14 de agosto de 2025

A rua caiu no poder?

                                                                         


                                            

                                                A RUA CAIU NO PODER?

“O que o rebanho mais odeia é aquele que pensa de forma diferente, não é tanto a própria opinião, mas a audácia de pensar por si mesmo, algo que eles não sabem fazer” Artur Schopenhauer.

                Aqui há uns dias “caí na sopa” num grupo de companheiros de jantar de um amigo. Era gente que falava alto, que assumia a autoridade sobre tudo que se passava na mesa, no País e no mundo. A comer havia tiques omnívoros.  O denominador comum nas conversas na mesa era sobre “a desonestidade dos políticos”.

                A indignação subia de tom com a passagem repetida de jarras de vinho pela mesa. Como se perceberá eu estava condicionado porque as minhas relações com a maioria dos do grupo cingiam-se ao educado bom dia ou boa tarde.

                Enquanto se discutiam as malfeitorias dos governantes e autarcas íamos assistindo a um jogo numa TV, e presumi que estávamos a ver à borla num aparelho qualquer de TV pirata, porque segundo as palavras do dono do aparelho “não alimentava chulos”.

                Entre partes e apartes fui constatando que uns e outros iam metendo umas cunhas para agilizarem alguns pendentes, que um cidadão comum sem acesso a “influentes” teria dificuldade em ver resolvidos. Claro que a gratidão por ver a coisa tratada seria objetivada no futuro em algo tangível, ou na troca de favores.

                Cada vez era maior a raiva à impunidade dos políticos perante coisas que apareciam em letras garrafais com títulos apelativos à “justiça popular” de cidadãos, que em certas circunstâncias me fazem lembrar a labreguice dos meus companheiros de deglutição de um jantar que só por ter apanhado uma boleia me desconfortou manter-me até ao fim.

                As redes sociais são a caixa de sonância e ressonância de tanto “justiceiro”. Todos denunciamos e anunciamos patifarias, exceto as nossas e dos de quem gostamos. Vou dar um exemplo caricato q.b. de uma determinada situação: Aqui há uns anos uns técnicos de saúde foram condenados por burla ao SNS. As televisões ávidas de reproduzirem até à exaustão montaram um acampamento à porta do tribunal. Pasme-se que passados uns anos “tropeço” nas redes sociais num dos que foram condenados nessa situação e indignado contra os políticos porque defraudam sistematicamente o estado perante o assobiar para o lado da justiça. Um verdadeiro recuperado!

                O calor dilata muita coisa, as redes sociais e a imprensa coscuvilheira fazem pior e a sociedade tem que se conformar com novos espaços de julgamento.

                Para recordar tempos idos aqui está uma das muitas pérolas do almirante Tomaz, o último presidente da ditadura: “Comemora-se em todo o país uma promulgação do despacho número Cem da Marinha Mercante Portuguesa, a que foi dado esse número não por acaso, mas porque ele vem na sequência de outros noventa e nove anteriores promulgados...”

                Começar com Schopenhauer e acabar com Américo Tomaz mostra bem o estado a que se chegou.

                Veraneiem-se muito!

Fernando Pereira

9/8/2025

13 de junho de 2025

"De olho Neles" / O Interior/ Guarda 12-6-2025

 


                                    


                                                DE OLHO NELES

 

                               “Por trás de todo o paladino da moral, vive um canalha”

                               Nelson Rodrigues

Aí temos o tempo dos Santos Populares. Confesso que despercebo quais são mesmo os santos impopulares, ou melhor terei percebido em parte pela votação no Pedro Nuno Santos!

                Este ano para além dos santos populares vão aparecer os andores de indivíduos (as) que se querem afirmar resolvedores de todos os problemas nas urbes pelo País todo. Vai ser um fartar de febras, entremeada, imperiais em copos de plástico, vinho de qualidade duvidosa, e sorrisos em barda para tentar agradar a gregos, troianos e beócios!

                Para abrilhantar o período vão aparecer uma parafernália de candidatos presidenciais de todos os tamanhos, cobertos de ética e sobretudo “assumidores” convictos da defesa de uma Constituição da República que muitos não conhecem. Mas começa a ser o quotidiano dos atores da política espetáculo a que nos fomos ambientando nos últimos anos. “O essencial é invisível aos olhos” Saint Exupery

                Vamos ter festa redobrada e a sensação que teremos tudo resolvido. Como diria alguém, “não há nada tão monótono como a perfeição”!

                Como o Verão se aproxima, vamos aligeirar as vestes e tentemos voltar a irritar-nos com coisas pequenas para ficarmos um pouco mais confortáveis.

                Uma das coisas que mais me “perplexam” é o facto de quando há uma alteração significativa do quotidiano dos portugueses a primeira reação é uma corrida desenfreada ao papel higiénico. Sinceramente gostava que me explicassem este assalto às prateleiras dos supermercados. Desculpem a brejeirice, mas o português parece que perante uma situação anómala gosta do olho limpo! Verdadeiros herdeiros do “semiótico” Camões!

                Esta história do papel higiénico faz-me lembrar uma conversa com um velho amigo português que se manteve em Angola depois da independência. Eu tentava mostrar-lhe as virtudes da revolução, do que então se chamava, “trincheira firme da revolução em África” e ele calmamente ouvia-me e rematou uma vez com esta: Enquanto Angola não resolver o problema donde entra e donde sai não há revolução que aguente. Falava disto pela falta quotidiana de pão e papel higiénico nas lojas estatais então criadas no dealbar da revolução.

                Uma outra coisa que me irrita é encontrar as pessoas nos supermercados a abrir tampas de detergentes, amaciadores, sabonete líquido e correlativos para cheirarem e depois fecharem mal, para o cliente seguinte ficar com as compras cheias de produto no saco. Que sagradas pituitárias que tanto mal vão fazendo.

                Hoje é uma crónica leve, ao saber do sol num Portugal que em certos casos foi bem definido por José Cardoso Pires no Alexandra Alpha: “Isto não é um País, é um sítio mal frequentado”.

