Mais uma descoberta no baú de um artigo meu no "Jornal de Angola" em tempos difíceis!!
Jornal de Angola 26/9/1993
Mais uma descoberta no baú de um artigo meu no "Jornal de Angola" em tempos difíceis!!
Jornal de Angola 26/9/1993
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50 ANOS JÁ CÁ CANTAM!
"Depois dos ganhos e perdas dos
dois lados, uma ordem nova substitui a ordem antiga, até que outra venha por
seu lado substituir aquela. Muitas vezes, certamente, nos perguntámos como se
processou essa espécie de rendição dos deuses, que hesitações, que angústias a
precederam ou dela resultaram, que movimentos de alma ela fez nascer"
Marguerite Yourcenar, " O tempo,
esse grande escultor".
Ao comemorar o 25 de Abril de 1974,
só me apeteceu dizer: 50 anos de liberdade ninguém me tira!
“Gostei da festa pá”, citando uma
estrofe do Tanto Mar do Chico Buarque! De tudo gostei sem me entusiasmar por aí
além, já que à medida que a idade cresce em progressão aritmética diminui o
entusiasmo em progressão geométrica.
Gostei de ver a enorme adesão às
comemorações do 25 de Abril de 1974, o que revela que as pessoas se reveem nos
princípios de uma das datas mais importantes da história contemporânea de
Portugal.
Fiquei satisfeito por ver que numa
região onde gentes de Abril foram tão maltratadas ao tempo, tem hoje a
felicidade de verem que os valores que defendiam há quase 50 anos, saudados por
quase todos.
Recordo de há décadas, a
intransigência dos caciques locais e uma parte do clero perseguirem as pessoas
que defendiam os valores de Abril. Em muitos concelhos do distrito da Guarda
defender o 25 de Abril de 1974 era uma heresia e a ameaça física e a
ostracização social eram comuns. Fui testemunha e vítima de algumas atitudes de
gente que não hesitava em rotular e perseguir pessoas para que se perpetuasse
no terreno os ignóbeis tempos de um fascismo serôdio.
Gostei de saber que o clero trauteia
a “Grândola Vila Morena” em publico, quando há pouco menos de 50 anos proibia
que as músicas de José Afonso passassem na Rádio Renascença, emissora católica
portuguesa. Na diocese da Guarda em 1976 numa igreja cedida a um coro para que
se entoassem canções da tradição popular portuguesa, o pároco decide acabar o evento
porque o coro cantou o “Canta camarada canta”, que afinal é tão só uma musica
do cancioneiro da Beira Baixa, e nada tem a ver com comunistas!
Hoje já estaria mais à vontade para
colar cartazes, do que no tempo em que vi numa janela um tipo “respeitável”
numa vila deste distrito com uma espingarda a dizer que já “vos f…os cornos
comunistas filhos da p…”!
Fico contente pelo muito que se
alterou, mas triste quando vejo que o discurso de hoje, mesmo de alguns que
andam de cravo na lapela é de um exercício
que alimenta a xenofobia e instiga o ódio contra gente que procura
Portugal para viver e trabalhar, e que sem eles muitos serviços se arriscam a
parar.
Lamentável num País que tem cinco
milhões de emigrantes espalhados pelo mundo. O racismo sempre foi formatado pela mentalidade colonial herdada do
Estado Novo, mas exacerbarem os ódios racistas, e começarem a aceitar-se como
vulgares as agressões é aviltante para com os valores de Abril e para os
fundamentos de uma sociedade solidária!
Numa recolha do século XIII no Koans
Zen para meditação comum: “dois monges discutiam sobre uma bandeira. Um dizia:
“A bandeira move-se”. O Outro dizia: “O vento move-se”. Um terceiro patriarca
passou por ali por acaso. E disse-lhes: Não a bandeira, nem o vento, é a mente
que se move”.
Fernando
Pereira
5/5/2024
O voto útil
Como se diz em gíria, este artigo
vai ser escrito a dois andamentos: um porque ainda não sei o resultado das
eleições, e outro porque quando souber já não alterarei uma vírgula ao que
escrevi.
Em
qualquer período eleitoral vem-me sempre à memória a máxima de Hegel, “nós
aprendemos com a história o que não aprendemos com a história”. Na realidade a cada ato eleitoral que vamos
tendo, e felizmente já ando nisto há quase cinquenta anos, os intervenientes
são diferentes, mas os lugares comuns são a cada ano piormente iguais.
Uma das
situações que sinceramente mais me irrita, e não é de agora, é o continuado
apelo ao voto útil por parte dos “leaders” dos partidos da alternância em
Portugal, o PS e o PSD, que perpetuam um sistema de representatividade
completamente desadequado da realidade do País de há décadas.
O “Voto
é a arma do povo”, foi o primeiro slogan para as eleições democráticas de 25 de
Abril de 1975, que elegeram a Assembleia Constituinte, que elaborou o texto
constitucional que legitimou o Estado democrático. Ao tempo votámos com
entusiasmo, e a obra final que se perpetua é boa, apesar de constantes
atropelos por parte de algumas forças que prefeririam uma “democracia
musculada” ao invés da democracia participada.
O voto
do cidadão tem que ser sempre útil, e urge que as pessoas sintam utilidade no
ato mais nobre da sua vida coletiva. Se a legislação prevalecente faz com que
mais de 700.000 votos dos cidadãos sejam para ser atirados para o “caixote do
lixo da história”, isso é outra coisa. Votar em consciência em determinados
territórios em Portugal, ou melhor na maioria dos concelhos do País é quase um
perder tempo, porque os escolhidos são sempre os mesmos partidos. Urge
modificar isso, e seria objetivamente excelente para combater efetivamente a
abstenção nos territórios de baixa densidade. Copiar o modelo alemão, e outros
na Europa, e fazer um círculo de compensação, o que daria maior visibilidade a
outros partidos, e não “aos que são mais do mesmo”. A experiência dos Açores é
um modelo replicável para o resto do País e assim os votos das pessoas que não
alinham com os partidos do poder deixam de ser “clandestinos”.
Quando
há quase 50 anos se fez a legislação eleitoral para o parlamento, ou para as
autarquias a dispersão populacional do País não era tão evidente e a
disparidade entre as regiões não sofriam de tanta assimetria. Hoje importa
alterar o estado das coisas para se poder acelerar modelos de desenvolvimento
nacionais e locais mais consentâneos com um futuro mais moderno.
