Hoje andei a arrumar umas tralhas e fui descobrir um artigo que escrevi para o "Jornal de Angola", onde colaborei uns anos. Este artigo saiu precisamente no dia 17 de Setembro de 1994.
Engraçado como as coisas naquele tempo já aconteciam!!!
8 de outubro de 2016
7 de outubro de 2016
REQUIEM / Ágora/ Novo Jornal / Luanda 7-10-2016
REQUIEM
Já começo a estar num patamar da
vida em que há cada vez menos coisas que me surpreendam!
A semana passada “perplexei-me” com
a leitura do livro de Rita Garcia, “Luanda como ela era 1960-1975”. Desde os
tempos da Agencia Geral do Ultramar, ou da componente local CITA (Centro de Informação e Turismo de Angola), que
não conseguia ver um trabalho com tantos encómios a uma cidade pintada de
branco. Foi o retorno ao “lava mais branco” onde a cidade branca era o paraíso
e onde os não-brancos eram apenas criados, músicos ou meros figurantes.
O livro
em termos gráficos é interessante, as fotografias estão bem enquadradas, tudo o
resto é um cantar loas a um modelo de sociedade em fim de festa, e que
curiosamente poucos se davam conta disso! Se tivesse que fazer um comentário ao
livro nos meus tempos do Liceu Salvador Correia, diria que era um “livro da
sanguitada”. Hoje estou mais brando na verve, e não teria feito este artigo se
hoje não tivesse lido uma entrevista da Rita Garcia à “Notícias Magazine” cheias
de lugares comuns, como no livro, mas referindo-se aos anos da guerra, em
Luanda, como "os doces anos em que o espaço não tinha fim e os dias
morriam devagar num paraíso tropical".
A
convicção com que fiquei, e note-se que li outros dois trabalhos da autora, foi
que a jornalista Rita Garcia não terá feito uma avaliação cuidada quando
resolveu fazer este livro, e provavelmente limitou-se a ouvir quem viveu Luanda
a olhar sempre só para o mar.
“ Luanda
como ela era 1960-1975” é o livro que o saudosista puro e duro poderá oferecer
aos seus filhos e netos no Natal, depois de pouco mais de quarenta anos a
reduzir Luanda à cidade do asfalto, e a esquecer as prisões arbitrárias nos
musseques, a segregação nos espaços públicos e o limitado acesso dos negros ao ensino,
entre outras coisas que aviltavam a maioria dos naturais da Luanda pintada de
cor-de-rosa esbranquiçado.
As
excelentes fotos que vão correndo ao longo do livro não deixam dúvidas sobre a
Luanda até 1975: Uma cidade construída para brancos viverem, divertirem-se,
trabalharem e esquecerem o dramatismo do que foram tempos coloniais, onde o
estatuto do indigenato e o cartão de residência iam segurando um grupo de gente
que “merecia o seu bocado de pão”, como dizia o poema do angolano Agostinho Neto.
As
comunidades brancas e negras viviam de costas voltadas. No Liceu Salvador
Correia, o mais emblemático do território, a percentagem de negros e mestiços
era ridícula comparada com os estudantes brancos. Posso dizer, eu que o
frequentei durante cinco anos, que nunca fui a casa de nenhum colega negro,
apesar de termos uma relação normalíssima nos bancos da escola. E esta era
apenas um dos exemplos do distanciamento na sociedade luandense, que não se
cingia ao Clube Naval, Nun’Álvares, Clube dos Caçadores, Barracuda, Mussulo,
Dongo, S. Jorge, Restinga, Tamar, Contencioso e outros lugares onde nos
esquecíamos de tudo o que se passava nos “bairros da terra vermelha”.
Carlos
Matos Gomes, militar reformado, autor de um conjunto de obras obrigatórias para
o estudo da guerra colonial diz: “Luanda pode ter sido inesquecível para muitos
e por muitos motivos, mas era caótica, ofensivamente desigual em todos os
aspetos, do social à urbanização esse é um facto e a prova de que, tal como Rio
de Janeiro, os seus autores tinham conseguido estragar o lhe era natural.”
Infelizmente em Luanda todos os trabalhos duros e mal pagos eram para os
colonizados e isso fica registado para a história e os seus combates no futuro.
Simultaneamente
ao lançamento deste livro, de que prefiro não perder muito mais tempo, estreou
em Lisboa o filme “Cartas da Guerra” de Ivo Ferreira baseado nos “aerogramas”
de António Lobo Antunes para a sua mulher durante os dois anos e meio em que
fez a guerra colonial em Angola. Ainda não vi o filme, mas li o livro e aqui no
NJ fiz ao tempo (25-3-2011) a crónica onde acompanhei as observações escritas
pelo então alferes Lobo Antunes sobre a “cidade inesquecível”.
Cá vai:
“Escrevo-te num domingo insuportável de calor, numa esplanada diante da
baía...Que cidade horrível. É como passar um domingo em Benfica na esplanada
Estrela Brilhante, com o chão cheio de tremoços e de detritos. Uns negros
aleijados, arrastam-se a pedir esmolas, outros oferecem-me cinzeiros de
madeira, objectos esculpidos, jornais, farrapos e miséria. Nunca pensei vir
encontrar tanta pobreza, tanta porcaria, tanto calor. Uns sujeitos sebentos, de
pasta, trocam escudos por angolares, com 12% a mais. Mas é tudo caro, tórrido e
feio.
...Ontem um amigo daquele outro médico afinal conhecido, levou-nos
a visitar a ilha, uma espécie de promontório com praias de um e outro lado,
casas, um clube de golfe. Uma espécie de Rodésia vista por um mestre-de-obras
de Tomar.
...Luanda está longe de ser uma cidade vivível: toda ela é
uma espécie de Areeiro de província, com o mesmo pretensioso gosto suburbano, e
os brancos daqui têm todo o mesmo indefinível aspecto dos vendedores de
automóveis daí, de patilhas sem classificação social, camisas transparentes, e
mulheres tipo locutoras de rádio, demasiado bem vestidas para serem
inteiramente honestas. Os musseques são uma espécie de bairro da Boavista
ampliado, em que os moradores fossem todos jogadores do Benfica. Só a terra é
que é vermelha, como a areia dos estádios, e as noites cheias de murmúrios de
insectos e de folhas, mergulhadas num mormanço de suor.
O que irrita é ver as revistas angolanas, de Luanda, cheias
de fotografias de bailes e de festas e de eleições de misses, enquanto nós, que
nada temos com eles, que pertencemos ao puto, como eles dizem com desprezo,
estamos aqui a pôr os testículos no lume por eles. Não pormenorizo muito isto
porque, mas os brancos locais, sobretudo os das cidades, são de um tipo de
novo-riquismo saloio e soberbo, verdadeiramente insuportável. Luanda é horrível
de mau gosto, uma terra onde eu nunca quereria viver, feia pretensiosa, sem
categoria de espécie alguma. Sente-se o dinheiro por todo o lado,
principalmente nos automóveis americanos, porque a maneira de vestir destes
tipos é absolutamente execrável. Não merecem a terra extraordinária em que
vivem, e, julgo, não a sabem, sequer, apreciar. Não há em Luanda absolutamente
nada que preste: as poucas estátuas que tem, ultrapassam em mau gosto tudo o
que se possa suportar, os edifícios são todos no género daquele em que mora o
Souto, e que para mim representa o paradigma da fealdade. É uma excrecência
absurda e estúpida. E estes tipos aqui acham Luanda um paraíso, uma espécie de
Rodésia em melhor. Não nos agradecem o nosso sacrifício por eles, e, no fundo,
tratam-nos com uma condescendência desdenhosa de brasileiros ricos. Que
diferença de Lisboa. Não se pode viver numa cidade sem passado. Estes tipos são
bem os descendentes dos degredados e está tudo dito.”