Fernando Pereira

6/6/2025

10 de abril de 2025

A Pílula do dia seguinte / o Interior / 9/4/2025

 

                                                    


A Pílula do dia seguinte

“A mentira constante não serve apenas para enganar—seu verdadeiro propósito é destruir a própria noção de verdade. Quando um povo já não consegue distinguir entre o real e o falso, também perde a capacidade de discernir entre o bem e o mal. E um povo assim, desarmado do pensamento crítico, torna-se presa fácil para qualquer poder que deseje controlá-lo.” (...)Hannah Arendt, in "A mentira como ferramenta de poder"

Há umas décadas, no dealbar da independência de Angola, por razões de serviço tive que fazer uma viagem de serviço a uma povoação no centro-sul do País, que uns anos antes era um florescente entreposto de cereais do Caminho de Ferro de Benguela. Ao tempo essa vila, Longonjo, estava num perfeito estado de abandono, e o último comboio já tinha ali passado há 3 anos (Uma linha da Beira Alta antecipada), e não tornaria a passar nos 25 anos seguintes. Os trabalhadores do CFB sentavam-se a cumprir o horário “inventando coisas novas”, frase roubada ao meu amigo, o escritor Manuel Rui Monteiro dos “Meninos do Huambo”.

                Estive lá três vagarosos dias, num ermo e alojado numa pensão restaurante, de muito má qualidade e ainda por cima sujeita a faltas de produtos de manutenção ou até de apoio a mínimos para a despensa e concomitantemente para a mesa do hóspede único, que era eu. O dono era um português idoso de uma terra entre Moncorvo e Freixo Espada à Cinta, com a sua mulher que também era desses sítios. Ao som do pálido petromax, digo-o porque a luz transformava as nossas caras em bonecos de cera e o som era um silvar constante. Como havia pouco que partilhar, quer comida quer bebida íamos falando de tanto que aconteceu, acontecia e aconteceria. A única coisa certa foi mesmo o que aconteceu. A determinada altura, quando lhe perguntei porque ficou em Angola, naquele ermo, só com a mulher, longe dos filhos, amigos e outros entes queridos ele respondeu-me: “Sabe camarada Fernando, era assim ao tempo o tratamento quotidiano a na então República Popular de Angola, eu tenho um lápis e uma orelha. Pegou no lápis e pendurou-a na orelha, e disse a cobra não tem orelha, portanto não tem onde guardar o lápis. Pedi-lhe que me explicasse, e ele disse que tinha nascido com orelha para pôr lápis e as cobras eram os outros que comiam tudo, e quando não tivessem que comer começavam a comer a própria cauda até acabarem por morrer. O do lápis na orelha ia-os vendo morrer e comerem-se! No fim ele diz: Esta terra sem os dos lápis nas orelhas é um ofidiário tormentoso!

                Toda esta história que tenho contado repetidas vezes talvez tenha a ver sobretudo sobre tanta coisa que aceleradamente estamos a assistir em Portugal e no Mundo. Já tenho idade para ter visto muita coisa e o seu contrário, mas sinceramente nunca me lembro de ver as estrelas tão alinhadas para que tanta coisa má aconteça, e o dramático é que são os sem orelhas que nos tentam dar a receita de como vai ser o nosso futuro.  Os do lápis na orelha são marginalizados e calados.

                Vamos muito em breve para a primeira de três eleições no período de um ano. E volta a estafada teoria da necessidade de se votar útil para derrotar uma qualquer inutilidade política. Eu sempre votei útil, de acordo com a minha consciência, e sem andar a ver se uns são melhores, assim-assim, piores, mas melhores que outros que são muito maus e por aí forma. Se o meu voto, que não tem muita companhia não conta para colocar deputados nacionais, deputados municipais, vereadores a culpa não é minha, é sobretudo de um sistema que se está borrifando para as minorias. Continuam a legitimar e a promover alguns, que deveriam estar a fazer voluntariado em alguns museus, porque muito do acervo é do seu tempo. Mas não é assim, ei-los com aquele ar circunspecto a dizerem banalidades, com a autoridade que o País, a Europa e o mundo estejam à espera de saber se a posição política deles é em decúbito ventral ou dorsal. Mais uma vez vou votar útil, mesmo que isso não me traga representação nenhum (Olhem que nos Açores e na Alemanha todos os votos contam)

                Para acabar que já vai longo recomendo que façam como eu e peguem no livro “Sim Senhor Primeiro Ministro” de Jonhathan Lynn e Antony Jay. Eu estou a relê-lo mais uma vez!

                Quem estiver empenhado na campanha, aproveite e leia os livros das intervenções parlamentares dos deputados eleitos pelo distrito da Guarda, no ultimo ano e porque não pegar nos livros dos deputados eleitos há mais de 30 anos. Era um excelente exercício.

                E em Maio saberemos quem toma a pilula do dia seguinte!

                Já agora, comemorem como puderem o 25 de Abril de 1974. Essa data sim, merece respeito!

 

Fernando Pereira

7/4/2025

               

13 de março de 2025

Vamos revisitar o futuro? / O Interior / 11-3-2025

         




Vamos revisitar o futuro?

 

Com tudo que se tem passado, só se me oferece fazer uma adaptação do que dizia Almada Negreiros sobre Portugal, diria “Isto não é o Mundo. É um sítio. E ainda por cima, mal frequentado!"

            Estas semanas que foram particularmente pródigas em notícias,  não auguram nada de bom nas relações internacionais, e a degradação que se vinha acentuando nos últimos anos no contexto das relações económicas, nas alianças militares e nos alinhamentos políticos deixam no horizonte tempos de grande indefinição. A ausência de uma liderança na Europa, a inversão de valores na nova administração nos EUA, a firme autocracia russa e o olhar matreiro dos governantes chineses conseguem fazer um cadinho de soluções que podem vir a ser irreversivelmente explosivas.