Uma das
alterações fundamentais a fazer é no quadro das autarquias locais, onde a
presença dos presidentes de junta que não são eleitos pelos cidadãos que elegem
metade dos deputados municipais é um disparate consentido. Eu percebo a lógica
da criação das Assembleias Municipais, e que foi objetivamente o de dar voz e
alguma dignidade aos presidentes de junta de freguesia. A realidade é que a
A.M. hoje tem tudo menos dignidade democrática. Um candidato a deputado
municipal com um milhar de votos é preterido por um presidente de junta de
freguesia eleito por 120 votos, por exemplo. Urge acabar com este anacronismo,
que favorece o caciquismo, em que o representante de uma junta de freguesia,
dotada de autonomia financeira e administrativa, vai votar o orçamento e plano
de outra estrutura à qual não há ligação nenhuma em termos orgânicos.
O
modelo de copiar o figurino da Assembleia da Republica para a Assembleia
Municipal seria o desejável, em que o Presidente da Camara fosse o cabeça de
lista da estrutura política mais votada, e escolheria os seus vereadores sem se
cingir à lista que levou a votos. À AM seriam dados poderes maiores, incluindo
a possibilidade de destituir o executivo. As juntas de freguesia seriam agrupadas
numa estrutura do tipo Conselho Municipal, com poderes reforçado e que ficassem
entre o órgão de consulta e a obrigatoriedade de serem aceites certas
recomendações.
Julgo
que é um bom tema para debate, e aqui estão algumas imperfeiçoes da minha parte.
Gonçalo
Manuel Tavares foi recuperar um poema de Brecht: “Pois não seria mais fácil que
o governo dissolvesse o povo e elegesse outro”.
Já
gora, a única coisa útil em eleições é o voto!
Fernando Pereira
10/3/2024
"Felizmente, há luar"
Nelson Rodrigues é provavelmente
um dos nomes maiores da escrita brasileira do século XX. Truculento quanto
baste, polémico quase sempre, de direita assumido e democrata de corpo inteiro
deixou reflexões numa obra que foi recentemente reeditada em Portugal e que
merece leitura atenta.
“A
opinião deixou de ser um acto pessoal, uma posição solitária, um gesto de
orgulho e desafio. É o jornal, é o rádio, é a televisão, é o anúncio, é o
partido que pensa por nós. Há sujeitos que nascem, envelhecem e morrem sem ter
jamais ousado um raciocínio próprio. Há toda uma massa de frases feitas, de
sentimentos feitos, de ódios feitos.” Estas palavras de Nelson Rodrigues
tornaram-se um eco comum numa sociedade que seria “tendencialmente de
liberdade”.
Vivem-se
momentos nebulosos no quotidiano do país, embora não queira afirmar que se
chegou ao estado em que o imorredoiro João César Monteiro dizia: «A primeira
condição para se ser ministro da Cultura, neste país, é distinguir uma vaca de
um boi.»
Quando
se esperava serenidade no governo do País, o António Costa e o Marcelo Rebelo
de Sousa fizeram o que normalmente se diz juntar a fome com a vontade de comer.
Um porque queria o protagonismo e os rodriguinhos que sempre foram o quotidiano
do seu percurso pessoal e político, e o outro porque estava farto de não se
conseguir ver livre da teia que montou, e que poderia ser um obstáculo
perigosos para a sua mais que evidente vontade de candidatar a Belém.
Esta
demissão inesperada deixou os putativos candidatos a primeiro-ministro numa
situação e desorientação, pois as contas estavam a ser feitas a um ritmo lento.
Sairiam das eleições europeias as lideranças de pesos pesados, embora se saiba
que na prática a governação de alguma gente desta tenha mais resultados pesados
do que o peso que levavam.
O
combate político que se avizinha, que não é bem isso, será consequência de uma
luta nos aparelhos partidários e não de propostas concretas num País que não é
tão mau como a maioria dos portugueses o pinta, nem tão bom quanto os
governantes e responsáveis nos querem fazer crer.
Hoje
como ontem o Bloco Central de interesses continuará no seu afã de domesticar a
democracia, depois do Partido Socialista ter esvaziado uma esquerda que talvez
lhe venha a fazer falta quando chegar a hora das contas. O PSD no seu desnorte
quotidiano continua a fazer a figura de um elefante fechado numa loja de louça,
vendo uma extrema-direita trauliteira e nalguns casos niilista, repetindo um
discurso de moscambilhas com uma histeria que vai de encontro ao que as pessoas
querem ouvir, com grande apoio de uma comunicação social ávida de situações de
crime de faca e alguidar transportadas para o politiqueiro quotidiano.
Estamos
mal, estaremos pior, mas é da vida. Tenho pena que nos 50 do 25 as coisas
estejam assim, mas “pelo sonho é que vamos”, como dizia Sebastião da Gama.
Porque
estamos numa época festiva, não quero deixar de vos desejar Boas Festas, e
deixar esta do João César Monteiro em “Uma semana noutra cidade”: São 10 da
noite. Estou a escrever no Monte Carlo, onde só há homens. Precisava de apanhar
o Fernando para lhe cravar umas aguardentes. É meu desejo estar completamente
grosso por volta da meia-noite e com o espírito propenso à obscenidade. Se
arranjasse 100 paus ia às putas. Deve ser fabuloso ir às putas na noite de
Natal. Duvido é que haja alguém que esteja para me aturar a bebedeira por 100
paus.
"Não estamos em Itália, não há grappa alla ruta, não há comoções nocturnas
da Zé, não há nada. Nem sequer o direito ao vómito. Não há nada, mas ainda há
vida. Ainda estrebucho, minha senhora. Ainda digo merda e embarco no tudo ou
nada do amor. Ainda me jogo inteiro no real e no possível, no confronto entre o
que sou e o que podia ser. Ainda simpatizo (ao longe é certo) com as lutas
históricas do proletariado de todo o Mundo.”
Fernando Pereira
11/12/2023
Entre os muitos que ilustraram o
11 de Novembro de 1975 e os tempos seguintes foi o fotógrafo brasileiro
Sebastião Salgado.