Duas
visões, e eu que nasci e cresci em Luanda não me revejo em nada com a da Rita
Garcia, e pontualmente estou de acordo com a azia que impregna as cartas de
Lobo Antunes.
Fernando Pereira
3/10/2016
Recebi este comentário do Leonel Cosme, e por ser extenso não o posso colocar no local dos comentários.Coloco-o aqui pela relevância que tem! Publicado no Artes e Letras!
Recebi este comentário do Leonel Cosme, e por ser extenso não o posso colocar no local dos comentários.Coloco-o aqui pela relevância que tem! Publicado no Artes e Letras!
ANGOLA nas memórias das guerras modernas
Há anos que deixei de ler livros
sobre a chamada Guerra Colonial – que, conforme os tempos e as circunstâncias,
também foi chamada Guerra do Ultramar e Guerra de Libertação. O último que
ainda me mereceu um relance de olhos foi um trabalho da jornalista Rita Garcia,
S.O.S.Angola
– Os dias da ponte aérea, editado em 2011, do qual guardei uma
impressão positiva, não obstante o facto de a autora, nascida em 1979 e em
Lisboa, não ter feito parte directa da saga dos retornados. Baseando-se
naturalmente em memórias alheias e escritos sobre aquele evento ocorrido em
1974-1975, considero que, literariamente, produziu um trabalho respeitável.
Depois, escreveu mais dois livros, cuja publicação só vi noticiada, sobre “os
que vieram de África” e “Luanda como ela era-1960-1975”, este sendo
recentemente objecto de reparos num conceituado semanário de Luanda, Novo
Jornal, em recensão de um seu reputado colunista, nascido e criado em
Angola, Fernando Pereira.
Pese embora alguma reserva, logo
pensei: terá a autora, desta vez, seguido a tentação do sapateiro que foi além
da chinela? Se assim foi, terá navegado naquela nau aventureira do mau
jornalismo que, pela irresistível tentação do sensacionalismo, não acrescenta
nada de novo, repetindo o que está visto e sabido.
Concedo que é comum acreditar nas
palavras e memórias de quem não temos razão para duvidar. E que se aceite como
válida – como teorizou um comentador do último livro de António Lobo Antunes –
(…) “a palavra que se deseja longeva, ou seja, a sobrevivência da literatura à
passagem do tempo, às brancas que a memória possa ter no espetáculo da vida.”
Só que, tratando-se de literatura escrita em papel (digitalizada é outra coisa,
como sabemos), toda a prudência será pouca se pensarmos que com documentos,
bons ou maus, se faz história. Donde, em princípio, a prudência aconselha que o
testemunho de quem passou por Angola (por África, melhor dizendo), nela viveu
e, pressionado pelas vicissitudes da dita Guerra Colonial, teve de fugir
deixando tudo quanto exprimia o seu sentido de pátria (original ou adquirida) – ubi
bene, ibi pátria diziam os latinos – seja tomado como a “sua” memória e
não como a memória de “todos”.
Neste pressuposto, decidi avocar o
testemunho do consagrado escritor António Lobo Antunes, transcrito naquele
citado artigo de Fernando Pereira – significativamente intitulado “Requiem” –
que nas Cartas da Guerra dirigidas à esposa verte a sua diatribe por
Luanda (e Angola por envolvência) de oficial–médico do exército português
compelido para a Guerra do Ultramar. Respigo:
“O que irrita é ver as revistas angolanas, de Luanda, cheias de
fotografias de bailes e de festas e de eleições de misses, enquanto nós, que
nada temos com eles, que pertencemos ao puto, como eles dizem com desprezo,
estamos aqui a pôr os testículos no lume por eles. Não pormenorizo muito isto,
mas os brancos locais, sobretudo os das cidades, são de um tipo de
novo-riquismo saloio e soberbo, verdadeiramente insuportável. Luanda é horrível
de mau gosto, uma terra onde eu nunca quereria viver, feia, pretensiosa, sem
categoria de espécie alguma. Sente-se o dinheiro por todo o lado,
principalmente nos automóveis americanos, porque a maneira de vestir destes
tipos é execrável. Não merecem a terra extraordinária em que vivem, e, julgo,
não a sabem, sequer, apreciar. (…) Não nos agradecem o nosso sacrifício e, no
fundo, tratam-nos com uma condescendência de brasileiros ricos. Que diferença
de Lisboa. Não se pode viver sem passado. Estes tipos são bem os descendentes
dos degredados e está tudo dito.”
Em minha opinião, nada desculpa tão errónea visão da
capital angolana e seus moradores obviamente brancos e da classe economicamente
privilegiada, manifestada logo na maneira de vestir e na posse de automóveis
americanos... Enfim, ”gente que vive sem passado, quais descendentes dos
degredados”.
Tolere-se que o militar compelido, por alegado
dever patriótico, a fazer e sofrer, no mato, durante dois anos, uma guerra com
que não concorda, acumule tensões psicológicas que distorcem até a visão da
realidade e o sentido das coisas. Mas não menos sofrido será o colono
culturalmente impreparado para compreender e aceitar os ventos de mudança que
lhe arrasaram uma vida conseguida à custa de muito trabalho, renúncias,
sacrifícios e, não raro, lágrimas. Para este, a Guerra é só uma, a despeito dos
rótulos, quer seja o de Ultramar,
Colonial ou de Libertação,
conforme respeite ao regime de Portugal, ao critério da ONU e à luta dos povos
colonizados.
Pois essa vida de “portugueses-outros”, que não poderá ter começado sequer
com a última geração dos “lançados” ou “degredados” em África (já o tinham sido
no Brasil, igualmente ao que acontecera, ainda no século XIX, com os ingleses,
franceses, holandeses, espanhóis e outros, expatriados para as colónias da
América, África e Oceania), não se confundem sequer com os “portugueses-novos”
que arribaram a Luanda, de fato e
gravata, vindos directamente da Metrópole, ostentando a sua classe montados em automóveis
americanos… O comum dos brancos naturais ou há muito residentes era uma vida frugal, casa alugada ou, se própria,
geralmente paga em prestações através de
cooperativas de habitação ou de crédito bancário. Não conheciam a
palavra aforro… Com o que lhes “sobrava” de um salário geralmente mediano
podiam, quando muito, comprar um carro utilitário também a prestações.
A meio da década de 50 começara o
“boom” do café e das explorações mineiras (os diamantes, o marfim, a cera e o
couro já vinham de trás) e, geridos em Lisboa, os primeiros negócios da
exploração do petróleo, logo a seguir impulsionados pela “abertura” do Regime
aos Planos de Fomento e à implantação da Banca privada. A última Guerra do
Ultramar tinha começado em 1961 e os novos descobridores de oportunidades
aproveitaram as marés para lançarem as suas naus… Então a população de Luanda
explodiu em número, qualidades e defeitos, originando os ricos-novos de várias
cores, fazendo jus ao provérbio quimbundo: Mu Luuanda, mu uauaba: mu izê mukûku, ubiluka ndua. (Luanda é boa: não
vem cuco que não se transforme em andua).
