18 de janeiro de 2025

NADA NOS SALVA DESTA PORRA TRISTE/ O Interior / 15-01-2025

 




NADA NOS SALVA DESTA PORRA TRISTE

 

Fui buscar este título longo a um desalentado Jorge de Sena, quando falava do País, no seu exílio californiano. Acho que infelizmente temos que começar a fazer coro com ele porque o futuro não é fiável.

Existem pessoas que sabem tudo. Infelizmente é tudo que sabem. São os especialistas. Sabem quase tudo de praticamente nada.

Esta introdução tem a ver com o muito que o mundo está a ter ao nível  da “tudologia” comunicacional no quotidiano da cada vez mais depauperada comunicação social, entregue ao patobravismo arrivista dos grupos económicos, e ao crescente domínio das redes sociais, tuteladas por pessoas sem escrúpulos e que se julgam capazes de implantar projectos políticos e modelos económicos que nada tem de inovadores, porque redundam sempre na existência da segregação social e económica entre cidadãos.

Sente-se que o ar começa a ser irrespirável,e eis-nos indiferentes quando assistimos à banalização do horror nas imagens que vemos entre umas garfadas, dois copos e umas gargalhadas, achando que tudo aquilo é coisa que só acontece aos outros.

Conseguimos ser tu cá tu lá com o Putin, Trump, Musk, Maduro, Netanyahu e outros, da mesma forma que dizemos no café, ou no emprego que a vizinha do andar de cima comprou uns sapatos novos porque os saltos que se ouvem são diferentes.

“Nada é mais desastroso do que iniciar-se uma experiência social com gente imprópria”, diz uma personagem do “Também o cisne morre” de Aldous Huxley.

Hoje estamos perante esse contexto, e quando nos encontramos para conversar com os nossos pares e ímpares o que de facto conseguimos é trazer para o diálogo pouco mais que os monólogos que nos oferecem a “rádio, tvdisco e a cassete pirata”, desculpem as redes sociais! Estamos literalmente prisioneiros da falta de graça que a maior parte das coisas tem e as desgraças que se vão avolumando à nossa volta sem que consigamos dar conta quão enleados estamos.

Nelson Rodrigues (1912-1980), um excecional jornalista, escritor, dramaturgo, politicamente alinhado com a direita, sem apoiar a ditadura brasileira, disse que “O ser humano é cego aos próprios defeitos. Jamais um vilão se proclama vilão. Nem o idiota se diz idiota”.

Hoje era para escrever outra coisa, mas como os tempos são penumbrosos resolvi partilhar este magnífico texto do historiador e economista italiano Carlo Cipolla, que condensa em cinco leis a sua teoria da estupidez:

“1. Sempre se subestima o número de estúpidos em circulação.

2. A probabilidade de que uma pessoa seja estúpida é independente de sua educação, riqueza, inteligência, etc.; ou seja, a estupidez se distribui igualmente em todos os segmentos da população.

3. O estúpido causa dano a outras pessoas e a si mesmo, sem obter nenhum benefício.

4. Eles são imprevisíveis. As pessoas NÃO estúpidas sempre subestimam o poder danoso dos estúpidos.

5. Os estúpidos são mais perigosos que os bandidos e os malvados. Não há nada mais perigoso que um estúpido com poder.”

Quando o governo ou o regime social que produz a estupidez coletiva entra em colapso ou em crise, as pessoas podem se libertar dela e da dor que começa a surgir pela contradição entre seus pensamentos e seus atos (Bonhoeffer)

Sigo Mark Twain numa velha máxima “Sempre que você se encontrar do lado da maioria é hora de parar e refletir”, e tenho-o feito no meu quotidiano na politica, no desporto, na vivencia cultural e até social.

Tempos maus, muito maus! Pelo menos desejo a quem me lê um bom ano 2025!

 

Fernando Pereira

13/01/2025

 

14 de novembro de 2024

Deitar veneno no champanhe! / O Interior / 13/11/2024

 


Deitar veneno no champanhe!

Acho que a eleição de Trump não é muito importante para inverter a interioridade em que todos vamos caindo a cada geração que passa! Penso que com a Harris a situação seria exatamente a mesma! Contra o interior marchar, marchar!

                Não vou entrar em detalhes sobre a cobertura, ou a sua presencial ausência nas eleições americanas porque seria desagradável para uma classe que um pouco por todo o lado se engana muito, mas que os enganos são tolerados e a maior parte das vezes esquecidos. Estou a falar dos jornalistas, que cada vez menos são vistos como referências de verdade e rigor. A culpa não será porventura dos que ganham os míseros ordenados, sem horários, a trabalharem em condições deploráveis, enquanto os seus diretores e editores vão amansando a ira dos administradores que por sua vez são servis ao poder económico e político.

                No momento singelo em que os restos mortais são transladados para o Panteão Nacional, não fica mal recordar as suas palavras sobre o jornalismo: “É o grande dever do jornalismo fazer conhecer o estado das coisas públicas, ensinar ao povo os seus direitos e as garantias da sua segurança, estar atento às atitudes que toma a política estrangeira, protestar com justa violência contra os actos culposos, frouxos, nocivos, velar pelo poder interior da pátria, pela grandeza moral, intelectual e material em presença de outras nações, pelo progresso que fazem os espíritos, pela conservação da justiça, pelo respeito do direito, da família, do trabalho, pelo melhoramento das classes infelizes.” (Eça de Queirós, Jornal Districto de Évora, nº 1, 6 de Janeiro de 1867)

                Da “comentadorice” colhida e escolhida a dedo nada me surpreende, e a figura entristecida como os ouço e vejo, só me fatiga alguma sensatez que resiste em mim perante as verdades absolutas que mudam a cada passo e espaço. Como sou comentador e tenho carteira de jornalista tenho que me limitar a quase calar, sem, contudo, consentir algumas diatribes que nem sempre são honradas e raras vezes raiam a coerência!

                Às vezes apetece ser a abelha que diz às moscas que mel é melhor que merda, mas como bem diz Luis Fernando Veríssimo “Tem muita gente honesta neste país. Só não se identificam para não ficar de fora se aparecer um bom negócio”.