É um
dos mais prestigiados fotógrafos de sempre, e disse de forma desassombrada que
“espero que a pessoa que entre nas minhas exposições não seja a mesma ao sair”.
Talvez
fazer uma exposição do que a lente de Sebastião Salgado focou nesses tempos
fosse um excelente contributo para que a grande maioria dos angolanos, afinal
já nascidos depois da almejada independência, vissem uma realidade de que se
terão limitado a ouvir falar, na lógica de “quem conta um conto acrescenta-lhe
um ponto”!
Foi uma enorme honra tê-lo no dealbar do País, em momentos irrepetíveis
do tempo em que se banalizava a morte com canções do tipo "Eu vou morrer
em Angola - com arma de guerra na mão - granada será meu caixão - enterro será
na patrulha.", e outras como “Vitória ou Morte-Venceremos”, “Estamos em
guerra e cada cidadão tem que sentir-se necessariamente um soldado”, ou as
frases que se foram sucedendo nos tempos da fase imberbe da então Republica
Popular de Angola: “O Povo é o MPLA, o MPLA é o Povo”, “A Luta Continua”, “ A
Vitória é Certa”, “Abaixo o Imperialismo”, “Abaixo o Tribalismo”, Abaixo o
Regionalismo”, Abaixo o Neocolonialismo”, “Honra ao povo Angolano”, ”Glória
Eterna aos nossos Heróis”,” Nós faremos de Angola a Pátria dos Trabalhadores e
a Revolução continuará a sua marcha triunfal ao lado dos povos que seguem o
mesmo caminho”, “Café de Angola, um gosto de liberdade”, “Os diamantes de
Angola são os mais brilhantes / estão ao serviço do povo na reconstrução
nacional”, “Sonangol/ Nosso petróleo onde é preciso”, “Vamos Purificar o
Partido para melhor recebermos os novos membros”…
“A OPA prepara-se para a defesa intransigente da pátria angolana contra os
ataques do imperialismo internacional e seus sequazes”, “Tudo pelo Povo”,” ODP-
Organização de Defesa Popular”, “Que importa que o inimigo acorde cedo, se as
FAPLA não dormem” “FAPLA, o braço armado do povo angolano”, “Angola é e será
por vontade própria trincheira firme da revolução em África”, “O que é
determinante para a unidade é a ideologia e não a geografia”, “Na edificação de
uma sociedade socialista a agricultura é a base, a indústria o factor
decisivo”, “Viva o Poder Popular”, “Somos independentes, seremos socialistas”,”
Antes Morrermos Todos que Deixar Passar o Inimigo”, “Estudar é um Dever
Revolucionário”, “Fieis ao Marxismo-Leninismo, estamos a construir uma Angola
socialista”, “ O Socialismo científico é o grande objectivo estratégico da
revolução angolana” “A Educação e cultura ao serviço do povo”, “Saude para
todos no ano 2000”…
“Por um Partido sólido, unido, disciplinado, avante com o movimento de
rectificação”, “Avante com o poder popular”, “O mais importante é resolver os
problemas do Povo”,” Mais quadros, melhor produção, melhor solução dos
problemas do povo”, ”De Cabinda ao Cunene, um só povo uma só nação”, “Abaixo os
Fantoches Lacaios do Imperialismo”, “Viva o Internacionalismo Proletário”, ”Ao
inimigo nem um palmo da nossa terra”…
Para além disso houve publicações
e cartazes que ilustravam esses tempos de bate e debate, nem sempre marcado
pela tolerância à diferença.
Porque é importante lembrar
alguns cartazes que marcaram esses anos fico-me por aqui saudando mais uma vez
uma das datas mais bonitas que assisti na minha vida de cidadão, a independência
de Angola a 11 de Novembro de 1975.
Gosto muito deste exemplo de uma
das melhores escritoras de língua portuguesa, Agustina Bessa-Luís in O Sermão
do Fogo "antes do meio século, meus amigos, ninguém tem história. A
história duma mulher galante, dum político, dum artista ou até dum homem comum
é, acima de tudo, a história da sua consciência, movida não só por circunstâncias,
mas também pela sua realidade como ente de memória, como testemunha. Aos quinze
anos tem-se um futuro, aos vinte e cinco um problema, aos quarenta uma
experiência; mas antes de meio século não se tem verdadeiramente uma
história.". Este exemplo para as pessoas
é bem mais adequado aos tempos para um País.
Vamos renovar Novembro tanta vez até conseguirmos o onze do onze sonhado.
Fernando Pereira 1/11/2023
“O
Novembro que Abril não merecia”
O título
deste artigo é de um livro recente do pinhelense António Avelãs Nunes,
professor catedrático da faculdade de direito da Universidade de Coimbra, homem
de grande probidade intelectual e cívica, resistente antifascista, perseguido e
preso pela PIDE que viu cerceado o seu percurso académico. Um livro
encomendável, porque não existe no restrito meio livreiro, e recomendável pela
excelência da reflexão, e da clareza da irrefutabilidade dos factos.
Há já uns
tempos que vão aparecendo referências a comemorar o 25 de Novembro de 1975,
desde dar nome a ruas, até fazerem-se homenagens a alguns dos que terão estado
na tal “golpaça” , com que muitos sonharam ser um novo 28 de Maio de 1926.
O presidente
da Camara de Lisboa no seu percurso para chegar a primeiro ministro nas
próximas legislativas, depois de varrer Montenegro para debaixo da carpete,
resolve de vez em quando fazer declarações que permitam a discussão publicada,
que imediatamente passa a pública, e que façam esquecer os problemas que ele
não resolve na cidade capital.
Vamos por
partes. Na comemoração do 5 de Outubro de 1910 o Carlos Moedas, resolveu dizer
que Lisboa vai comemorar o 25 de Novembro de 1975. Já há muito que gente que
nunca percebeu muito bem o que foi o 25 do 11, que rejubilou quando ele afirmou
determinado o que iria fazer este ano, 48 anos depois. Será que 48 anos é um
número fétiche para o senhor Moedas?