Vale registar, para quem não saiba ou
se esqueceu, que na capital angolana – segundo o investigador Francisco Lopes
Roseira -, em 1832, dos seus 5.059 habitantes
966 eram elementos das instituições religiosas, militares do
Destacamento de Portugal e funcionários públicos em comissão de serviço. Os
desterrados por delito comum estavam distribuídos por presídios criados em
várias regiões, de Norte a Sul, devendo-se a eles, em muitos casos, as
primeiras pedras do edifício colonial.
Mas não se confunda com
generalizações. A colonização de Moçâmedes foi iniciada, em 1849-50, por
portugueses sem mácula criminal fugidos de Pernambuco às pressões da Revolta Praieira, e a colonização da
Huíla, em 1884-85, por gente simples da Madeira. A “pior canalha do Reino”,
como lhe chamou o Governador Paiva Couceiro em 1910, estava fixada sobretudo
nos principais centros populacionais, como Luanda e Benguela, em Depósitos
Penais, criados em 1883. E não se confunda também quem foram os desterrados do
Brasil, implicados na Inconfidência
Mineira, em 1789, como o naturalista José Álvares Maciel, o poeta Inácio
José de Alvarenga Peixoto, o coronel Domingos de Abreu Vieira, o
tenente-coronel Luís Vaz de Toledo e o sargento-mor Francisco António de
Oliveira Lopes.
Ainda mais inconfundível: já no começo do
século XX, foram desterrados, em 1927, os dissidentes do 3 de Fevereiro no
Porto e do 7 de Fevereiro em Lisboa:
Henrique Galvão, Camilo de Oliveira, Luciano Augusto Dias, Gervásio Campos de
Carvalho, Agatão Lança e Manuel Marques Teixeira – alguns revertidos, mais
tarde, em governadores.
Sendo também jornalista, não falo de
outiva: cheguei a Angola em 1950, onde vivi até finais de Outubro de 1975,
quando a invasão do Sul de Angola pelas tropas sul-africanas e o conluio com a
UNITA, a FNLA e o ELP me obrigaram e à minha famíliia, in limine, a regressar a Portugal, com recurso à ponte aérea.
Voltei a Angola para cumprir um contrato de trabalho entre 1982-87. Em 2005,
fiz a última visita a Luanda. Foi neste período que vi as velhas casas de
sobrado substituídas por inimagináveis arranha-céus; muitos moradores que
tinham trocado o calção de caqui e a camisa sem mangas por fatos de casaco e
gravata; outros moradores que chegavam, nos períodos de descanso, outrora a pé
ou saídos do machimbombo, à livraria Lello para comprar ou conhecer as últimas
novidades literárias (permitidas ou proibidas) ou ao vizinho café Biker para cavaquear (já conspirando…)
em torno de um copo de cerveja, agora impedidos pelo trânsito infernal dominado
por vistosos carros, importados de todo o mundo, rumo ninguém imaginava a quê. O
tempora! o mores!
Enfim, seja por
resgate, catarse ou moenda que se continuam a escrever livros dizendo o mesmo
(às vezes deliberadas mentiras ou falsidades) sem acrescentar nada de novo ao
que se conhece, manterei o propósito de não ler mais livros com estórias de
vida de regressados, civis ou militares, ao único país onde não serão
estrangeiros.
LEONEL COSME
P.S. Em consideração do espaço, faltou dizer que, só com a segunda chegada
de Diogo Cão, em 1484, a Angola, foi estabelecido um curto período de
verdadeira “colonização missionária”, usando a expressão de Adriano Moreira.
13 de agosto de 2016
O Internacionalismo Olimpico / Ágora / Novo Jornal / Luanda 12-8-2016
O Internacionalismo
Olimpico
Há quase cinquenta anos que
assisto a cerimónias de aberturas dos Jogos Olímpicos, e em cada quadriénio
tento comparar umas e outras com a mais recente.
No
fim-de-semana assisti à cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos do Rio de
Janeiro, corolário de uma vitória da persistência do Presidente Lula da Silva
há sete anos, que não merecia tamanha vilania ao ver um fantoche golpista abrir
os jogos, debaixo de uma monumental vaia, algo jamais visto desde 1896.
Temer
merece isso e muito mais, porque as golpaças em democracia tem que ter
consequências agravadas, para os que querem subverter a legitimidade
constitucional, albardados em expedientes miseráveis e soezes. A assobiadela
que “aplaudiu” a sua intervenção deixou-me muito contente, e como diria João
Ubaldo Ribeiro ao titular a sua obra-prima de contos: “Viva o Povo Brasileiro”!
Gostei
da sobriedade da abertura dos Jogos Olímpicos do Brasil, do seu extraordinário
compromisso com o passado da sua história, da passagem da sua afirmação de
ritmos musicais, a referência descomplexada da miscigenação de culturas de
povos de origens tão díspares e sobretudo adorei as mensagens que foram sendo
transmitidas com a simplicidade e a alegria que os brasileiros são capazes de
dar. Gostei de ver um dos meus heróis da adolescência, o queniano Kipchoge
'Kip' Keino, que recebeu, e muito justificadamente o primeiro laurel olímpico,
galardão criado pelo COI para homenagear alguém que encarne os valores do ideal
olímpico.
É fácil
entender que o interesse pela competição desportiva aumenta, dum modo
particularmente agudo, por ocasião dos Jogos Olímpicos. A sua periocidade
quadrienal e demais características tradicionais, bem com o a presença da
totalidade dos países do mundo, faz deles a competição desportiva de
excelência.
Resolvi
folhear “As bases filosóficas do Olimpismo moderno”, o texto de Pierre de
Coubertin (fundador do movimento Olímpico e o pioneiro dos Jogos Olímpicos da
Era Moderna) que autentica os valores dos jogos Olímpicos, e que poderiam
inserir-se na defesa dos direitos fundamentais do Homem. Não só porque o
desporto-prática proporciona ao praticante inegáveis benefícios de ordem
fisiológica, psicológica, de integração social e ainda de expressão e
comunicação, mas porque as exigências do desporto-prática abraça mutações
pronunciadas ao nível das estruturas sociais, económicas e políticas injustas.
Entre
várias considerações sobre o olimpismo, e que seria fastidioso estar aqui a
referir, apesar de se revestirem do maior interesse, recordo algo que ele vai
formulando ao longo do texto: “Para que cem se dediquem á cultura física, é
preciso que cinquenta façam desporto; para que vinte se especializem, é preciso
que cinco sejam capazes de proezas espantosas”. E prossegue: “Mas ser uma elite
não chega; é preciso que essa elite seja uma cavalaria. Os cavaleiros são,
antes de tudo, irmãos de armas, homens corajosos, enérgicos, unidos por um
vínculo mais forte que a simples camaradagem, já tão poderoso por si próprio; à
ideia de ajuda mútua, base da camaradagem sobrepõe-se no cavaleiro a ideia da
concorrência, de esforço, oposto ao esforço por amor do esforço, de luta cortês
e no entanto violenta”.
Acho que vão ser uns bons Jogos
Olímpicos e o Brasil merece que o sejam
Vivam
os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro 2016!
Fernando Pereira
7/8/2016
23 de julho de 2016
DESPORTO EM TRANSE/ Ágora / Novo Jornal / Luanda /22-7-2016
DESPORTO EM TRANSE
O recente afastamento da seleção
angolana de basquetebol dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em Agosto,
evidencia o estado caótico que o desporto de alta competição chegou, e a quase
letargia que se apoderou do desporto do País em geral.
Não há
propriamente uma falência da política desportiva, o que há é a situação absurda
de não haver politica desportiva visível por parte dos órgãos estatais
competentes, e todo o quadro federativo e associativo se depara com uma realidade pungente de falta
de perspetivas num futuro próximo.
