14 de maio de 2026

Sem lei nem Locke / O Interior / 13 de Maio de 2026

 

                                            


        

                                            Sem Lei nem Locke

 

                Estamos a assistir ao enviesado regresso de John Locke (1632-1704), em que o liberalismo está a assumir contornos de alguma selvajaria num mundo cada vez mais multipolar.

 Do “cândido” liberalismo de Locke em oposição às premissas platónicas prevalecentes durante séculos na Europa das trevas, tudo o que assistimos hoje é o desmoronar das ideias perante a ofensiva de um capitalismo selvagem, que vai tentando esbater o primado do marxismo da luta de classes. Tempos difíceis onde um niilismo sórdido se assume como “doutrina global”. Tempos duros para os que viveram dias diferentes de maior esperança e determinação em lutas, que pensadas e assumidas, não nos levaram a muito na prática quotidiana.

Fica a reflexão brechtiana: “Se os tubarões fossem homens, será que eles seriam mais gentis com os peixinhos?”. Não acho que o objetivo dos “amanhãs que cantam” seja alcançado, mas prefiro sonhar que isso seja possível, ao invés do “deixandarismo” que se vai vivendo na sociedade e nas relações interpessoais, quiçá entre instituições e países.

Deixou-nos Carlos Brito (1933-2026) e o seu desaparecimento deixa uma profunda tristeza em todos que o conheceram, aos que com ele conviveram e sobretudo aos que com ele acreditaram que o combate em que participaram tinha muito de justo embora simultaneamente de romântico.  Karl Marx no 18 de Brumário de Luis Bonaparte: “Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo a sua livre vontade; não a fazem sob circunstâncias da sua escolha e sim sob aquelas com que se defronta, diretamente, legadas e transmitidas pelo passado.”

Nunca fui militante do PCP, terei sido simpatizante, “compagnon de route”, fiz parte de listas às autarquias e pontualmente participei em reuniões e debates como convidado. Se fosse militante as minhas observações em relação ao PCP eram feitas nos órgãos próprios. É o meu entendimento das ligações partidárias, seja no PCP seja em que partido for.

Fiquei profundamente desagradado, e já começam a ser vezes demais para o meu gosto, da forma quase “escondida” como o PCP foi obrigado a escrever umas linhas sobre o desaparecimento de Carlos Brito. Ele não foi um qualquer no PCP, e não vale a pena vir-se com a estafada ladainha que todos são tratados por igual, foi um quadro generoso que lutou, foi preso pela PIDE, desenvolveu atividade política relevante na organização do PCP depois do 25 de Abril de 1974, foi candidato Presidencial, leader parlamentar e sabe-se que foi sempre um homem de enorme probidade no seu quotidiano de vida.

Não tenho o direito de falar do PCP e da sua organização interna, mas há muito que não gosto do que assisto, e sobretudo adivinho sempre tudo o que vai ser feito, e sinceramente desgosto-me antes que as atitudes do “centralismo democrático” sejam tornadas públicas.

O PCP tem razão na grande maioria das suas propostas para a edificação de uma sociedade mais justa, mas perde porque a comunicação é francamente má e a opacidade dos seus órgãos internos impede que as pessoas consigam ter uma ideia de um partido moderno, mais dinâmico e interventivo na sociedade em que chavões e hiatos se perpetuam na sua prática política. A muita razão que tem esvai-se pela intervenção, nalguns casos pueril, dos seus intervenientes.

A fase terminal de Cunhal foi dolorosa para o PCP, e se Carlos Carvalhas, um SG que admirei tentou inverter tudo num tempo em que nada era a favor do Partido, o consulado de Jerónimo de Sousa antecipou a pouca expressão que Paulo Raimundo dá ao PCP.

Esta reflexão não é catarse nenhuma, porque não sinto que tenha que a fazer, mas é apenas umas poucas linhas do muito que tenho para dizer. Recomendo a leitura ou a releitura do livro de Raimundo Narciso, um homem do PCP e da ARA (Acção Revolucionária Armada) “ Álvaro Cunhal e a dissidência da terceira via” , para perceberem quanta razão estavam os da “Refundação Comunista”, onde Carlos Brito se manteve como comunista até ao fim da vida.

O insuspeito Bertolt Brecht num contexto parecido deixou esta frase: “ As pequenas mudanças são inimigas das grandes mudanças”.

 

Fernando Pereira

9/05/2026

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