O general
Ramalho Eanes, homem sério, e esse sim figura proeminente no 25 de Novembro tem
reafirmado que é completamente desnecessário comemorar essa data que o
importante é o 25 de Abril de 1974, essa sim a data de todas as comemorações. O
25-11-1975 foi mais uma igual ao 28 de Setembro de 1974, 11 de Março de 1975,
sem relevância maior no essencial do espírito de Abril.
No Público
de 26 de Novembro de 2000, Adelino Gomes perguntava: Quem desencadeou o 25 de
Novembro? Quem deu ordem aos páras para ocuparem quatro bases aéreas? Otelo traiu
os seus homens ou evitou a Guerra Civil? O PCP de que lado(s) esteve? Até onde
chegavam as ligações aos MDLP? Quantos grupos funcionaram dentro do Grupo dos
Nove? Qual foi a mais decisiva: a Região Militar do Norte (MN) ou a Região
Militar de Lisboa (RML)?; o Posto Avançado da Amadora, comandado pelo então
tenente-coronel Ramalho Eanes, ou o Posto de Comando Principal, montado em
Belém, e onde ficaram o Presidente Costa Gomes e o comandante da RML e Conselheiro
da Revolução, Vasco Lourenço? Quantos 25 de Novembro houve naquele dia? O 25 de
Novembro existiu?
Talvez
esta comemoração seja boa para homenagear o General Costa Gomes, que como
Presidente da República, que fruto de paciência, ponderação e habilidade, que
muitos chamavam de indecisão, evitou que a guerra civil se iniciasse com as
nefastas consequências. Era um tempo em que o Presidente da República não
falava de tamanhos de decotes, subia a coqueiros ou andava montado em
tartarugas gigantes. Um homem que foi quase defenestrado da história política
portuguesa, e que na realidade foi decisivo quando foi necessário sê-lo. Talvez
o Moedas queira homenagear o Almirante Rosa Coutinho e Almada Contreiras, entre
outros valorosos homens de Abril que foram ao Alfeite evitar a saída dos
fuzileiros, para evitar uma escalada de violência de contornos ainda hoje
impossíveis de imaginar. Será bom homenagear o Major Melo Antunes, que no dia
seguinte ao 25 de Novembro de 1975 veio à RTP serenar as pessoas e dizer que a
democracia constrói-se com todos. Talvez seja altura de fazer uma evocação aos
capitães de Abril de 1974 que já
faleceram e homenagear os que estão entre nós. E que se evite que a comemoração
do 25 de Novembro de 1975 seja o revanchismo, não contra os poucos perdedores
nesse dia, mas contra muitos dos vencedores dessa data tão pouco explicada!
Na
“Casa do Moedas” a 5 de Outubro de 2023 pedia-se um pouco mais a um Presidente
da Camara de Lisboa que ainda deve andar com sabores trocados depois de tanto anel cardinalício beijado numas
Jornadas Mundiais da Juventude, de que não temos contas nem resultados! O
habitual!
Albert
Camus no Mito de Sísifo: “Um homem é mais homem pelas coisas que cala do que
pelas coisas que diz”!
Fernando Pereira
8/10/2023
ESCREVER NA ÁGUA
“Há sempre qualquer coisa que está para acontecer, qualquer coisa que
eu devia perceber”
José Mário Branco “Ser
Solidário”.
Há mais de quarenta anos que
escrevo em jornais, revistas e em publicações diversas. Durante anos fui um
profissional da imprensa, e nunca deixei de exprimir as minhas opiniões, apesar
de por vezes as circunstâncias não serem as mais favoráveis para se escrever de
acordo com o muito que havia para mostrar. É a vida!
Continuo sem saber exatamente o
que se passa na transferência de competências da administração central para os
municípios, e acima de tudo gostava de perceber como é que algo que vai mexer
com tanta gente, alterar status quo prevalecente consegue ser ignorado entre os
pingos da chuva de uma informação cada vez mais marcada pelo sensacionalismo e
por agendas abastardadas por interesses que tem tudo menos a ver com o
interesse público.
A transferência de competências
tem trazido muitos problemas no País todo a pessoas, associações, IPSSs,
municípios, etc. Não parece trazer à administração central que cada vez alija
mais as suas responsabilidades para outros, num eufemismo do tipo de “espírito
descentralizador”, “aproximar as estruturas dos cidadãos”, e outras estultices
do tipo.
Nada disso. Perceber-se-ia o
espírito mas quando se promove esta atabalhoada e rudimentar transferência
esquecem-se dos recursos que existem, e o pior é que evitam lembrar-se que há
recursos suplementares que tem que ser entregues para que os serviços
transferidos funcionem, e que depois não andem nos habituais jogos de troca de
acusações quando as coisas correrem mal, e tem tudo para correr muito mal.
Os professores, uma profissão
indispensável em qualquer sociedade de exigência, tem estado na luta pelos seus
direitos. No essencial estou de acordo, mas recuso-me a aceitar que uma das
reivindicações seja não aceitar a municipalização do ensino, algo que já
acontece na maioria dos países da EU. O argumento é algo torpe para com
estruturas do poder local, de grande importância na Constituição da República
de 1976, e reconhecidamente como fator de desenvolvimento da democracia e da
liberdade.
O anátema que colocam sobre as
autarquias é aviltante, porque infelizmente também há compadrio e corrupção na
administração central, empresas publicas ou participadas pelo estado, pelo que
o que acontece nas Camaras é só a extensão de tudo o resto. Os professores, que
são respeitados pela grande maioria da população não devem partilhar as ideias
de grupos de pessoas detratoras do estado democrático, e devem exigir que a sua
luta seja para que as estruturas onde assenta a democracia sejam transparentes
e organizadas.
Sobre os recentes desenvolvimentos
da pedofilia da ICAR nada de novo e também sei que o futuro próximo vai tudo
ser ungido com santos óleos e as mãos lavadas com água benta. O exemplo do PR a
“engolir” o anel cardinalício não indicia nada a preceito. Há muitos anos que é
assim.
Recomendo sobre o assunto o filme
Spotlight - Segredos Revelados, de 2015, em que o tema são os abusos sexuais e
pedofilia na Igreja dependente do Cardeal de Boston. Os jornalistas do “The
Boston Globe” foram premiados com o prémio Pullitzer, neste grande trabalho de
investigação que abalou a Igreja Católica nos EUA e no Canadá no dealbar do
seculo XXI. Um dos melhores trabalhos de investigação do jornalismo recente, e
que teve consequências invulgares num sórdido esquema de violação e pedofilia
que a ICAR faz há seculos, sem que haja uma punição exemplar que possa dar
exemplo que provavelmente há um estado laico a funcionar.