                Mudando de agulha. Vai reabrir com uns anos de atraso, umas derrapagens enormes nas empreitadas, salvaguardadas a favor dos mesmos por contratos leoninos feitos por excelsos escritórios de advogados, a linha da Beira Alta. Não sei se esta reabertura parcialíssima do troço Celorico da Beira- Vilar Formoso, vai servir para as comemorações do 25 de Novembro de 1975, uma data muito querida do Melo de Olivença e correlativos?

                Já vi o horário e mais uma vez me parece completamente desadequado porque poderia permitir, ainda que transitoriamente, que se pudesse fazer um transbordo para o Intercidades da Beira Baixa para que as pessoas de Celorico da Beira e Vilar Formoso se possam deslocar ao Barracão, Benespera, Maçainhas, Belmonte Caria e eventualmente à menos importante cidade de Lisboa, num confortável comboio muito rápido.

                Não vou escrever muito mais, senão ainda entro no rol dos da língua azul e lembrar alguém de quem partilho muito pouco da sua obra, Nietzsche: “Não foi o conflito de opiniões que tornou a história tão violenta, mas sim a fé nas convicções”.

 

Fernando Pereira

10/11/2024

13 de outubro de 2024

Jornal de Angola 26/9/1993

 Mais uma descoberta no baú de um artigo meu no "Jornal de Angola" em tempos difíceis!!

Jornal de Angola 26/9/1993






Devagar, Devagarinho, Parado! / O Interior / Guarda 11/10/2024

Devagar, Devagarinho, Parado! Andei a arrumar uma tralha cá por casa, e olhei para uma caixa que estava por cima de um armário intocada há anos, e sem qualquer referência ao que teria o seu interior. Quando a abri, foi como se tivesse reaberto a caixa de Pandora. Tinha por lá um conjunto significativo de artigos dos muitos que fui fazendo ao longo da vida em jornais, rádio e outras publicações por várias andanças. Perderam-se muitos, mas pelos vistos ainda se recuperam alguns. Entre os que me fui deliciando a recordar, encontrei um conjunto de artigos de um tempo em que colaborei semanalmente na Radio Altitude, onde mantive uma presença regular. Há sexta-feira durante dois anos lá me esforçava para dizer o que julgava certo, com o cuidado de omitir o muito certo, porque havia muitos que não gostavam. Tudo isto porquê? Porque há um conjunto de crónicas desse tempo, e estamos a falar dos últimos cinco anos do milénio passado, que podiam ser escritas hoje que a atualidade do tema não se perdia. Esta é de 18/10/1997, e não vou alterar uma vírgula ao que li ao tempo nos microfones da vetusta Altitude. “Anda toda a gente muito preocupada com a desertificação do distrito da Guarda, e simultaneamente com o facto de nada vir cá parar. As preocupações aumentam quando alguns “bibelots” daqui são levados para outros lugares. Não pactuo com este discurso da moda. E porque é que é um discurso de moda? Porque a realidade é que isto se passa há muitas décadas e ninguém se preocupou com isso. Agora, em que a competitividade e o mercado impõem regras, a Guarda e os outros municípios do distrito acordam para uma realidade que com eles convivem há muitos anos a esta parte. … O distrito da Guarda foi vivendo ao longo de décadas das migalhas das remessas dos emigrantes que de cá saíram na busca de melhores condições de vida para si e para os seus. O folclore de Agosto, quando vem de férias, era motivo de chalaça e dichotes, quando na realidade é que essa situação era a parte visível de um tumor que corroía o interior abandonado a uma sorte madrasta. Não será por ter lobbies que a Guarda vai ter mais qualquer coisa importante, é fundamentalmente porque não tem atividade empresarial e dinâmica política que altere o estado atual das coisas. O poder político da Guarda é de pouco peso, isto é quase uma frase batida, mas só poderia ter algum peso se fosse sustentado por um grande empenhamento das dinâmicas empresariais, intelectuais, culturais ou outras e não poder político que se tem que é um pouco igual à imagem da região: sectário, individualista, com laivos aqui e ali de caciquismo e acima de tudo mais preocupado em rotular pessoas do que discutir que afinal são de todos os que cá moram, e os que querem continuar a viver por aqui com melhores condições. Veja-se o quadro global da cultura média dos ocupantes de lugares políticos, por eleição ou nomeação no distrito. É demasiado confrangedor para nós sentirmos que não estamos de facto a viver um pesadelo. O dinamismo empresarial só se consegue com exigência e isso só se pode auferir com a elevação cultural dos cidadãos. Isto é um processo mecanicamente dialético, e só depois de se despir o sectarismo dos que estão no poder, e dos que fazem oposição para estar no poder a fazer exatamente igual é que é possível trabalhar para o bem comum. É um tema aliciante, mas que não cabe nos minutos desta crónica, nem tão pouco me sinto com capacidade de ser eu a levá-lo às pessoas. Reconheço as minhas insuficiências, mas gostaria que outros as reconhecessem também e não se escondessem atrás dos biombos que os lugares lhes facultam, para lhes dar a autoridade de “engenheiros de almas” rebuscando uma máxima de Estaline. … Algo está podre no Reino da Dinamarca.” Esclareça-se que a crónica era um pouco mais longa, e a própria verve é de rádio, com pouco cuidado na pontuação, para além de outras construções. Só trouxe aqui o essencial de uma crónica escrita há 27 anos, que bem podia ser de hoje. Prometo que trarei outras e todos verão que o tempo passou, mas as questões, os problemas e o quotidiano das intervenções publicas em nada se alteraram. Fernando Pereira 5/10/2024

9 de maio de 2024

50 ANOS JÁ CÁ CANTAM! / O interior / 9-05-2024


 

50 ANOS JÁ CÁ CANTAM!

 

"Depois dos ganhos e perdas dos dois lados, uma ordem nova substitui a ordem antiga, até que outra venha por seu lado substituir aquela. Muitas vezes, certamente, nos perguntámos como se processou essa espécie de rendição dos deuses, que hesitações, que angústias a precederam ou dela resultaram, que movimentos de alma ela fez nascer"

Marguerite Yourcenar, " O tempo, esse grande escultor".