            Não sei se terá sido por acaso, revi o filme de John Ford, “A grande Esperança”, título em português do “Young Mr. Lincoln”, uma das minhas películas de eleição. Um filme de 1939, com um pujante Henri Fonda, que dá corpo à personagem de um dos mais extraordinários presidentes dos EUA Abraham Lincoln. O enredo não é sobre a vida de Lincoln enquanto presidente, mas é sobre o seu tempo enquanto um jovem advogado confrontado na defesa de dois irmãos de um caso de homicídio evidente.

            O filme é dos mais admiráveis da filmografia mundial, mas o que é importante reter quando estamos a vê-lo é a estrutura moral e ética de um cidadão impoluto que foi dos mais marcantes presidentes dos EUA, o republicano Lincoln, assassinado há mais de 150 anos.

            É confrangedor assistirmos nos EUA o que tem sido a magistratura dos últimos presidentes do País, com evidentes reflexos na instabilidade passada e  presente em diversos locais do mundo.

O edifício democrático em que assentam os EUA, afinal um continente com uma diversidade cultural, com assimetrias económicas, com falta de uma unidade religiosa, com um mosaico de raças tem conseguido sobreviver uma nação unida a um enorme desgaste que alguma gestão algo cataventista que tem imperado na Casa Branca e no Capitólio.  Os lóbis, as alianças espúrias por regimes de discutível espírito democrático, a falta provável de um antagonista forte em termos militares, a ultrapassagem demasiado rápida da sua estrutura económica tem levado os EUA a esta situação, e ainda por cima acresce que já há décadas que é um País pouco confiável na perenidade das suas relações externas. Como bem dizia o cínico Henri Kissinger: Ser inimigo dos EUA pode ser perigoso, mas ser amigo é fatal.”, ou ainda,A América não tem amigos permanentes ou inimigos, apenas interesses”.

            Num tempo em que se assiste a um espetáculo permanente, e nalguns episódios até confrangedores, no quotidiano das relações internacionais vemos com preocupação um futuro que julgámos sempre ser impossível de acontecer.

            Voltando a Lincoln, um homem que obstinado venceu uma guerra civil por uma causa, a abolição da escravatura, afinal ironia do destino a bandeira dos republicanos e a oposição forte dos democratas, deixou um legado no seu discurso no filme de John Ford: “O poder começa quando cada um sentir como sua a lei de todos”.

               

                Quando me desapetece falar de questões internas há sempre o recurso às externas.

 

 

Fernando Pereira

10/03/2021

               

18 de janeiro de 2025

NADA NOS SALVA DESTA PORRA TRISTE/ O Interior / 15-01-2025

 




NADA NOS SALVA DESTA PORRA TRISTE

 

Fui buscar este título longo a um desalentado Jorge de Sena, quando falava do País, no seu exílio californiano. Acho que infelizmente temos que começar a fazer coro com ele porque o futuro não é fiável.

Existem pessoas que sabem tudo. Infelizmente é tudo que sabem. São os especialistas. Sabem quase tudo de praticamente nada.

Esta introdução tem a ver com o muito que o mundo está a ter ao nível  da “tudologia” comunicacional no quotidiano da cada vez mais depauperada comunicação social, entregue ao patobravismo arrivista dos grupos económicos, e ao crescente domínio das redes sociais, tuteladas por pessoas sem escrúpulos e que se julgam capazes de implantar projectos políticos e modelos económicos que nada tem de inovadores, porque redundam sempre na existência da segregação social e económica entre cidadãos.

Sente-se que o ar começa a ser irrespirável,e eis-nos indiferentes quando assistimos à banalização do horror nas imagens que vemos entre umas garfadas, dois copos e umas gargalhadas, achando que tudo aquilo é coisa que só acontece aos outros.

Conseguimos ser tu cá tu lá com o Putin, Trump, Musk, Maduro, Netanyahu e outros, da mesma forma que dizemos no café, ou no emprego que a vizinha do andar de cima comprou uns sapatos novos porque os saltos que se ouvem são diferentes.

“Nada é mais desastroso do que iniciar-se uma experiência social com gente imprópria”, diz uma personagem do “Também o cisne morre” de Aldous Huxley.

Hoje estamos perante esse contexto, e quando nos encontramos para conversar com os nossos pares e ímpares o que de facto conseguimos é trazer para o diálogo pouco mais que os monólogos que nos oferecem a “rádio, tvdisco e a cassete pirata”, desculpem as redes sociais! Estamos literalmente prisioneiros da falta de graça que a maior parte das coisas tem e as desgraças que se vão avolumando à nossa volta sem que consigamos dar conta quão enleados estamos.

Nelson Rodrigues (1912-1980), um excecional jornalista, escritor, dramaturgo, politicamente alinhado com a direita, sem apoiar a ditadura brasileira, disse que “O ser humano é cego aos próprios defeitos. Jamais um vilão se proclama vilão. Nem o idiota se diz idiota”.

Hoje era para escrever outra coisa, mas como os tempos são penumbrosos resolvi partilhar este magnífico texto do historiador e economista italiano Carlo Cipolla, que condensa em cinco leis a sua teoria da estupidez:

“1. Sempre se subestima o número de estúpidos em circulação.

2. A probabilidade de que uma pessoa seja estúpida é independente de sua educação, riqueza, inteligência, etc.; ou seja, a estupidez se distribui igualmente em todos os segmentos da população.

3. O estúpido causa dano a outras pessoas e a si mesmo, sem obter nenhum benefício.

4. Eles são imprevisíveis. As pessoas NÃO estúpidas sempre subestimam o poder danoso dos estúpidos.

5. Os estúpidos são mais perigosos que os bandidos e os malvados. Não há nada mais perigoso que um estúpido com poder.”

Quando o governo ou o regime social que produz a estupidez coletiva entra em colapso ou em crise, as pessoas podem se libertar dela e da dor que começa a surgir pela contradição entre seus pensamentos e seus atos (Bonhoeffer)

Sigo Mark Twain numa velha máxima “Sempre que você se encontrar do lado da maioria é hora de parar e refletir”, e tenho-o feito no meu quotidiano na politica, no desporto, na vivencia cultural e até social.

