Sem Lei nem Locke
Estamos a
assistir ao enviesado regresso de John Locke (1632-1704), em que o liberalismo está a assumir
contornos de alguma selvajaria num mundo cada vez mais multipolar.
Do “cândido” liberalismo de Locke em oposição
às premissas platónicas prevalecentes durante séculos na Europa das trevas,
tudo o que assistimos hoje é o desmoronar das ideias perante a ofensiva de um
capitalismo selvagem, que vai tentando esbater o primado do marxismo da luta de
classes. Tempos difíceis onde um niilismo sórdido se assume como “doutrina
global”. Tempos duros para os que viveram dias diferentes de maior esperança e
determinação em lutas, que pensadas e assumidas, não nos levaram a muito na prática
quotidiana.
Fica a
reflexão brechtiana: “Se os tubarões fossem homens, será que eles seriam mais
gentis com os peixinhos?”. Não acho que o objetivo dos “amanhãs que cantam”
seja alcançado, mas prefiro sonhar que isso seja possível, ao invés do “deixandarismo”
que se vai vivendo na sociedade e nas relações interpessoais, quiçá entre instituições
e países.
Deixou-nos
Carlos Brito (1933-2026) e o seu desaparecimento deixa uma profunda tristeza em
todos que o conheceram, aos que com ele conviveram e sobretudo aos que com ele
acreditaram que o combate em que participaram tinha muito de justo embora
simultaneamente de romântico. Karl Marx no
18 de Brumário de Luis Bonaparte: “Os homens fazem a sua própria história, mas
não a fazem segundo a sua livre vontade; não a fazem sob circunstâncias da sua
escolha e sim sob aquelas com que se defronta, diretamente, legadas e
transmitidas pelo passado.”
Nunca
fui militante do PCP, terei sido simpatizante, “compagnon de route”, fiz parte
de listas às autarquias e pontualmente participei em reuniões e debates como
convidado. Se fosse militante as minhas observações em relação ao PCP eram
feitas nos órgãos próprios. É o meu entendimento das ligações partidárias, seja
no PCP seja em que partido for.
Fiquei
profundamente desagradado, e já começam a ser vezes demais para o meu gosto, da
forma quase “escondida” como o PCP foi obrigado a escrever umas linhas sobre o
desaparecimento de Carlos Brito. Ele não foi um qualquer no PCP, e não vale a
pena vir-se com a estafada ladainha que todos são tratados por igual, foi um
quadro generoso que lutou, foi preso pela PIDE, desenvolveu atividade política
relevante na organização do PCP depois do 25 de Abril de 1974, foi candidato
Presidencial, leader parlamentar e sabe-se que foi sempre um homem de enorme
probidade no seu quotidiano de vida.
Não
tenho o direito de falar do PCP e da sua organização interna, mas há muito que
não gosto do que assisto, e sobretudo adivinho sempre tudo o que vai ser feito,
e sinceramente desgosto-me antes que as atitudes do “centralismo democrático”
sejam tornadas públicas.
O PCP
tem razão na grande maioria das suas propostas para a edificação de uma
sociedade mais justa, mas perde porque a comunicação é francamente má e a
opacidade dos seus órgãos internos impede que as pessoas consigam ter uma ideia
de um partido moderno, mais dinâmico e interventivo na sociedade em que chavões
e hiatos se perpetuam na sua prática política. A muita razão que tem esvai-se
pela intervenção, nalguns casos pueril, dos seus intervenientes.
A fase
terminal de Cunhal foi dolorosa para o PCP, e se Carlos Carvalhas, um SG que
admirei tentou inverter tudo num tempo em que nada era a favor do Partido, o
consulado de Jerónimo de Sousa antecipou a pouca expressão que Paulo Raimundo
dá ao PCP.
Esta
reflexão não é catarse nenhuma, porque não sinto que tenha que a fazer, mas é
apenas umas poucas linhas do muito que tenho para dizer. Recomendo a leitura ou
a releitura do livro de Raimundo Narciso, um homem do PCP e da ARA (Acção
Revolucionária Armada) “ Álvaro Cunhal e a dissidência da terceira via” , para
perceberem quanta razão estavam os da “Refundação Comunista”, onde Carlos Brito
se manteve como comunista até ao fim da vida.
O
insuspeito Bertolt Brecht num contexto parecido deixou esta frase: “ As
pequenas mudanças são inimigas das grandes mudanças”.
Fernando
Pereira
9/05/2026

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