O
futebol, modalidade de tomo, apesar do estapafúrdio investimento que se fez,
está num lugar perfeitamente ridículo (137ºlugar), contudo melhor que o ranking
da mortalidade infantil por mil habitantes onde ocupamos um “honroso” ultimo
lugar!
Malbaratado
que foi o edifício pacientemente construído há mais de trinta e cinco anos,
encontramos hoje na seleção feminina de andebol o único esteio de que nos
podemos orgulhar, nos areópagos internacionais do desporto de alta competição!
Escusamos
de buscar culpas externas, ou arranjar bodes expiatórios internos para
conseguirmos expiar as nossas debilidades e fraquezas postas sistematicamente a
nú.
A
educação física e o desporto são reflexo de um contexto politica, e o seu
quadro institucional e organizativo é suportado pela afirmação de uma linha
ideológica que se desejaria coerente. Infelizmente não é isso que acontece no
País onde se mistura um arremedo de socialismo com o capitalismo selvagem
acrescido de laivos de justicialismo, onde o cidadão deixou de ser o
destinatário das decisões políticas, passando a ser um mero instrumento em que
a sua vida piora entre o muito ou o menos que muito em função do preço do
barril de petróleo no mercado internacional.
Não podem
os responsáveis continuar a fazer declarações cheias de lugares comuns, que
eternizam situações de continuada falta de soluções, e que empurram o que resta
da educação física e desporto de Angola para um lodaçal, de onde dificilmente
se sairá nos próximos anos.
A
educação física escolar e a formação desportiva das crianças, adolescentes e
jovens são cada vez mais cerceadas pelas contingências da sociedade angolana
atual, acrescida à falta de instalações adequadas. Neste quadro o futuro do
desporto em Angola deixa de ter base de recrutamento e naturalmente é cada vez
mais difícil encontrar a qualidade que se consegue encontrar na quantidade
praticante.
Os
clubes, outrora lugares de eleição do associativismo, tornaram-se em espaços de
vaidades pessoais, que servem para a promoção de certas figuras num espaço
político onde a ascensão é cada vez menos por mérito e cada vez mais por
visibilidade determinada só por populismo!
Não vale
a pena a continuarmos a” bater” sempre no ministro ou nos vice-ministros do
Ministério da Juventude e Desportos, porque sendo os mais responsáveis não
estão sozinhos neste estado de putrefação a que chegou o desporto angolano. Há
mais gente responsável, entre dirigentes federativos, membros diretivos de
clubes, jornalistas, e cidadãos, que como eu, acompanham de perto a evolução do
desporto angolano desde o dealbar da independência.
Faltam
referências no desporto angolano, ou melhor falta dar visibilidade a pessoas
que foram referencia no desporto angolano, e que hoje se limitam a emitirem
opiniões em círculos privados, e a manifestarem profunda tristeza pelo rumo que
as coisas tomaram. Essa gente tem que ser recuperada, pois foram pessoas que
fizeram que Angola passasse a ser reconhecida com respeito na comunidade
desportiva internacional, e beneficiasse de uma visibilidade que noutros
setores dificilmente conseguiria.
Angola
tinha excelentes condições para ter pessoas a praticar desporto
continuadamente, porque tem uma população jovem, um clima propício a atividades
de ar livre e um passado de tradição na prática desportiva.
Há
necessidade de se fazerem novos enquadramentos, tomarem-se iniciativas e
apoiarem-se projetos que promovam a prática da educação física no âmbito da
recreação e do desporto federado. São necessários investimentos vultuosos, em
áreas tão díspares como a formação de quadros, e planos coerentes de educação
física nas escolas, onde terão de ser construídas infraestruturas adequadas a
uma participação significativa de alunos.
Os
clubes necessitarão de algum apoio, que não seja para responder ao imediatismo
dos resultados no plano da competição, para implementarem a formação, fazerem
captação, e promoverem a sua participação numa atividade federada ao nível de
todo o território.
Este
“edifício” exigirá organização e um esforço supletivo dos agentes políticos e
uma das primeiras exigências é que no executivo o desporto passe a ter um
estatuto de igualdade com os outros, e que não se fique apenas como necessidade
de preencherem lugares para estabelecer equilíbrios de “grupos de status”, ou
dar resposta às propostas comicieiras de alguns setores da estrutura
partidária.
A
educação física e o desporto não estão isolados na sociedade, e a sua evolução
ou a sua letargia dependem de um conjunto de fatores que tem a ver com a
situação dos cidadãos, já que dificilmente se conseguirá implementar o que quer
que seja, quando a míngua de produtos básicos se instala na generalidade da
população.
Tem que se começar a prospetivar
o futuro depois da falsa abastança que se viveu nestes últimos anos, e às vezes
até nem será mau montar-se um modelo organizativo num quadro de dificuldades, e
encontrarem-se recursos locais que contrariem a xenofilia dos tempos que
acabámos de percorrer.
O debate fica aberto e todos os
contributos serão recebidos com entusiasmo para que possamos mais cedo que
tarde voltar à senda de vitórias no desporto angolano.
Fernando Pereira
16/07/2016
9 de julho de 2016
ADIVINHA QUEM VEM PARA JANTAR! / Ágora / Novo Jornal / Luanda 9-7-2016
ADIVINHA QUEM VEM PARA JANTAR!
Talvez a maioria
das pessoas desconheça que o filme “Adivinha quem vem para jantar”(1967),
premiado com dois Óscares da Academia em
1968 acabou por ver autorizada a sua projeção no Restauração, depois de múltiplas
tentativas das autoridades coloniais para que o publico luandense não o
visse.
Em São Francisco,
Matt Drayton (Spencer Tracy) e Christina Drayton (Katharine Hepburn), um casal
da média burguesia americana, fica chocado ao saber que Joey Drayton (Katharine
Houghton), sua filha, está noiva de John Prentice (Sidney Poitier), um negro. A
partir de então dão início à uma tentativa de encontrar algo desabonador no
pretendente, mas só descobrem qualidades morais e profissionais acima da média
o que transforma o trama numa comédia de forte componente antirracista.
Nos Estados Unidos
que saiam de uma violenta luta pela igualdade dos direitos raciais, este filme
acabou por marcar um ponto de viragem no elitista cinema de Hollywood, pois
leva para o grande ecrã uma relação que ao tempo tinha tudo de promíscua e fora
do status quo vigente.
Em Angola a
incomodidade do tenente-coronel Koch Fritz, o Torquemada da governação colonial
era evidente, perante a celeuma que pudesse eventualmente surgir da
apresentação do filme e foi adiando a decisão para que “de Lisboa houvesse
alguma ordem”. A verdade é que o filme, apesar de truncado nalgumas passagens,
passou no “Monumental” em Lisboa e foi um grande êxito de bilheteira, porque
tinha ganho óscares e porque era uma revelação ver um romance e um beijo
apaixonado entre um negro e uma branca no ecrã, numa sociedade fechada e
organicamente racista.
Num diálogo no
próprio filme lembra que o casamento entre pessoas de raças diferentes era
proibido em 17 estados dos Estados Unidos, e acresce a isso lembrar que só em
1964 (três anos antes da estreia mundial do filme) durante o governo de Lyndon
B. Johnson, foi aprovado o Civil Rights Act que proibiu a discriminação contra
minorias raciais, étnicas, nacionais e religiosas.
