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7 de setembro de 2018

O RENDER DA GUARDA/ Novo Jornal/ Luanda 7/9/2018






O RENDER DA GUARDA
A modalidade mais praticada num presente passado do nosso País tem sido assacar tudo o que é mau para José Eduardo dos Santos e família.
                Nunca fui um prosélito de José Eduardo dos Santos, e jamais deixei de colocar as minhas críticas sobre algumas das suas decisões ou por causa da falta delas em determinados momentos, mas fico surpreendido com o exercício de bandeamento quase coletivo que se observa no quotidiano politico do País.
                Muitos alijam as responsabilidades do que há muito se via correr mal para cima do ex-inquilino do palácio da cidade alta e sua família, esquecendo os tempos em que subservientemente usavam das prerrogativas especiais de serem próximos, ou próximos de próximos.
                José Eduardo dos Santos foi Presidente da República do País durante trinta e oito anos e de facto teria saído pela “porta grande” se o tivesse feito em 2004!
                Uma das muitas críticas que fui fazendo a José Eduardo dos Santos tem a ver com a sua postura de rigidez, de distanciação e um absurdo secretismo da sua vida privada, não olvidando que era uma figura publica.
                À conta disso deixou que se criassem hiatos na sua vida de militante na clandestinidade, no seu passado de ministro e depois da sua exageradamente longa de mais alto magistrado da Nação.
                Não dar entrevistas a jornalistas angolanos, não partilhar os seus gostos musicais, literários, gastronómicos, o não exteriorizar emoções, o dar um formalismo exagerado às suas ausências por motivos privados fez com que a “mujimbuíce” reinasse e a especulação fosse corroendo a sua esfíngica figura.
                José Eduardo dos Santos recebe um legado complicado de Agostinho Neto. O País começava a confrontar-se com uma presença de uma guerrilha por parte da UNITA cada vez mais atuante, e sem que no quadro interno se resolvessem as questões politicas inerentes ao 27 de Maio de 1977, à OCA, Revolta Ativa e outros grupos que estavam com a liberdade cerceada. JES libertou todos, sem que, contudo, fizesse o que teria sido importante, que seria um movimento de catarse política, que poderia vir a servir de exemplo para o futuro político do País que se desejava mais coerente.
                A crise petrolífera no dealbar dos anos 80, aliada ao recrudescimento da guerrilha criou uma situação dramática para grande parte da população, e aí JES conseguiu ir esbatendo o embrião do marxismo-leninismo para a procura de um modelo económico e político mais adequado à realidade do País. A sua postura foi coerente e ia-se afirmando como estadista em termos internos e externos.
                É a figura visível da independência da Namíbia e um dos que terão contribuído decisivamente para o fim do apartheid na África do Sul, sem que internamente resolvesse a questão da eternizada luta contra a UNITA.  Aceita negociar um acordo de paz (Bicesse) e abre Angola ao multipartidarismo.
                Numas eleições precipitadas, por exigências de uma comunidade internacional a lamber feridas da guerra fria, deixa em suspenso uma segunda volta por falta de comparência de Jonas Savimbi. JES tem dificuldades acrescidas para resolver o conflito interno, fruto da exiguidade de recursos e a cada vez maior dificuldade em recorrer a antigos aliados, a braços com os problemas do desmembramento da URSS.
                Liberaliza a economia, e aqui terá surgido a fase primária do que se veio a transformar o seu tempo de governação no futuro, com a utilização indevida por parte de seus próximos da coisa publica, e alguma da sua guarda-pretoriana a ficar com apetecíveis recursos do estado.
                Em 2004 com a Paz finalmente encontrada, JES comete o início do seu hara-kiri político ao continuar na chefia do Estado e do MPLA. Mal aconselhado, mal rodeado e com um circulo de usurários a cercarem-no, alguns deles do seu clã familiar, deixou-se enlear numa teia de compromissos, que fazem empalidecer de vez todo um passado de relevo patriótico.
                JES passou a ser refém do conjunto de interesses que se transferiram do Futungo para a Cidade Alta, e em certos casos era vexatória a impunidade com que os seus próximos iam fazendo negócios e negociatas, enquanto o País deixava perder mais uma oportunidade num tempo em que o petróleo atingiu valores impensáveis no mercado internacional.
                Não deixo de separar o José Eduardo dos Santos que entusiasticamente apoiei em 1992, e que defendi com algum enlevo no início do século, do outro que hoje vai assistindo, provavelmente taciturno, a um tempo novo em que se vai ter que reconstruir o que ele ajudou a destruir para proteger família e alguns homens de mão.
                Confesso que sinto alguma tristeza em ver o JES transformado numa figura shakesperiana do tipo do “Imperador” de Ryszard Kapuściński , livro que relata a fase final do Haile Selassie, mas simultaneamente continuo a dizer que tive muito orgulho em tê-lo como Presidente da Republica do meu País, o que não deixa de ser paradoxal.
                Porque vai abandonar a liderança do MPLA é bom que se diga o que se pensa hoje, porque o futuro próximo será de lhe atirar todas as culpas de quase tudo, mas que num futuro mais longínquo talvez venha “alguém que de mim bom fará”!

Fernando Pereira
4/9/2018


19 de junho de 2015

INSINCERAMENTE / Ágora/ Novo Jornal / Luanda /18_6-2015




“O pessimismo da razão e otimismo do coração” Gramsci (1891-1937)

Não. Definitivamente. As bruxas não existem. Não sou supersticioso. Não acredito em azares. Não me preocupo com a sexta-feira, seja treze ou qualquer outro dia do mês. Não entro com o pé direito, não como passas às badaladas do novo ano e nunca me preocupo com o facto de ter de passar por baixo de escadas. Não me preocupo se derramar sal na mesa e não acredito que virar o copo de vinho à mesa dá sorte. Até acho isso um contrassenso porque, logicamente, uma toalha com nódoas de vinho só serve para o lixo. Definitivamente. Não sou supersticioso, não acredito em bruxas, nem em bruxedos, nem em feitiços e muito menos em pragas e macumbas.
À evolução sempre necessária, e neste momento histórico exigido pela transformação social e pela maturidade da grei, para um mais amplo sistema de direito público, substitui-se tragicamente de uma forma apressada o sistema, levando à quebra de tradições e à divisão dos homens em vencedores e vencidos.
A ausência de cultura, aliada à falta de consciência política global, gera bastardia irremediável do voto, e a organização dos partidos, ou “grupos de status”, não como expressões tendenciais dos grandes rumos de opinião pública, mas sim como simples associações utentes do poder, assentes na importância social da licenciatura e gerando uma nova forma de privilégio parasitário.
Os sistemas políticos nunca são perfeitos e a democracia só o será quando um grau de preparação económica, social e cultural do povo for determinante de uma consciência do direito político individual, e que no momento de ação resulte em vontade coletiva.
Cada novo messianismo na ação política, cada nova ideologia redentora, enche o povo de promessas e mesmo de realizações. Por um momento efémero domina a prole e arrasta os homens na sedução do novo ideal coletivo. Paulatinamente porém, a vida reflexiva e consciente retoma os seus direitos, a inteligência renova as suas perguntas, e os problemas renascem para a diversidade discutível das várias soluções.
E como o homem nesta fase só concebe a política em termos de ideal absoluto e redentor, e existe na forçosa circunstância de vencido ou de vencedor, a ação pública situa-se em coordenadas de “guerra”, de sentido de revolta ou de defesa a todo o custo.
Ser adversário político é sinónimo de inimigo pessoal. O partidário do poder, olha para os adversários como uma raça diferente, uma espécie de monstros capazes de todos os “crimes”. O adversário do poder, pelo seu lado, olha para os outros como uma tribo estranha, que se apoderou do mando ou de desmando nalguns casos.
O sentimento comum da existência coletiva o conceito de solidariedade, o ideal de uma vida comunitária e irmanada numa obra comum a construir em cada hora, são tropos literários, cuja verdade profunda jaz moribunda.
Até quando poderemos resistir à trágica divisão das pessoas, à triste dialética, à partilha do destino humano, na injusta base do vencido e do vencedor?
Apetece-me recordar um texto do “desalinhadíssimo” Alberto Pimenta, o criador desse delicioso poema “discurso sobre o filho da puta” , que não ouso publicar por razões que pelo menos eu julgo óbvias. Alberto Pimenta é um “malquisto” por muitos outros trabalhos de “rotura” no contexto literário da língua portuguesa.
“1948: o meu pai foi às Finanças fazer um requerimento, e como de costume fez questão que eu o acompanhasse. Para “aprender a vida”.
Em casa explicou-me minuciosamente a fórmula e o motivo do requerimento. No fim meteu dentro da folha uma nota de 50 escudos, e disse-me- Esta é a parte mágica da fórmula. Quando tiveres um pedido a fazer, já sabes, o segredo é este.
Passados uns meses enviei a minha primeira declaração de amor e, como 50 escudos era muito para as minhas posses, juntei uma moedinha de 2$50.
Nunca tive resposta, decerto foi por ser tão pouco”
“Os capitalistas têm dinheiro e compram tudo: justiça, polícia, padres, governo, tudo. A gente só tem um capital: os companheiros.
Jorge Amado, in “S. Jorge dos Ilhéus”.
Não faço ideia se estou a escrever pela antiga ortografia, se já ao abrigo do novo acordo! Paciência, saiu assim…
Exatamente assim!