Tempos maus, muito maus! Pelo menos desejo a quem me lê um bom ano 2025!

 

Fernando Pereira

13/01/2025

 

14 de novembro de 2024

Deitar veneno no champanhe! / O Interior / 13/11/2024

 


Deitar veneno no champanhe!

Acho que a eleição de Trump não é muito importante para inverter a interioridade em que todos vamos caindo a cada geração que passa! Penso que com a Harris a situação seria exatamente a mesma! Contra o interior marchar, marchar!

                Não vou entrar em detalhes sobre a cobertura, ou a sua presencial ausência nas eleições americanas porque seria desagradável para uma classe que um pouco por todo o lado se engana muito, mas que os enganos são tolerados e a maior parte das vezes esquecidos. Estou a falar dos jornalistas, que cada vez menos são vistos como referências de verdade e rigor. A culpa não será porventura dos que ganham os míseros ordenados, sem horários, a trabalharem em condições deploráveis, enquanto os seus diretores e editores vão amansando a ira dos administradores que por sua vez são servis ao poder económico e político.

                No momento singelo em que os restos mortais são transladados para o Panteão Nacional, não fica mal recordar as suas palavras sobre o jornalismo: “É o grande dever do jornalismo fazer conhecer o estado das coisas públicas, ensinar ao povo os seus direitos e as garantias da sua segurança, estar atento às atitudes que toma a política estrangeira, protestar com justa violência contra os actos culposos, frouxos, nocivos, velar pelo poder interior da pátria, pela grandeza moral, intelectual e material em presença de outras nações, pelo progresso que fazem os espíritos, pela conservação da justiça, pelo respeito do direito, da família, do trabalho, pelo melhoramento das classes infelizes.” (Eça de Queirós, Jornal Districto de Évora, nº 1, 6 de Janeiro de 1867)

                Da “comentadorice” colhida e escolhida a dedo nada me surpreende, e a figura entristecida como os ouço e vejo, só me fatiga alguma sensatez que resiste em mim perante as verdades absolutas que mudam a cada passo e espaço. Como sou comentador e tenho carteira de jornalista tenho que me limitar a quase calar, sem, contudo, consentir algumas diatribes que nem sempre são honradas e raras vezes raiam a coerência!

                Às vezes apetece ser a abelha que diz às moscas que mel é melhor que merda, mas como bem diz Luis Fernando Veríssimo “Tem muita gente honesta neste país. Só não se identificam para não ficar de fora se aparecer um bom negócio”.

                Mudando de agulha. Vai reabrir com uns anos de atraso, umas derrapagens enormes nas empreitadas, salvaguardadas a favor dos mesmos por contratos leoninos feitos por excelsos escritórios de advogados, a linha da Beira Alta. Não sei se esta reabertura parcialíssima do troço Celorico da Beira- Vilar Formoso, vai servir para as comemorações do 25 de Novembro de 1975, uma data muito querida do Melo de Olivença e correlativos?

                Já vi o horário e mais uma vez me parece completamente desadequado porque poderia permitir, ainda que transitoriamente, que se pudesse fazer um transbordo para o Intercidades da Beira Baixa para que as pessoas de Celorico da Beira e Vilar Formoso se possam deslocar ao Barracão, Benespera, Maçainhas, Belmonte Caria e eventualmente à menos importante cidade de Lisboa, num confortável comboio muito rápido.

                Não vou escrever muito mais, senão ainda entro no rol dos da língua azul e lembrar alguém de quem partilho muito pouco da sua obra, Nietzsche: “Não foi o conflito de opiniões que tornou a história tão violenta, mas sim a fé nas convicções”.

 

Fernando Pereira

10/11/2024

13 de outubro de 2024

Jornal de Angola 26/9/1993

 Mais uma descoberta no baú de um artigo meu no "Jornal de Angola" em tempos difíceis!!