O filme lá esteve
discretamente a passar, com cortes que sacrificaram não só a sua qualidade,
como também a própria história. Um beijo apaixonado e longo entre os atores provocou
a ira do Ku Klux Klan, que motivou desacatos e invectivou espectadores
em vários cinemas nos EUA. O público de Luanda não viu muitas das cenas que
“chocariam a comunidade local”, e admito que foi um alívio do CITA quando o
filme saiu do ecrã do cinema da Avenida do Hospital.
Já que se fala em
filmes e cinemas, resolvo trazer à liça uma situação e que tem a ver com o
abandono das salas de cinema do tempo colonial ou a sua transformação para
outras atividades que nada tem a ver com o que fim para que foram edificados.
Nas redes sociais, e
nalgumas conversas de gente que andará pelos sessenta, todos vão vivendo com
saudade os tempos em que frequentaram esses cinemas, e olham com muita tristeza
para o seu abandono, a sua adaptação a outras atividades ou a sua demolição.
Percebo as pessoas
que gostavam da esplendorosa esplanada do Miramar, do Avis (Karl Marx), Império
(Atlântico), Kipaka, N’Gola, S.João, Kilumba, Tivoli, S. Paulo, Tropical,
Restauradores, Nacional, Colonial, etc., isto em Luanda, para depois falar do
Flamingo no Lobito, Ruacaná no Huambo, Arco-íris no Lubango, Moreno no Uíje,
N’gola no Namibe, o Nimas no Lobito, e tantos outros. As pessoas não tinham TV,
os hábitos eram outros, as pessoas ao tempo eram jovens, e o cinema mais que um
local para ver filmes, era um sítio onde alguns setores da burguesia se
encontravam como um outro local de sociabilidade. Esse tempo acabou e hoje
restam as ruinas e as recordações, por isso é ridículo que se comente o estado
degradante a que a maior parte dessas estruturas chegou, apelando a que voltem
a ser cinemas. Faça-se alguma coisa delas, isso sim, para que deixem de ter um
aspeto desolador.
Já perguntei a
alguns “indignados” no exterior que vociferam contra as autoridades por terem
abandonado os cinemas, quantos estão em funcionamento em Lisboa ou no Porto dos
que existiam em 1974. Talvez ajude que de 54 salas de cinema em Lisboa no ano
de 1974 estão abertos dois cinemas, o S. Jorge (pertença da autarquia de
lisboa, e dividido em várias salas) e o Satélite, contíguo ao antigo
Monumental!
É absolutamente
justo que se acabe com esta onda de “indignação” e que se guardem as energias
para outros movimentos cívicos com mais enfoque na atualidade.
Recentemente saiu
um livro de Miguel Hurst e Walter Fernandes sobre as salas de cinema de Angola
em que tiveram a prestimosa ajuda das arquitetas Maria João Grilo, Paula
Nascimento e Maria Alice Correia.
A obra é
graficamente muito rica e muito interessante no seu conteúdo, e revela o
trabalho extraordinário de uma plêiade de arquitetos que permitiram que se
fizessem salas de espetáculos de excelência, que tivesse havido investidores
com rasgo, mas que a voragem do tempo tornou-as em edifícios que jazem a
aguardar tempos novos para outras utilizações.
E começou isto com
o “Adivinha quem vem para jantar” !
Fernando Pereira
4/7/2016
24 de junho de 2016
Bom senso com o censo / Ágora/ Novo Jornal / Luanda 24-6-2016
Bom senso com o
censo.
Estive hoje a analisar com algum
detalhe o censo geral da população publicado em Março de 2016. Fico com a ideia
que é um trabalho sério e responsável e reúne todas as condições para que seja
um instrumento indispensável para nortear decisões políticas assertivas,
estratégias de desenvolvimento económico com razoabilidade e um planeamento
social mais rigoroso.
Este
trabalho, que tem um carater científico, pode transformar “ideias feitas”, do discurso
político prevalecente em “situações desfeitas”, baseada na evidência que são a
teimosia dos números!
Todos
sabemos que temos uma população jovem com 65% da população com idade até aos 24
anos, num universo de 25.789.24 pessoas, das quais perto de sete milhões vivem
em Luanda.
Desvalerá
pouco continuar a debitar números, porque eles estão acessíveis a todos os
cidadãos, mas há leituras que urgem ser feitas rapidamente, e encontrarem-se
algumas soluções na sociedade angolana num momento que o tempo urge, sob pena
de perdermos o futuro!
Será que
o discurso das assimetrias e segregação social, económica e cultural do
colonialismo continuam a ter eco na generalidade dos angolanos, quando apenas
7% dos angolanos teriam entre 18 e 21 anos à data de 11 de Novembro de 1975?
Quantos se lembram do enfático 4 de Fevereiro, ou do 15 de Março de 1961?
Com base
neste trabalho pergunto quantas pessoas se lembram da transição de poderes do
falecido presidente Agostinho Neto para José Eduardo dos Santos num cada vez
mais longínquo 1979? Quantas pessoas têm presente a institucionalização da
democracia pelo “decreto” que determinou o desaparecimento da sociedade
socialista de partido único? A própria guerra contra a UNITA já começa a entrar
no “esquecimento” das pessoas, e por isso hoje, eventuais sacrifícios pedidos
são mal compreendidos, o que não deixa de ser de todo natural.
A
própria UNITA, ou o seu sucedâneo CASA, também não conseguem que as pessoas se
lembrem do que foi politicamente Jonas Savimbi, porque quando ele morreu metade
da população do País ainda não tinha 12 anos! Isto é mau para a oposição, mas
também não é bom para os dirigentes do MPLA, a quem daria sempre um certo jeito
ter um inimigo externo, ou interno, para que assacasse com as culpas de muita
situação mal gerida e inapropriadas decisões na gestão da coisa pública.
Pode-se dizer
que a história transmite-se de umas gerações para outras, e que o facto da
pessoa não ter vivido determinado momento, não quer dizer que não saiba o que
aconteceu, nem que o valorize! Mas aqui também há muito pouco trabalho, de
divulgação de tudo que aconteceu em Angola nos últimos cem anos, e a própria
“história” recente de Angola é descrita um pouco de forma panfletária, e deixa
pairar muitas dúvidas e desconfianças justificáveis nas gerações mais novas.
O censo
evidencia números preocupantes sobre um conjunto de situações que o discurso
oficial tenta ignorar, nomeadamente no que concerne à esperança de vida dos
angolanos, situações de desemprego, condições de salubridade das habitações e
outras.
Obviamente
que este trabalho também reflete algum esforço que o executivo foi fazendo ao
longo dos anos no sentido de melhorar alguns números, nomeadamente os valores
da população alfabetizada e também a percentagem de homens e mulheres que
frequentaram o ensino médio nas diferentes províncias do País, e outros que
demonstram à saciedade que parte do caminho fez-se caminhando, e há números que
refletem esperança no futuro, se não se teimar trilhar caminhos que se
revelaram tortuosos ou sem rumo certo!
O que
ressalta disto tudo é a certeza que a Republica de Angola, nas suas amplas
diversidades tem necessidade de olhar para o futuro com respostas cabais,
porque cada vez se vê menos uma população remetida à sua condição de mera
assistente. É aliás desejável que seja assim, porque uma população jovem e
pouco exigente torna-se amorfa, e disponível para ser manobrada para propostas
de transformação politica, social e económica que redundam a maiorias das vezes
em “aventureirismo oportunizável”!