 

            Ao comemorar o 25 de Abril de 1974, só me apeteceu dizer: 50 anos de liberdade ninguém me tira!

            “Gostei da festa pá”, citando uma estrofe do Tanto Mar do Chico Buarque! De tudo gostei sem me entusiasmar por aí além, já que à medida que a idade cresce em progressão aritmética diminui o entusiasmo em progressão geométrica.

            Gostei de ver a enorme adesão às comemorações do 25 de Abril de 1974, o que revela que as pessoas se reveem nos princípios de uma das datas mais importantes da história contemporânea de Portugal.

            Fiquei satisfeito por ver que numa região onde gentes de Abril foram tão maltratadas ao tempo, tem hoje a felicidade de verem que os valores que defendiam há quase 50 anos, saudados por quase todos.

            Recordo de há décadas, a intransigência dos caciques locais e uma parte do clero perseguirem as pessoas que defendiam os valores de Abril. Em muitos concelhos do distrito da Guarda defender o 25 de Abril de 1974 era uma heresia e a ameaça física e a ostracização social eram comuns. Fui testemunha e vítima de algumas atitudes de gente que não hesitava em rotular e perseguir pessoas para que se perpetuasse no terreno os ignóbeis tempos de um fascismo serôdio.

            Gostei de saber que o clero trauteia a “Grândola Vila Morena” em publico, quando há pouco menos de 50 anos proibia que as músicas de José Afonso passassem na Rádio Renascença, emissora católica portuguesa. Na diocese da Guarda em 1976 numa igreja cedida a um coro para que se entoassem canções da tradição popular portuguesa, o pároco decide acabar o evento porque o coro cantou o “Canta camarada canta”, que afinal é tão só uma musica do cancioneiro da Beira Baixa, e nada tem a ver com comunistas!

            Hoje já estaria mais à vontade para colar cartazes, do que no tempo em que vi numa janela um tipo “respeitável” numa vila deste distrito com uma espingarda a dizer que já “vos f…os cornos comunistas filhos da p…”!

            Fico contente pelo muito que se alterou, mas triste quando vejo que o discurso de hoje, mesmo de alguns que andam de cravo na lapela é de um exercício  que alimenta a xenofobia e instiga o ódio contra gente que procura Portugal para viver e trabalhar, e que sem eles muitos serviços se arriscam a parar.

            Lamentável num País que tem cinco milhões de emigrantes espalhados pelo mundo. O racismo sempre foi  formatado pela mentalidade colonial herdada do Estado Novo, mas exacerbarem os ódios racistas, e começarem a aceitar-se como vulgares as agressões é aviltante para com os valores de Abril e para os fundamentos de uma sociedade solidária!

            Numa recolha do século XIII no Koans Zen para meditação comum: “dois monges discutiam sobre uma bandeira. Um dizia: “A bandeira move-se”. O Outro dizia: “O vento move-se”. Um terceiro patriarca passou por ali por acaso. E disse-lhes: Não a bandeira, nem o vento, é a mente que se move”.

 

Fernando Pereira

5/5/2024

 

 

15 de março de 2024

O voto útil / O Interior/ 13-3-2024


 



O voto útil  

Como se diz em gíria, este artigo vai ser escrito a dois andamentos: um porque ainda não sei o resultado das eleições, e outro porque quando souber já não alterarei uma vírgula ao que escrevi.

                Em qualquer período eleitoral vem-me sempre à memória a máxima de Hegel, “nós aprendemos com a história o que não aprendemos com a história”.  Na realidade a cada ato eleitoral que vamos tendo, e felizmente já ando nisto há quase cinquenta anos, os intervenientes são diferentes, mas os lugares comuns são a cada ano piormente iguais.

                Uma das situações que sinceramente mais me irrita, e não é de agora, é o continuado apelo ao voto útil por parte dos “leaders” dos partidos da alternância em Portugal, o PS e o PSD, que perpetuam um sistema de representatividade completamente desadequado da realidade do País de há décadas.

                O “Voto é a arma do povo”, foi o primeiro slogan para as eleições democráticas de 25 de Abril de 1975, que elegeram a Assembleia Constituinte, que elaborou o texto constitucional que legitimou o Estado democrático. Ao tempo votámos com entusiasmo, e a obra final que se perpetua é boa, apesar de constantes atropelos por parte de algumas forças que prefeririam uma “democracia musculada” ao invés da democracia participada.

                O voto do cidadão tem que ser sempre útil, e urge que as pessoas sintam utilidade no ato mais nobre da sua vida coletiva. Se a legislação prevalecente faz com que mais de 700.000 votos dos cidadãos sejam para ser atirados para o “caixote do lixo da história”, isso é outra coisa. Votar em consciência em determinados territórios em Portugal, ou melhor na maioria dos concelhos do País é quase um perder tempo, porque os escolhidos são sempre os mesmos partidos. Urge modificar isso, e seria objetivamente excelente para combater efetivamente a abstenção nos territórios de baixa densidade. Copiar o modelo alemão, e outros na Europa, e fazer um círculo de compensação, o que daria maior visibilidade a outros partidos, e não “aos que são mais do mesmo”. A experiência dos Açores é um modelo replicável para o resto do País e assim os votos das pessoas que não alinham com os partidos do poder deixam de ser “clandestinos”.

                Quando há quase 50 anos se fez a legislação eleitoral para o parlamento, ou para as autarquias a dispersão populacional do País não era tão evidente e a disparidade entre as regiões não sofriam de tanta assimetria. Hoje importa alterar o estado das coisas para se poder acelerar modelos de desenvolvimento nacionais e locais mais consentâneos com um futuro mais moderno.

