14 de novembro de 2008

Pateo das Cantigas/ Texto que fiz em 5-2004/ Fernando Pereira



De facto, houve uma imagem que na Angola colonial nunca mais me saiu da retina..
Creio que no Lobito, numa viagem presidencial do cabeça de tarro, na altura o Deus Tomás, (que felizmente para o Mark Twain nada tinha a ver com a figura do Pai Tomás, o da Cabana)...Mas dizia eu, o Tomás que ia no Príncipe Perfeito foi recebido no cais por um rancho folclórico com os pretos todos vestidos como se na praia da Nazaré estivessem, e curiosamente a dançarem o vira do Minho...Enfim uma imagem de facto no mínimo degradante quando o mais alto dignitário do País, que descolonizou mal tinha estas aberrações no tempo em que colonizava bem. O "cabeça de tarro" deve ter dito á chegada o que dizia das outras vezes, ´"esta é a primeira vez em que estou aqui desde a ultima em que cá tinha estado". O caricato dessa situação foi mesmo quando à noite lhe foi oferecido um sarau de ginástica num clube do Lobito, onde a plurriacilidade era evidente, mas com o pequeno senão de não deixarem entrar pretos nas suas instalações...Refiro-me ao" Lobito Sports Clube", que a par do Tamariz, imitavam o Flórida no Lubango, o Clube dos Caçadores e o Clube Naval em Luanda, o Recreativo no Uige, o Clube dos Caçadores em Benguela e tantos outros por Angola na restrição à entrada de pretos...Mas isso não era só em clubes pelo que isto sucedia e posso lembrar que a Paris, a Versalles e a Royal, em Luanda, só depois da liberdade começaram a tolerar a entrada de miscigenados e pretos.
De facto Portugal era do Minho a Timor um verdadeiro " Pateo das Cantigas", ou melhor muita gente acreditava que sim!!! Poupem-me, ou então o único que estava certo naquele filme era mesmo o Vasco Santana, enquanto andava atrás do candeeiro. Para os portugueses que viviam em Angola, ou luso-descendentes, na quase generalidade vivia-se em Angola um pouco a situação do "pateo das cantigas"...tudo se resumia ao arco...daí para fora era perfídia, era o demo, era o escuro dos muitos que queriam só destruir aquele lugar de paz, cantigas, harmonias e alguns amores trocados. A loja do Evaristo era bem a síntese do fubeiro do mato, onde se vendia desde óleo de linhaça a linhaça para óleo, discos do Teixeirinha, Gabriel Cardoso, Rui de Mascarenhas e outros, açúcar mascavado e sarro de pipa com água, que toda a gente se atrevia a chamar vinho...
Era essa a imagem do que nós vivíamos e não temos de nos envergonhar e assumir que vivíamos iludidos no meio de tanto odor e também algum torpor. Colocavam-se capelinhas a santos e santas devotas, faziam-se corridas de motas e automóveis de voltas, concursos de misses, escolhidas entre brancas mais ao menos ao jeito da costureira do quadro da "Canção de Lisboa", enfim muita graça no meio de tanta desgraça. Sei que quem me está a ler, está danado comigo, mas também sei que sabem que eu sei que tenho a razão toda do meu lado. Por tudo isto continua a subsistir uma pergunta??? Era fácil fazer a descolonização??' Talvez fosse porque 96% da população do ultimo senso colonial era analfabeta, população branca incluída.82% viviam abaixo do limiar da pobreza, para além de outras referencias que poderia aqui dar, mas só dourariam a pílula da colonização que envergonha os governantes de Portugal de antes de Abril de 1974, os generais da "brigada do reumático" e os farsantes que eram ilibados em tribunais de "ballett roses" e outras bem mais graves...
Neste páteo a partir de certa altura deixei de gostar de estar, mesmo com sapatos polidos por engraxadores descalços, andrajosos e famintos, curiosamente pretos numa sociedade que se dizia multirracial...E nisso não mentiam, sapato para o branco, e pé descalço para o preto..Estranha forma de multiracialidade, educação cristã e são convívio entre as populações...

Fernando Pereira

4 comentários:

Renato Pereira disse...

já perdeste...

septuagenário disse...

Era possível descolonizar?

Era possível e foi mesmo.

Com 14 anos de atrazo aos vizinhos Belgas com o Zaire Ruanda e Burundi.

Mas será que os povos queriam mesmo?

mafegos disse...

Já conhecia este teu texto,li algures e quero-te dizer que não se trata de teres razão ou não,o problema é que falas como se só o portugueses fossem assim,ainda hoje no Brasil,os negros estão abaixo de cão,passados 33 anos da independência ,os EUA elegeram o primeiro presidente negro e a nível mundial ninguém discute o que ele pensa,mas sim a cor da pele.O Kiluange Liberdade disse que ainda hoje,nos hóteis de Luanda o branco e o mulato entram quer tenham dinheiro ou não,já o negro só entra se tiver um grande carrão a porta.
O que eu não concordo contigo é que tu falas dos portugueses nos anos 60 e da sua segregação como se tu não tinhas nada com aquilo,mas na época tu eras um puto,a não ser que sejas como o Sócrates que já via debates politicos com 3 anos de idade.

septuagenário disse...

A colonização portuguesa, tanto em Angola, como na Guiné, é criticada não pela colonização em si por ser injusta ou desumana, mas por ser feita por um povo atrasado de tamancos, etc. etc., se ao menos fosse pelos Franceses ou ingleses.

Já no Brasil, ao fim destes anos todos, ainda periodicamente poem em discussão se não teria sido melhor se fossem espanhois, ou holandeses, e quando é o povão chegam a dizer se teem sido os norteamericanos, mas logo os portugueses tão atrasados etc. etc..

É simplesmente hilariante!

Curioso que grande parte de quem critica mais os portugueses não são tanto os nativos , mas os lusodescendentes.

Cumprimentos

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