12 de maio de 2021

MAMAR A CABRA / O Interior/ 12-5-2021

 


MAMAR A CABRA

 

                No léxico político local tem surgido novas frases, e “mamar a cabra” tem sido uma das que quotidianamente vai sendo ouvida repetidamente.

                Esta frase retirada da verve popular é ilustrativa de determinadas situações. A filiação de um elemento num partido, e a consequente atribuição de um lugar de nomeação ou uma facilitação de entrada na administração pública, publicada ou autárquica passou a obrigar o individuo a uma devoção quase canina à estrutura fulanizada que lhe permitiu “ficar bem de vida”. Acrescentar a isso a política do pequeno favor, da gestãozinha da carreira interna e outras manigâncias já tão repetidas nos anos que levamos de democracia, limitando-nos a perpetuar os hábitos da “velha senhora”, fazendo desacreditar o sistema que temos.

                A título de exemplo, no tempo do corporativismo cabia ao ministro da educação a tarefa de nomear os contínuos em todas as escolas do País, hoje os auxiliares de acção educativa, algo que permitia todo um corrupio de gentes e bens perecíveis aos governadores civis, regedores, legionários de serviço, condes e baronetes locais, para encaixar o seu filho num lugar do “Estado” que embora mal pago, era para toda a vida!

                Voltando ao termo muito em voga de “mamar a cabra “, faz-me lembrar um pouco do que é a mexicanização da vida publica portuguesa com a nuance que aqui o PRI (Partido Revolucionário Institucional), que dominou politicamente o México ininterruptamente de 1929 a 2000, é representado pelo PSD e PS que distribuem o Estado à sua maneira.

Pelos vistos “A Cabra” é uma entidade que surge da distribuição subjectiva dos lugares e atribuição de benesses à conta do erário e património publico, quando está determinada força política no poder.

O drama de tudo isto é que quando acaba a “fidelização” obrigatória, os acólitos de determinado grupo de status ficam indignados, e lançam-se numa campanha, às vezes a raiar o insulto, com a frase batida “enquanto mamou a cabra” …

                Henry Truman, um presidente dos EUA, por quem não nutro particular simpatia, e que empobreceu no seu curto período de presidência, tinha uma frase excelente sobre a política americana: “Se quer um amigo em Washington compre um cão”. É o normal nas fidelidades políticas por lá e um pouco por todo o lado. Convém lembrar que Truman recusou-se a ter empregada paga pelo Estado na Casa Branca, pagando ele próprio os vencimentos dos seus colaboradores de lides domésticas, assim como a luz e água da sua área residencial, já que dizia que “recebia ordenado suficiente para essas despesas, que eram as mesmas que teria em casa se não fosse presidente dos EUA”.

                Como se vê neste pequeno texto não há “Cabra” sem senão, por isso cá vamos aguardando serenamente os alinhamentos, as promessas, as manigâncias, as alianças espúrias e os trânsfugas das listas a sufrágio numas eleições autárquicas que julgo que em pouco irão alterar o mapa político de um País de muitos concelhos, muitas freguesias, muitos apeadeiros de caminho de ferro e pouca descentralização!!E já agora, algumas cabras!

Fernando Pereira   

9/05/2021

10 de março de 2021

Pleonasno / O Interior/ Guarda 10 -03-2021.

 


Pleonasno

 

                Um dos meus autores de referência é Albert Camus e no seu último livro de ficção publicado, “A Queda” de 1956, desenvolvia um diálogo embebido em doses de genebra entre bares e canais concêntricos de uma Amesterdão noite dentro, entre duas pessoas que foram tentando descobrir através de desvivências quotidianas onde podia chegar o estado de degradação do humano.

 A mordacidade e o humor do relato, que é uma das características recorrentes no ficcionismo Camuseano faz-nos evidenciar a ambiguidade das relações, que se vão criando e desenvolvendo  num quotidiano de competição promotora de um individualismo em crescendo, tão do agrado do estabelecido e sacrossanto mercado!

Voltando à “Queda” recolhi este texto que assenta com grande eficácia na hermenêutica do discurso político: “ Uma pessoa das minhas relações costuma dividir os humanos em três categorias: aqueles que preferem nada ter a esconder a verem-se forçados a mentir, aqueles que preferem mentir a não ter de esconder algo e por fim os que amam ao mesmo tempo a mentira e o segredo”.