Jornal de Angola 26/9/1993






Devagar, Devagarinho, Parado! / O Interior / Guarda 11/10/2024

Devagar, Devagarinho, Parado! Andei a arrumar uma tralha cá por casa, e olhei para uma caixa que estava por cima de um armário intocada há anos, e sem qualquer referência ao que teria o seu interior. Quando a abri, foi como se tivesse reaberto a caixa de Pandora. Tinha por lá um conjunto significativo de artigos dos muitos que fui fazendo ao longo da vida em jornais, rádio e outras publicações por várias andanças. Perderam-se muitos, mas pelos vistos ainda se recuperam alguns. Entre os que me fui deliciando a recordar, encontrei um conjunto de artigos de um tempo em que colaborei semanalmente na Radio Altitude, onde mantive uma presença regular. Há sexta-feira durante dois anos lá me esforçava para dizer o que julgava certo, com o cuidado de omitir o muito certo, porque havia muitos que não gostavam. Tudo isto porquê? Porque há um conjunto de crónicas desse tempo, e estamos a falar dos últimos cinco anos do milénio passado, que podiam ser escritas hoje que a atualidade do tema não se perdia. Esta é de 18/10/1997, e não vou alterar uma vírgula ao que li ao tempo nos microfones da vetusta Altitude. “Anda toda a gente muito preocupada com a desertificação do distrito da Guarda, e simultaneamente com o facto de nada vir cá parar. As preocupações aumentam quando alguns “bibelots” daqui são levados para outros lugares. Não pactuo com este discurso da moda. E porque é que é um discurso de moda? Porque a realidade é que isto se passa há muitas décadas e ninguém se preocupou com isso. Agora, em que a competitividade e o mercado impõem regras, a Guarda e os outros municípios do distrito acordam para uma realidade que com eles convivem há muitos anos a esta parte. … O distrito da Guarda foi vivendo ao longo de décadas das migalhas das remessas dos emigrantes que de cá saíram na busca de melhores condições de vida para si e para os seus. O folclore de Agosto, quando vem de férias, era motivo de chalaça e dichotes, quando na realidade é que essa situação era a parte visível de um tumor que corroía o interior abandonado a uma sorte madrasta. Não será por ter lobbies que a Guarda vai ter mais qualquer coisa importante, é fundamentalmente porque não tem atividade empresarial e dinâmica política que altere o estado atual das coisas. O poder político da Guarda é de pouco peso, isto é quase uma frase batida, mas só poderia ter algum peso se fosse sustentado por um grande empenhamento das dinâmicas empresariais, intelectuais, culturais ou outras e não poder político que se tem que é um pouco igual à imagem da região: sectário, individualista, com laivos aqui e ali de caciquismo e acima de tudo mais preocupado em rotular pessoas do que discutir que afinal são de todos os que cá moram, e os que querem continuar a viver por aqui com melhores condições. Veja-se o quadro global da cultura média dos ocupantes de lugares políticos, por eleição ou nomeação no distrito. É demasiado confrangedor para nós sentirmos que não estamos de facto a viver um pesadelo. O dinamismo empresarial só se consegue com exigência e isso só se pode auferir com a elevação cultural dos cidadãos. Isto é um processo mecanicamente dialético, e só depois de se despir o sectarismo dos que estão no poder, e dos que fazem oposição para estar no poder a fazer exatamente igual é que é possível trabalhar para o bem comum. É um tema aliciante, mas que não cabe nos minutos desta crónica, nem tão pouco me sinto com capacidade de ser eu a levá-lo às pessoas. Reconheço as minhas insuficiências, mas gostaria que outros as reconhecessem também e não se escondessem atrás dos biombos que os lugares lhes facultam, para lhes dar a autoridade de “engenheiros de almas” rebuscando uma máxima de Estaline. … Algo está podre no Reino da Dinamarca.” Esclareça-se que a crónica era um pouco mais longa, e a própria verve é de rádio, com pouco cuidado na pontuação, para além de outras construções. Só trouxe aqui o essencial de uma crónica escrita há 27 anos, que bem podia ser de hoje. Prometo que trarei outras e todos verão que o tempo passou, mas as questões, os problemas e o quotidiano das intervenções publicas em nada se alteraram. Fernando Pereira 5/10/2024

9 de maio de 2024

50 ANOS JÁ CÁ CANTAM! / O interior / 9-05-2024


 

50 ANOS JÁ CÁ CANTAM!

 

"Depois dos ganhos e perdas dos dois lados, uma ordem nova substitui a ordem antiga, até que outra venha por seu lado substituir aquela. Muitas vezes, certamente, nos perguntámos como se processou essa espécie de rendição dos deuses, que hesitações, que angústias a precederam ou dela resultaram, que movimentos de alma ela fez nascer"

Marguerite Yourcenar, " O tempo, esse grande escultor".

 

            Ao comemorar o 25 de Abril de 1974, só me apeteceu dizer: 50 anos de liberdade ninguém me tira!

            “Gostei da festa pá”, citando uma estrofe do Tanto Mar do Chico Buarque! De tudo gostei sem me entusiasmar por aí além, já que à medida que a idade cresce em progressão aritmética diminui o entusiasmo em progressão geométrica.

            Gostei de ver a enorme adesão às comemorações do 25 de Abril de 1974, o que revela que as pessoas se reveem nos princípios de uma das datas mais importantes da história contemporânea de Portugal.

            Fiquei satisfeito por ver que numa região onde gentes de Abril foram tão maltratadas ao tempo, tem hoje a felicidade de verem que os valores que defendiam há quase 50 anos, saudados por quase todos.

            Recordo de há décadas, a intransigência dos caciques locais e uma parte do clero perseguirem as pessoas que defendiam os valores de Abril. Em muitos concelhos do distrito da Guarda defender o 25 de Abril de 1974 era uma heresia e a ameaça física e a ostracização social eram comuns. Fui testemunha e vítima de algumas atitudes de gente que não hesitava em rotular e perseguir pessoas para que se perpetuasse no terreno os ignóbeis tempos de um fascismo serôdio.

            Gostei de saber que o clero trauteia a “Grândola Vila Morena” em publico, quando há pouco menos de 50 anos proibia que as músicas de José Afonso passassem na Rádio Renascença, emissora católica portuguesa. Na diocese da Guarda em 1976 numa igreja cedida a um coro para que se entoassem canções da tradição popular portuguesa, o pároco decide acabar o evento porque o coro cantou o “Canta camarada canta”, que afinal é tão só uma musica do cancioneiro da Beira Baixa, e nada tem a ver com comunistas!

            Hoje já estaria mais à vontade para colar cartazes, do que no tempo em que vi numa janela um tipo “respeitável” numa vila deste distrito com uma espingarda a dizer que já “vos f…os cornos comunistas filhos da p…”!

            Fico contente pelo muito que se alterou, mas triste quando vejo que o discurso de hoje, mesmo de alguns que andam de cravo na lapela é de um exercício  que alimenta a xenofobia e instiga o ódio contra gente que procura Portugal para viver e trabalhar, e que sem eles muitos serviços se arriscam a parar.

            Lamentável num País que tem cinco milhões de emigrantes espalhados pelo mundo. O racismo sempre foi  formatado pela mentalidade colonial herdada do Estado Novo, mas exacerbarem os ódios racistas, e começarem a aceitar-se como vulgares as agressões é aviltante para com os valores de Abril e para os fundamentos de uma sociedade solidária!

            Numa recolha do século XIII no Koans Zen para meditação comum: “dois monges discutiam sobre uma bandeira. Um dizia: “A bandeira move-se”. O Outro dizia: “O vento move-se”. Um terceiro patriarca passou por ali por acaso. E disse-lhes: Não a bandeira, nem o vento, é a mente que se move”.