                Uma das alterações fundamentais a fazer é no quadro das autarquias locais, onde a presença dos presidentes de junta que não são eleitos pelos cidadãos que elegem metade dos deputados municipais é um disparate consentido. Eu percebo a lógica da criação das Assembleias Municipais, e que foi objetivamente o de dar voz e alguma dignidade aos presidentes de junta de freguesia. A realidade é que a A.M. hoje tem tudo menos dignidade democrática. Um candidato a deputado municipal com um milhar de votos é preterido por um presidente de junta de freguesia eleito por 120 votos, por exemplo. Urge acabar com este anacronismo, que favorece o caciquismo, em que o representante de uma junta de freguesia, dotada de autonomia financeira e administrativa, vai votar o orçamento e plano de outra estrutura à qual não há ligação nenhuma em termos orgânicos.

                O modelo de copiar o figurino da Assembleia da Republica para a Assembleia Municipal seria o desejável, em que o Presidente da Camara fosse o cabeça de lista da estrutura política mais votada, e escolheria os seus vereadores sem se cingir à lista que levou a votos. À AM seriam dados poderes maiores, incluindo a possibilidade de destituir o executivo. As juntas de freguesia seriam agrupadas numa estrutura do tipo Conselho Municipal, com poderes reforçado e que ficassem entre o órgão de consulta e a obrigatoriedade de serem aceites certas recomendações.

                Julgo que é um bom tema para debate, e aqui estão algumas imperfeiçoes da minha parte.

                Gonçalo Manuel Tavares foi recuperar um poema de Brecht: “Pois não seria mais fácil que o governo dissolvesse o povo e elegesse outro”.

                Já gora, a única coisa útil em eleições é o voto!

 

Fernando Pereira

10/3/2024

16 de dezembro de 2023

"Felizmente, há luar"/ O Interior 14/12/2023

 

                                                        


                                     "Felizmente, há luar"

Nelson Rodrigues é provavelmente um dos nomes maiores da escrita brasileira do século XX. Truculento quanto baste, polémico quase sempre, de direita assumido e democrata de corpo inteiro deixou reflexões numa obra que foi recentemente reeditada em Portugal e que merece leitura atenta.

                “A opinião deixou de ser um acto pessoal, uma posição solitária, um gesto de orgulho e desafio. É o jornal, é o rádio, é a televisão, é o anúncio, é o partido que pensa por nós. Há sujeitos que nascem, envelhecem e morrem sem ter jamais ousado um raciocínio próprio. Há toda uma massa de frases feitas, de sentimentos feitos, de ódios feitos.” Estas palavras de Nelson Rodrigues tornaram-se um eco comum numa sociedade que seria “tendencialmente de liberdade”.

                Vivem-se momentos nebulosos no quotidiano do país, embora não queira afirmar que se chegou ao estado em que o imorredoiro João César Monteiro dizia: «A primeira condição para se ser ministro da Cultura, neste país, é distinguir uma vaca de um boi.»

                Quando se esperava serenidade no governo do País, o António Costa e o Marcelo Rebelo de Sousa fizeram o que normalmente se diz juntar a fome com a vontade de comer. Um porque queria o protagonismo e os rodriguinhos que sempre foram o quotidiano do seu percurso pessoal e político, e o outro porque estava farto de não se conseguir ver livre da teia que montou, e que poderia ser um obstáculo perigosos para a sua mais que evidente vontade de candidatar a Belém.

                Esta demissão inesperada deixou os putativos candidatos a primeiro-ministro numa situação e desorientação, pois as contas estavam a ser feitas a um ritmo lento. Sairiam das eleições europeias as lideranças de pesos pesados, embora se saiba que na prática a governação de alguma gente desta tenha mais resultados pesados do que o peso que levavam.

                O combate político que se avizinha, que não é bem isso, será consequência de uma luta nos aparelhos partidários e não de propostas concretas num País que não é tão mau como a maioria dos portugueses o pinta, nem tão bom quanto os governantes e responsáveis nos querem fazer crer.

                Hoje como ontem o Bloco Central de interesses continuará no seu afã de domesticar a democracia, depois do Partido Socialista ter esvaziado uma esquerda que talvez lhe venha a fazer falta quando chegar a hora das contas. O PSD no seu desnorte quotidiano continua a fazer a figura de um elefante fechado numa loja de louça, vendo uma extrema-direita trauliteira e nalguns casos niilista, repetindo um discurso de moscambilhas com uma histeria que vai de encontro ao que as pessoas querem ouvir, com grande apoio de uma comunicação social ávida de situações de crime de faca e alguidar transportadas para o politiqueiro quotidiano.

                Estamos mal, estaremos pior, mas é da vida. Tenho pena que nos 50 do 25 as coisas estejam assim, mas “pelo sonho é que vamos”, como dizia Sebastião da Gama.

                Porque estamos numa época festiva, não quero deixar de vos desejar Boas Festas, e deixar esta do João César Monteiro em “Uma semana noutra cidade”: São 10 da noite. Estou a escrever no Monte Carlo, onde só há homens. Precisava de apanhar o Fernando para lhe cravar umas aguardentes. É meu desejo estar completamente grosso por volta da meia-noite e com o espírito propenso à obscenidade. Se arranjasse 100 paus ia às putas. Deve ser fabuloso ir às putas na noite de Natal. Duvido é que haja alguém que esteja para me aturar a bebedeira por 100 paus.
"Não estamos em Itália, não há grappa alla ruta, não há comoções nocturnas da Zé, não há nada. Nem sequer o direito ao vómito. Não há nada, mas ainda há vida. Ainda estrebucho, minha senhora. Ainda digo merda e embarco no tudo ou nada do amor. Ainda me jogo inteiro no real e no possível, no confronto entre o que sou e o que podia ser. Ainda simpatizo (ao longe é certo) com as lutas históricas do proletariado de todo o Mundo.”

 

Fernando Pereira

11/12/2023

13 de novembro de 2023

Novembro de 1975, entre palavras e cartazes! / Jornal de Angola/ 11-11-2023

 





Novembro de 1975, entre palavras e cartazes!

Entre os muitos que ilustraram o 11 de Novembro de 1975 e os tempos seguintes foi o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado.

