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15 de janeiro de 2022

Despandemizemo-nos rapidamente! / O Interior / 14-01-2021

 




Despandemizemo-nos rapidamente!

Nos tempos que correm e nas circunstâncias que ocorrem, socorro-me da frase de João Guimarães Rosa: “Medo não, mas perdi a vontade de ter coragem”.

                Estamos em plena campanha eleitoral de um plebiscito que deveria ter sido evitado, que irá reposicionar tudo mais ou menos na mesma, e que a partir de trinta deste mês  serão atribuídas culpas a esmo, e logo se irá ver quem aparecerá assim como o dragão no nevoeiro escocês de Loch Ness.

                “Ninguém experimenta a profundidade de um rio com os dois pés” é um provérbio bantu que exprime um pouco a situação prevalecente. Uns porque queriam reafirmar poder pessoal, outros afirmarem o seu “grupo de status”, uns quantos a tentarem dar resposta a sensibilidades internas, poucos a tentarem forçar o mando sozinhos, e também alguns que tendo tudo um pouco a ganhar fazem o estardalhaço habitual contra uma democracia que lhes dá visibilidade e palco, para abastardização dos valores de solidariedade e liberdade. Sobre estes últimos lembro a frase de Hélia Correia: “A ameaça da ignorância muda de face, mas não muda de maldade”.  

                Não estou entusiasmado, melhor estou quase abúlico em relação a um processo eleitoral que nada augura de bom e que tem sido de uma confrangedora falta de ideias e propostas, pelos intervenientes de sempre nalguns casos e de há muito noutros.

                Os raros debates que vou vendo são entediantes, os que viraram comentadores andam sempre em volta dos lugares comuns, e a prepararem-se para dizer em breve tudo ao contrário, do que previram com o mesmo ar cândido com que hoje vertem verdades absolutas.

                Ao interior lá aparecem com um ar sorridente, mas simultaneamente enfatuado, os que encontraram com assinalável esforço de encosto as prebendas de um lugar de fato e gravata, que me faz sempre lembrar o anúncio da lisboeta Rosicler nos anos sessenta do século passado: “a loja que veste hoje o homem de amanhã”!

                Em suma vem oferecer milhões para milhares de coisas, sem que haja alguém que faça a comezinha pergunta: Como se obtém dinheiro para tudo isso?

                É o folclore habitual do muito que virá, mas que se perde no caminho.

                Por falar em idas e vindas, e como sou um utilizador de comboios, resolvi um destes dias voltar a Lisboa pela renovada Linha da Beira Baixa. Apanhei o Intercidades na Guarda e lá fui até Lisboa. Como vinha no mesmo dia resolvi fazer o percurso inverso, que me pareceu adequado. Porque preciso de uma ficha para utilizar o PC, e só a 1ª classe disponibiliza o serviço, utilizo-a com frequência, embora até ao Entroncamento não seja fácil arranjar bilhete nessa carruagem porque é ocupada por funcionários da CP e familiares, o que acho no mínimo ridículo, que quem paga o serviço fica sem a poder utilizar.  A verdade é que até à Covilhã o comboio vinha composto, daí até à Guarda dei-me conta que era o único passageiro num percurso em que o comboio parou em cinco ermos, ou apeadeiros, e demorei 55 minutos. De Lisboa à Covilhã o comboio para em 8 estações e demora 3h e 40 minutos.

                Poderia alongar-me, sobre a falta de limpeza, sabão e papel nas casas de banho, mas acho que é estoico fazer-se uma viagem a Lisboa de comboio, em que um passageiro anda 9 horas, se quiser ir e vir no mesmo dia!

                Como diz Gonçalo Miguel Tavares: “A impaciência dos passageiros não pode acelerar o comboio”

                Bom Ano de 2022 e vamos tentando despandemizarmo-nos!

 

Fernando Pereira

10/01/2022

9 de dezembro de 2021

Futuro do lado de lá ! O Interior - 9/12/2021

 




Futuro do lado de lá !        

 

“Porque não vemos as coias como eles são: vemos as coisas como somos…”

Anaïs Nin

               

Não sei se a minha geração é a mais egoísta da história, mas estará indiscutivelmente entre as maiores!

A realidade demonstra que a nossa geração é a primeira na história da humanidade que vai legar aos nossos filhos uma situação pior do que a que nós vivemos, e a ironia triste de tudo isto é que a gente que sobrevem é a mais bem preparada de todas.

Esta constatação não é minha, tem sido um dado progressivamente adquirido um pouco num contexto global, havendo as naturais exceções que confirmam a regra! Na Europa e no mundo desenvolvido, e em grande parte do espaço de subdesenvolvimento assistimos a este fenómeno que nos deveria preocupar.

Em Portugal a geração que nos precedeu viveu momentos dolorosos como a guerra colonial, o recurso à emigração forçada e à limitação da liberdade individual e coletiva. Foi essa geração que lutou e conquistou a liberdade com o 25 de Abril de 1974. Ainda beneficiou de alguns direitos que conquistou, como a gratuidade dos serviços de saúde, uma escolaridade obrigatória para os seus filhos, direito ao voto, direitos cívicos e a uma reforma melhorada, mas irrelevante. Foi uma geração de sacrifício, que proporcionou à nossa uma situação que em circunstância alguma podemos legar aos nossos filhos.

Enquanto hoje fomos tendo um emprego para a vida, a única coisa que oferecemos aos que vem a seguir é a precaridade, salários menos compensadores e falta de perspetivas de ter uma reforma proporcional à qualidade das suas aptidões, indiscutivelmente melhores do que as da nossa geração.

Posso parecer pessimista ou catastrofista, mas de facto a pressão do capitalismo, a desregulação do trabalho e a cada vez maior distanciação da geração mais nova em relação à política e aos sindicatos, deixam-me assustado perante o quadro que se depara para o futuro.

Legámos uma sociedade de muito egoísmo, de excessiva falta de solidariedade em torno de valores com o receio que nos fossem tirados por outros algumas migalhas, que teriam sido importantes na construção de uma perene consciência coletiva.

A nossa classe média passou a média de classe porque olha sempre para o seu umbigo egoísta e desatento.

A nova geração não se revê, e faz muito bem, nos estereótipos com que a minha geração se entretém. Já não ligam ao “mascarar” uma parte significativa da ideologia do jacobinismo, do integralismo, do marxismo, do republicanismo, da social democracia e de muitos fenómenos políticos passadistas. Tem novas propostas e felizmente vamos vendo essa geração em manifestações com motivações de temas em que a nossa geração não pensou, mas que são importantes num futuro num mundo global.

Muitas propostas desta geração dos nossos filhos parecem-nos pueris, mas a preparação técnica e científica dá-lhes alavancas novas para as transformarem em dinâmicas interessantes, que  já não viverei o suficiente para ver na sua plenitude.

Felizmente esta geração que nós desconstruímos não adere à extrema-direita acéfala, como cada vez se interessa menos pelo envelhecimento das propostas dos partidos convencionais e algumas ideologias a precisarem de rever chavões e marketing fora de prazo.

“O passado é já bastante. Vamos passar ao futuro” Ary dos Santos

 

Fernando Pereira

6/12/2021

 

 

 

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