 

Fernando Pereira

5/5/2024

 

 

15 de março de 2024

O voto útil / O Interior/ 13-3-2024


 



O voto útil  

Como se diz em gíria, este artigo vai ser escrito a dois andamentos: um porque ainda não sei o resultado das eleições, e outro porque quando souber já não alterarei uma vírgula ao que escrevi.

                Em qualquer período eleitoral vem-me sempre à memória a máxima de Hegel, “nós aprendemos com a história o que não aprendemos com a história”.  Na realidade a cada ato eleitoral que vamos tendo, e felizmente já ando nisto há quase cinquenta anos, os intervenientes são diferentes, mas os lugares comuns são a cada ano piormente iguais.

                Uma das situações que sinceramente mais me irrita, e não é de agora, é o continuado apelo ao voto útil por parte dos “leaders” dos partidos da alternância em Portugal, o PS e o PSD, que perpetuam um sistema de representatividade completamente desadequado da realidade do País de há décadas.

                O “Voto é a arma do povo”, foi o primeiro slogan para as eleições democráticas de 25 de Abril de 1975, que elegeram a Assembleia Constituinte, que elaborou o texto constitucional que legitimou o Estado democrático. Ao tempo votámos com entusiasmo, e a obra final que se perpetua é boa, apesar de constantes atropelos por parte de algumas forças que prefeririam uma “democracia musculada” ao invés da democracia participada.

                O voto do cidadão tem que ser sempre útil, e urge que as pessoas sintam utilidade no ato mais nobre da sua vida coletiva. Se a legislação prevalecente faz com que mais de 700.000 votos dos cidadãos sejam para ser atirados para o “caixote do lixo da história”, isso é outra coisa. Votar em consciência em determinados territórios em Portugal, ou melhor na maioria dos concelhos do País é quase um perder tempo, porque os escolhidos são sempre os mesmos partidos. Urge modificar isso, e seria objetivamente excelente para combater efetivamente a abstenção nos territórios de baixa densidade. Copiar o modelo alemão, e outros na Europa, e fazer um círculo de compensação, o que daria maior visibilidade a outros partidos, e não “aos que são mais do mesmo”. A experiência dos Açores é um modelo replicável para o resto do País e assim os votos das pessoas que não alinham com os partidos do poder deixam de ser “clandestinos”.

                Quando há quase 50 anos se fez a legislação eleitoral para o parlamento, ou para as autarquias a dispersão populacional do País não era tão evidente e a disparidade entre as regiões não sofriam de tanta assimetria. Hoje importa alterar o estado das coisas para se poder acelerar modelos de desenvolvimento nacionais e locais mais consentâneos com um futuro mais moderno.

                Uma das alterações fundamentais a fazer é no quadro das autarquias locais, onde a presença dos presidentes de junta que não são eleitos pelos cidadãos que elegem metade dos deputados municipais é um disparate consentido. Eu percebo a lógica da criação das Assembleias Municipais, e que foi objetivamente o de dar voz e alguma dignidade aos presidentes de junta de freguesia. A realidade é que a A.M. hoje tem tudo menos dignidade democrática. Um candidato a deputado municipal com um milhar de votos é preterido por um presidente de junta de freguesia eleito por 120 votos, por exemplo. Urge acabar com este anacronismo, que favorece o caciquismo, em que o representante de uma junta de freguesia, dotada de autonomia financeira e administrativa, vai votar o orçamento e plano de outra estrutura à qual não há ligação nenhuma em termos orgânicos.

                O modelo de copiar o figurino da Assembleia da Republica para a Assembleia Municipal seria o desejável, em que o Presidente da Camara fosse o cabeça de lista da estrutura política mais votada, e escolheria os seus vereadores sem se cingir à lista que levou a votos. À AM seriam dados poderes maiores, incluindo a possibilidade de destituir o executivo. As juntas de freguesia seriam agrupadas numa estrutura do tipo Conselho Municipal, com poderes reforçado e que ficassem entre o órgão de consulta e a obrigatoriedade de serem aceites certas recomendações.

                Julgo que é um bom tema para debate, e aqui estão algumas imperfeiçoes da minha parte.

                Gonçalo Manuel Tavares foi recuperar um poema de Brecht: “Pois não seria mais fácil que o governo dissolvesse o povo e elegesse outro”.

                Já gora, a única coisa útil em eleições é o voto!

 

Fernando Pereira

10/3/2024

16 de dezembro de 2023

"Felizmente, há luar"/ O Interior 14/12/2023

 

                                                        


                                     "Felizmente, há luar"

Nelson Rodrigues é provavelmente um dos nomes maiores da escrita brasileira do século XX. Truculento quanto baste, polémico quase sempre, de direita assumido e democrata de corpo inteiro deixou reflexões numa obra que foi recentemente reeditada em Portugal e que merece leitura atenta.

                “A opinião deixou de ser um acto pessoal, uma posição solitária, um gesto de orgulho e desafio. É o jornal, é o rádio, é a televisão, é o anúncio, é o partido que pensa por nós. Há sujeitos que nascem, envelhecem e morrem sem ter jamais ousado um raciocínio próprio. Há toda uma massa de frases feitas, de sentimentos feitos, de ódios feitos.” Estas palavras de Nelson Rodrigues tornaram-se um eco comum numa sociedade que seria “tendencialmente de liberdade”.

                Vivem-se momentos nebulosos no quotidiano do país, embora não queira afirmar que se chegou ao estado em que o imorredoiro João César Monteiro dizia: «A primeira condição para se ser ministro da Cultura, neste país, é distinguir uma vaca de um boi.»

                Quando se esperava serenidade no governo do País, o António Costa e o Marcelo Rebelo de Sousa fizeram o que normalmente se diz juntar a fome com a vontade de comer. Um porque queria o protagonismo e os rodriguinhos que sempre foram o quotidiano do seu percurso pessoal e político, e o outro porque estava farto de não se conseguir ver livre da teia que montou, e que poderia ser um obstáculo perigosos para a sua mais que evidente vontade de candidatar a Belém.