Como dizia um “trânsfuga” do
Seminário do Fundão, o beirão Vergílio Ferreira: “Somos um povo de analfabetos.
Destes há alguns que não sabem ler”.
Fernando Pereira
5/3/2023
Kimbo dos Sobas, pois, a Angola
Utópica!
“… a fronteira entre a verdade e a mentira é um caminho no
deserto. Os homens dividem-se dos dois lados da fronteira. Quantos há que sabem
onde se encontra esse caminho de areia no meio da areia?
Existem,
no entanto, e eu sou um deles. Sem Medo também o sabia. Mas insistia que era um
caminho no deserto. Por isso se ria dos que diziam que era um trilho cortando,
nítido, o verde do Mayombe. Hoje sei que não há trilhos amarelos no meio do
verde.”
In Mayombe- Pepetela
Em
Coimbra havia uma “Republica “que comemorava o seu “centenário” a cada 4 de
Fevereiro. O Kimbo dos Sobas.
Vamos
começar por explicar o que era uma República no contexto da sociedade
estudantil de Coimbra ao longo do tempo. Era uma casa organizada por um
conjunto de estudantes, que tinha por missão fazer a sua gestão doméstica.
Estas casas tinham códigos de conduta bem definidos e tinha que haver uma
parcimoniosa gestão dos dinheiros para que se conseguisse pagar a renda, o
ordenado da empregada que ia às compras, fazia a comida, limpava os quartos e
tratava da roupa entre outras atribuições menores. Entre os “Repúblicos” havia mensalmente um
“mor”, que era a pessoa votada que em determinado mês tinha que fazer a
ginástica suficiente para que se conseguisse fazer face às despesas
quotidianas. Claro que havia um sobressalto constante e havia uma República que
até tinha uma alteração de uma célebre frase de Churchil: “Nunca tão poucos
deveram tanto a tantos”.
Já
houve oportunidade de justificar o nome centenário, exagero deliberado, e
também indiciador da importância atribuída pelos repúblicos às suas vivências
nestas comunidades.
Todas
as “Repúblicas” utilizam esta designação para referir o aniversário da fundação
da casa. Reivindica-se, com esta dilatação hiperbólica do tempo, a
indiscutibilidade das aprendizagens que nestas “escolas da vida” tinham lugar:
Um ano “dentro” de uma República valeria cem anos “fora” dela.
O
“Kimbo dos Sobas” foi a primeira casa só de estudantes angolanos criada em
Coimbra no fim dos anos 50. Havia uma outra, os “Milionários”, fundada por
Norberto Canha, hoje um ortopedista nonagenário natural do Huambo, o Orlando
Ferreira Rodrigues, do Chinguar, 1º director da TPA, juiz do TPR e professor
jubilado da Faculdade de Direito da UAN, o Mbeto Traça, o António José Miranda,
ambos generais reformados, o Manecas Balonas, médico recentemente falecido,
Oscar Monteiro, primeiro ministro da justiça de Moçambique, Fausto Martins da
Costa, psiquiatra já falecido, o Cardoso, um urologista de Moçambique, o Jonhy,
jurista de Cabo Verde, o Celestino Costa, ex-primeiro ministro de S. Tomé e
Príncipe, já falecido, entre outros de várias proveniências.
O
“Kimbo dos Sobas” é fundado numa casa alugada por um grupo de angolanos. Os seus
fundadores são o escritor e homem do Huambo Manuel Rui Monteiro, o cirurgião
nascido no Lepi Fenando Martinho, o jurista nascido no Lobito Aníbal Espírito
Santo, o engenheiro do Luau, Segadães Tavares, o Zé Cardoso, conhecido pelo
Zequinha da Gráfica, o cineasta António Faria e o Cacondense Machado Lopes.
Um dado
relevante tem a ver com o facto do “Kimbo dos Sobas”, ao tempo não formalmente
uma República, ser constituída basicamente por cidadãos do sul do território de
Angola, a que não era alheio o facto de só haver um liceu em Sá da Bandeira,
hoje Lubango, o Diogo Cão, que absorvia toda a gente filha de colono de terras
a sul do Quanza. È preciso realçar que nos dois liceus de Angola, os negros
contavam-se pelos dedos, pois eram inacessíveis por razões económicas a sua
frequência. Muitos eram filhos de
funcionários do caminho de ferro de Benguela a quem atribuíam bolsas, já que os
magros vencimentos, mesmo dos funcionários brancos, não permitiam enviar filhos
estudar para o sul. Havia também uma grande ligação entre Sá da Bandeira e
Coimbra, e a verdade é que para muitos era a Coimbra de Angola, com praxes e
capas, o que não acontecia no outro liceu, o Salvador Correia de Luanda que
absorvia as gentes a norte do Quanza.
Muitos
angolanos do sul e do norte acabaram por se conhecer e trilhar um caminho comum
em Coimbra e Lisboa quando vieram estudar, pois nem se conheciam, nem tampouco
conheciam as terras uns dos outros.
Antes
de voltar ao Kimbo dos Sobas, lembremos que Agostinho Neto, Lúcio Lara, João
Vieira Lopes, Manuel Videira, MacMahon Vitória Pereira, irmãos Couceiro,
Fernando Oliveira, Emílio Quental, Orlando Albuquerque, Alda Lara, Diógenes
Boavida, Mário Torres, Eduardo dos Santos e outros viveram na primeira metade
dos anos 50 em Coimbra, e a maior parte dele só acidentalmente se cruzou com os
angolanos que estiveram nos “Milionários” e no “Kimbo dos Sobas”.
O
“Kimbo dos Sobas”, e repetindo, começou por ser uma casa organizada de
estudantes angolanos acabou por ser, a par dos “Milionários” um espaço de
“fermentação” do espírito independentista, que ia proliferando no fim dos anos
50 e no dealbar dos anos 60. O espaço solidário em que se transformaram serviu
para apoiar em termos logísticos as fugas dos 150 em 1961 e uma outra que se
gorou em 1963. Nesta a PIDE foi ao “Kimbo dos Sobas” e prendeu Fernando
Martinho, Manuel Rui Monteiro e José Cardoso, que estiveram uns meses presos e
sujeitos a interrogatórios no Aljube, em Lisboa.