                É um dos mais prestigiados fotógrafos de sempre, e disse de forma desassombrada que “espero que a pessoa que entre nas minhas exposições não seja a mesma ao sair”.

                Talvez fazer uma exposição do que a lente de Sebastião Salgado focou nesses tempos fosse um excelente contributo para que a grande maioria dos angolanos, afinal já nascidos depois da almejada independência, vissem uma realidade de que se terão limitado a ouvir falar, na lógica de “quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto”!

  Foi uma enorme honra tê-lo no dealbar do País, em momentos irrepetíveis do tempo em que se banalizava a morte com canções do tipo "Eu vou morrer em Angola - com arma de guerra na mão - granada será meu caixão - enterro será na patrulha.", e outras como “Vitória ou Morte-Venceremos”, “Estamos em guerra e cada cidadão tem que sentir-se necessariamente um soldado”, ou as frases que se foram sucedendo nos tempos da fase imberbe da então Republica Popular de Angola: “O Povo é o MPLA, o MPLA é o Povo”, “A Luta Continua”, “ A Vitória é Certa”, “Abaixo o Imperialismo”, “Abaixo o Tribalismo”, Abaixo o Regionalismo”, Abaixo o Neocolonialismo”, “Honra ao povo Angolano”, ”Glória Eterna aos nossos Heróis”,” Nós faremos de Angola a Pátria dos Trabalhadores e a Revolução continuará a sua marcha triunfal ao lado dos povos que seguem o mesmo caminho”, “Café de Angola, um gosto de liberdade”, “Os diamantes de Angola são os mais brilhantes / estão ao serviço do povo na reconstrução nacional”, “Sonangol/ Nosso petróleo onde é preciso”, “Vamos Purificar o Partido para melhor recebermos os novos membros”…

“A OPA prepara-se para a defesa intransigente da pátria angolana contra os ataques do imperialismo internacional e seus sequazes”, “Tudo pelo Povo”,” ODP- Organização de Defesa Popular”, “Que importa que o inimigo acorde cedo, se as FAPLA não dormem” “FAPLA, o braço armado do povo angolano”, “Angola é e será por vontade própria trincheira firme da revolução em África”, “O que é determinante para a unidade é a ideologia e não a geografia”, “Na edificação de uma sociedade socialista a agricultura é a base, a indústria o factor decisivo”, “Viva o Poder Popular”, “Somos independentes, seremos socialistas”,” Antes Morrermos Todos que Deixar Passar o Inimigo”, “Estudar é um Dever Revolucionário”, “Fieis ao Marxismo-Leninismo, estamos a construir uma Angola socialista”, “ O Socialismo científico é o grande objectivo estratégico da revolução angolana” “A Educação e cultura ao serviço do povo”, “Saude para todos no ano 2000”…

“Por um Partido sólido, unido, disciplinado, avante com o movimento de rectificação”, “Avante com o poder popular”, “O mais importante é resolver os problemas do Povo”,” Mais quadros, melhor produção, melhor solução dos problemas do povo”, ”De Cabinda ao Cunene, um só povo uma só nação”, “Abaixo os Fantoches Lacaios do Imperialismo”, “Viva o Internacionalismo Proletário”, ”Ao inimigo nem um palmo da nossa terra”…

Para além disso houve publicações e cartazes que ilustravam esses tempos de bate e debate, nem sempre marcado pela tolerância à diferença.

Porque é importante lembrar alguns cartazes que marcaram esses anos fico-me por aqui saudando mais uma vez uma das datas mais bonitas que assisti na minha vida de cidadão, a independência de Angola a 11 de Novembro de 1975.

Gosto muito deste exemplo de uma das melhores escritoras de língua portuguesa, Agustina Bessa-Luís in O Sermão do Fogo "antes do meio século, meus amigos, ninguém tem história. A história duma mulher galante, dum político, dum artista ou até dum homem comum é, acima de tudo, a história da sua consciência, movida não só por circunstâncias, mas também pela sua realidade como ente de memória, como testemunha. Aos quinze anos tem-se um futuro, aos vinte e cinco um problema, aos quarenta uma experiência; mas antes de meio século não se tem verdadeiramente uma história.".  Este exemplo para as pessoas é bem mais adequado aos tempos para um País.

Vamos renovar Novembro tanta vez até conseguirmos o onze do onze sonhado.  

Fernando Pereira 1/11/2023                                                                                                           

 

 














 



13 de outubro de 2023

“O Novembro que Abril não merecia” / o Interior / Guarda 11/10/2023

 


“O Novembro que Abril não merecia”

                O título deste artigo é de um livro recente do pinhelense António Avelãs Nunes, professor catedrático da faculdade de direito da Universidade de Coimbra, homem de grande probidade intelectual e cívica, resistente antifascista, perseguido e preso pela PIDE que viu cerceado o seu percurso académico. Um livro encomendável, porque não existe no restrito meio livreiro, e recomendável pela excelência da reflexão, e da clareza da irrefutabilidade dos factos.

                Há já uns tempos que vão aparecendo referências a comemorar o 25 de Novembro de 1975, desde dar nome a ruas, até fazerem-se homenagens a alguns dos que terão estado na tal “golpaça” , com que muitos sonharam ser um novo 28 de Maio de 1926.

                O presidente da Camara de Lisboa no seu percurso para chegar a primeiro ministro nas próximas legislativas, depois de varrer Montenegro para debaixo da carpete, resolve de vez em quando fazer declarações que permitam a discussão publicada, que imediatamente passa a pública, e que façam esquecer os problemas que ele não resolve na cidade capital.

                Vamos por partes. Na comemoração do 5 de Outubro de 1910 o Carlos Moedas, resolveu dizer que Lisboa vai comemorar o 25 de Novembro de 1975. Já há muito que gente que nunca percebeu muito bem o que foi o 25 do 11, que rejubilou quando ele afirmou determinado o que iria fazer este ano, 48 anos depois. Será que 48 anos é um número fétiche para o senhor Moedas?