                Esta demissão inesperada deixou os putativos candidatos a primeiro-ministro numa situação e desorientação, pois as contas estavam a ser feitas a um ritmo lento. Sairiam das eleições europeias as lideranças de pesos pesados, embora se saiba que na prática a governação de alguma gente desta tenha mais resultados pesados do que o peso que levavam.

                O combate político que se avizinha, que não é bem isso, será consequência de uma luta nos aparelhos partidários e não de propostas concretas num País que não é tão mau como a maioria dos portugueses o pinta, nem tão bom quanto os governantes e responsáveis nos querem fazer crer.

                Hoje como ontem o Bloco Central de interesses continuará no seu afã de domesticar a democracia, depois do Partido Socialista ter esvaziado uma esquerda que talvez lhe venha a fazer falta quando chegar a hora das contas. O PSD no seu desnorte quotidiano continua a fazer a figura de um elefante fechado numa loja de louça, vendo uma extrema-direita trauliteira e nalguns casos niilista, repetindo um discurso de moscambilhas com uma histeria que vai de encontro ao que as pessoas querem ouvir, com grande apoio de uma comunicação social ávida de situações de crime de faca e alguidar transportadas para o politiqueiro quotidiano.

                Estamos mal, estaremos pior, mas é da vida. Tenho pena que nos 50 do 25 as coisas estejam assim, mas “pelo sonho é que vamos”, como dizia Sebastião da Gama.

                Porque estamos numa época festiva, não quero deixar de vos desejar Boas Festas, e deixar esta do João César Monteiro em “Uma semana noutra cidade”: São 10 da noite. Estou a escrever no Monte Carlo, onde só há homens. Precisava de apanhar o Fernando para lhe cravar umas aguardentes. É meu desejo estar completamente grosso por volta da meia-noite e com o espírito propenso à obscenidade. Se arranjasse 100 paus ia às putas. Deve ser fabuloso ir às putas na noite de Natal. Duvido é que haja alguém que esteja para me aturar a bebedeira por 100 paus.
"Não estamos em Itália, não há grappa alla ruta, não há comoções nocturnas da Zé, não há nada. Nem sequer o direito ao vómito. Não há nada, mas ainda há vida. Ainda estrebucho, minha senhora. Ainda digo merda e embarco no tudo ou nada do amor. Ainda me jogo inteiro no real e no possível, no confronto entre o que sou e o que podia ser. Ainda simpatizo (ao longe é certo) com as lutas históricas do proletariado de todo o Mundo.”

 

Fernando Pereira

11/12/2023

13 de novembro de 2023

Novembro de 1975, entre palavras e cartazes! / Jornal de Angola/ 11-11-2023

 





Novembro de 1975, entre palavras e cartazes!

Entre os muitos que ilustraram o 11 de Novembro de 1975 e os tempos seguintes foi o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado.

                É um dos mais prestigiados fotógrafos de sempre, e disse de forma desassombrada que “espero que a pessoa que entre nas minhas exposições não seja a mesma ao sair”.

                Talvez fazer uma exposição do que a lente de Sebastião Salgado focou nesses tempos fosse um excelente contributo para que a grande maioria dos angolanos, afinal já nascidos depois da almejada independência, vissem uma realidade de que se terão limitado a ouvir falar, na lógica de “quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto”!

  Foi uma enorme honra tê-lo no dealbar do País, em momentos irrepetíveis do tempo em que se banalizava a morte com canções do tipo "Eu vou morrer em Angola - com arma de guerra na mão - granada será meu caixão - enterro será na patrulha.", e outras como “Vitória ou Morte-Venceremos”, “Estamos em guerra e cada cidadão tem que sentir-se necessariamente um soldado”, ou as frases que se foram sucedendo nos tempos da fase imberbe da então Republica Popular de Angola: “O Povo é o MPLA, o MPLA é o Povo”, “A Luta Continua”, “ A Vitória é Certa”, “Abaixo o Imperialismo”, “Abaixo o Tribalismo”, Abaixo o Regionalismo”, Abaixo o Neocolonialismo”, “Honra ao povo Angolano”, ”Glória Eterna aos nossos Heróis”,” Nós faremos de Angola a Pátria dos Trabalhadores e a Revolução continuará a sua marcha triunfal ao lado dos povos que seguem o mesmo caminho”, “Café de Angola, um gosto de liberdade”, “Os diamantes de Angola são os mais brilhantes / estão ao serviço do povo na reconstrução nacional”, “Sonangol/ Nosso petróleo onde é preciso”, “Vamos Purificar o Partido para melhor recebermos os novos membros”…

“A OPA prepara-se para a defesa intransigente da pátria angolana contra os ataques do imperialismo internacional e seus sequazes”, “Tudo pelo Povo”,” ODP- Organização de Defesa Popular”, “Que importa que o inimigo acorde cedo, se as FAPLA não dormem” “FAPLA, o braço armado do povo angolano”, “Angola é e será por vontade própria trincheira firme da revolução em África”, “O que é determinante para a unidade é a ideologia e não a geografia”, “Na edificação de uma sociedade socialista a agricultura é a base, a indústria o factor decisivo”, “Viva o Poder Popular”, “Somos independentes, seremos socialistas”,” Antes Morrermos Todos que Deixar Passar o Inimigo”, “Estudar é um Dever Revolucionário”, “Fieis ao Marxismo-Leninismo, estamos a construir uma Angola socialista”, “ O Socialismo científico é o grande objectivo estratégico da revolução angolana” “A Educação e cultura ao serviço do povo”, “Saude para todos no ano 2000”…

“Por um Partido sólido, unido, disciplinado, avante com o movimento de rectificação”, “Avante com o poder popular”, “O mais importante é resolver os problemas do Povo”,” Mais quadros, melhor produção, melhor solução dos problemas do povo”, ”De Cabinda ao Cunene, um só povo uma só nação”, “Abaixo os Fantoches Lacaios do Imperialismo”, “Viva o Internacionalismo Proletário”, ”Ao inimigo nem um palmo da nossa terra”…

Para além disso houve publicações e cartazes que ilustravam esses tempos de bate e debate, nem sempre marcado pela tolerância à diferença.

