3 de dezembro de 2010

“Primeiro estranha-se depois entranha-se !” / Ágora/ Novo Jornal / Luanda / 3-12-2010






Ocasionalmente, vamo-nos lembrando que a toponímia da cidade de Luanda, ter-se-á transformado num Nó Górdio que não será fácil de desatar nos tempos mais próximos.


Fez no pretérito 30 de Novembro, sessenta e cinco anos que morreu, provavelmente o maior poeta da língua portuguesa, Fernando Pessoa. Um génio, que perpassou fugazmente o eterno cinzentismo do País, e que entre absintos, aguardentes copos de “três vinténs”,estados de prostração emocional, deixou um património literário inolvidável, em todas as latitudes onde os enormes poetas são glorificados quase ao nível do Olimpo na Grécia antiga.

Narcisista, misógino, fechado consigo próprio, fisicamente franzino, talvez bipolar, tez quase transparente, invariavelmente vestido de preto, com hábitos de vida e com vícios bem definidos, Fernando Pessoa, é o orgulho da “língua portuguesa”, e o seu legado é trabalhado por cada vez mais sábios em instituições internacionais.

Profundamente criticado pelos neo-realistas, avultando a crítica de Álvaro Cunhal no seu livro “A Arte, o Artista e a Sociedade”(1996), editado pela Caminho, sobre a sua indiferença perante a luta do povo de Portugal e colónias contra Salazar, em que Pessoa é acusado de “ refugiar a sua obra no individualismo, ignorando as massas, e os escritores que as entusiasmavam para a luta com uma poesia mais combativa”.

Nunca partilhei esta ideia de Cunhal, e dos neo-realistas, pois Fernando Pessoa é só um dos maiores poetas da nossa língua comum e da poesia universal.

Luanda, teve uma rua com o nome de Fernando Pessoa, no Bairro da Vila Alice, numa transversal da Hoji-ya-Henda, e que fazia a ligação à rua da Casa 70. Actualmente essa rua chama-se A. Carreira, sem que se saiba quem foi a insigne figura, que teve a honra de substituir um dos poetas maiores da literatura europeia. Admito que foi alguém com alguma importância para ter nome de rua, mas confesso a minha ignorância, partilhada por muitos luandenses a quem perguntei quem era este Carreira.

Nesse bairro foram mantidos os nomes de Almeida Garrett, António Feijó, Antero Quental, Machado de Castro, António Feliciano de Castilho e outros poetas portugueses, que nem grande expressão tem nas suas terras, quanto mais para figurarem nas pracetas da capital de Angola. Fernando Pessoa “tramou-se”, já que o seu nome estava associado a uma rua grande. Se fosse uma esconsa praceta tinha sobrevivido, e o seu lugar obrigatório na toponímia de Luanda ter-se-ia mantido.

O que não deixa de ser no mínimo surreal, é que a Rua Bula Matadi, é partilhada em metade da sua extensão pelo General João de Almeida, o herói da “Pacificação dos Dembos”, um jarrão colonialista, digno de um lugar de relevo junto de algumas estátuas que jazem na fortaleza, como símbolos fechados de um tempo que passou!

Convenhamos que Luanda tem uma natureza idiossincrática interessante, e se começarmos na toponímia, ficamos estarrecidos. Na verdade, eu conheci Novo Redondo, Ngunza e Sumbe, por razões que nunca entendi muito bem, pelo que as circunstancias que afectam a cidade capital, exportam-se para o resto do território.

Não gostava de omitir a efeméride que comemora o falecimento do genial Pessoa, que numa penada só, enterrou-se a si e aos seus heterónimos (Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Álvaro Campos) e o seu ortónimo (Bernardo Soares).

Em jeito de curiosidade, quando a Coca-cola se tentou implantar em Portugal, houve um concurso para uma frase publicitária, que definisse a bebida, e a que foi escolhida foi a de Fernando Pessoa: “Coca-cola, primeiro estranha-se depois entranha-se”!

O crítico literário Harold Bloom considerou a obra o "legado da língua portuguesa ao mundo".

Luanda podia timidamente devolver o nome da rua ao Fernando Pessoa, e ali perto, acabar com a de João de Almeida, que indiscutivelmente avilta o orgulho dos angolanos.



Fernando Pereira

28/11/2010

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