Porque estamos num período entre eleições, julgo que neste ano pandemicamente eleiçoeiro não irão haver alterações significativas no mapa distributivo dos eleitos locais, salvo nos locais onde os eleitos  estão em fim de mandato, ou um ou outro acidente de percurso, mas que não vai alterar o status prevalecente no quadro politico do País, cada vez mais forrado com o veludo das cores do Bloco Central, de dois partidos que divergem no acessório e estão em sintonia no essencial e na distribuição dos favores, afinal a lógica de um determinado contexto político, que nunca me agradou muito.

Hoje os poucos motivos de discussão acabam por se reduzir às redes sociais, onde a chafurdice e a manipulação sórdida se confundem com poucas propostas sérias e muito menos discursos coerentes. Com cafés, tascas, bares encerrados associados ao teletrabalho em ritmo acelerado e distanciamento social inibidor de participação em festas, concertos ou funerais, entre outros eventos, tudo que pode ser motivo de controvérsia ou proliferação de cabalas limita muito qualquer trabalho de candidatura e fundamentalmente dificulta o trabalho das oposições!

Estamos numa fase perigosa, que é procurar saber quem está com quem nas eleições para as autarquias, e entra-se no período em que se politizam as questões pessoais e pessoalizam-se as questões políticas, fator redutor de uma democracia que se sonhou participada e de defesa coerente de valores tão importantes como a liberdade e a cidadania plena!

Os discursos de alguns políticos estão cheios de pleonasmos, o que faz deles os asnos de serviço e responsáveis maiores pelo aviltamento que certa gente faz da democracia.

Muitas vezes ao ver tanta promiscuidade transumante na política local, lembro-me de um provérbio romano: “Qui cum canibus concumbent cum pulicibus surgent.” (Quem se deita com cães acorda com pulgas)

 

Fernando Pereira

8/03/2021

16 de janeiro de 2021

A Birbantocracia está a instalar-se? /O Interior/ 15-01-2021.

 


A Birbantocracia está a instalar-se?

 

“Infalível, também, era o Doutor, aquele cavalheiro estimável, mas de aspeto lúgubre, que todos apenas conheciam por este nome: o Doutor. Sempre vestido de preto, sempre de luvas, amarelo como uma cidra, persistia na sua mudez taciturna; porém, continuava a escutar com uma atenção intensa, a testa franzida, piscando vivamente os olhos, como num profundo trabalho cerebral. Respeitador fervente das instituições, das personalidades oficiais, ninguém sabia ainda onde ele vivia, nem de que vivia: mas precipitava-se com tanta veneração (porque era homem de sociedade) a tomar as xícaras vazias das mãos das senhoras, dizia com tanta convicção, na sua voz cavernosa, «tem V. Exª carradas de razão»; que era geralmente considerado como um excelente moço.”

Este é só um delicioso detalhe, da farsa o “Conde de Abranhos” ,que Eça de Queiroz (1845-1900) fez sobre a sociedade do seu tempo.

O “Conde de Abranhos” era a personagem típica do carreirismo, “carneirismo” e bajulice no seu pior, e infelizmente acontecendo em várias latitudes e na vivência quotidiana de sociedades que não passam de ter este “status”.

O Conde de Abranhos estudou na Universidade de Coimbra, onde começou por denunciar um colega, o que lhe permitiu passar a usufruir favores dos seus superiores. Simultaneamente envolve-se com a “criada”, que fica grávida e imediatamente abandonada, e o rapaz recém-nascido completamente esquecido. Vai para Lisboa, trabalho no escritório do causídico Vaz Correia, que o guinda a redator chefe do Jornal “Bandeira Nacional”.

Percorrendo os corredores do poder, casa-se com a filha do Desembargador Amado, Virgínia de seu nome, o que lhe assegura de imediato 10 mil cruzados de renda, e fundamentalmente abre-lhe as portas de S. Bento (Assembleia Nacional de Portugal). É eleito deputado por Freixo de Espada à Cinta, onde faz discursos, vazios de conteúdo, sobre a reforma das instituições, a política colonial e o caminho-de-ferro do leste. Como os tempos não corriam a favor da sua linha política, não faz disso um problema, e passa-se com armas e bagagens para oposição que em troca o coloca como um “cinzento” Ministro da Marinha, lugar que ocupa como “estátua” durante dois anos, sem que alguém dê por ele.

Trouxe aqui o “Conde de Abranhos” porque ilustra o quotidiano do poder, dos títulos tantas vezes conseguidas à custa de coisa pouca ou coisa nenhuma, e da influência que certas criaturas tem nos corredores do mando sem que possuam qualquer tipo de competência, legitimidade académica e comprovada experiencia na gestão de qualquer coisa pública.