Porque é importante lembrar alguns cartazes que marcaram esses anos fico-me por aqui saudando mais uma vez uma das datas mais bonitas que assisti na minha vida de cidadão, a independência de Angola a 11 de Novembro de 1975.

Gosto muito deste exemplo de uma das melhores escritoras de língua portuguesa, Agustina Bessa-Luís in O Sermão do Fogo "antes do meio século, meus amigos, ninguém tem história. A história duma mulher galante, dum político, dum artista ou até dum homem comum é, acima de tudo, a história da sua consciência, movida não só por circunstâncias, mas também pela sua realidade como ente de memória, como testemunha. Aos quinze anos tem-se um futuro, aos vinte e cinco um problema, aos quarenta uma experiência; mas antes de meio século não se tem verdadeiramente uma história.".  Este exemplo para as pessoas é bem mais adequado aos tempos para um País.

Vamos renovar Novembro tanta vez até conseguirmos o onze do onze sonhado.  

Fernando Pereira 1/11/2023                                                                                                           

 

 














 



13 de outubro de 2023

“O Novembro que Abril não merecia” / o Interior / Guarda 11/10/2023

 


“O Novembro que Abril não merecia”

                O título deste artigo é de um livro recente do pinhelense António Avelãs Nunes, professor catedrático da faculdade de direito da Universidade de Coimbra, homem de grande probidade intelectual e cívica, resistente antifascista, perseguido e preso pela PIDE que viu cerceado o seu percurso académico. Um livro encomendável, porque não existe no restrito meio livreiro, e recomendável pela excelência da reflexão, e da clareza da irrefutabilidade dos factos.

                Há já uns tempos que vão aparecendo referências a comemorar o 25 de Novembro de 1975, desde dar nome a ruas, até fazerem-se homenagens a alguns dos que terão estado na tal “golpaça” , com que muitos sonharam ser um novo 28 de Maio de 1926.

                O presidente da Camara de Lisboa no seu percurso para chegar a primeiro ministro nas próximas legislativas, depois de varrer Montenegro para debaixo da carpete, resolve de vez em quando fazer declarações que permitam a discussão publicada, que imediatamente passa a pública, e que façam esquecer os problemas que ele não resolve na cidade capital.

                Vamos por partes. Na comemoração do 5 de Outubro de 1910 o Carlos Moedas, resolveu dizer que Lisboa vai comemorar o 25 de Novembro de 1975. Já há muito que gente que nunca percebeu muito bem o que foi o 25 do 11, que rejubilou quando ele afirmou determinado o que iria fazer este ano, 48 anos depois. Será que 48 anos é um número fétiche para o senhor Moedas?

                O general Ramalho Eanes, homem sério, e esse sim figura proeminente no 25 de Novembro tem reafirmado que é completamente desnecessário comemorar essa data que o importante é o 25 de Abril de 1974, essa sim a data de todas as comemorações. O 25-11-1975 foi mais uma igual ao 28 de Setembro de 1974, 11 de Março de 1975, sem relevância maior no essencial do espírito de Abril.

                No Público de 26 de Novembro de 2000, Adelino Gomes perguntava: Quem desencadeou o 25 de Novembro? Quem deu ordem aos páras para ocuparem quatro bases aéreas? Otelo traiu os seus homens ou evitou a Guerra Civil? O PCP de que lado(s) esteve? Até onde chegavam as ligações aos MDLP? Quantos grupos funcionaram dentro do Grupo dos Nove? Qual foi a mais decisiva: a Região Militar do Norte (MN) ou a Região Militar de Lisboa (RML)?; o Posto Avançado da Amadora, comandado pelo então tenente-coronel Ramalho Eanes, ou o Posto de Comando Principal, montado em Belém, e onde ficaram o Presidente Costa Gomes e o comandante da RML e Conselheiro da Revolução, Vasco Lourenço? Quantos 25 de Novembro houve naquele dia? O 25 de Novembro existiu?

                Talvez esta comemoração seja boa para homenagear o General Costa Gomes, que como Presidente da República, que fruto de paciência, ponderação e habilidade, que muitos chamavam de indecisão, evitou que a guerra civil se iniciasse com as nefastas consequências. Era um tempo em que o Presidente da República não falava de tamanhos de decotes, subia a coqueiros ou andava montado em tartarugas gigantes. Um homem que foi quase defenestrado da história política portuguesa, e que na realidade foi decisivo quando foi necessário sê-lo. Talvez o Moedas queira homenagear o Almirante Rosa Coutinho e Almada Contreiras, entre outros valorosos homens de Abril que foram ao Alfeite evitar a saída dos fuzileiros, para evitar uma escalada de violência de contornos ainda hoje impossíveis de imaginar. Será bom homenagear o Major Melo Antunes, que no dia seguinte ao 25 de Novembro de 1975 veio à RTP serenar as pessoas e dizer que a democracia constrói-se com todos. Talvez seja altura de fazer uma evocação aos capitães de Abril  de 1974 que já faleceram e homenagear os que estão entre nós. E que se evite que a comemoração do 25 de Novembro de 1975 seja o revanchismo, não contra os poucos perdedores nesse dia, mas contra muitos dos vencedores dessa data tão pouco explicada!

                Na “Casa do Moedas” a 5 de Outubro de 2023 pedia-se um pouco mais a um Presidente da Camara de Lisboa que ainda deve andar com sabores trocados depois  de tanto anel cardinalício beijado numas Jornadas Mundiais da Juventude, de que não temos contas nem resultados! O habitual!

                Albert Camus no Mito de Sísifo: “Um homem é mais homem pelas coisas que cala do que pelas coisas que diz”!

 

 

Fernando Pereira

8/10/2023

               

 

Related Posts with Thumbnails