A
primeira fuga, que teve grande sucesso, foi toda acompanhada por dois
reverendos americanos em colaboração com organizações francesas de refugiados,
havendo razoável apoio económico, o que talvez evidencie que a CIA terá
patrocinado essa aventura coroada de êxito, que foi um verdadeiro golpe contra
a propaganda colonialista do Portugal de Salazar.
Por
tudo o muito que se viveu, antes da mudança de casa para a Rua Antero Quental
em Coimbra, paredes meias com os “Milionários”, já numa fase moribunda, e com a
delegação da PIDE , o “Kimbo dos Sobas” passou a ser uma porta aberta para
todos os angolanos que vinham a Coimbra.
Convém
esclarecer que era tradição as “Republicas” em Coimbra manterem a porta aberta,
num sinal de hospitalidade para com quem passava, e também pouco ou nada havia
para tirar já que a generalidade dos repúblicos era gente de poucas posses!
Na
altura da passagem do “Kimbo dos Sobas” para mais perto do centro nevrálgico da
Academia de Coimbra, ainda se discutia sem grande entusiasmo a passagem do
estatuto de residência a solar, etapa indispensável para passar a Republica, no
quadro do regulamento em vigor nas estruturas universitárias de estudantes da
Associação Académica de Coimbra.
Isso já
só aconteceu em meados da década de sessenta, e na crise estudantil de 1969, o
representante do Kimbo dos Sobas Roberto Leal Monteiro (o actual general
Ngongo) foi o escolhido para o Conselho de Republicas, órgão que iria escolher
os órgãos sociais da Associação Académica de Coimbra, que entretanto não foi
aceite pelo regime, o que era de todo evidente!
A fraca
ou quase nula participação de angolanos nas lutas académicas de 1962 e 1969
teve a ver com o sentir independentista que germinava, em que os angolanos em
Coimbra se sentiam desenquadrados da luta dos portugueses, e assumiam sem
reservas que a luta era outra, pela libertação de Angola e um apoio declarado
desde sempre ao MPLA. Era normal que isso acontecesse porque as pessoas
discutiam o que tinham vivenciado em Angola em termos de segregação social e
rácica, e perante uma partilha maior de novos enquadramentos ideológicos
conseguiam aumentar o seu lado certo de estarem nas coisas, e o inimigo a
abater era claramente o colonialismo português.
Da fuga
dos 150 elementos em 1961, de Coimbra foi muito badalada o “salto” de de França
(Ndalu), Chipenda, Araújo (Ben Barek), Fernando Avidago e José Julio (Foi
Director Geral dos Desportos em Moçambique) porque de um momento para o outro
desfalcaram a equipa da Académica de Coimbra onde todos eram jogadores de
eleição!
Ao
“Kimbo dos Sobas”, já nas novas instalações chegaram novos Repúblicos, e alguns
já de Luanda e de outras regiões do País. De certa forma a República começou a
ter uma unidade na angolanidade, e eram frequentes as visitas dos PIDEs a uma
casa que era olhada com cada vez maior desconfiança por parte das autoridades.
Porque
alguns dos iniciais saíram, outros que os substituíram deram o salto ou criaram
família, entraram na casa novos habitantes que reforçavam as convicções
independentistas que já eram chancela da casa. Entrou Nene Pizarro, Roberto
Leal Monteiro (Ngongo), João Saraiva de Carvalho (Tetembwa), Eurico Gonçalves
(morto em 27 de Maio de 1977), António Trabulo, Fonseca Santos, Garcia Neto
(também vitima do 27 de Maio de 1977), o médico falecido Fernando Sabrosa e
tantos que por lá passaram e outros em fugazes visitas de cortesia política
como foi o caso de Gilberto Teixeira da Silva (o comandante Gika) e o Quincas
Fonseca Santos cobardemente assassinado no Longonjo em 1979.
Com a
fuga de alguns elementos do Kimbo dos Sobas, não apenas pela ameaça de prisão,
mas para se envolverem na luta armada, a Republica teve que aceitar
portugueses, numa discussão que terá sido pouco pacífica, mas que permitiu que
gente solidária apoiasse a luta que se
ia fazendo por uma Angola que talvez um dia seja aquilo que muitos sonhavam,
nas longas noites de uma Coimbra que não era só fados, baladas, serenatas,
capas e tricanas, como muitos gostavam e gostam de a pintar.
Na
prisão de Garcia Neto e Fernando Sabrosa pela PIDE por exemplo foi determinante
a solidariedade dos Repúblicos e suas famílias de forma tentarem minorar o seu
sofrimento em Caxias, não lhe permitindo visitas, com o argumento soez de que
não eram familiares. Venceram-se algumas resistências!
Ao
fazer o “centenário” no 4 de Fevereiro, os repúblicos do “Kimbo dos Sobas”
assumiram qual era o seu posicionamento e sobretudo a forma corajosa de
encararem a sua opção, num tempo de violência muito dura sobre ideias que não
perpetuassem o fervor no Império
português, em que o seu grande ideólogo era Adriano Moreira, o homem que
reabriu o Tarrafal em 1961.
A
Angola utópica passou por muito lugar, e como se vê Coimbra também colocou o
“seu tijolo nos alicerces do mundo”, mas os muitos que viveram esses tempos,
apenas queriam que todos “tivessem o seu bocado de pão”
Fernando Pereira
28/01/2023
“Primeiro vem o
estômago cheio, depois vem a ética”
O
título é de uma frase de Bertolt Brecht, e só circunstancialmente tem a ver com
o texto.
O Expresso fez 50 anos. Lembro-me
de ter comprado em Coimbra para o meu pai, o número um, por cinco escudos, num
tempo em que os jornais custavam 2,50 escudos, e que por andanças várias em
tantos locais acabou por desaparecer esse exemplar do meu baú das recordações.
Durante
décadas comprei o Expresso, lia-o mesmo quando não concordava com muito do que
se lá opinava e o critério do filtro das notícias. Fiz alguns artigos de
opinião há uns anos, que me valeram mais uns quantos impropérios por parte de
alguns leitores, mas é da vida!