Fazem-se muitas vezes as cadeiras em função dos rabos de quem usa argumentos para se lá sentar, nem sempre os mais ortodoxos, e frequentemente a cadeira é feita para à medida de gente que se encostou a quem tenha força suficiente para os lá colocar. Temos que recuar ao império romano, que com toda a sua corrupção e nepotismo nas hierarquias do poder havia um cuidado muito especial para se escolherem os rabos dos cavalos que equipavam as quadrigas, por forma a não destabilizarem toda a carruagem nas lutas que se iam fazendo nos jogos, nas batalhas e no transporte de pessoas de elevada importância.

Bom Ano para todos e também para os muitos Abranhos que por aí andam!!

 

 

Fernando Pereira

10/01/2021

13 de dezembro de 2020

As time goes by! (Com o passar do tempo) / O Interior/ 10-12-2020

 




As time goes by! (Com o passar do tempo)

Só há uma forma de saber se um homem é honesto... pergunte-o. Se ele disser 'sim', então você sabe que ele é corrupto.” Groucho Marx.

                Confesso que nunca vi tanta gente a assumir-se séria e acima de tudo divulgá-lo publicamente. Um ex-Presidente da República, Cavaco Silva, teve o topete de dizer que “ainda estava para nascer alguém mais sério que eu”. Bastava este exemplo para de facto o aforismo de Marx ter toda a legitimidade.

                Estou um pouco farto de gente que se diz séria. Aqui há muitos anos um ex-primeiro ministro de Portugal, o infausto professor Mota Pinto disse uma quase heresia, que levantou um coro de indignação quando disse que “não há nenhum português que já não tivesse transgredido nas suas obrigações”.  Ele disse a verdade e de facto as situações vão-se repetido o que leva a que o português, como todo o latino, está sempre disponível para torpedear o sistema.

Não vou falar das grandes vigarices, que essas vão estando em hibernação, em que a maioria dos advogados não pretende demonstrar que os seus clientes são sérios, que não fizeram manigâncias, mas levam a sua defesa para o arrastar dos processos, para que prescrevam com outros expedientes e habilidades que arranjam para contornar a lei. Há crimes que quotidianamente se cometem como piratear filmes e músicas, ver a bola à borla, estacionar em lugares impróprios, e tantas situações que são a nossa vivência comum, onde o pedido e a aceitação do pequeno favor é um dos mais insignificantes pecadilhos. Mas achamo-nos sérios na mesma!!

Deixemo-nos de hipocrisias. Somos humanos, vivemos numa sociedade desequilibrada e com valores e educação herdados, que alimentam o nosso estar nas coisas! Uma adaptação de uma frase de Mia Couto: “Contra factos tudo são argumentos”.

Talvez um pouco à margem, hoje não estamos em fase de lamber feridas, estamos num período em que tem que haver coragem, solidariedade e espírito de coesão para fazer face à situação de pandemia, mas é bom que se vão apontando algumas situações que urge inverter no futuro. Mais arde lenha verde que pedra enxuta, e por isso é urgente que se faça uma reflexão profunda da assistência aos idosos neste País, e em vez de finlandiazar ou norueguizar a legislação, que se olhe de vez para as estruturas assistenciais, e que se acabe de vez com verdadeiros silos de idosos onde em situações como a que vivemos são pasto fértil para que qualquer vírus se instale. Vai ser importante refletir e muito, porque ainda há futuro para os idosos, ao contrário do que se faz na prática vivida. Recupero um provérbio da Louisiana: “Envelhecer é mau, mas a alternativa é bem pior”.

Foi um artigo de final de ano, a roçar a banalidade, mas cumpriu-se! Até para o ano!              

 

Fernando Pereira 6/12/2020                                                                                                    

13 de novembro de 2020

A inquietude política / O Interior / 11/11/2020

 


A inquietude política

Neste tempo epidemiado de confinação e recolhimento obrigatório na maioria dos concelhos veio-me à memória um aforismo de Jorge de Sena: “Na tarde que anoitece o entardecer nos prende”.

                Embora complicada a situação sanitária prevalecente, muitos dos já habituais “providenciais” nos concelhos colocam-se em prontidão combativa para as autárquicas do próximo ano.

                Sinto-me particularmente sensibilizado enquanto cidadão, por haver tanta gente determinada a de forma completamente desinteressada a fazerem propostas por um futuro melhor para mim, e para os homens e mulheres que partilham comigo o chão sagrado do nosso território.

                Já há uns anos pedi o mesmo, e volto a fazê-lo porque julgo que as palavras não tiveram eco junto de todos os candidatos às autárquicas há quatro anos: Não façam sacrifícios por mim, nem pelos cidadãos porque sinto-me mal perante tanto voluntarismo e tanto desprendimento.