Fernando Pereira
8/5/2012

12 de junho de 2015

NO ANTIGAMENTE NA BOLA!/ Ágora/ Novo Jornal/ Luanda / 12 -6 - 2015













Em 2009 saiu do prelo o “História do Clube Atlético de Loanda”, numa edição do Clube Atlético de Luanda e Saudade. Tive o privilégio de ter estado na apresentação que decorreu no Espaço Verde do Chá de Caxinde.
O livro é um excelente documento sobre a evolução do desporto angolano no período de 1924-1953, com as suas conotações de natureza politica e social numa sociedade colonial fechada e profundamente retrógrada.
È um precioso auxiliar para quem quiser saber o que de importante aconteceu numa sociedade vincadamente estratificada do ponto de vista social, económico e político com as inerentes ligações ao associativismo.
Ao contrário do que é muito frequente comentar-se, o desporto tem ligações muito estreitas com o circunstancialismo politico, e é indisfarçável o alinhamento ou a rutura que determinadas associações ou clubes desportivos tem com os poderes instalados.
O Clube Atlético de Loanda foi desde a sua criação um clube de forte espírito nacionalista, a que não serão alheias as convicções emancipalistas dos seus fundadores, em contraciclo com os clubes emblemáticos do regime colonial, normalmente filiais dos clubes de Lisboa.
Numa das páginas do livro, que mereceria uma cuidada revisão, conta-se o episódio da vinda a Angola da Associação Académica de Coimbra a 2 de Agosto de 1938, acompanhando o então general Oscar Carmona na 1ª visita de um chefe de Estado Português às colónias.
Vivia-se na comunidade branca de Luanda a euforia da inauguração da Exposição-Feira, no bairro onde hoje estão instaladas a maior parte das embaixadas, e o convite à Académica partiu da direção da Exposição, entidade organizadora de um torneio onde participariam as seleções de Luanda, Benguela e Huíla.
A taça em disputa foi entregue à Académica, por iniciativa da direção da Exposição, provocando veementes protestos pela direção da Associação de Futebol de Luanda e do conjunto de selecionadores, técnicos e jogadores do selecionado local. A taça “General Carmona” foi disputada com pundonor pelas equipas entusiasmando o público que encheu os “Coqueiros”.
A versão do livro do Atlético:”… no referido jogo os luandenses marcaram a primeira bola . Coimbra empatou, e minutos depois sob perfeitíssimo centro de Julio Peyroteu , Júlio Andrade corre, esgueira-se entre os defesas, bate Tibério atirando a bola onde quer. Luanda 2 – Coimbra 1. Ardeu Tróia. Tibério apossa-se da bola e reclama off-side (pretenso). Os outros “académicos” acompanham-no. O árbitro valida o goal e manda a bola ao centro. Os “académicos” não cedem, e Tibério chefe do motim não quer entregar a bola. O árbitro insiste na sua resolução, e os académicos querem bater no árbitroque ante a impossibilidade de ser respeitado, se vê forçado em abandonar o campo, sempre sob a ameaça de pancada”. Tibério era o guarda-redes da equipa de Coimbra, e ainda entra Gentil Santos, a quem não é entregue a bola o mesmo acontecendo com o 3º árbitro, Serra Coelho. Tal o sururu que a polícia é obrigada aq intervir para acabar o jogo que já se prolongava para horas que não permitia a legislação relativa a espectáculos.
“… A direção da Exposição Feira de Angola, contra tudo, entregou a taça ao grupo académico: E essa entrega (?!) tem o seu quê de interessante. A taça foi levada para bordo do gasolina, que transportou os jogadores de Coimbra ao vapor “Colonial”, para a sua viagem à outra costa (Moçambique). Ora se a Taça foi ganha com merecimento, porque não foi entregue publicamente.”
Há contudo outra versão dos acontecimentos que vem no livro do meu saudoso colega João Mesquita “Académica / História do Futebol”.
Diz o seguinte esse livro, editado pela Almedina em 2007: “ …Corre o dia 6 de Agosto e os estudantes queixam-se de uma certa frieza na recepção” “… No segundo encontro é que o “caldo” se “ entorna”. Jogam Académica e a seleção de Luanda, com o ex-atleta da Briosa, Bernardo Pimenta, a recusar-se a alinhar por esta última. Desde o início que os estudantes se queixam de parcialidade por parte do árbitro, por sinal o treinador do selecionado luandense. Às tantas Luanda faz 2-1. Protestam veementemente os coimbrãos, alegando que o marcador se encontra fora de jogo. Em resposta o juiz abandona o campo. Os Angolanos não aceitam. Sugerem outro. É a vez da Académica recusar. Com tudo isto, a luz do dia vai desaparecendo e a polícia entra em acção para mandar os jogadores para o balneário.
Uma vez que não se esgotam os 60 minutos que o regulamento estipula para duração de cada jogo, é marcado segundo encontro. Mas Luanda não comparece. Como a Académica batera entretanto a seleção de Benguela por 3-1, a taça é atribuída aos estudantes. Estes antes de deixarem Luanda, envoltos numa acesa polémica, ainda defrontam a seleção de Angola. Com quem perdem por 4-3.”
Neste jogo que se disputou a 28 de Agosto de 1938, com a arbitragem de Armando Serra Coelho, pai do Serra Coelho que posteriormente representou a Académica no dealbar dos anos 50, a seleção de Angola orientada por João Francisco Mendonça alinhou com: Oscar de Lemos, António Arsénio e Apolinário Mendonça (todos de Luanda),Duarte Cabral (Benguela),Saldanha Palhares (Luanda), Jaime Adriano (Benguela), José Cruz “Gégé” (Benguela), Julio Andrade (Luanda), Telmo Vaz Pereira (Luanda), Nuno Vaz (Benguela) e Julio Peyroteu (Luanda).
A Associação Académica de Coimbra orientada por Puskas alinha com Tibério Antunes (depois Cipriano), João Teixeira (Alberto Cunha), José Maria Antunes, Faustino (Teixeira), Alberto Carneiro, Octaviano, Alberto Gomes, Peseta, António dos Santos, Nini e Manuel da Costa.
António Santos(2) e Nini marcaram pela Académica e Julio Andrade (3) e Telmo pelo selecionado de Angola.
António Santos não fazia parte da equipa da Académica que disputava os campeonatos nacionais. Era jogador do Futebol Clube do Porto e estudava na altura em Coimbra.
Estes jogos, aparentemente “amigáveis”, entre equipas da Metrópole e da então colónia eram sempre marcados por uma grande rivalidade, a que não eram alheios os propósitos emancipalistas de alguns elementos do selecionado local, e o nacionalismo exacerbado de alguns elementos das equipas de Portugal, que eram escolhidas naturalmente a contento do regime.
Este texto visto na perspetiva dos dois contendores, talvez consiga dar outra verosimilhança a esse episódio nesse longínquo 20 de Agosto de 1938 na cidade de Luanda.

Fernando Pereira
10/6/2015

30 de abril de 2015

Resumidamente / Ágora / Novo Jornal / Luanda 30-4-2015






"Está bem, sou velho, mas a minha imaturidade faz de mim um jovem".(Woody Allen)
Quarenta anos depois da independência do País, é tempo mais que suficiente para começarmos a desmistificar alguns acontecimentos dos tempos da “luta de libertação”, e do percurso da maioria de muitos dos protagonistas.
Não nos limitemos aos períodos conturbados dos anos sessenta e início dos anos setenta, mas também aos tempos do dealbar da independência.
Temos que acabar com o velho preceito estalinista de reescrever a história recente em função de que tipo de mensagem é adequado às circunstâncias políticas presentes. Isso é um processo sórdido e devemos exigir que não o seja feito, para que no futuro não se ande a construir uma história sem rigor científico. Despretende-se uma adaptação angolana de “O materialismo dialéctico e o materialismo histórico”, uma obra menor de qualquer marxismo de pacotilha.
Há um crescente número de factos empolados que nada tem a ver com tudo o que se passou, nem tampouco se revê nos intervenientes diretos, e o que vamos assistindo é a diabolização de uns quantos para a sacralização de outros, perfeitamente dispensável quando cada vez mais se exige lucidez e objetividade no conhecimento da história e verdade no protagonismo de certa gente.
As histórias têm que passar a fluir e não ficarem circunscritas às tertúlias, ou às almoçaradas de sábado em que por vezes chegamos à triste conclusão que “nada foi como nos contaram”.
Do maquis há milhentas histórias que só se contam em surdina, e algumas delas acabam por revelar que num passado distante houve histórias pouco dignificantes, que se repetem atualmente no quotidiano do País.
A título de exemplo, esta que me foi contada por um ex-guerrilheiro já falecido com protagonistas que naturalmente omito. Nos anos sessenta em Ponta Negra eram desembarcados fardamentos e botas para equipar os guerrilheiros do MPLA; Ficaram conhecidas pelas botas de borracha “saltitona” , já que entre o armazém de carga e o local de descarga em Dolisie muitos pares de botas desapareciam, encontrando-as à venda nos mercados da RPC e até no então Zaire. A verdade é que havia um esquema, montado com muita perícia por parte de alguns “maquisards”, muito rendoso e com cobertura superior, que aceitava justificações pueris que “as botas deviam-se ter perdido por causa dos inúmeros buracos na estrada do percurso” .
O ridículo sistema de entrega de armas e munições no leste de Angola aos guerrilheiros assume contornos de anedotário. As armas eram entregues a um grupo de combatentes, mas as munições para as armas só podiam ser levantadas noutro local, por vezes distante quase oitenta quilómetros. Obrigava o grupo, embora pequeno, a ter que se deslocar a pé, com o armamento, mal alimentado e acossado pelas tropas coloniais para irem buscar algo que era indispensável para a sua sobrevivência. Acontecia muitas vezes chegarem ao local e já não haver balas ou para cumulo as armas não estarem em condições quando tentavam testá-las. E a arma mesmo danificada tinha que ser devolvida no local onde lhe tinha sido entregue. Enfim!
Cada protagonista devia deixar as memórias, as boas e as más para que o futuro possa aquilatar com precisão, quanto foi o sacrifício de muitos a quem os angolanos agradecem e os oportunistas que devemos colocar no seu devido lugar: O “caixote do lixo” da história!
Vem a talhe de foice este artigo no dia em que sai em Lisboa mais um livro do Adolfo Maria, um octogenário que se mantém fiel aos princípios da angolanidade, empenhado como há sessenta anos, quando resolveu sem hesitações abandonar o conforto da sua situação de branco privilegiado num sistema colonial, para se embrenhar na luta com a sua companheira Helena Maria, uma portuguesa de Chaves que abraçou a opção do seu marido com grande perseverança e militância.
Adolfo Maria, no livro “ Angola Contributos À Reflexão” presta uma homenagem a muitos que com ele trilharam um percurso de luta pela independência de Angola, e que foram muitas vezes vítimas do oportunismo e cobardia soez por parte de uns quantos, que só punham os pés quando sentiam que as pedras colocadas por outros estavam em condições de ultrapassar um rio.
Este livro é mais um contributo para a história do País e Adolfo Maria não escolheu as palavras, nem adequou datas e acontecimentos ao circunstancialismo da “estória de Angola”.
Era desejável que este deixasse de ser um dos poucos exemplos de quem vai deixar memórias, e nesta fase era de todo desejável que os “mais velhos” escrevessem e que alguns arquivos reaparecessem, para acabar com “mujimbos” sobre posicionamentos políticos dúbios em determinadas circunstancias num longo processo de luta armada de libertação nacional.
Recomendo a leitura deste livro editado pela Colibri, para que se vá alicerçando a discussão no futuro sobre um passado que as gerações mais novas têm que se dar conta que existiu mesmo e não foi nada brando!