O
exercício do poder tem obrigação de dar cada vez mais respostas, porque as
pessoas com cada vez mais formação e maior informação assim o exigem. O
silêncio, as frases feitas, o panfletário, já não colhem no momento de
“afogadilho” económico e a desconfiança é crescente nas instituições do Estado,
o que leva a desacreditar a democracia que ainda dá tímidos e pouco resolutos
passos no nosso País.
Para Max Weber o Estado
Moderno era uma manifestação do movimento de racionalização da civilização
moderna. Tratava-se, portanto, da materialização de uma estrutura burocrática,
fundamentada em regras juridicamente estabelecidas e de poderes específicos
independentes: Executivo, Legislativo e Judiciário.
Pegue-se em Weber, trabalhem-se os dados
do censo e haja bom senso que talvez renasça uma esperança que se vai teimando
em manter à tona, mas com evidentes dificuldades de permeio!
Fernando Pereira
15/6/2016
18 de junho de 2016
TRRIM-TRIM! / O Interior / Guarda / 9-6-2016
TRRIM-TRIM!
Ainda não vieram os dias quentes
de um esperado Verão depois de um ano pluvioso quanto baste! Aguardemos.
Pode
parecer paradoxal, mas um dos temas dominantes desta croniqueta serve para que
se abra uma petição nacional para o retorno às campainhas estridentes dos
telefones, em detrimento da pequenina luzinha intermitente que aparece junto às
teclas de qualquer recetor colocado nas portarias da maior parte dos serviços
públicos do País.
Vamos lá
ver se me explico melhor, ou se consigo que a mensagem chegue sem
interferências a quem pacientemente me lê.
Se
alguém “ousar” telefonar para um serviço publico entre as 9 e as 10 horas da
manhã, ou a partir das 16 horas é quase certo que ninguém lhe atenderá o
telefone, e muitas vezes a pessoa responsável por esse trabalho está ali mesmo ao
lado. Esta é a verdade, constatável ao longo de muitas tentativas goradas para
telefonar para alguns serviços públicos. Infelizmente um cada vez maior número
de gente destes serviços adere a esta “praga” que se vai instalando no
quotidiano dos serviços do Estado, de norte a sul de Portugal e Regiões
Autónomas.
Não me
cabe a mim fazer juízos de valor sobre o comportamento destas pessoas, que substituiu
a “rapariga da cavilha”, ou a “menina dos telefones” imortalizada na canção de
1961 de Maria José Valério, mas a realidade é que cada vez mais o estar num PBX
(ou correlativo) é uma tarefa entediante e que ninguém faz por gosto, tudo para
desgosto de quem precisar de entrar em contacto com alguém a partir de horas
que pelos vistos passaram a ser consuetudinariamente incomodativas.
Hoje sou
a favor do retorno à campainha estridente nos telefones, já que nem que fosse
para calar o som incomodativo as pessoas obrigavam-se a atender e nem que seja para evitar os olhares reprovadores das
pessoas que circulam por perto. Aí voltaríamos ao tempo de ouvir frases como,
“Ninguém atende a porcaria do telefone!” ou outras entrecortadas com palavras
bem mais ordinárias!
Podem
ter a certeza mais que absoluta que a maioria dos telefonemas eram atendidos, e
dispensar-se-iam as músicas enfadonhas que certa gente escolhe para o demasiado
tempo que se está à espera de uma ligação para alguém, que estando lá manda
dizer que não está para não ter que se aborrecer com mais um utente, ou mais
uma situação imponderável perto da hora de saída.
Aos
telefones estridentes haveremos de voltar, neste SIMPLEX de proximidade,
principalmente para apoio aos muitos utentes que não tem possibilidade alguma
de se deslocar a certos lugares, e muitas vezes terem que ir a determinado
serviço para assuntos comezinhos que se resolveriam numa chamada feita a tempo.
Outra
questão bem mais grave que esta tem a ver com o tempo prolongado com que muitas
vezes os telefones estão avariados em certos serviços, com prejuízo evidente
para os utentes que precisam de contactar . Às vezes as avarias prolongam-se
por meses e até um ano e meio, como já aconteceu recentemente num determinado
serviço publico na região, e as pessoas obrigam-se aos maiores incómodos para
conseguirem tentar resolver os seus problemas.
Vamos
pois voltar ao tinir estridente dos telefones e posso dizê-lo sem errar que a
resolução de certos problemas e a resposta a algumas questões passarão a ser
céleres.
Fernando Pereira
7/6/2016
Turismo passado sem presente para o futuro! /Ágora / Novo Jornal / Luanda 17-6-2016
Turismo passado sem presente para
o futuro!
Muito se tem falado no desenvolvimento sustentavelmente
acelerado do turismo no nosso País, e seria bom que se fizesse uma análise
retrospetiva do que foi a insipiente atividade turística no tempo colonial para
se pensar no presente e no futuro.
De acordo com a Organização Mundial do Turismo, a atividade
turística contribui para o crescimento económico, para a criação do emprego e
para a redução dos desequilíbrios da balança de pagamentos. Contabilizando efeitos
diretos e indiretos, o turismo representa 10% do PIB mundial; Concorre para 30%
das exportações de serviços, 6% das exportações totais, igualando ou excedendo
até as do petróleo, produtos alimentares ou automóveis, e é responsável por um
em cada onze empregos. Razões mais que suficientes para o considerarem um motor
essencial do desenvolvimento.
A Sociedade das Nações instituiu em 1937, a primeira
definição de turista, como “toda a pessoa que viaja por um período de 24 horas
ou mais, para um país diferente do da sua residência”. Relativamente ao
entendimento inicial, alarga o conceito estendendo-o às pessoas que se
deslocavam com um objetivo que não propriamente o do lazer. Mistura quem viaja
para lazer com quem mistura outra
atividade.
Em 1942 foi proposta à Association Internationale des Experts
Scientifiques du Tourisme ultrapassar alguns hiatos da definição anterior e
para HunziKer e Krapf o turismo é “ o
conjunto de relações e fenómenos produzidos pelo deslocamento e permanência de
pessoas fora do seu local habitual de residência, desde que esses deslocamentos
e permanência não sejam motivados por uma atividade lucrativa principal,
permanente ou temporária.”
Em 4 de Junho de 1954, a ONU, na convenção sobre facilidades
aduaneiras a favor do turismo, reformula a noção de turista, que passa a ser
“toda pessoa, sem distinção de raça, sexo, língua ou religião, que entra no
território de um Estado contratante, que não seja aquele onde reside
habitualmente, e nele permanece durante 24 horas, pelo menos e não mais de 6
meses, no decurso de um período contínuo de doze meses, se a sua viagem tiver um motivo legitimo que não seja a
emigração, tal como: turismo, recreio, desporto, saúde, família, estudo,
peregrinações religiosas ou negócios”.
Pontualmente foram feitas novas adaptações a este conceito
mas só em 1991, a Organização Mundial de Turismo, conseguiu ultrapassar
inúmeras críticas e tentar encontrar uma definição consensual, até para efeitos
de uniformização estatística, definindo o conceito como “um fenómeno social,
cultural e económico relacionado com o movimento das pessoas a lugares que se
encontram fora do seu lugar de residência habitual por motivos pessoais ou
profissionais. Estas pessoas são denominadas visitantes (podem ser turistas ou
excursionistas; residentes ou não residentes) e o turismo tem a ver com as suas
atividades, das quais algumas implicam um gasto turístico”.
O turismo tem conhecido assinalável desenvolvimento. Segundo
dados da OMT, as chegadas internacionais turísticas totalizavam os 25 milhões
em 1950, os 278 em 1980, os 527 em 1995 e mais de 1100 em 2014. A Europa é o
principal destino recebendo mais de metade dos turistas internacionais.
