9 de janeiro de 2026

Prefácio do Livro dos 2ºs jogos da África Central

 



“O passado nunca está morto. Nem sequer faz passado” William Faulkner (Requiem por uma freira).

 

Recordar os segundos jogos da África Central quase quarenta e cinco anos depois é um exercício de nostalgia confortável, num contexto da história de um País com meio século de vida coletiva.

                Os segundos Jogos da África Central que decorreram entre 20 e 31 de agosto de 1981 foram porventura a maior manifestação desportiva de sempre em Angola.

                Da Comissão Organizadora dos Jogos da Afica Central (COJAC) já somos poucos os sobreviventes, mas somos a memória de um tempo em que o voluntarismo, a solidariedade e a indómita vontade de fazer eram valores que deixaram uma marca num tempo em que tudo era novo, e tudo que de bom ou mau fizéssemos era, ou podia ser inovador.

                Sou com enorme orgulho um dos que restam, e por isso não posso deixar de homenagear os meus camaradas do COJAC e também um conjunto enorme de gente anónima,  que fez desses jogos um fazer sentir que a então Republica Popular de Angola era capaz de se afirmar como um País com capacidade de organização, e que tinha gente valorosa para fazer vingar a sua independência conquistada a golpes de vontade!

As palavras de Louis Althusser (1918-1990) em que “um idealista é um homem que sabe de que estação sai o comboio e qual é o seu destino. Sabe-o de antemão e, quando entra no comboio, sabe para onde vai desde que o comboio o leve. O materialista, pelo contrário, é um homem que apanha o comboio, sem saber de onde vem, nem para onde vai” sintetizam muito bem o que se passou nos tempos em que Angola assume a organização dos jogos em Luanda. Aos primeiros tempos de um idealismo de uma ciclópica tarefa sobrepôs-se o materialismo de a ver realizada com toda a alegria esfuziante de ter visto a tarefa acabada com sucesso.

Recordar os jogos de Africa Central é sobretudo sentir quanto foi a perseverança continuada de Rui Alberto Vieira Dias Mingas, secretário de estado de educação física e desportos no fim dos anos setenta e no dealbar dos anos 80. A realidade é que só essa obstinada força de vencer conseguiu que os jogos se realizassem, apesar de tantas contrariedades, dúvidas e escolhos que se manifestaram desde o primeiro dia em que se assumiu realizarem-se os jogos.

Porque fiz parte da equipa acompanhei de perto todas as vicissitudes, as alegrias, as tristezas, as dúvidas, as discussões e outros circunstancialismos que desde essa altura fiquei com a convicção que não há nada tão monótono como a perfeição.

Ao tempo a África, ainda com a África do Sul e a Namíbia não libertadas do regime de apartheid, estava dividida em sete zonas de desenvolvimento desportivo, estipulado pelo CSSA, Conselho Superior de Desportos de África, estrutura diretora do desporto africano ao nível continental.

Angola era a sede da sexta zona de desenvolvimento desportivo e englobava também a República do Zaire, República Popular do Congo, Gabão, Camarões, Guiné Equatorial, Burundi, Ruanda, Chade, República Centro Africana e S. Tomé e Príncipe.

Os primeiros jogos tiveram lugar em Libreville no Gabão em 1976 com os problemas inerentes à primeira organização de uns jogos desta dimensão.  Daqui colheram-se experiências que evitassem erros que pudessem pôr em causa novas realizações, quer em novos jogos, quer em provas sectoriais de modalidades realizadas fora do âmbito de uma competição de maiores recursos, que pontualmente se iam fazendo em campeonatos zonais.

Decidiu-se atribuir a Angola a organização dos 2ªs jogos da África Central, que o governo da RPA aceitou depois de ponderada decisão face às exigências que eram colocadas a um País em guerra, com ameaças externas constantes e com exiguidade de quadros experientes que pudessem responder cabalmente ao desafio. Acrescia a falta de recursos económicos para iniciativas desta dimensão.

Com o reiterado  idealismo e uma mobilização extrema por parte do governo da RPA, e para além dos desportos, houve a  inclusão de agentes dos ministérios da educação, saúde, comércio externo, construção,  defesa, segurança, transportes, plano, relações exteriores e ainda comissariados provinciais e municipais bem como a presença continuada dos órgãos de difusão massiva, como ao tempo se chamava a comunicação social.

As pessoas não fazem ideia dos recursos humanos que isto mobilizou durante um ano e meio, para conseguir que aqueles onze dias de Agosto de 1981 fossem os dias mais impactantes de uma Angola a viver ainda a sua meninice demasiado atribulada.

A então República Popular de Angola precisava de se afirmar com uma identidade própria no contexto das nações africanas e mundiais. Tinha saído de um processo de independência difícil e a gestão política dos primeiros anos tinham sido internamente tumultuosos e ficaram marcas profundas na sociedade angolana no primeiro lustro como nação.  Desporto e a mobilização da juventude para a cultura física, a criação de estruturas organizadas de entidades desportivas, início de campeonatos regulares, o aparecimento de seleções nacionais e integração da RPA nas instâncias desportivas internacionais foram alavancas decisivas para afirmação do País num contexto em que muito mais nos era desfavorável que o contrário.