Fernando Pereira
28/4/2015

24 de abril de 2015

O 25 de Abril de 1974 também está a passar por aqui./ Ágora / Novo Jornal / Luanda 24-4-2014





José Gomes Ferreira, um dos poetas militantes que muito admiro, escrevia em Outubro de 1985: Momento sinistro de pensamento mutilado. Como é possível viver numa pátria assim! – de livros proibidos, de jornais proibidos, de peças proibidas, de homens proibidos – em que só silêncio é justo?

As revoluções não surgem por decreto. O 25 de Abril de 1974 é o corolário lógico do fim das indecisões que o fascismo de Salazar e sem Salazar tinham alimentado de forma doentia e sem qualquer tipo de solução. O 25 de Abril é o corolário lógico da fraude eleitoral de 1958, do Santa Maria, do 4 de Fevereiro de 1961, da queda de Goa, Damão e Diu, da Abrilada e do início e recrudescimento da luta armada em três palcos de guerra.
Em Portugal, a ebulição surge de forma reforçada na luta pelo horário de trabalho por parte dos trabalhadores rurais, nas greves nas fábricas e empresas por melhores direitos entre salários e proteção social, nas greves académicas de 1962 e 1969, na crescente fuga de gente para a Europa e no isolamento crescente de Portugal na cena política mundial. O 25 de Abril de 1974 é uma data que devolve aos cidadãos portugueses e aos povos sob dominação colonial uma nova identidade e uma nova dignidade.
Não foi feito por aventureiros, como se insinua recorrentemente, mas sim por aqueles que esperaram e desesperaram por uma solução tardia para os problemas que se arrastavam para um pântano de consequências perversas. Hoje, quarenta e um anos depois, podemos dizer que valeu a pena, e que podemos dar aos nossos filhos um mundo melhor, de liberdade, de participação cívica e de perspectivas de futuro assentes na melhoria da qualidade de vida de todos os cidadãos.
Podemos dar as voltas que quisermos, pessoalizar as razões para se afirmar o contrário, mas, de facto, foi a esses muitos homens fardados, que imediatamente tiveram uma adesão popular extraordinária, que ficámos a dever liberdades fundamentais, sem as quais não conseguiríamos respirar. Como em todas as revoluções ou processos políticos, há avanços e recuos, há situações mais ou menos obscuras, há aproveitamentos dos oportunismos que campeiam em qualquer sistema político, mas temos de ter em conta que Abril valeu a pena. Por tudo.
Para quem andava distraído, antes do 25 de Abril, lembro as "sábias palavras" do então mais alto magistrado da Nação Américo Tomás, vulgo “cabeça de Tarro”, que nessa altura era o Chefe de Estado do Minho a Timor.
"Memórias de Tomás" :"Eu por mim próprio, não me decidi a escrever as «Minhas Memórias». Decidiram-me. É que, estando quase toda a gente, ex-chefes de gabinete, ex-subsecretários de Estado, ex-secretários de Estado, ex-ministros, ex-chefes de Governo, escrevendo as suas memórias, a minha família começou a insistir comigo para que escrevesse as minhas «Memórias», na medida em que, disseram-me, mal me ficaria não escrever, também eu próprio, as minhas «Memórias». Habituado a falar e não a escrever, contando, segundo as minhas contas, nove mil trezentos e sessenta e quatro alocuções por sobre o território nacional, isto é, continente, ilhas adjacentes e províncias ultramarinas, não minto, nove mil trezentos e sessenta e cinco alocuções por sobre o território nacional e internacional, ligadas ao meu cargo de Presidente da República, - eu nunca me afeitei a usar a caneta, coisa que disse repetidamente a minha família. Não tive sucesso, como é obvio, dado que me compraram uma caneta e ma deixaram fechada na mão. Foi então que, pegando na caneta, carreguei no botão do gravador e comecei: "Senhor bispo da diocese, senhor ministro das Obras Públicas, senhor governador civil, senhor presidente da câmara municipal, senhor presidente da junta de freguesia, minhas senhoras e meus senhores" [in, revista Opção, Ano II, nº 30]"É esta, portanto, a ultima cerimónia que se passa na cidade da Guarda e eu não quero deixar passar esta oportunidade sem agradecer ao bom povo desta terra o seu entusiasmo, o carinho com que recebeu o Chefe do Estado. A chuva não teve qualquer influência no entusiasmo das populações. Elas vivem numa terra de granito, e a chuva não as apoquenta " A Guarda é um distrito de bons portugueses, de portugueses de uma só face, portugueses, portanto, sempre prontos a defender a terra que os viu nascer. E a Guarda tem uma particularidade: é a cidade mais alta da Metrópole" [ibidem, discurso na Guarda, in Século]" É uma terra [Manteigas] bem interessante, porque estando numa cova, está a mais de 700 metros de altitude. Pois o que desejo, sr. Presidente, para poder pagar, de qualquer forma a dívida que contraí, é que esta gente tenha um futuro feliz, abençoado por Deus. Que assim seja, para contentamento vosso e para contentamento meu " [ibidem, em Manteigas, segundo O Século, 1/6/1964]
Por acaso sabíamos que, quando se deu o 25 de Abril de 1974, Portugal tinha 32% de analfabetos, mais 47% que apenas sabia assinar o nome? Angola tinha 82% de analfabetos ? E que Cabo Verde tinha 26% de analfabetos devido ao facto de ter sido o segundo território africano a ter ensino secundário? Sabíamos, em Angola, que em Maio de 1968 houve uma "revolução em Paris", liderada por estudantes, e que alterou a configuração das referências das mentalidades da Europa? Sabíamos que em 1968 só houve duas sessões do filme "Crime da aldeia velha" no cinema Restauração, porque o texto de Bernardo Santareno ilustrava o último auto-de-fé em Portugal numa aldeia, nos anos 60? Sabíamos que o Feyenoord se recusou a jogar no estádio da Luz, para a taça dos campeões Europeus, porque o estádio estava decorado com publicidade ao "Café de Angola", tendo a UEFA mandado tapá-lo para que o jogo se realizasse? Sabíamos a quantidade de desertores do exército? Sabiamos que o Niassa levou com bombas para não transportar tropas para combater na guerra colonial? Sabíamos porque se sentava Bob Denard em mesas ao nosso lado, no Arcádia em Luanda, com a mona entrapada? Sabíamos que Sartre se recusou a receber o prémio Nobel? Sabíamos que Chalie Haiden foi posto sob prisão e expulso em 1972 porque no Festival de Jazz de Cascais cantou um hino aos movimentos de libertação? Apercebemo-nos que o Concord em Luanda não colocou a bandeira de Portugal no avião, mas outra?