                Os candidatos a autarcas fazem sacrifícios familiares, perdem dinheiro, tem carreiras interrompidas, e por aí fora só e apenas pela vontade de servir! Não acho que nós eleitores mereçamos tamanhos sacrifícios, e não acho que teremos que ficar penhoradamente agradecidos a tanto excesso desprendimento de toda a ordem.

                Não precisam de prometer coisas novas, limitem-se a fazer o que muitos já prometeram e nada foi feito; melhor, por favor não digam que vão fazer alguma coisa!

                Nunca como hoje a sociedade está tão cheia de “Conde de Abranhos”, essa imorredoira figura que o Eça de Queirós deixou na literatura portuguesa para mostrar o que era o percurso político da subserviência, da nescialidade , da intriga, da bajulação e do vira-casaquismo na sociedade portuguesa no fim do seculo XIX. Uma caricatura transversal à monarquia, à República, ao Estado Novo e à democracia saída de um 25 de Abril de 1974 de esperança e engolida pela voragem de um 25 de novembro de 1975 que se perpetua à décadas.

                A todos os putativos candidatos determinados em desenvolver tudo que se lhes atravesse no caminho sugiro que assumam que o fazem por si, pelo seu percurso político, para alimentar o seu ego, mas que não o façam pelo cidadão anónimo que quer mesmo é que as coisas corram melhor e sem atropelos e jogos florentinos de quem a ideologia está alcandorada no cataventismo em qualquer lugar altaneiro que se tenta ocupar.

                José Saramago, avisado prémio Nobel da Literatura escreveu que “há duas palavras que não se podem usar: uma é sempre, outra é nunca”. Lembrai-vos pois!

                Há uma velha frase de Maquiavel que também fica bem neste texto curto e grosso: “Os poderosos criam dificuldades para vender facilidades”. (Metida aqui à pressão)

 

Fernando Pereira

9/11/2020

15 de outubro de 2020

Sem eira nem Beira - O Interior- 14/10/2020


 

Sem eira nem Beira

Um dos aforismos do quotidiano diz: “quando um pobre come galinha, um dos dois está doente”!

                O som das vuvuzelas dos relógios das igrejas são os únicos sons audíveis na maior parte das aldeias de uma Beira esvaziada de gente e de perspetivas de um futuro melhor.

                Vemos escolas fechadas, parques infantis ao abandono e só a presença diária da carrinha do padeiro consegue quebrar a monotonia de um quotidiano de desvida!

                Num período de euforia eleitoral, em quase todas as aldeias fizeram-se polivalentes, muitos com iluminação e balneários, e perante o estado de degradação acentuado o que se depreende é que nunca terão servido para grande coisa, a não ser para que os autarcas se tenham atascado num lodaçal de entremeada, febras e vinho de duvidosa qualidade, no dia da sua inauguração com fogo de artificialidade e lágrimas dos contribuintes!

                As aldeias orgulham-se do seu mais recente equipamento, a capela mortuária, espaço que deixará de ter uso porque à medida que vão minguando os vivos, os mortos deixam de ter quem os enterre!

                Estou a ser pessimista ou estarei apenas a debitar umas “avulsisses” sobre um tempo que parou, num mundo rural longe das descrições de Aquilino ou Júlio Dinis!

                Há, contudo, alguma coisa positiva no meio disto tudo, e embora de forma paulatina vai-se assistindo à recuperação de alguma agricultura, e hoje vem-se muitos campos tratados com outros meios, longe da desgraça que era o “mundo rural” do Estado Novo. Defendo há muito a atribuição de subsídios à agricultura, porque é a única forma de manter as terras com ocupação e desenvolver o sector produtivo, fundamental para o sucesso económico no futuro do País. Obviamente que esse subsídio tem que ser acompanhados por funcionários públicos com formação e no terreno, e não se fazer o que tem sido habitual que é a recorrente situação de funcionários publicados fazerem relatórios à medida.

                Nestas crónicas tenho alertado para a falta de empenho do poder central no interior. Os próprios eleitos do interior vão- se esquecendo de quem os elege. Não é uma prática deste governo, é a política normal de qualquer governo da República, embora seja uma situação recorrente desde a monarquia. Não fora o arrojo de se ter construído o caminho de ferro, tão maltratado pelo salazarismo e continuadamente abandonado pelos governos da democracia, e o interior hoje era uma verdadeira capela funerária de gentes e desfuturos.