Angola, enquanto colónia de Portugal não tinha qualquer
iniciativa no domínio da promoção e desenvolvimento do turismo. As razões eram
evidentes, um pouco à semelhança do que acontecia com a estrutura do estado
central em Lisboa.
Já vimos que o turismo, enquanto atividade de relevância
económica e social, só apareceu com algum significado depois do primeiro
quartel do século XX. Coincidiu temporalmente em Portugal com a ascensão do
Estado Novo e da ditadura de Salazar e Caetano.
Uma das revelações, se é que assim se pode chamar, da
ditadura foi a xenofobia exacerbada, aliada a uma desconfiança a tudo que
viesse de fora, principalmente o que pudesse fazer contrastar de forma evidente
os hábitos “abençoados” do “Povo Português”, e alterar a letargia a que se
chamava eufemisticamente “brandos costumes”!
Houve inicialmente no governo central o Secretariado Nacional
da Propaganda (3-2-1940) tutelada por António Ferro, sob alçada direta de
António Salazar e que tinha a supervisão do turismo a nível central. O turismo
era primordialmente um meio de propaganda e não era encarado como uma atividade
económica importante. Em 1944 o SNP muda a terminologia para o Secretariado
Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo, sendo pouco mais que um
órgão consultivo. Entre mudanças, recuos, progressos a verdade é que nunca, até
ao 25 de Abril de 1974, o turismo se conseguiu separar organicamente da Informação
ao nível central. A censura prévia vigiava toda a imprensa, editoras,
espetáculos ou outras iniciativas culturais e recreativas , mas dependia do
Ministério do Interior enquanto o secretário de estado da informação e turismo
dependia diretamente do 1º ministro.
Explica-se isto, porque não havia em Angola nenhuma estrutura
desconcentrada deste quadro que se observava na “Metrópole”. A censura era
muito branda, a que não era alheia a percentagem de 97% de analfabetos no
território e a estratificação social era tão acentuada que praticamente era
desnecessário “perder tempo com coisas de poucos”!
Havia nalgumas camaras municipais um pequeno sector do
turismo, que pouca mais atividade tinha que a fiscalização do paupérrimo parque
hoteleiro da colónia, restaurantes e bares. Angola não queria cá turistas nem
ninguém que alterasse o status quo prevalecente!
Pelo decreto-lei 42194 , de 27-03-1959 é criado no âmbito do
Ministério do Ultramar o CITA, Centro de Informação e Turismo de Angola,
entidade localmente dependente do governador-geral, mas sob a orientação e
coordenação da Agencia Geral do Ultramar. Extingue este diploma a Casa da Metrópole
de Luanda, criada em 1934 para apoiar o SNP nas feiras internacionais em que
Portugal foi participando.
Isto é um tema que merece bem mais que este artigo, porque a criação do CITA é objetivamente para
montar em Angola uma estrutura poderosa que tinha funções de propaganda e
simultaneamente de orientação metodológica e ideológica de toda a imprensa
local. A título de exemplo o diretor do CITA é que tinha a responsabilidade de
nomear o diretor da “Emissora Oficial de Angola” (decreto 47699 de 15-5-1967)!
As atribuições do CITA eram enormes, e a preocupação de qualquer governador-geral
era a de ter um “fiel” no seu topo e em lugares de subalternidade direta, para
a caso de advirem complicações.
Prova evidente que uma estrutura deste tipo, está perfeitamente
de acordo com a manifesta vontade de tudo controlar, de filtrar ao máximo tudo
o que pudesse sair para o exterio,r e que tivesse entre quem visitava a colónia
gente que “fosse só dizer bem”. Claro que quando sobreveio a guerra colonial, o
CITA via-se com redobradas dificuldades, para manter a imagem de uma “Angola
pacífica e harmoniosa” que se tentava vender no exterior!
Um dos homens que foi transversal em todo o final da
governação colonial, Álvaro
de Moura Koch Fritz, foi o poderoso chefe de gabinete de vários governadores, e
nessa qualidade controlava as atividades do CITA. Dizia uma vez na esplanada do
Arcádia, ao lado do Banco de Angola na Marginal, quando via o paquete Vera Cruz
levar um contingente de militares de regresso a Portugal: “ Andamos aqui com
tanto trabalho para sensibilizarmos meia dúzia de jornalistas sob a justeza da
nossa presença em Áfric,a e vão ali mil e quinhentos militares que vão destruir
tudo mal comecem a abrir a boca. Cada um daqueles tipos é uma voz contra nós”
Convém dizer que terá sido esta figura discreta, um dos homens mais
poderosos da estrutura governativa
colonial.
As preocupações do CITA eram sobretudo de informação, e a
divulgação do turismo era sobretudo avaliada nesse contexto. O turismo não era
visto como atividade económica, mas fundamentalmente era olhado como uma via de
propaganda de tudo o que o governo colonial queria quer se mostrasse lá fora.
Como havia muita coisa que “desagradava”, nunca terá havido uma ação significativa
por parte das autoridades, para a promoção real do território, que teria
merecido um maior empenhamento, e que não se estivesse chegado á independência
com um paupérrimo parque hoteleiro, só para falar numa das áreas deste
importante setor de atividade.
Aqui está uma abordagem indispensável para conhecer o ontem
do turismo em Angola.
Fernando Pereira
12/6/2016
28 de maio de 2016
Remendo! / Àgora/ Novo Jornal /Luanda 26-5-2016
Remendo!
Num tempo em que 29, 622 kwanzas
valiam um dólar, e outras mordomias como por exemplo partilharmos muito mais o
pouco que se tinha, havia que se ter engenho e arte para conseguirmos matar o
“tédio revolucionário”; bem mais tolerável que o “fastídio dos mercados”!
Numa
noite abafada de Fevereiro de há trinta e cinco anos fui com uns amigos ao
Kussunguila, um dancing na Ilha de Luanda, construída no tempo colonial junto a
um higienizado e apelativo mercado do artesanato. Formávamos dois casais e
entrámos numa sala enorme que estava praticamente às moscas. Os decibéis roufenhos
e alterados de uma música razoavelmente má, num espaço onde o ar condicionado
emitia um estridente e pautado som metálico enviando golfadas de ar quente,
para uma sala que já se tornara quase uma camara de tortura.
As mesas
eram para duas pessoas e apesar de as termos aproximado uma da outra só nos
conseguíamos entender aos berros. Veio solícito o empregado e perguntou: Que
desejam os camaradas? Pedimos cerveja, ao que ele adiantou que não havia
rigorosamente nada fresco, e que já teria informado a Emprotel UEE, ou a
Angotel UEE da avaria há uns tempos e ainda não se tinha diligenciado nada até
ao momento. Perguntámos que é que havia para beber, e ele muito lesto disse:
“Aguardente búlgara, Macieira e Havana Club”. Animados com a oferta disponível
resolvemos arriscar a Macieira, e sinceramente ainda hoje guardo o travo daquele
cognac de pacotilha que nos foi servido. Passou a ser urgente debandar e foi
isso que fizemos deixando o funcionário na sordidez pouco iluminada de um
dancing vazio. Saímos do Kussunguila e sinceramente jamais esqueci o bafo de
calor que tão bem me soube!