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo


Sophia de Mello Breyner Andresen


Fernando Pereira
21/4/2015

9 de abril de 2015

Água de pouca dura / Ágora / Novo Jornal / Luanda 10-4-2015






Um historiador inglês, Nigel Cliff, num livro recentemente traduzido para português com o título “Guerra Santa”, assenta toda a investigação na viagem de Vasco da Gama (um dos estatuados justamente forçados da fortaleza de S. Miguel) para justificar como foram financiadas, programadas e executadas todas as viagens dos navegadores portugueses pelos mares, que depois se soube já antes terem sido navegados por outros.
Este livro é polémico, e só não assumiu foros de maior discussão porque tentou limitá-la a meios muito reservados. Nigel Cliff fez uma análise do que foram as motivações guerreiras dos Europeus em determinadas fases da sua história contra os “infiéis”, e fundamentalmente o papel de determinada burguesia, com uma clara presença judaica, na busca de novos mercados e na procura de matérias-primas mais baratas num mundo dominado pelos mercadores descristianizados. O Cristianismo passou a ser o aparelho ideológico adequado à expansão de novos donos que puseram novos tronos noutros lugares.
Paulo Dias de Novais, fundador da cidade de Luanda, achou que a baía era perfeita para que os barcos se abrigassem de perigos vários. Ao tempo, tinha que se preocupar mais com a rendabilidade dos seus proventos, do que saber se o lugar insalubre onde se fortificava teria água ao longo dos séculos. Novais precisava de produtos tangíveis de algum valor que justificasse que aquele lugar fosse perfeito para trocas de/e com gente.
As cacimbas iam resolvendo mal as necessidades de quem morava e de quem transitava por Luanda até ao início do século XVII. Na ocupação holandesa, os flamengos, em 1645, projetaram uma obra de engenharia, grandiosa para o tempo, que consistia na abertura de um canal abastecedor do Kuanza à capital. Ficaram as boas intenções, embora seja meu entendimento, sem qualquer justificação de caracter técnico, que seria útil fazer do Kuanza uma alternativa ao Bengo, principalmente para abastecimento da cidade que irá crescer em torno do novo aeroporto e nas centralidades de Viana e Luanda sul.
Salvador Correia de Sá mandou construir a cacimba da Maianga, hoje desaparecida no início da subida da avenida do aeroporto, aproveitando a água da vizinha Lagoa dos elefantes, que se alargava até à rua da Samba. Em 1666 o governo central outorgou a Tristão da Cunha (tem direito a nome num largo no centro da cidade da Luanda de hoje) a tarefa de que “velasse pelo concerto da lagôa dos Elefantes”.
O problema de água em Luanda tem barbas, como sói dizer-se, e lá surgiam de vez em quando projetos para trazer águas do Zenza, um afluente da margem esquerda do Bengo, do Lucala, afluente da margem direita do Kuanza e do próprio rio Kuanza, recorrentemente lembrado para ajudar a “matar a sede à cidade”. O poço da Maianga revelava-se com cada vez mais problemas, quer pela insuficiente quantidade de água, quer pela falta de qualidade, “salitrozo e aleitado” potenciador de epidemias.
O governador D. António de Vasconcelos (acho que este não tem direito a permanecer na toponímia da cidade) resolveu fazer estudos para recuperar o plano dos holandeses, e pediu ao Rio de Janeiro um engenheiro. Mandaram-lhe um indivíduo que teria deixado os jesuítas para se dedicar de alma, coração e dinheiro ao projeto. A verdade é que o tempo passava, o dinheiro ia-se gastando e não havia nada de conclusivo. O governador não viu nada feito, e acabou por pagar parte dos trabalhos do seu próprio bolso “por não gravar a Fazenda Real”.
O governador Sousa Coutinho mandou fazer cisternas na fortaleza de S. Miguel e na do Penedo, hoje em ruínas, mas o resultado ficou longe do objetivo.
“Luanda dessas épocas era uma terra de febres malsãs, de disenterias, de surtos epidémicos, uma terra de sede e de doenças, para as quais, por certo, contribuía a minguada e lodosa água das suas fundas cacimbas…”
Em 1813, José de Oliveira Barbosa voltou a entusiasmar-se com o canal do Kuanza, e conseguiu contagiar o Senado da Câmara e o próprio Regente do Reino de Portugal D. João VI. O local era no Calumbo, o que permitiria que chegasse à Maianga por gravidade. Esse entusiasmo deu algum resultado e as obras ainda começaram, mas Luis da Mota Fêo, o substituto de JOB, mandou-as parar pois as finanças da província estavam exauridas perante tão ciclópico empreendimento.
Em 1816 decidiu a Câmara, de acordo com o governador, parar as obras do canal e a cidade continuou a “ sofrer sedes, moléstias e sofrimentos, porque faltava a água…”
Em 1845, na zona dos Coqueiros, abre-se uma nova cacimba por ordem do governador Lourenço Possolo, que é entregue à Câmara, mas nada é minorado e, para além da míngua do líquido, o lixo e os detritos vão-se amontoando. Luanda é uma nitreira a céu aberto. Decide-se adjudicar o transporte de água por barcaças do Bengo, o que se passa a fazer em 1852. Simultaneamente as cacimbas tinham que ser limpas e desentupidas porque apareciam frequentemente mortos lá dentro.
Em 2 de Março de 1889 foi inaugurada, com toda a solenidade, pelo governador-geral Guilherme Brito Capelo (estava na toponímia da cidade até à independência e foi substituído por Kwame Nkrumah) a ligação de água corrente à capital com a captação feita no rio Bengo.
“Ao cabo de 300 anos de sedes, de tormentos e privações, Luanda podia agora beber à vontade, podia banhar-se regaladamente, podia lavar-se, podia, com satisfação, pôr de lado as salitrozas e aleitadas águas dos seus poços e cacimbas”.
Pelos vistos foi “água de pouca dura”, porque o deficiente abastecimento de água à cidade voltou em força na segunda metade dos anos sessenta, no período colonial, e continua a ser um problema mais que recorrente nos dias de hoje.
Fernando Pereira
4/4/2015

1 de abril de 2015

Seripipi de Benguela / Ágora /Novo Jornal / Luanda 2/4/2015


“(…)
leva no bico uma esperança
ao ninho do teu irmão.”


Ernesto Lara Filho


O fogo consumiu totalmente na passada semana um dos emblemáticos edifícios da cidade de Benguela, o “Cabo Submarino”!
Era um edifício com características “sui generis”, pois foi construído para que, no seu interior, se trabalhasse com todo o conforto, num tempo em que o ar condicionado nem sequer era uma miragem.
Conheci bem o local que albergou durante anos a direção provincial de cultura, e sempre me fascinou o ar temperado, numa construção situada no meio de um terreno sem arborização envolvente e numa cidade onde a canícula aperta em períodos continuados do ano.
O edifício, recuperado em 2001 e 2010, manteve, no essencial, a sua estrutura de 1889, com as janelas em lamelas de madeira. Este processo justificava-se no sentido de permitir, durante o dia, o seu manuseamento, tentando amenizar o calor no interior. Esta circulação permanente de ar, era ajudada pelo facto de se tratar de uma estrutura em madeira e ferro, assente em paliçadas. Era um edifício interessantíssimo e, se na primeira metade do século XX o “gémeo” do Namibe (Moçâmedes) foi demolido, este mantinha-se indiferente à voragem avassaladora do pato-bravismo "construtivo" que tem percorrido as cidades de Angola, principalmente as de maior atividade económica.
O edifício foi montado para a West African Telegraph Company, que era uma empresa subsidiária de uma Eastern & Company Telegraph, que no fim da Conferência de Berlim tinha todo o mundo coberto por uma rede de cabo submarino. Em Angola, a ligação entre Cape Town e Moçâmedes prosseguiu para Benguela, daí para Luanda, acabando por se unir ao cabo-submarino que vinha do Brasil para a Europa via S. Vicente em Cabo Verde.
Depois do cabo submarino, no tempo colonial, funcionou lá o Colégio Alemão e hoje restam as cinzas de mais um desastre, este sem anúncio, no pobre património edificado e classificado que há no País.
Ouvi as justificações mais pueris, e uma das mais risíveis foi a de que a culpa do incêndio teria sido da intensa chuva que desabou em Benguela nessa noite. Não quero estabelecer um nexo de causalidade quanto ao que futuramente se irá por lá construir, mas espero que, pelo menos , se reabram os dossiers sobre a recuperação do edifício e se averigue se terão sido cumpridas todas as regras inerentes à preservação de um imóvel com a provecta idade de 125 anos. Era uma excelente oportunidade de casar a culpa com alguém!
Benguela é fundada em 1617 em homenagem a Filipe II de Espanha (1º de Portugal), daí o seu patrono ser S. Filipe, numa clara tentativa por parte de Cerveira Pereira de ficar nas boas graças da corte. “A Sul, o sombreiro” de Pepetela, descreve com autenticidade e minúcia essa personagem malevolamente controversa no século XVI da colónia.
As suas gentes não têm nada a ver com as patifarias do seu fundador, nem com as maledicências em torno do seu santo padroeiro, que só tem uma importância acrescida pois está ligado a um dos reis de Espanha que teve um poder quase absoluto na Europa.
Numa atitude ousada, a população de Benguela manifestou-se contra a travessia do caminho-de-ferro pela cidade, já que a dividiria ao meio, pois a estrutura central da povoação era afastada da linha de costa e do seu porto. Foi assim que nasceu o Lobito para albergar o porto de mar que apoiaria Benguela e, na realidade, esta decisão acabou por atrofiar a cidade no seu crescimento e desenvolvimento económico em detrimento do que em tempos recuados foi a “Catumbela das ostras”!
Benguela foi sempre uma cidade de gente muito ciosa na sua relação interpessoal, de partilha entre quintais e com uma interessante atividade cultural. Durante o colonialismo foi o local privilegiado de intervenção política, e onde terão germinado algumas sociedades maçónicas que acabaram por ser dissolvidas pela repressão das autoridades.
Henrique Galvão, adversário de Salazar, mas com uma verve colonialista, entre 1930-1940 faz esta descrição de Benguela: “… é uma cidade enorme, de ruas compridíssimas e asfixiantes, em que dominam o amarelo e o pardo, feia, muito feia, mas depois de Luanda a cidade mais característica de Angola (…)O mar bate-lhe nas costas, é certo, mas ela fugiu do mar para terras nuas e encardidas (…). Dentro deste quadro, de aspeto doentio e abafante, vive uma população teimosa e tão simpaticamente aferrada à cidade, que constitui o caso mais típico e ferrenho de bairrismo que se conhece em Angola. A gente de Benguela faz lembrar a gente do Porto”( Álbum Comemorativo da 1ª Exposição Colonial Portuguesa / 1934).
O arquiteto Fernando Batalha, recentemente falecido, escrevia sobre Benguela: “Tem o seu assento em uma terra plana e está traçada em quadra”. “Foi o primeiro plano urbanístico de Benguela e provavelmente também o primeiro que se traçou para qualquer povoação de Angola (…) A formação «em quadra» ou traçado ortogonal é também um dos caracteres comuns e de uso frequente nas povoações criadas depois do seculo XVI. Foi o sistema adotado na “Baixa” de Lisboa depois do terramoto e em muitas povoações do Brasil”, FB, “A urbanização de Angola”, Edição Museu de Angola, Luanda 1960.
Resta mesmo a poesia imorredoira de Aires de Almeida Santos: “Meu amor da Rua Onze/ Meu amor da Rua Onze/ Já não quero/ Mais mentir.”