O desporto e a política andaram de braço dado porque havia um claro objetivo de sentir que a palavra “Desporto para todos” não fosse só um slogan, mas acima de tudo um estar e participar num País novo, com ideias novas em que a cultura física fosse indispensável para a criação de um cidadão novo numa inovadora sociedade mais igualitária.

Talvez tivesse sido idealismo a rodos, mas foi isso que nos fez fazer e conseguir materializar o sonho de fazer os 2º Jogos da África Central. “Pelo Sonho é que vamos”, aproprio-me das palavras de Sebastião da Gama.

Como coisa boa de angolano pensa-se em grande e começaram a prepararem-se os jogos para decorrerem em várias cidades do País: Luana, Huambo, Benguela/Lobito e Lubango.

Fizeram-se levantamentos dos equipamentos existentes e os necessários para um conjunto alargado de modalidades. Corria-se atrás de um calendário que era demasiado curto para a prossecução dos objetivos a que nos propusemos. Muito do que se tinha projetado deparava-se com obstáculos múltiplos, face aos problemas da guerra, da falta de resposta da industria local, dos atrasos nas empreitadas das estruturas desportivas e hoteleiras que recebessem os desportistas, ficando a título de exemplo o atraso nas obras de ampliação da casa do desportista na ilha de Luanda e o estádio 1º de Maio em Benguela.

Mas não se esmorecia e a cada contrariedade Rui Mingas, Secretário de Estado de Educação Física e Desportos e o saudoso Helder Moura, secretário geral do COJAC incentivam a continuar, mesmo com irritações, discussões e alguma hilaridade à mistura numa ou noutra circunstância mais tensa.

As obras da Cidadela, e principalmente a sua pista precisaram quase de uma “ponte aérea” para que estivesse pronta no dia da abertura dos jogos. Pintar pavilhões, fazer reparações, asfaltar ruas para que as provas de atletismo de estrada e ciclismo pudessem decorrer sem problemas, perante o rigoroso controle de instâncias internacionais foi uma tarefa de dia e noite para operários engajados no espírito dos jogos. Preparar as torres da Cidadela para alojar mil e quinhentos atletas, treinadores, médicos e outros elementos transformando numa “cidade olímpica” onde tiveram que se fazer de raiz dois refeitórios, salas de imprensa, locais de reuniões, postos médicos e tudo que afinal no dia 20 apareceu feito e funcionou.

Houve muito deixado ao acaso, mas talvez porque houve empenho o acaso acabou por funcionar quase na perfeição.

Acabamos por ser realistas e só Luanda e o Huambo puderam ter os Jogos. 11 Países, 9 modalidades, algumas masculino e feminino, e para além de atletas e corpo técnico era a necessidade de instalar árbitros, juízes, chefes de delegação, presidentes e delegados de federações internacionais, jornalistas, artistas, foi sobretudo necessário mobilizar muita gente para que tudo corresse quase na perfeição, o que ao tempo não era nada fácil que acontecesse.

No festival de abertura presidido pelo Presidente José Eduardo dos Santos que abriu formalmente os jogos, o extraordinário espetáculo de milhares de jovens das escolas de Luanda que fizeram múltiplas encenações de quadros humanos que deixaram boquiabertos os milhares de pessoas que encheram a Cidadela para assistirem a um organizado e entusiasmante desfile e movimentação de alguns milhares de pessoas. Repetiu-se com a mesma intensidade e colorido na cerimónia de encerramento.

Volvido este tempo todo continuo a sentir uma nostalgia, algo mitigada, de cada dia desse longínquo fim de Agosto de 1981, em que enquanto Angola se desmanchava em ternura nuns jogos de empenhamento e competitividade saudável entre todos os participantes, as tropas do regime de Pretória atacavam o sul de Angola ocupando uma série de vilas e aldeias. Foi a tristeza que manchou os jogos, e a três dias do fim o entusiasmo esmoreceu perante as notícias que iam chegando do Cunene.

Hoje tem que se fazer uma homenagem a Rui Mingas porque foi quem se exigiu a si próprio um esforço suplementar para nos exigir a nós determinação, coragem e não ter medo para que estes jogos fossem uma marca indelével nestes cinquenta anos de vida coletiva de um País, que nasceu para ser o que será no futuro: Melhor.

Podia falar de muitos que me acompanharam no COJAC, mas prefiro não o fazer porque iria omitir alguém e todos, de uma forma ou de outra fomos importantes.

Este livro dos 2ºs Jogos da África Central é um documento imprescindível para que gerações no futuro saibam que num País em guerra, com oitenta por cento das pontes cortadas, com dificuldades no abastecimento alimentar das populações, com cortes de água e luz, com limites muitos grandes às importações, com poucos técnicos mas com uma afirmativa vontade de fazer e de construir  foi possível fazer a maior manifestação desportiva de sempre de Angola.

Citando José Saramago, afinal o único Nobel da língua portuguesa: “Sem memória não existíamos. Sem responsabilidade, talvez não devêssemos existir”.

 

Fernando Pereira

 

 

 

 

 

 

 

 


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