O
Expresso foi uma lufada de ar fresco no cinzentismo da imprensa portuguesa de
então, e só o facto de Francisco Pinto Balsemão ter sido deputado da Acção
Nacional Popular pelo distrito da Guarda lhe terá valido alguma condescendência por parte de
uma censura feroz que Marcelo Caetano transformou num “Exame Prévio”, num período
em que se mudou tudo para que tudo ficasse na mesma.
O grupo
poderoso em que o Expresso se tornou ajudou a melhorar o panorama da
comunicação social em Portugal, mas ao mesmo tempo nota-se que não consegue por
vezes ir mais longe nas suas pesquisas, porque a imprensa não consegue sair do
invólucro económico onde a sociedade está inserida.
Li o
livro de Francisco Pinto Balsemão, e acho um documento interessante, embora
haja alguns casos, nomeadamente a situação do BES Brasil em 2015 que me
pareceram desculpas esfarrapadas para que o Expresso não tivesse dado
continuidade a uma investigação. Este é apenas um exemplo como poderia dar
muitos mais, como o silencio sobre os “Panamá Papers”, e outras investigações
que terão ficado adiadas para as calendas gregas.
Convém,
contudo, dizer que prefiro um Expresso como sempre foi, a outros que se arvoram
em independentes que tem gente que quando lhes cai a máscara afundam-se em
águas profundas na vertigem do poder. Parabéns ao Expresso, e não conto estar
cá quando fizer mais 50 anos.
O
jornalismo tem-se desprestigiado, não tanto porque a qualidade dos
profissionais tenha piorado, antes pelo contrário, já que hoje tem melhor
preparação e maior quantidade de recursos, mas porque há uma cada vez maior
intervenção das administrações das empresas de comunicação social nas direcções
dos órgãos e concomitantemente por aí abaixo.
Albert
Camus dizia “Nada é mais desprezível do que o respeito baseado no medo”. O
jornalismo não escapa ao “círculo de giz caucasiano”, que lhe é imposto pelo
endosso económico e pela coesão social que condiciona o nosso comportamento
coletivo.
Os
jornalistas hoje escrevem e falam pouco mais que o óbvio, e fazem o favor às
audiências através da chicana política a falarem de carros, salários e
indeminizações extraordinárias, que é algo importante, mas que não é tudo no
quotidiano do País, nem determinante para o futuro do bem estar dos cidadãos.
Por
acaso algum jornalista já foi instado a fazer um trabalho sobre a realidade da
atribuição de competências aos municípios na área social e as consequências e
desemprego que vão gerar um pouco por todo o País, para além de outras pouco
claras.
Este é
só um exemplo, como poderia dar muitos, sobre tantas palavras que se pedem a
silêncios que se perpetuam. Como dizia Jean Paul Sartre: “Todas as palavras têm
consequências, os silêncios também têm”.
Faz
também a 20 de janeiro, cinquenta anos que foi assassinado em Conacri, na República
da Guiné-Conacri, Amílcar Cabral, então líder do PAIGC (Partido Africano para a
Independência da Guiné e Cabo Verde). Porque foi um dos grandes da libertação
dos povos e o maior estratega da luta contra o colonialismo português, e porque
era um homem de grande craveira intelectual não gostaria de deixar de relevar
esta infausta efeméride.
Bom Ano de 2023, e façam como D. Diniz e desconfiem de rosas
em Janeiro!
Fernando Pereira
8/01/2023
Bonitas palavras não engordam gatos!
O meu saudoso companheiro de algumas horas boas que vivi, o
Ruy Duarte de Carvalho, um dos mais brilhantes escritores da lusofonia, tem uma
frase que vai fazendo o meu quotidiano, e que é tão útil nos tempos que desvivemos:
“Há o que vi porque mo disseram, há o que vi sem mo terem dito, há o que conto
e o que não conto”!
Vivemos tempos estranhos e simultaneamente entranhos, porque
estamos perante uma realidade que tem um léxico ficcionalmente otimista e
exageradamente enganoso.
Perante um conjunto de problemas que nos vão afetando a
todos, na saúde, na educação, nos transportes, nas respostas sociais entre
outros assiste-se a uma verve de tantos milhões que às vezes não sei se estou
em Portugal ou trancado no cofre forte do tio Patinhas, uma das detestadas
figuras do delator Walt Disney.
Acho que o que se está a assistir acaba por ser kafkiano,
porque me parece estarmos com um discurso político de euforia por parte dos que
dirigem, quando no terreno a realidade é muito diferente e os problemas
avolumam-se sem que haja respostas locais. Em muitos sectores da atividade
económica e social há verdadeiros dramas, e quando os dirigentes são
confrontados com falta de recursos, por incumprimento do Estado as pessoas pouco
conhecedoras desafiam a mostrar os milhões apregoados todos os dias nas
parangonas da imprensa ou redes sociais.
Enquanto se conseguir estancar a montante, tudo vai correndo na perfeição do
discurso do otimismo e as situações desagradáveis que se vão desenvolvendo,
sempre vão tendo a desculpa dos danos causados por uma guerra que veio mesmo a
calhar numa altura em que se anteviam momentos difíceis na União Europeia e no
tal mundo globalizado que deixámos construir!
Confesso que faço minhas as palavras do Millor Fernandes,
escritor brasileiro recentemente falecido: “O desespero eu aguento. O que me
apavora é essa esperança”!
Cada vez temos menos respostas para tudo aquilo que julgámos
adquirido, e alguma falta de recato de quem nos dirige, traz em cada vez mais
sectores da população uma vontade de mudar para quem lhe oferece tudo que não
lhe pode dar, na proposta de alterar os princípios da democracia!
A estupidificação começou com a concorrência entre canais de
televisão e generalizou-se através do uso das redes sociais, onde prolifera a
devassa, a ignorância e a altivez de tantos, local ideal para denegrir
instituições e pessoas que são gente valorosa e que lutam ou lutaram pela
democracia e liberdade.
