em que havia membros nomeados pelo parlamento, organizações sindicais, patronais, grémios e outros. Era um órgão consultivo ao invés da Assembleia Municipal que é um órgão que tem poderes para vetar e aprovar documentos emanados do executivo, incluindo o orçamento municipal, instrumento indispensável para a prossecução do trabalho de uma autarquia.

                A bizarrice de tudo isto tem a ver com o facto dos membros da AM serem eleitos pelos eleitores do concelho e quase metade serem eleitos só pela população de uma freguesia. Podemos ter um eleito para um órgão alguém com 400 votos e uma força partidária com 5000 votos não conseguir eleger alguém para um órgão em que a legitimidade democrática fosse salvaguardada pela representatividade das pessoas pelo número de votos.

                Não vou alongar-me muito mais, mas acho que os executivos deviam sair de uma Assembleia Municipal eleita nos mesmos moldes da Assembleia da República, podendo o Presidente da Camara fazer o executivo como quisesse sem se cingir ao absurdo critério dos vereadores eleitos. Aí a AM tinha uma importância maior nos concelhos. Os Presidentes de Junta fariam parte de um Conselho Consultivo, ou uma estrutura com alguma hibridez que obrigasse a que a Camara Municipal ouvisse as suas queixas e recomendações e fosse obrigada a aceitar quando houvesse propostas de alterações estruturantes.

                Acho que era um tema interessante para salvaguardar a democracia e que deixe de continuar a haver alguma demagogia no atual modelo desatualizado pelas alterações do status quo político.

                Fernando Pereira

                7/9/2025

 

 

14 de agosto de 2025

A rua caiu no poder?

                                                                         


                                            

                                                A RUA CAIU NO PODER?

“O que o rebanho mais odeia é aquele que pensa de forma diferente, não é tanto a própria opinião, mas a audácia de pensar por si mesmo, algo que eles não sabem fazer” Artur Schopenhauer.

                Aqui há uns dias “caí na sopa” num grupo de companheiros de jantar de um amigo. Era gente que falava alto, que assumia a autoridade sobre tudo que se passava na mesa, no País e no mundo. A comer havia tiques omnívoros.  O denominador comum nas conversas na mesa era sobre “a desonestidade dos políticos”.

                A indignação subia de tom com a passagem repetida de jarras de vinho pela mesa. Como se perceberá eu estava condicionado porque as minhas relações com a maioria dos do grupo cingiam-se ao educado bom dia ou boa tarde.

                Enquanto se discutiam as malfeitorias dos governantes e autarcas íamos assistindo a um jogo numa TV, e presumi que estávamos a ver à borla num aparelho qualquer de TV pirata, porque segundo as palavras do dono do aparelho “não alimentava chulos”.

                Entre partes e apartes fui constatando que uns e outros iam metendo umas cunhas para agilizarem alguns pendentes, que um cidadão comum sem acesso a “influentes” teria dificuldade em ver resolvidos. Claro que a gratidão por ver a coisa tratada seria objetivada no futuro em algo tangível, ou na troca de favores.

                Cada vez era maior a raiva à impunidade dos políticos perante coisas que apareciam em letras garrafais com títulos apelativos à “justiça popular” de cidadãos, que em certas circunstâncias me fazem lembrar a labreguice dos meus companheiros de deglutição de um jantar que só por ter apanhado uma boleia me desconfortou manter-me até ao fim.

                As redes sociais são a caixa de sonância e ressonância de tanto “justiceiro”. Todos denunciamos e anunciamos patifarias, exceto as nossas e dos de quem gostamos. Vou dar um exemplo caricato q.b. de uma determinada situação: Aqui há uns anos uns técnicos de saúde foram condenados por burla ao SNS. As televisões ávidas de reproduzirem até à exaustão montaram um acampamento à porta do tribunal. Pasme-se que passados uns anos “tropeço” nas redes sociais num dos que foram condenados nessa situação e indignado contra os políticos porque defraudam sistematicamente o estado perante o assobiar para o lado da justiça. Um verdadeiro recuperado!

                O calor dilata muita coisa, as redes sociais e a imprensa coscuvilheira fazem pior e a sociedade tem que se conformar com novos espaços de julgamento.

                Para recordar tempos idos aqui está uma das muitas pérolas do almirante Tomaz, o último presidente da ditadura: “Comemora-se em todo o país uma promulgação do despacho número Cem da Marinha Mercante Portuguesa, a que foi dado esse número não por acaso, mas porque ele vem na sequência de outros noventa e nove anteriores promulgados...”

                Começar com Schopenhauer e acabar com Américo Tomaz mostra bem o estado a que se chegou.

                Veraneiem-se muito!

Fernando Pereira

9/8/2025

13 de junho de 2025

"De olho Neles" / O Interior/ Guarda 12-6-2025

 


                                    


                                                DE OLHO NELES

 

                               “Por trás de todo o paladino da moral, vive um canalha”

                               Nelson Rodrigues

Aí temos o tempo dos Santos Populares. Confesso que despercebo quais são mesmo os santos impopulares, ou melhor terei percebido em parte pela votação no Pedro Nuno Santos!

                Este ano para além dos santos populares vão aparecer os andores de indivíduos (as) que se querem afirmar resolvedores de todos os problemas nas urbes pelo País todo. Vai ser um fartar de febras, entremeada, imperiais em copos de plástico, vinho de qualidade duvidosa, e sorrisos em barda para tentar agradar a gregos, troianos e beócios!

                Para abrilhantar o período vão aparecer uma parafernália de candidatos presidenciais de todos os tamanhos, cobertos de ética e sobretudo “assumidores” convictos da defesa de uma Constituição da República que muitos não conhecem. Mas começa a ser o quotidiano dos atores da política espetáculo a que nos fomos ambientando nos últimos anos. “O essencial é invisível aos olhos” Saint Exupery

                Vamos ter festa redobrada e a sensação que teremos tudo resolvido. Como diria alguém, “não há nada tão monótono como a perfeição”!

                Como o Verão se aproxima, vamos aligeirar as vestes e tentemos voltar a irritar-nos com coisas pequenas para ficarmos um pouco mais confortáveis.

                Uma das coisas que mais me “perplexam” é o facto de quando há uma alteração significativa do quotidiano dos portugueses a primeira reação é uma corrida desenfreada ao papel higiénico. Sinceramente gostava que me explicassem este assalto às prateleiras dos supermercados. Desculpem a brejeirice, mas o português parece que perante uma situação anómala gosta do olho limpo! Verdadeiros herdeiros do “semiótico” Camões!

                Esta história do papel higiénico faz-me lembrar uma conversa com um velho amigo português que se manteve em Angola depois da independência. Eu tentava mostrar-lhe as virtudes da revolução, do que então se chamava, “trincheira firme da revolução em África” e ele calmamente ouvia-me e rematou uma vez com esta: Enquanto Angola não resolver o problema donde entra e donde sai não há revolução que aguente. Falava disto pela falta quotidiana de pão e papel higiénico nas lojas estatais então criadas no dealbar da revolução.

                Uma outra coisa que me irrita é encontrar as pessoas nos supermercados a abrir tampas de detergentes, amaciadores, sabonete líquido e correlativos para cheirarem e depois fecharem mal, para o cliente seguinte ficar com as compras cheias de produto no saco. Que sagradas pituitárias que tanto mal vão fazendo.

                Hoje é uma crónica leve, ao saber do sol num Portugal que em certos casos foi bem definido por José Cardoso Pires no Alexandra Alpha: “Isto não é um País, é um sítio mal frequentado”.

Fernando Pereira

6/6/2025

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