Fernando Pereira
30/3/2015

27 de março de 2015

Luanda a ferro e não a fogo! / Novo Jornal / Luanda 27-3-2015





Na fachada da Igreja do Carmo, em Luanda, está inscrita numa pedra a tabela dos toques para incêndios na cidade, que foi dividida em dez zonas de combate a estes sinistros através de regulamentação concebida no fim da primeira metade do século XIX.
Luanda era, pelos anos 30 do século XIX, uma urbe com escasso casario de pedra, circunscrita ao que sempre se chamou Cidade Alta, na atual Rainha Ginga Antiga Salvador Correia, no Bungo, em volta da Igreja dos Remédios e junto às praias que iam até à Igreja da Nazareth. Na Baixa, nos Coqueiros, na Maianga, em redor da Igreja do Carmo até ao Kinaxixe, na Mutamba, nas Ingombotas e no sopé do morro da fortaleza florescia um matagal com telhados de colmo, em casas de «pau-a-pique», na zona da terra vermelha, o musseque.
Era aí que deflagravam o maior número de incêndios e naturalmente que era preocupante para a cidade tendo em consideração a proximidade do casario e a sua vulnerabilidade no caso de o incêndio se propagar.
Nesse contexto, surge um edital da Câmara Municipal de Luanda, em 1839, que obrigava a que, ao toque de fogo, os donos das lojas de comércio ficassem obrigados a mandar um escravo, ou um servo, munido de um cazengo de água para extinguir as chamas, sendo multado em mil reis cada comerciante que não cumprisse tal regulamento.
Cada igreja de Luanda tinha afixada a tabela de toques de sinos, que iam desde os cinco na zona da Igreja do Corpo Santo, aos quinze quando era para os lados da Igreja da Nazareth! Logo que ouviam os toques, os empacaceiros, subalternos negros vestidos com um saiote e com uma tira de couro de búfalo (npacaça), começavam a avisar onde era o fogo. Os soldados da Cavalaria e o serviço de sapadores e todos os disponíveis lá carregavam a água com o máximo cuidado para apagar o incêndio e evitar que tomasse proporções impossíveis de controlar.
Controlados pelas forças militares, lá se conseguia uma organização razoável que ia apagando o fogo. Três dolentes badaladas na igreja da zona eram o sinal de que o fogo estava apagado.
Importa aqui dizer que a água foi sempre um problema enorme em Luanda, desde os tempos em que se foram fixando pessoas e aumentando a atividade militar e comercial da cidade.
Os poços e as cacimbas não chegavam para as necessidades básicas e nesse tempo a água era trazida do Bengo em barcaças e vendida a 12,5 reis o barril, preço que aumentava para o dobro quando havia calema e os barcos não conseguiam passar a barra. Um eterno problema que se perpetuou com a LAL e hoje com a EDAL.
Quando se olha para a cidade, que cresce assustadoramente em altura, não é despiciendo que se pergunte se todos os megatéreos implantados na cidade têm um plano realista de evacuação em caso de incêndio ou se o equipamento de combate por parte do corpo de bombeiros tem capacidade para uma intervenção rápida nesses edifícios.
Fico com a convicção de que talvez seja útil repensarem-se os planos de contingência em caso de incidentes deste tipo para se evitarem tragédias como as que vão ocorrendo um pouco por todo o lado, fruto de uma ausência de planeamento e uma enorme falta de aconselhamento às populações sobre a natureza dos locais onde vivem, quer na chamada zona enobrecida quer nos labirínticos bairros construídos um pouco por todo o lado.
Vou continuar a escrever sobre a Luanda de outros tempos, com a ajuda da obra de José de Almeida Santos, funcionário da Camara Municipal de Luanda nos anos 70 do século passado e que tem um trabalho excelente sobre a cidade que se habituou a crescer de forma avulsa e anárquica.
Era bom que o Governo Provincial reeditasse estes livros e os disponibilizasse aos muitos que ainda acham que debater Luanda vale a pena.

Fernando Pereira
23/3/2015

8 de outubro de 2010

"Lisboa, Capital, Republica, Popular" / Ágora/ Novo Jornal/ Luanda / 9-10-2010






Na semana passada, comemoraram-se cinquenta anos da criação de uma série de culto da TV e do cinema de animação.


Os Flinstones, com os casais Wilma e Fred, Betty e Barney, mantiveram-se até 1996, como um dos tops da Hanna Barbera, e foi o primeiro contacto com a idade da pedra, com que muitos de nós nos confrontávamos em criança. A BD em livro, era o prolongamento de todas aquelas geringonças que víamos no nosso quotidiano, adaptadas a materiais tão simples e tão apelativos à nossa fértil imaginação de criança. O carro, o ferro de engomar, a TV, os diálogos, as cumplicidades entre Fred e Barney, entre Wilma e Betty, fizeram-nos sonhar, o que tinha sido viver com apetrechos tão modernos no paleolítico superior.

Não apareceu um PC de pedra, com um Windows, Mac, Linux ou Opera, adaptado à linguagem “pouco empedernida” destas famílias.

Também se comemoraram os cem anos da implantação da Republica em Portugal, com mudanças importantes no quotidiano político em Portugal, alteração expectável desde o Regícidio de 1908, onde pereceu o príncipe Luis Filipe, que foi o primeiro alto dignitário português a visitar Angola (1907). Foi em sua homenagem, o nome dado à ponte de ferro da Catumbela, que serviu ininterruptamente a ligação entre Lobito e Benguela durante cem anos.

A monarquia portuguesa deixou Angola entregue à voracidade de gente indesejável em Portugal, o que não é o mesmo que dizer que eram bandoleiros ou saqueadores, já que havia muitos condenados por delito de opinião. Só o Ultimatum, e a Conferencia de Berlim, obrigaram os governantes da monarquia a darem mais atenção à colónia, pois até então não tinha grande expressão no Paço.

Sem querer entrar muito em pormenores, o que se sabe é que o 5 de Outubro de 1910, foi recebido com algum entusiasmo, entre os deserdados portugueses que viviam na colónia, mas com enorme indiferença entre a maioria dos angolanos, principalmente nos dois centros urbanos com alguma importância: Luanda e Benguela.

O que aconteceu depois é sabido; Angolanos, de algumas famílias tradicionais, com um peso social importante, algum poder económico, viram coarctados direitos que possuíam em favor de políticas de implantação de colonos, na esteira do que faziam ingleses e alemães no século XVIII. A Republica foi mesmo quem mais prejudicou, de forma desprestigiante a maioria dos antecessores da oligarquia que hoje governa o País. A Republica utilizou sátrapas em Angola, por isso o Estado Novo teve caminho aberto para fazer o que queria.

Pode parecer paradoxal, mas este tema tem algo a ver, com a recente movimentação em torno da preservação do pouco património edificado que vai restando em Luanda. Vi recentemente uma entrevista com a arquitecta Angela Mingas e E. Freire, em que este ultimo, que foi um dos dinamizadores do ICOMOS (Comité Internacional de Monumentos e Sítios), com Samuel Aço e outros entusiastas, tentaram que algum património histórico, arquitectónico e paisagístico permanecesse incólume e disponibilizado para que todos pudessem dar futuro a vários passados.

A realidade é que muito desse património foi edificado por famílias crioulas tradicionais de Luanda, onde avultavam os célebres sobrados, proprietários de que há uns tempos estiveram em destaque numa animada troca de pontos de vista com o engenheiro Aires Menezes Assis, neste jornal, e que a Republica implantada em Portugal tratou de menorizar e subalternizar em relação aos colonos, até os conseguir desalojar.

É confrangedor assistir-se ao assassínio da cidade, à sua identidade arquitectónica, e histórica, alinhando-se na construção de uns megatéreos, numa tentativa de imitar o Dubai, essa Disneylandia para adultos, onde os nossos empresários e alguns dirigentes vão buscar a inspiração.

Começamos angustiosamente, a pedir que o argumento inicial, “O desejo de Kianda”, romance de Pepetela de 1995, não aconteça na realidade, embora já haja um ou outro indício, que nos permita acreditar que o que foi ficcionado pode ser uma realidade pungente.

Como estamos em tempos de recordar, lembro-me de um certo pregão dos ardinas de Lisboa na década de 50 e 60, que perdurou anos, e que deixava em polvorosa os apaniguados e servidores do regime ditatorial de Salazar. Com o título dos jornais:”Lisboa, Capital, Republica, Popular”. Com o “Diário de Lisboa”,” Capital”, “Republica” e “Diário Popular”, tudo vespertinos, conseguiram dar um grito de resistência!

Esta foi a parte que nada tinha a ver com as histórias, mas precisava de adornar um título!

Fernando Pereira

3/10/2010

1 de outubro de 2010

"AVULSISES"/ Ágora/ Novo Jornal / Luanda 2-10-2010


Horácio Sá Viana Rebelo, foi governador-geral de Angola no período entre 1957 e 1960. Para além de ser um sportinguista dos quatro costados, e a quem se deve a edificação do complexo desportivo e sede do Sporting de Luanda junto ao estádio dos Coqueiros, a sua passagem pela colónia foi marcada por algum crescimento económico, face à excelente cotação do café no mercado internacional na primeira metade da década de 50.


Por falar em Sporting de Luanda, não posso deixar de trazer à lembrança uma frase emblemática do Luis Vaz, presidente vários mandatos, numa entrevista ao semanário Notícia no início da década de 70: “ A minha relação com o Benfica é esta: A única coisa que eu tenho vermelha em casa é o tapete, onde esfrego os pés e entro com os sapatos limpos em casa”. Luis “Verde”, como também era conhecido, quando se referia a alguém do Benfica dizia que “só conseguia usar uma linguagem: a tiro!”. Esta frase testemunhei-a eu, quando ele discutia com prosélito sportinguismo um Sporting-Benfica, que tinha estado a comentar durante horas com os decibéis desregulados, após ouvir entusiasmado o relato na Emissora Nacional portuguesa em onda curta.

Voltando a Sá Viana Rebelo, havia uma história em Angola, que sugestionava que a pousada de Kalandula, ao tempo Duque de Bragança, teria sido feita para servir o casamento de sua filha. O local era paradisíaco, mas a realidade é que a pousada nunca conseguiu qualquer viabilidade económica, para além de uma progressiva degradação, e já só abriu com alguma regularidade no toque a finados da presença colonial portuguesa em Angola.