                O general Ramalho Eanes, homem sério, e esse sim figura proeminente no 25 de Novembro tem reafirmado que é completamente desnecessário comemorar essa data que o importante é o 25 de Abril de 1974, essa sim a data de todas as comemorações. O 25-11-1975 foi mais uma igual ao 28 de Setembro de 1974, 11 de Março de 1975, sem relevância maior no essencial do espírito de Abril.

                No Público de 26 de Novembro de 2000, Adelino Gomes perguntava: Quem desencadeou o 25 de Novembro? Quem deu ordem aos páras para ocuparem quatro bases aéreas? Otelo traiu os seus homens ou evitou a Guerra Civil? O PCP de que lado(s) esteve? Até onde chegavam as ligações aos MDLP? Quantos grupos funcionaram dentro do Grupo dos Nove? Qual foi a mais decisiva: a Região Militar do Norte (MN) ou a Região Militar de Lisboa (RML)?; o Posto Avançado da Amadora, comandado pelo então tenente-coronel Ramalho Eanes, ou o Posto de Comando Principal, montado em Belém, e onde ficaram o Presidente Costa Gomes e o comandante da RML e Conselheiro da Revolução, Vasco Lourenço? Quantos 25 de Novembro houve naquele dia? O 25 de Novembro existiu?

                Talvez esta comemoração seja boa para homenagear o General Costa Gomes, que como Presidente da República, que fruto de paciência, ponderação e habilidade, que muitos chamavam de indecisão, evitou que a guerra civil se iniciasse com as nefastas consequências. Era um tempo em que o Presidente da República não falava de tamanhos de decotes, subia a coqueiros ou andava montado em tartarugas gigantes. Um homem que foi quase defenestrado da história política portuguesa, e que na realidade foi decisivo quando foi necessário sê-lo. Talvez o Moedas queira homenagear o Almirante Rosa Coutinho e Almada Contreiras, entre outros valorosos homens de Abril que foram ao Alfeite evitar a saída dos fuzileiros, para evitar uma escalada de violência de contornos ainda hoje impossíveis de imaginar. Será bom homenagear o Major Melo Antunes, que no dia seguinte ao 25 de Novembro de 1975 veio à RTP serenar as pessoas e dizer que a democracia constrói-se com todos. Talvez seja altura de fazer uma evocação aos capitães de Abril  de 1974 que já faleceram e homenagear os que estão entre nós. E que se evite que a comemoração do 25 de Novembro de 1975 seja o revanchismo, não contra os poucos perdedores nesse dia, mas contra muitos dos vencedores dessa data tão pouco explicada!

                Na “Casa do Moedas” a 5 de Outubro de 2023 pedia-se um pouco mais a um Presidente da Camara de Lisboa que ainda deve andar com sabores trocados depois  de tanto anel cardinalício beijado numas Jornadas Mundiais da Juventude, de que não temos contas nem resultados! O habitual!

                Albert Camus no Mito de Sísifo: “Um homem é mais homem pelas coisas que cala do que pelas coisas que diz”!

 

 

Fernando Pereira

8/10/2023

               

 

8 de março de 2023

ESCREVER NA ÁGUA / o Interior / 8-3-2023

 


ESCREVER NA ÁGUA

 

“Há sempre qualquer coisa que está para acontecer, qualquer coisa que eu devia perceber”

José Mário Branco “Ser Solidário”.

 

Há mais de quarenta anos que escrevo em jornais, revistas e em publicações diversas. Durante anos fui um profissional da imprensa, e nunca deixei de exprimir as minhas opiniões, apesar de por vezes as circunstâncias não serem as mais favoráveis para se escrever de acordo com o muito que havia para mostrar. É a vida!

Continuo sem saber exatamente o que se passa na transferência de competências da administração central para os municípios, e acima de tudo gostava de perceber como é que algo que vai mexer com tanta gente, alterar status quo prevalecente consegue ser ignorado entre os pingos da chuva de uma informação cada vez mais marcada pelo sensacionalismo e por agendas abastardadas por interesses que tem tudo menos a ver com o interesse público.

A transferência de competências tem trazido muitos problemas no País todo a pessoas, associações, IPSSs, municípios, etc. Não parece trazer à administração central que cada vez alija mais as suas responsabilidades para outros, num eufemismo do tipo de “espírito descentralizador”, “aproximar as estruturas dos cidadãos”, e outras estultices do tipo.

Nada disso. Perceber-se-ia o espírito mas quando se promove esta atabalhoada e rudimentar transferência esquecem-se dos recursos que existem, e o pior é que evitam lembrar-se que há recursos suplementares que tem que ser entregues para que os serviços transferidos funcionem, e que depois não andem nos habituais jogos de troca de acusações quando as coisas correrem mal, e tem tudo para correr muito mal.

Os professores, uma profissão indispensável em qualquer sociedade de exigência, tem estado na luta pelos seus direitos. No essencial estou de acordo, mas recuso-me a aceitar que uma das reivindicações seja não aceitar a municipalização do ensino, algo que já acontece na maioria dos países da EU. O argumento é algo torpe para com estruturas do poder local, de grande importância na Constituição da República de 1976, e reconhecidamente como fator de desenvolvimento da democracia e da liberdade.

O anátema que colocam sobre as autarquias é aviltante, porque infelizmente também há compadrio e corrupção na administração central, empresas publicas ou participadas pelo estado, pelo que o que acontece nas Camaras é só a extensão de tudo o resto. Os professores, que são respeitados pela grande maioria da população não devem partilhar as ideias de grupos de pessoas detratoras do estado democrático, e devem exigir que a sua luta seja para que as estruturas onde assenta a democracia sejam transparentes e organizadas.

Sobre os recentes desenvolvimentos da pedofilia da ICAR nada de novo e também sei que o futuro próximo vai tudo ser ungido com santos óleos e as mãos lavadas com água benta. O exemplo do PR a “engolir” o anel cardinalício não indicia nada a preceito. Há muitos anos que é assim.