                A situação do interior traz-me à lembrança uma anedota que circulava nos tempos da guerra fria sobre alguma inoperância dos serviços públicos da ex-URSS: Num compartimento de um comboio na URSS estavam Estaline, Krutchev e Brejnev. O comboio que devia estar a andar permanecia parado, e Estaline levanta-se dizendo que ia tratar do assunto. Voltou sorridente e disse que tinha enviado o maquinista para o Gulag e o comboio ia andar com o fogueiro a fazer as vezes do colega. Permaneceu parado. Krutchev levanta-se, sai do compartimento e regressa ufano dizendo que o comboio ia andar porque ele reintegrou o maquinista e premiou-o com um prémio da emulação socialista. O comboio permaneceu parado. Brejnev levantou-se, fechou as janelas e o compartimento ficou numa escuridão total, e disse, meus senhores, o comboio está a andar!

                Para tempos novos no interior lembro Odorico Paraguaçu, essa imorredoira figura de perfeito de Sucupira, interpretado por Paulo Gracindo:” Vamos botar de lado os entretanto e partir logo para os finalmente”.

 

Fernando Pereira

12/10/2020

               

9 de abril de 2020

Pelo sonho não vamos! / o Interior / 8/0572020




Pelo sonho não vamos!
Não vou falar da situação prevalecente no País e no mundo, porque sobre isso fala tanta gente, que a minha opinião de quem não sabe nada do assunto, só exponenciaria a maioria das asnices quotidianas!
Estou a reler algumas passagens do “Pós-Guerra”, do Tony Judt, a história da Europa desde 1945, para conseguir perceber qual vai ser o futuro do País quando chegar a altura do “lamber as feridas”.
Tive curiosidade em ver o que se fez na Europa nos anos ontem, os que se seguiram à guerra, e o esforço que as populações dos países destruídos pela devastação tiveram que fazer para reerguer a economia e conseguirem dar uma dignidade mínima de vida aos cidadãos. Nem tudo foi sempre low-cost!
Neste reviver o passado na Europa, estamos a olhar para o futuro do espaço económico que foi projetado para ser comum, mas onde há alguns mais comuns que outros, e a quem a outros o comum causa engulhos.
 "A história repete-se sempre, pelo menos duas vezes", disse Hegel na “Filosofia da História” ao que Marx no “18 de Brumário de Luis Bonaparte” contrapõe que ele se terá esquecido de dizer que “primeiro como tragédia, segundo como farsa”!
Pois, nada será como dantes a partir de agora por vários motivos. A hecatombe na frágil estrutura empresarial portuguesa com falências e encerramento de empresas e pequeno comércio levará a uma horda de desempregados com consequências imprevisíveis num harmonioso e desejável equilíbrio social do País. A emigração ao longo de mais de um século foi sempre a tábua de salvação de muita gente, principalmente deste interior, socorrendo-me do livro de Judt para lembrar a título de exemplo o quão importante foi a mão de obra portuguesa na recuperação de uma França do pós-guerra. Hoje esse eterno balão de oxigénio, que vai minorando o número de pessoas que o Estado tem que sustentar em situação de inatividade está condicionado pela pandemia do ferrete económico em destinos habituais da nossa emigração, que levarão muitos anos a recuperar deste abanão profundo.
Estou muito pessimista, até porque o centro económico tem passado paulatinamente para a Ásia, para países de grande produção e de regras draconianas no mercado laboral, o que em rigor é uma perfeita antítese dos direitos sociais dos trabalhadores europeus conquistados com muitas lutas. A China, Coreia do Sul e também o Japão tem grande liquidez e não escondem a avidez para investirem numa Europa onde o consumo é elevado. As contrapartidas serão ainda mais gravosas do que foram os acordos de comércio assinados entre a EU e a China que levaram à destruição de um sector têxtil importante no País, isto para dar um pequeno exemplo do que foi uma tragédia para pequenos países como Portugal.
António Costa numa recente entrevista disse que “Portugal terá de voltar a produzir o que se habituou a importar da China". Estranho que se tenha lembrado agora o que já há 40 anos se anda a avisar, que a destruição sistemática do sector produtivo ia inevitavelmente ter consequências e esta epidemia pôs a nu as fragilidades da “economia de sucesso” que tem vigorado.
            Não vale muito a pena chorar sobre leite derramado, mas a persistir-se nos erros acabaremos num suicídio económico coletivo e as gerações vindouras passarão francamente mal, e a nossa geração será culpabilizada por tudo o que de mau sobrevier.
            E não tem nada a ver com o texto, mas desqueça-se: “Vale mais confinado que finado

Fernando Pereira
5/4/2020

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