Visitei-a, miúdo nos anos sessenta, quando o asfalto era só até ao Lombe, lembro-me de a ver fechada, com vidros estilhaçados, e com o equipamento cheio de ferrugem, assim como os elevadores completamente deteriorados.

A pousada foi feita a meio da encosta, onde se avistava toda a monumentalidade das quedas, mas também levava com a “espuma” provocada pelas águas revoltas do Lucala, e que assim levou ao deteriorar rápido de uma estrutura, que nasceu debaixo de fortes suspeitas quanto à sua real utilidade e necessidade. Citando o angolano Fausto Bordalo Dias numa das suas canções: “Atrás de tempos vem tempos e outros tempos hão-de vir”!

Mudando de assunto, na busca de algumas histórias da história algo rocambolesca que foi a construção do Caminho de Ferro do Ambaca, e que depois das vicissitudes da sua falência, se transformou no Caminho de Ferro de Angola, vai de Luanda a Malange, ficando para ser continuada até ao Luau, depois de ter sido alterado o plano inicial, que previa ir do Lucala à então Leopoldeville (Kinshassa), descobri que Bento Gonçalves (1902-1942), primeiro secretário-geral do Partido Comunista Português foi trabalhador das oficinas do CFA.

Efectivamente, na busca de melhores oportunidades resolveu deixar o Alfeite (ao tempo Arsenal da Marinha em Lisboa), onde trabalhava e entre 1924 e 1926, tendo sido um propulsor de um movimento sindical com alguma importância ao nível dos Caminhos de Ferro de Angola, o que o levou a “ser convidado a regressar a Portugal”.

Preso em 1936, faleceu no Tarrafal, Cabo Verde em 1942 com a biliose, e ainda hoje é uma referência para os comunistas portugueses, pelo estoicismo com que enfrentou a doença na dureza das condições do campo, como documentaram para memória futura alguns colegas seus de cativeiro.

Sem pretender ser pérfido, sobre os novos olhares sobre o Tarrafal, no politicamente correcto branquear da história, o que se pode dizer é que Bento Gonçalves “morreu na praia”!

Acho que a estultícia, para ter alguma verosimilhança, e ser levada a sério também terá os seus limites, e certa gente merece respeito, pelo empenho que demonstraram na luta, mesmo que as diferenças ideológicas existam!



Fernando Pereira

28/09/2010

12 de fevereiro de 2010

Hay Goberno? /Ágora / Novo Jornal/ Luanda /12-2-2010



Conheço a "estória" do anarquista espanhol contada assim: o anarquista fazia uma viagem de barco, quando naufragou. Nadou, nadou, nadou até chegar a uma ilha onde viviam miseravelmente, algumas pessoas que tinham naufragado num outro naufrágio. Quando chegou à praia, exausto, perguntou: "Hay Gobierno?". Responderam-lhe que sim e ele disse: "Soy contra!". Fez-se ao mar e continuou a nadar…
Ultrapassado este primeiro parágrafo, com as reticências inerentes, só posso dizer que estou entusiasmadíssimo pois resolvi rever “La Dolce Vida” de Frederico Fellini. Estreado há cinquenta anos (5-2-1960), com Marcello Mastorianni e Anita Ekberg, é um filme icónico da sua filmografia, recheada de uma visão social de uma sociedade italiana e europeia do pós-guerra. É uma marca de um cinema europeu, que urgia ser reinventado.
Por falar em revisões da matéria dada, recuperei o livro de BD de Quino, “Potentes, Prepotentes e Impotentes”, editado pela D.Quixote em 1972. O livro tinha sido emprestado a alguém, que felizmente ao mudar de casa, descobriu-o e devolveu ao seu lídimo proprietário. Porque é um autor referente para mim, porque é um livro de indiscutível mérito, fiquei naturalmente satisfeito por reavê-lo. Um livro obrigatório para os “Potentes, Prepotentes e Impotentes”, e para todos os que o são sem o saberem, e para os que os outros sabem que há gente que não o é!
O ultimo livro de Francisco José Viegas, foi o mais desinteressante do que dele li até hoje, “O Mar em Casablanca”. É pouco mais que um arremedo de um policial, em que o personagem central é talvez um cadáver encontrado num hotel de umas termas decrépitas do Norte de Portugal, e que teria estado ligado ao 27 de Maio de 1977. Toda uma história que não percebi porque ligava o homem ao 27, aos diamantes, e por aí fora! Um livro, talvez mesmo a evitar, embora o Francisco José Viegas seja um excelente escritor e um prestigiado divulgador cultural.
Na esteira dos livros, uma verdadeira pedrada no charco são os “Cadernos de Memórias Coloniais” de Isabel Figueiredo da Angelus Novus, pequena editora de Coimbra. Esta obra, embora fossem memórias de Moçambique, terá aberto a caixa de Pandora do que procurou ser escondido pelos retornados que viveram em África. Um livro sem margem, sem fronteiras, com descrições duras de realidades vividas ou de histórias ouvidas, mas sem recorrer ao artificio, e sem procurar qualquer exercício, ainda que dissimulado de expiação, ou abjurar o que quer que seja. Um livro duro de ler, mas como tem levado tanta pancadaria em fóruns e na blogosfera, por parte de retornados das ex-colónias em Portugal, já há garantia de que de facto mexeu com eles e bem.
Fui no dia 4 de Fevereiro à Casa do Alentejo em Lisboa, à apresentação do livro “Lucio Lara, imagens de um percurso”, e gostei do que vi; Numa das salas mais bonitas da cidade, completamente cheia, muitos colunáveis e outros nem por isso, prestaram uma homenagem a um Homem, que merece de Angola a eterna gratidão e o redobrado respeito. Zeferino Coelho, da Caminho, Conceição Neto e Veiga Pereira, recordaram um pouco o percurso do Tchiweka, e relembraram-nos na necessidade de apoiar a Associação, que a paciente organização de Lucio Lara, permite hoje ter divulgado esta obra magnífica.
Mais um 4 de Fevereiro muito bem passado!

Fernando Pereira
7/2/2010

4 de dezembro de 2009

“E o canto do não, dobrou!”/ Ágora/ Novo Jornal / Luanda 4-12-09




Primeiro levaram os negros/ Mas não me importei com isso/ Eu não era negro. / Em seguida levaram alguns operários/Mas não me importei com isso/ Eu também não era operário./ Depois prenderam os miseráveis/ Mas não me importei com isso / Porque eu não sou miserável. / Depois agarraram uns desempregados/ Mas como tenho o meu emprego/ Também não me importei. / Agora estão-me levando / Mas já é tarde/ Como eu não me importei com ninguém / Ninguém se importa comigo.
Bertold Brecht (1898-1956)

Comecei esta crónica com um poema de uma das poucas referências que trouxe da “idade da razão” e que vou mantendo, quase como espólio, nestes anos que preenchem a “razão da idade”.
Guardei sempre de Brecht alguns versos para ilustrar situações e esta “Do rio que tudo arrasta/ Se diz que é violento. / Mas ninguém diz violentas/ As margens que o comprimem.” tem sido a recorrentemente utilizada nas mais variadas ocasiões e, pelos vistos, tem que ser mais lembrada que o cartão de débito ou crédito.
Não vou falar de Brecht, porque, de certa forma, sou demasiado “possessivo” para o partilhar, mas vou dar um pouco de ruído a gente aparentemente silenciada.
Daniel Filipe (1925-1964) foi um dos poetas cabo-verdianos de pouca obra mas profícua e importante para muitos da minha geração. A sua “Invenção do amor” era para muitos de nós “um cartão/ que o amigo maninho tipografou/ por ti sofre o meu coração/ num canto ‘sim’/ noutro canto 'não'/, como estava no “Namoro” de Viriato da Cruz. Era o livro que dávamos a alguém, esperando receber o seu amor em troca ou, não sendo possível, pelo menos uma atençãozinha de “sua parte”. Ainda hoje tenho um que me devolveram e ainda bem porque já não se encontra à venda em lado nenhum. Há um disco de Mário Viegas, reeditado recentemente em CD, notável pela força do poema, reforçado pela declamação virtuosa e talentosa do actor. Combatente da ditadura salazarista, anti-colonialista, Daniel Filipe foi cedo para Portugal onde estudou. Preso e torturado pela PIDE, regressa a Cabo Verde onde dirige jornais, morre precocemente, ignorado e esquecido por todos. “Pátria, Lugar de Exílio” é outra das suas obras poéticas de tomo que, de certa forma, me faz lembrar muito dos poemas de outro “espoliado de pátria”, Jorge de Sena.
Houve um homem em Luanda que, entre muita coisa, me falava e que me fez falta ouvir mais, e que me deu a conhecer Daniel Filipe: Felisberto Lemos.
Esse infatigável lutador anti-fascista, divulgador cultural na sociedade colonial, a quem Manuel Alegre chamou o “Livreiro da esperança” foi, durante décadas, até à sua saída em 1977, o homem a quem todos recorriam para terem o livro que a censura e o poder colonial proibiam, num verdadeiro opróbrio à seriedade e à discussão liberta e tolerante das ideias.
Foi para Angola depois de ter sido expulso da Coimbra Editora por motivos políticos e é na Lello, em Luanda, que é acolhido, onde mantém viva uma tertúlia e permanece fiel aos seus princípios, com uma coluna vertebral direita, não se sujeitando à mediocridade, resistindo à quietude moral e desafiando a mentalidade medíocre e passiva.
Regressa a Coimbra, depois de expulso de Angola, em circunstâncias nunca esclarecidas, acolhido inicialmente na Atlântida, transferindo-se para a livraria do “Jornal” apoiado por Beça Murias, José Carlos Vasconcelos e o malogrado Fernando Assis Pacheco e, já no fim da sua vida, pela amizade de Joaquim Machado na Novalmedina. O Felisberto da Lello nunca se queixou de nada, nem de ninguém, assumindo sempre Angola com o respeito que não vejo em muitos angolanos com responsabilidades. Foi confrangedora a forma como Felisberto viveu os seus últimos anos, com a saúde a deteriorar-se e sem recursos que lhe valessem. Quando morreu, foi a consternação generalizada porque foi um homem de grande carácter que desapareceu e que ajudou muitos a formarem as suas convicções e a lutar por elas, dentro do primado da liberdade, da democracia e de uma sociedade mais igualitária.
Brecht, Daniel Filipe e Felisberto Lemos eram diferentes em muitas coisas, a poesia e a vida coerente junta-os!
Há homens que são capazes/ de uma flor onde/ as flores não nascem/
Outros abrem velhas portas/ acendem nas praças uma rosa de fogo./
Tu vendes livros quer dizer/ entregas a cada homem/ teu coração dentro de cada livro.
Manuel Alegre, Livreiro da Esperança - a Felisberto Lemos