Recomendo sobre o assunto o filme Spotlight - Segredos Revelados, de 2015, em que o tema são os abusos sexuais e pedofilia na Igreja dependente do Cardeal de Boston. Os jornalistas do “The Boston Globe” foram premiados com o prémio Pullitzer, neste grande trabalho de investigação que abalou a Igreja Católica nos EUA e no Canadá no dealbar do seculo XXI. Um dos melhores trabalhos de investigação do jornalismo recente, e que teve consequências invulgares num sórdido esquema de violação e pedofilia que a ICAR faz há seculos, sem que haja uma punição exemplar que possa dar exemplo que provavelmente há um estado laico a funcionar.

Como dizia um “trânsfuga” do Seminário do Fundão, o beirão Vergílio Ferreira: “Somos um povo de analfabetos. Destes há alguns que não sabem ler”.

 

Fernando Pereira

5/3/2023

4 de fevereiro de 2023

Kimbo dos Sobas, pois, a Angola Utópica! / Jornal de Angola/ 4-2-2023









 

Kimbo dos Sobas, pois, a Angola Utópica!

 

“… a fronteira entre a verdade e a mentira é um caminho no deserto. Os homens dividem-se dos dois lados da fronteira. Quantos há que sabem onde se encontra esse caminho de areia no meio da areia?

                Existem, no entanto, e eu sou um deles. Sem Medo também o sabia. Mas insistia que era um caminho no deserto. Por isso se ria dos que diziam que era um trilho cortando, nítido, o verde do Mayombe. Hoje sei que não há trilhos amarelos no meio do verde.”

In Mayombe- Pepetela

 

                Em Coimbra havia uma “Republica “que comemorava o seu “centenário” a cada 4 de Fevereiro. O Kimbo dos Sobas.

                Vamos começar por explicar o que era uma República no contexto da sociedade estudantil de Coimbra ao longo do tempo. Era uma casa organizada por um conjunto de estudantes, que tinha por missão fazer a sua gestão doméstica. Estas casas tinham códigos de conduta bem definidos e tinha que haver uma parcimoniosa gestão dos dinheiros para que se conseguisse pagar a renda, o ordenado da empregada que ia às compras, fazia a comida, limpava os quartos e tratava da roupa entre outras atribuições menores.  Entre os “Repúblicos” havia mensalmente um “mor”, que era a pessoa votada que em determinado mês tinha que fazer a ginástica suficiente para que se conseguisse fazer face às despesas quotidianas. Claro que havia um sobressalto constante e havia uma República que até tinha uma alteração de uma célebre frase de Churchil: “Nunca tão poucos deveram tanto a tantos”.

                Já houve oportunidade de justificar o nome centenário, exagero deliberado, e também indiciador da importância atribuída pelos repúblicos às suas vivências nestas comunidades.

                Todas as “Repúblicas” utilizam esta designação para referir o aniversário da fundação da casa. Reivindica-se, com esta dilatação hiperbólica do tempo, a indiscutibilidade das aprendizagens que nestas “escolas da vida” tinham lugar: Um ano “dentro” de uma República valeria cem anos “fora” dela.

                O “Kimbo dos Sobas” foi a primeira casa só de estudantes angolanos criada em Coimbra no fim dos anos 50. Havia uma outra, os “Milionários”, fundada por Norberto Canha, hoje um ortopedista nonagenário natural do Huambo, o Orlando Ferreira Rodrigues, do Chinguar, 1º director da TPA, juiz do TPR e professor jubilado da Faculdade de Direito da UAN, o Mbeto Traça, o António José Miranda, ambos generais reformados, o Manecas Balonas, médico recentemente falecido, Oscar Monteiro, primeiro ministro da justiça de Moçambique, Fausto Martins da Costa, psiquiatra já falecido, o Cardoso, um urologista de Moçambique, o Jonhy, jurista de Cabo Verde, o Celestino Costa, ex-primeiro ministro de S. Tomé e Príncipe, já falecido, entre outros de várias proveniências.

                O “Kimbo dos Sobas” é fundado numa casa  alugada por um grupo de angolanos. Os seus fundadores são o escritor e homem do Huambo Manuel Rui Monteiro, o cirurgião nascido no Lepi Fenando Martinho, o jurista nascido no Lobito Aníbal Espírito Santo, o engenheiro do Luau, Segadães Tavares, o Zé Cardoso, conhecido pelo Zequinha da Gráfica, o cineasta António Faria e o Cacondense Machado Lopes.

                Um dado relevante tem a ver com o facto do “Kimbo dos Sobas”, ao tempo não formalmente uma República, ser constituída basicamente por cidadãos do sul do território de Angola, a que não era alheio o facto de só haver um liceu em Sá da Bandeira, hoje Lubango, o Diogo Cão, que absorvia toda a gente filha de colono de terras a sul do Quanza. È preciso realçar que nos dois liceus de Angola, os negros contavam-se pelos dedos, pois eram inacessíveis por razões económicas a sua frequência.  Muitos eram filhos de funcionários do caminho de ferro de Benguela a quem atribuíam bolsas, já que os magros vencimentos, mesmo dos funcionários brancos, não permitiam enviar filhos estudar para o sul. Havia também uma grande ligação entre Sá da Bandeira e Coimbra, e a verdade é que para muitos era a Coimbra de Angola, com praxes e capas, o que não acontecia no outro liceu, o Salvador Correia de Luanda que absorvia as gentes a norte do Quanza.

                Muitos angolanos do sul e do norte acabaram por se conhecer e trilhar um caminho comum em Coimbra e Lisboa quando vieram estudar, pois nem se conheciam, nem tampouco conheciam as terras uns dos outros.

                Antes de voltar ao Kimbo dos Sobas, lembremos que Agostinho Neto, Lúcio Lara, João Vieira Lopes, Manuel Videira, MacMahon Vitória Pereira, irmãos Couceiro, Fernando Oliveira, Emílio Quental, Orlando Albuquerque, Alda Lara, Diógenes Boavida, Mário Torres, Eduardo dos Santos e outros viveram na primeira metade dos anos 50 em Coimbra, e a maior parte dele só acidentalmente se cruzou com os angolanos que estiveram nos “Milionários” e no “Kimbo dos Sobas”.