É nestas alturas que me recordo sempre de uma ideia de
Umberto Eco. O escritor e filósofo italiano apontou uma característica às redes
sociais, que dão o direito à palavra aos "imbecis que antes apenas falavam
nos bares, depois de uma taça de vinho, mas sem prejudicar a
coletividade". Acrescentou Umberto Eco que "normalmente, eles eram
imediatamente calados, mas agora têm o mesmo direito à palavra que um Prémio
Nobel".
Esta
ideia de Umberto Eco, que também foi uma autoridade no campo da semiótica, foi
lançada em 2015. Já lá vão uns anos. Mas o escritor fez questão de acrescentar
a seguinte ideia: "Antes das redes sociais, a televisão já havia colocado
o 'idiota da aldeia' num patamar em que este se sentia superior. O drama da
Internet é que ela promoveu o “idiota da aldeia” a detentor da verdade",
disse Umberto Eco quando um recebia mais um prémio na sua prestigiada carreira.
(José Abranches).
Resta-me
desejar umas Boas Festas e um Bom dia da Família a quase todos!
Fernando
Pereira
10/12/2022
“Trago em mim o inconciliável e é
este o meu motor Num universo de sim ou não, branco ou negro eu represento o talvez”
Pepetela
“Mayombe”
O
título deste artigo é o início de uma canção do Vinícius de Morais que
trauteávamos nos idos sessenta do século passado.
Como
estamos em tempo de efemérides, e neste caso os 47 do nosso 11 de Novembro era
justo trazer à lembrança o que foi a Casa dos Estudantes do Império, e o que
representou no contexto da luta de libertação nas colónias portuguesas.
Muitas
vezes a CEI foi propositadamente esquecida no contexto da luta, e ainda hoje,
ultrapassadas muitos anos parece que ainda se evita coloca-la num contexto
importante na afirmação dos valores independentistas, entre uns quantos que a
frequentaram de 1944 a 1965, data do seu encerramento.
A CEI,
ou a Casa, tinha instalações em Lisboa, na Av. Duque de Ávila, no Arco do Cego,
num prédio que ainda lá está e recuperado, em Coimbra num edifício já demolido
junto ao Penedo da Saudade e no Porto, de curta duração. A Casa em Coimbra
fechou em 1961, quando praticamente não tinha actividade, embora tivesse
editado um boletim cultural, “O Meridiano”, de que terão saído poucos números.
Para
além das actividades culturais, o nascer da afirmação de liberdade e libertação
e outras, a Casa conseguiu algo que raras vezes vejo salientado.
Foi
importante que angolanos se conhecessem, e que estes estabelecessem ligações
com estudantes das outras ex-colónias.
Na
realidade os angolanos que vinham estudar para Portugal só se conheciam dos
bancos do Salvador Correia em Luanda, e do Liceu Diogo Cão na então Sá da
Bandeira. Não se conheciam, salvo um caso ou outro, porque todos os do Sul de
Angola, e aqui incluíam-se as províncias em que a fronteira era a linha do Caminho
de Ferro de Benguela, iam estudar para o Liceu Diogo Cão, que era quem absorvia
as gentes dos colégios, missões e liceus do centro-sul do território. Todos os
alunos do centro-norte da “província” em iguais circunstâncias iam para o Liceu
Salvador Correia em Luanda.
Os
finalistas dos liceus de Angola conheceram-se em Lisboa na CEI, porque até aí
nem sabiam muito bem o que se passava num ou noutro estabelecimento de ensino.
Foi aqui que esta gente se juntou,
e se o espirito do então ministro das Colónias Francisco Vieira Machado,
secundado pelo comissário geral da Mocidade Portuguesa Marcelo Caetano, seria
juntar numa casa todos os estudantes das colónias para criar uma elite de
continuadores da “dilatação da fé e do Império”, conseguiu precisamente ajudar
a criar um grupo importante de gente que se afirmou disponível para lutar pela
libertação das colónias portuguesas, e que de certa forma foi o fermento de uma
estrutura chamada de CONCP (Conferencia das Organizações nacionalistas das
colónias portuguesas), que juntou muita gente da CEI engajada nos movimentos de
libertação!
Quando se fala da CEI há a
convicção que todos os milhares de pessoas que por lá passaram ao longo de 20
anos eram, ou tornaram-se convictos independentistas. Nada de mais enganador.
A maior parte utilizava a CEI
porque tinha um posto médico, uma procuradoria que ajudava os estudantes em
actos administrativos, fazia muitos bailes, projectava uns filmes com apoio de
cineclubes, saraus, desporto, promovia viagens e jogos florais. Era
significativo o numero dos que se
dedicaram à causa independentista, mas no geral foram muito mais os que não
ligavam a rigorosamente nada e queriam era só estudar, alguns quantos que
subiram nas estruturas do regime de então e muito poucos que até deram
informações à PIDE sobre actividades da Casa e algumas pessoas foram presas por
isso!
Sobre a CEI já muito se disse, e
já há muita publicação, mas convém dizer que a gente da CEI, que optou por “dar
o salto” foi sempre olhada com muita desconfiança no seio do “maquis” por
razões que se percebem. Afinal eram os privilegiados, porque podiam ter
estudado, enquanto outros eram os “condenados da terra” de que falava Fanon.
Se esta situação já era
complicada nos tempos da luta de libertação, ela tornou-se “silenciosamente
visível “nos primeiros anos de independência, onde perante algumas posições de
algum oportunismo, o argumento de que “andavas na CEI a divertir-te enquanto
outros comeram o pão que o diabo amassou” era quase chamar pequeno-burguês com
mentalidade colonialista.
Hoje as coisas já não estão tão
extremadas e este quase sinete da CEI já pouca gente utiliza, porque a maioria
dos frequentadores da Casa ou já morreram ou já estão com uma provecta idade, e
aos filhos não lhes foi transmitida grande parte desta situação que existiu ao
longo dos primeiros vinte anos da nossa independência.
Ao dizê-lo hoje, faço-o com a
convicção que foi defenestrada gente porque esteve na CEI, porque a opção,
oportunista na maior parte dos casos, em determinado contexto era a do
operário-camponês na direcção de estruturas políticas e económicas, e depois
resultou no que vimos em determinada altura.
Ainda vamos a tempo de dar valor
a essa juventude que na CEI sonhou o futuro, e que afinal vai dizendo “não foi
isto que se combinou”!
Fernando Pereira
26/11/2022