Fernando Pereira
25/11/09

27 de novembro de 2009

Volfrâmio/ Ágora / Novo Jornal / Luanda / 27-11-09



Volfrâmio
Fui recentemente a Londres, e enquanto aguardava em Heathrow pelo avião de regresso, deambulando entre as lojas do aeroporto, vejo uma portuguesa radicada em Angola, que apenas conheço pela sua contínua participação em eventos e presença em revistas “cor-de-rosa” ,tão em voga no mercado emergente angolano.
Na loja da “Shwarovski”, insistia que queria uma coleira para a sua cadelinha, pois já tinha vários modelos da referida marca. Não sei se a chegou a comprar porque entretanto saí da loja, já que a conversa entre a “colunável”, e a sua intérprete era no mínimo soez.
Mais uma ilustração do trabalho que o jornal “Expresso” e a SIC fizeram recentemente sobre os “gostos apurados dos angolanos”, e que terá provocado alguns engulhos. Ouvimos, vemos e lemos muito sobre o assunto, e basta ver a pagina de anúncios do Jornal de Angola, para esclarecer, quando: “Vende-se vivenda, com gerador, blá, blá, e com garagem e quintal para cinco carros”!!!
Todas estas manifestações ostensivas de novo-riquismo, que naturalmente acompanha estes períodos de rápido crescimento económico, aliada à muita facilidade em possuir dinheiro, acabam por propiciar a aquisição de bens tangíveis e luxuosos, e transformar a sociedade numa verdadeira ficção, durante um limitado período de tempo.
Sei talvez, porque é que hoje me voltei a lembrar, do grande mestre das letras portuguesas, Aquilino Ribeiro (1885-1963) homem indómito no combate à injustiça, que lhe valeu várias vezes a prisão e o exílio. Em 1943 saiu o “Volfrâmio”, que é a imagem do Portugal rural, iletrado e atrasado, que de um momento para o outro com a II guerra mundial, vê o volfrâmio das terras de paupérrimos recursos, valorizado, permitindo que o dinheiro começasse a jorrar a ritmos nunca previstos nas aldeias do interior do território.
A obra, escrita por um homem com uma verve inigualável nas letras lusófonas, faz a descrição minuciosa, do ridículo desse período fugaz de abastança no “Portugal dos tamancos” , e os gastos em festas, verdadeiras loas ao bacoquismo, em carros que as pessoas nem faziam ideia sequer como trabalhavam, mas que punham na loja, a par do burro ou da junta de bois, não longe do porco para a matança, no jogo, artefactos de joalharia, nalguns casos pagos como tal, e mais não eram que pechisbeque, roupas caras e meretrizes, mandadas vir de Espanha para volúpias, pouco coincidentes com os códigos sexuais restritos da moral católica.
Aquilino Ribeiro foi um escritor com enorme capacidade ao colocar o seu virtuosismo, na “denuncia do que pensa e sente a gente certa”(Ary dos Santos 1937-1984), pelo que “O Volframio” fosse uma obra a ler e talvez fazer exercício de “estudo-comparado” com a situação que se vai vivendo, e que também pode ser mesmo uma situação passageira num percurso evolutivo de uma sociedade, que ainda busca valores que irão reger a sua vivencia colectiva.
Mudando de assunto, li o livro de José Milhazes, “Angola, o princípio do fim da União Soviética”, um título demasiado pretensioso para quem constantemente nos diz ao longo do livro, que os documentos importantes ainda estão arquivados e mantidos secretos. Ficamos a aguardar que os abram, para saber se os poucos depoimentos no livro coincidem.
Milhazes como eu, e muitos outros acreditámos num projecto de sociedade, que ainda se afigura cedo para se retirarem conclusões definitivas, embora nunca tenha acreditado que “o Muro de Berlim servisse para evitar que as pessoas de Berlim Ocidental fossem a Berlim Oriental (ou a Republica de Pankow, como dizia a direita europeia) roubar o que elas lá tinham”, conforme cheguei a ouvir a um ortodoxo comunista. Sobre isto, talvez fosse bom ver o “Good Bye Lenine”, esse magnífico filme de Wolfang Becker de 2003!
Em jeito de lembrete final, não deixem de ir à apresentação do livro “Tibete em África”, da minha amiga Margarida Paredes, no Chá de Caxinde às 18, 30h do dia 3 de Dezembro!

Fernando Pereira
22/11/09

25 de outubro de 2009

A emenda vem do ouvido, o juízo da multidão/ Ágora/ Novo Jornal/ Luanda/ 23-10-09




“O que faz uma nação grande não é tanto os seus grandes homens, mas a estrutura dos seus inumeráveis medíocres”
Ortega Y Gasset (Madrid 1883-1955)
A propósito de um vídeo de uma multifacetada actriz brasileira, Maitê Proença, com talentos sublimados há tantos anos, levantou-se um coro de indignação que há muito se não via por terras de “além ar”(Portugal).
Vi o vídeo, que é uma parte de um programa “Saia Justa” do canal de cabo, GNT, e sinceramente a única coisa que consegui, foi mesmo encontrar alguma similitude na forma como Angola e os angolanos são tratados na blogosfera por alguns expatriados que falam o português, e que trabalham em Angola, de forma recorrente.
Só me apetece citar Eça de Queiroz, que no fim do século XIX, e ainda o número dos países que falavam português no mundo se limitava ao Brasil, dizia:” O brasileiro tem o defeito dos portugueses só que dilatados pelo calor”.
Desapetece-me ter que vir aqui, usar os estafados argumentos de um e outro lado, sobre a forma algo ignara como por vezes se embeiçam as partes envolvidas, mas a realidade é que o angolano pode ter muito defeito, pode dizer muito mal de tudo o que é seu, mas detesta que escarneçam das suas idiossincrasias colectivas.
Tudo isto me fez recuar no tempo, e resolvi reler um dos poucos exemplares que existem de literatura colonial, “ O Velo de Oiro” do escritor Henrique Galvão. Quando se diz literatura colonial, procura distinguir-se do que depois se apelidou de “literatura ultramarina”, que teve um serviçal permanente, Amândio César; acolitado por uns quantos apaniguados ideológicos, como Forjaz Trigueiros, Joaquim Paço de Arcos e outros.
Henrique Galvão (1895-1970) era um integralista indefectível, foi governador da Huíla, inspector superior do Ministério das Colónias, Secretário da Exposição Colonial do Porto, Director da Emissora Nacional e depois disso tudo intransigente opositor de Salazar, o primeiro homem no mundo a desviar um avião por motivos políticos, assim como a figura central do desvio do paquete português “Santa Maria”, que para além da denúncia do regime salazarista (Salazar, que tem como seu maior panegírico, com visibilidade, Jaime Nogueira Pinto), terá tido uma enorme importância, senão determinante, no levantamento de 4 de Fevereiro de 1961.
“O Velo de Oiro” (1931) é uma obra que deveria ser reeditada em Portugal, e devia ser lida pelos portugueses que demandam Angola na busca do dinheiro fácil, ou na procura de resolver os problemas que deixaram noutros lados, e que nalgumas circunstâncias só os agravam! É curioso como é que um livro escrito há 73 anos, tem tanta actualidade, pois “ o sonho que comanda a vida”, nem sempre tem um final razoável, e raras vezes um final feliz. “ O Velo de Oiro”, é basicamente a história de Rodrigo que embarca para África atraído pelo enriquecimento fácil, buscando muito dinheiro e pouco trabalho, e toda a narrativa é construído nas ilusões e desilusões numa África, que nada tinha a ver com o que ouviu e imaginava na sua aldeia distante.
Henrique Galvão ainda tem outro dentro da mesma sequencia, “O Sol dos Trópicos” (1936), mas já contextualizado de outra forma, talvez mais parecido com uma intervenção de Lobo Antunes na fase do “Esplendor de Portugal” ou o seu quase ignorado livro “As Naus”, uma critica muito conseguida ao colonialismo, socorrendo-se das figuras históricas, tão ao gosto da ideologia corporativista.
Há um provérbio popular umbundo que diz: “Ndao lia esila ku ka pohgolole. Ci kasi oko, haiko ci kasi oko”, que quer dizer mais ou menos “não devemos esperar escapar às dificuldades, indo para outra aldeia!
Gostava de poder integrar aqui, porque julgo pertinente no enquadramento do que se tem escrito, a obra de Gilberto Freyre, adaptada às circunstâncias de hoje, e a todo este movimento de gente que faz do “aeroporto 4 de Fevereiro”, primeiro local de peregrinação da lusofonia.
Por razões de enquadramento gráfico, e como pode ser um tema servido de forma “requentada”, sem que perca actualidade, a ele havemos de vir mais cedo que tarde!
Fernando Pereira 14/10/09