                O “Kimbo dos Sobas”, e repetindo, começou por ser uma casa organizada de estudantes angolanos acabou por ser, a par dos “Milionários” um espaço de “fermentação” do espírito independentista, que ia proliferando no fim dos anos 50 e no dealbar dos anos 60. O espaço solidário em que se transformaram serviu para apoiar em termos logísticos as fugas dos 150 em 1961 e uma outra que se gorou em 1963. Nesta a PIDE foi ao “Kimbo dos Sobas” e prendeu Fernando Martinho, Manuel Rui Monteiro e José Cardoso, que estiveram uns meses presos e sujeitos a interrogatórios no Aljube, em Lisboa.

                A primeira fuga, que teve grande sucesso, foi toda acompanhada por dois reverendos americanos em colaboração com organizações francesas de refugiados, havendo razoável apoio económico, o que talvez evidencie que a CIA terá patrocinado essa aventura coroada de êxito, que foi um verdadeiro golpe contra a propaganda colonialista do Portugal de Salazar.

                Por tudo o muito que se viveu, antes da mudança de casa para a Rua Antero Quental em Coimbra, paredes meias com os “Milionários”, já numa fase moribunda, e com a delegação da PIDE , o “Kimbo dos Sobas” passou a ser uma porta aberta para todos os angolanos que vinham a Coimbra.

                Convém esclarecer que era tradição as “Republicas” em Coimbra manterem a porta aberta, num sinal de hospitalidade para com quem passava, e também pouco ou nada havia para tirar já que a generalidade dos repúblicos era gente de poucas posses!

                Na altura da passagem do “Kimbo dos Sobas” para mais perto do centro nevrálgico da Academia de Coimbra, ainda se discutia sem grande entusiasmo a passagem do estatuto de residência a solar, etapa indispensável para passar a Republica, no quadro do regulamento em vigor nas estruturas universitárias de estudantes da Associação Académica de Coimbra.

                Isso já só aconteceu em meados da década de sessenta, e na crise estudantil de 1969, o representante do Kimbo dos Sobas Roberto Leal Monteiro (o actual general Ngongo) foi o escolhido para o Conselho de Republicas, órgão que iria escolher os órgãos sociais da Associação Académica de Coimbra, que entretanto não foi aceite pelo regime, o que era de todo evidente!

                A fraca ou quase nula participação de angolanos nas lutas académicas de 1962 e 1969 teve a ver com o sentir independentista que germinava, em que os angolanos em Coimbra se sentiam desenquadrados da luta dos portugueses, e assumiam sem reservas que a luta era outra, pela libertação de Angola e um apoio declarado desde sempre ao MPLA. Era normal que isso acontecesse porque as pessoas discutiam o que tinham vivenciado em Angola em termos de segregação social e rácica, e perante uma partilha maior de novos enquadramentos ideológicos conseguiam aumentar o seu lado certo de estarem nas coisas, e o inimigo a abater era claramente o colonialismo português.

                Da fuga dos 150 elementos em 1961, de Coimbra foi muito badalada o “salto” de de França (Ndalu), Chipenda, Araújo (Ben Barek), Fernando Avidago e José Julio (Foi Director Geral dos Desportos em Moçambique) porque de um momento para o outro desfalcaram a equipa da Académica de Coimbra onde todos eram jogadores de eleição!

                Ao “Kimbo dos Sobas”, já nas novas instalações chegaram novos Repúblicos, e alguns já de Luanda e de outras regiões do País. De certa forma a República começou a ter uma unidade na angolanidade, e eram frequentes as visitas dos PIDEs a uma casa que era olhada com cada vez maior desconfiança por parte das autoridades.

                Porque alguns dos iniciais saíram, outros que os substituíram deram o salto ou criaram família, entraram na casa novos habitantes que reforçavam as convicções independentistas que já eram chancela da casa. Entrou Nene Pizarro, Roberto Leal Monteiro (Ngongo), João Saraiva de Carvalho (Tetembwa), Eurico Gonçalves (morto em 27 de Maio de 1977), António Trabulo, Fonseca Santos, Garcia Neto (também vitima do 27 de Maio de 1977), o médico falecido Fernando Sabrosa e tantos que por lá passaram e outros em fugazes visitas de cortesia política como foi o caso de Gilberto Teixeira da Silva (o comandante Gika) e o Quincas Fonseca Santos cobardemente assassinado no Longonjo em 1979.

                Com a fuga de alguns elementos do Kimbo dos Sobas, não apenas pela ameaça de prisão, mas para se envolverem na luta armada, a Republica teve que aceitar portugueses, numa discussão que terá sido pouco pacífica, mas que permitiu que gente solidária apoiasse a  luta que se ia fazendo por uma Angola que talvez um dia seja aquilo que muitos sonhavam, nas longas noites de uma Coimbra que não era só fados, baladas, serenatas, capas e tricanas, como muitos gostavam e gostam de a pintar.

                Na prisão de Garcia Neto e Fernando Sabrosa pela PIDE por exemplo foi determinante a solidariedade dos Repúblicos e suas famílias de forma tentarem minorar o seu sofrimento em Caxias, não lhe permitindo visitas, com o argumento soez de que não eram familiares. Venceram-se algumas resistências!

                Ao fazer o “centenário” no 4 de Fevereiro, os repúblicos do “Kimbo dos Sobas” assumiram qual era o seu posicionamento e sobretudo a forma corajosa de encararem a sua opção, num tempo de violência muito dura sobre ideias que não perpetuassem o fervor no Império  português, em que o seu grande ideólogo era Adriano Moreira, o homem que reabriu o Tarrafal em 1961.

                A Angola utópica passou por muito lugar, e como se vê Coimbra também colocou o “seu tijolo nos alicerces do mundo”, mas os muitos que viveram esses tempos, apenas queriam que todos “tivessem o seu bocado de pão”

Fernando Pereira

28/01/2023

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