10 de outubro de 2009

Anatomia a som de caixa/ Ágora/ Novo Jornal/ Luanda/ 9-10-09


Aleixo de Abreu, médico alentejano licenciado em Coimbra, vem para Angola em 1594, como médico pessoal de Furtado de Mendonça, nomeado por Filipe I, governador de Angola.
Durante os quinze anos em que esteve em Angola, o licenciado tentou estudar dois flagelos horríveis, o mal de Luanda e o bicho. Para o primeiro os barbeiros e curandeiros, tentavam encontrar a cura, já o segundo a mezinha era beber todas as madrugadas um cálice de aguardente.
O mal de Luanda era o escorbuto, como provou Aleixo de Abreu no seu livro sobre enfermidades tropicais, e o bicho era uma doença intestinal originada por vermes, uma “rectite epidémica gangrenosa” como hoje pode ser dito.
O livro escrito em latim e traduzido para castelhano tem o título completo: Tratado de las siete enfermedades, de la inflammacion universal del hígado, zirbo, piloron e riñones, y la obstrucion, de la satiriasi, y fievre maligna y pasion hypocondríaca. Llena otros três tratados, del mal de Loanda, del guzano, y las fuentes e sedades, e é publicado em Lisboa em 1623, tornando-se o primeiro tratado de medicina tropical publicado no mundo.
Já que se fala em medicina, é bom que se saiba que a 11 de Setembro de 1791, na folha 2, verso, do livro V do registo de bandos, Anos 1790-1793, o coronel de cavalaria Manuel de Almeida e Vasconcelos, a propósito da chegada a Loanda do “ilustre médico formado nas melhores academias europeias”, Doutor José Pinto de Azevedo, decidiu abrir uma “escola com aula de medicina prática, com instruções anatómicas, em benefício de todos aqueles que quiserem seguir a profissão”.
Terá sido provavelmente a primeira tentativa de criar uma “faculdade de medicina” em Luanda, pois pouco se soube da sua duração para além da oficialização. Em 1845 é criada em Luanda uma escola médica, à semelhança de Goa, mas para além do decreto nada andou, e Angola teve de esperar pelo dealbar dos anos sessenta do século XX para finalmente ver instalada uma faculdade de medicina, nuns Estudos Gerais Universitários, que se transformaram em Universidade de Luanda.
Há uma história interessante sobre a criação dos Estudos Gerais Universitários, em que são intérpretes Salazar, Adriano Moreira ao tempo ministro do Ultramar, Galvão Teles, ministro da Educação, Veiga Simão, pela comissão instaladora da universidade de Lourenço Marques e André Navarro, da mesma comissão mas de Luanda. Veiga Simão, contou-me que entraram todos para uma sala escuríssima e gelada do palacete de S. Bento em Lisboa, instados a sentarem-se por Salazar, que ofereceu mantas a todos os presentes, num dia de fim de Inverno. Era um quadro surrealista com várias pessoas de mantas partilhadas sobre as pernas!
Começaram a conversar sobre o assunto que os levava ali, e tinha a ver com a instalação do ensino universitário nas colónias, em que Salazar enfatizava o discurso com “ a demasiada instrução que os terroristas poderiam vir a usufruir, e a criarem-se focos de tensão semelhantes às que se viviam em Portugal” (Recorde-se que ainda estavam frescas as grandes movimentações estudantis de 1962, que paralisaram as academias portuguesas durante um lapso grande de tempo). Todos contrariavam esta opinião de Salazar, com os cuidados habituais de não entrar em choque, com as opiniões do chefe supremo. A conversa ia fluindo, e entretanto Salazar levanta-se, e diz a todos: “Se querem dar cursos superiores aos pretos é lá convosco, mas também já não acho que seja tempo de insistir muito, pelo que podem sair daqui com a certeza que assinarei o decreto da criação dos Estudos Universitários em Luanda e Lourenço Marques”, como aliás acabou por ser assinado a 21 de Abril de 1962.
O contentamento era enorme, não partilhado pelo sisudo Salazar, e Veiga Simão era de todos o mais efusivo, pedindo a Salazar para telefonar para Lourenço Marques onde estava muita gente ansiosa por saber o desenvolvimento da conversa. Salazar, com aquela figura mista de seráfico e sardónico aconselha Veiga Simão: “ Senhor Professor, era bom começar a reduzir gastos de instalação, o telefone é caro e o telegrama faz o mesmo efeito”
Parte deste artigo foi feito com recurso ao livro de Ilídio Rocha. Portugueses em África, editado pelo Círculo dos Leitores em 1993.

Fernando Pereira
5/10/09

3 de outubro de 2009

Há cada latitude.../Ágora/ Novo Jornal / Luanda/ 3-10-09



No dealbar dos anos 70, era habitual na Europa os universitários fazerem o Inter-Rail, uma viagem pelos países que quisessem, com um bilhete que dava para um mês.
O bilhete era barato, mochila às costas, tenda partilhada com companheiros, um fogão camping gás, uma frigideira, uma leiteira, um prato e uma caneca de alumínio, um par de calças de ganga, várias t-shirts, um camisolão de lã, uma toalha, muita papa Cerelac, Nestum e leite condensado Moça, muito pouco dinheiro distribuído por tudo o que era buraco e uma bolsa de cabedal ao pescoço onde colocávamos o Passaporte e o cartão internacional de estudante.
As viagens de comboio são fascinantes, e quando são longas permitem toda uma série de sentimentos cruzados, aliados à contemplação, que o balançar sereno das carruagens nos traz num estado de completo desprendimento. Recordar Agatha Christie nos seus incontornáveis ‘4.50 from Paddington”, ou “Murder on Orient Express”, Zola em “La Bête Humaine”, “Desert Rails” de L.P. Holmes, Sepulveda no seu brilhante “ Patagónia Express”,Tolstoi, Remo Ceserani, Machado de Assis, Eça de Queirós entre tantos outros, é fazer o mundo com bonitas palavras escritas sobre carris.
Nessa viagem dormíamos nas viagens durante as noites nos comboios, nos lugares mais incríveis das carruagens, nas salas das gares, nos jardins públicos, às vezes nos parques de campismo e muito ocasionalmente nas pousadas da juventude. Não vou descrever minuciosamente essa viagem, mas que de facto deu para fazer coisas que nunca mais na vida tivemos oportunidade de fazer, durante vinte e poucos dias, num ambiente de grande companheirismo, de enorme solidariedade, e num querer conhecer o mais possível uma Europa, que para nós angolanos, era ao tempo de igual fascínio o que o Dubai é hoje para certos angolanos!
Nos canais de Amesterdão, estávamos sentados num cais a ver o movimento dos barcos e a comermos a nossa frugal refeição diária, e naturalmente falávamos alto sem cuidados com a linguagem. A determinada altura uma senhora que nos estava a observar, pergunta-nos num português quase perfeito, de onde éramos; Respondemos que éramos de Angola, e muito surpreendidos ficámos quando ela disse que conhecia muito bem Angola, e pelo que descreveu conhecia-a bem melhor que alguns de nós. A sua ligação a Angola, justificava-se pelo facto do irmão ser padre no Chinguar, tendo-nos contado algumas peripécias das suas visitas em Angola, acompanhamento adequado e sempre lembrado opíparo lanche, que nós já não tínhamos desde que arrancámos de Coimbra.
Rapidamente esquecemos este lanche, porque a viagem teve peripécias mais interessantes para recordar, mas a verdade é que este lanche provou ser providencial uns anos mais tarde, noutras circunstâncias e noutras latitudes.
Fiz pelo País, múltiplas viagens na discussão da carta do desporto angolano, e no estatuto das associações desportivas angolanas, acompanhado com o meu amigo, António Sousa Santos, insigne mestre do desporto que Rui Mingas em boa hora recrutou para a SEEFD. Uma dessas viagens foi ao Huambo e ao Kuito. No Huambo estávamos no hotel Almirante, um verdadeiro exemplo kitsch e a tresandar a Lifebuoy em todos os objectos, andares, ancoras, bombordos e estribordos, numa decoração delirante e a provocar uma hilaridade impossível de conter. Saímos de manhã cedo, “depois da camioneta de carreira”, porque assim se saberia se haveria impedimentos na estrada, e eis-nos num Fiat 128 a caminho do Kuito, tendo-nos limitado a beber um café e umas bolachas de qualidade duvidosa; Passámos Tcikala-Tchiloango, a pedra do Alemão, onde reza a história que se terá suicidado um alemão aí residente quando soube da derrota da Alemanha na 2ª guerra, Katchiungo, e numa curva apertada, por baixo de uma ponte do CFB, eis que aparece o nome da terra: Chinguar. Conheço algumas pessoas ilustres dessa terra como o meu amigo Orlando Ferreira Rodrigues e o Carlos Correia, físico, catedrático da Universidade de Coimbra, e acompanhante de viola do Zeca Afonso, mais conhecido por Bóris, pelas semelhanças com o actor britânico Boris Karloff ( 1887-1969).
Nesse dia lembrei-me do lanche de Amesterdão uns anos antes, e fiz questão de visitar o padre, que perante uma reserva inicial, ficou encantado ao saber em que circunstancias tinha conhecido a sua irmã. O padre Arnaldo convidou-nos para um lauto pequeno-almoço, que destoava do quotidiano daquele tempo, em que ele dizia que só não podia ser melhor, porque na semana anterior as “gloriosas Faplas tinham surripiado umas galinhas do galinheiro da paróquia (sic)”. Encheu-nos o carro de iguarias, como cestos de morangos que carregámos no regresso ao Huambo, e ainda tive o prazer de ouvir os agradecimentos do motorista ao padre, de forma reconhecida e repetida: “Muito obrigado camarada padre”! Passei por lá algumas vezes e sempre partilhámos o que havia para comer, e trocarmos conversas interessantes, o que não é fácil em mim dado alguma formação assumidamente anti-clerical.
Sei que o padre Arnaldo já morreu há muito, mas o Chinguar deve-lhe muito e deixou muitos amigos entre toda aquela gente, como posso testemunhar pelo conjunto de pessoas que sempre o relembram com palavras de saudade e embevecimento.
Amesterdam, foi uma das músicas míticas de Jacques Brel, que se fosse vivo teria feito em Abril deste ano oitenta anos! Também não o esquecemos!

Fernando Pereira
28/09/09
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