Mais ou
menos na mesma altura fiz uma viagem ao Lubango e entrei na que outrora tinha
sido uma pastelaria de eleição no tempo colonial, a Tirol, em pleno “Picadeiro”
, rua central da única cidade em toda a África que tinha mais brancos que
pretos. A pastelaria tinha três balcões envidraçados, num tinha alguns bolos de
aspeto manhoso, noutra uma mistura esquisita de velas e bolachas e numa outra
rebuçados, confeccionados numa fábrica local ainda em funcionamento ao tempo.
Naturalmente que quis comprar uns pacotes para trazer para Luanda, e pedi às
duas camaradas que estavam em cada um dos dois outros balcões envidraçadas para
me darem os rebuçados, e uma delas prontamente disse que não mos podia vender
porque o camarada responsável por aquele sector não estava. Perplexo, mas
resignado pela organização deste espaço quase vazio, mas cheio de gente e
regras.
No dia
seguinte, porque o voo para Luanda resolveu atrasar três dias, voltei e mais
uma vez não consegui ter acesso aos rebuçados, porque o camarada responsável
pelos “dropes, caramelos e correlativos” tinha-se ausentado nesse fim da tarde
em que lá estive. Não consegui levar rebuçados nenhuns, mas fiquei sempre com a
história para repetidamente contar.
Num
restaurante manhoso no Dondo sentei-me e pedi o prato do dia, a bem dizer não
havia alternativa, e lá veio o arroz maçudinho a acompanhar um espinhadíssimo
peixe frito do rio. A bebida era uma cerveja EKA morna, e quando chegou à mesa
o empregado resolveu utilizar os dentes para abrir a garrafa. Naturalmente
aborrecido disse que não iria tocar na garrafa o que o levou a abespinhar-se e
perguntar-me: “ O camarada tem nojo de mim?”; Repliquei que “sim, não tenho
nojo, mas acho que é pouco higiénico”. Ele indignado disse-me: “Sabe, eu devia
era ter aberto a garrafa lá dentro e o camarada bebia-a toda”. Apesar de
resignado e esperando que “desamparasse a loja”, o tipo resolveu encostar-se à
minha mesa e fazer uma teorização da luta de classes, do fim do colonialismo e
da implantação do socialismo científico, asseverando que eu enquanto angolano
branco não tinha ainda compreendido as mudanças. Farto de ouvir palavras de
ordem, agilizei a degustação do paupérrimo menu, paguei e saí para a rua onde
me esperava o ar abafado do desmazelado Dondo ainda com resquícios de tempos
áureos na sua decadente malha urbana.
Desculpem
a puerilidade do artigo, com histórias tão banais, mas na realidade no dia em
que comemoro os sessenta anos do meu nascimento na então Casa de Saúde de
Luanda, hoje maternidade Augusto Ngangula, muita coisa me ocorreu para
escrever, mas nada saía com a fluidez desejada. Fica o remendo!
Como
dizia Gabriel Garcia Marquez “A vida não é a que cada um viveu, mas a que
recorda e como recorda para conta-la”
Fernando Pereira
25/5/2016
22 de maio de 2016
O FIM COMEÇA A TER PRINCÍPIOS! / O INTERIOR/ Guarda 11-5-2016
O FIM COMEÇA A TER
PRINCÍPIOS!
O interior do país está-se a
transformar há muitos anos num quotidiano de desesperança.
Não há
área nenhuma que não deixe de patentear o perfeito estado de absoluto
catatonismo, em que os estados de excitação são cada vez mais fugazes e os de
passividade a eternizarem-se no tempo.
Portugal,
”o meu remorso de todos nós” como disse O’Neill, está a transformar-se num
deserto, onde vai sobrevivendo a burocracia, que os serviços cada vez mais
concentrados na malha urbana de grandes cidades vão impondo, sem tampouco se
aperceberem que a realidade no terreno é bem diferente das iluminadas salas
climatizadas dos gabinetes.
Quando Portugal ficou pejado de autoestradas e
vias estruturantes, o que se conseguiu foi acabar definitivamente com um resto
de ruralidade que ia pejando nostalgicamente o imaginário de todos. A
ruralidade dos sabores, dos odores e das paisagens eram fatores de unidade num
país que se tornou higienizado em demasia, onde a madeira e o mármore é
substituído pelo azulejo e o inox.
Não era desejável prevalecer a mentalidade
“ruralizante” que se impôs no País desde os tempos da monarquia decrépita, Do
caciquismo antirrepublicano da 1ª Republica e Do corporativismo serôdio do
Estado Novo. Era importante manter alguma identidade que diferenciasse o
interior “rural”, e que conseguisse ser uma referência num território. Tudo se vai
paulatinamente perdendo, e vamos sobrando por aqui uns quantos, que vão
acendendo e apagando a lâmpada em função da movimentação do sol. Somos nós os
que vamos teimosamente ficando a pagar as portagens de estradas quase desertas,
a gastar mais eletricidade e gaz porque o clima é mais agreste, enfim a
envelhecer sem vontade nenhuma de rir, porque os recursos são cada vez mais
parcos.
O associativismo, que nesta fase podia ser
importante para manter alguma atividade económica e algum dinamismo social,
está à beira do fim porque as pessoas estão cansadas, desmotivadas e não
disponíveis para um trabalho pouco dignificado e com cada vez mais encolho por
parte da burocracia instalada. O associativismo juvenil já vive dalguma “peste
grisalha”!!! dos seus dirigentes e animadores, e cada vez menos se vê gente
nova e propostas inovadoras nas associações juvenis, incubadora de eleição dos
potenciais dinamizadores do futuro nas associações
.
.
Podem dizer que sou pessimista, mas sou-o com
a legitimidade de há quase trinta anos manter as mesmas ideias e convicções em
relação à “saharização” do interior, e a verdade é que os factos são infelizmente
teimosos e tem-me dado a razão troda.
Confesso que desvislumbro melhorias, e não vai
ser nada fácil inverter o estado das coisas porque é um circulo vicioso e
desvirtuado, em que a economia vai perdendo importância e inerentemente as
pessoas deixam de ter opções para se empregar e buscam novas paragens e outras
aragens.
Exigia-se há muito uma descriminação positiva
para o interior mas como não há força aqui, nem interesse nos órgãos centrais,
mantém-se tudo como está e com tendência para piorar!
Para tudo há um
começo e um fim, o interior há muito que começou o trilho do fim!
Fernando Pereira
8/5/2016
29 de abril de 2016
ABRIL SEMPRE DENTRO DE NÓS /Àgora/ Novo Jornal / Luanda 29-4-2016
ABRIL SEMPRE DENTRO
DE NÓS
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade
José Afonso
Foi esta
a senha que deu início às movimentações militares que mudaram tudo, que há
muito esperava uma sapatada definitiva.
Atolado
em três frentes de combate, com os empresários a exigirem a integração europeia
em detrimento do atávico mercado colonial, assoberbado pela fuga desenfreada de
trabalhadores para uma Europa onde se lidava com a reconstrução dos Países devastados
da 2ª Guerra mundial, a braços com uma
crescente multiplicação de greves, lutas estudantis e com a oposição ao regime
a florescer nas classes sociais que o tinham apoiado até então , era por demais
evidente que se esperava o rápido estertor do regime que há 48 anos governava
Portugal e colónias.
O 25 de
Abril de 1974 foi a vontade de uns valorosos, ajudados pelas circunstâncias e encontraram
o modelo corporativista-colonial em estado de prostração final.
Há
quarenta e dois anos vivia em Coimbra e preparava-me para ingressar na Universidade,
e naturalmente avultava o receio de mais cedo que tarde ser mobilizado para a
guerra colonial. A minha posição era partilhada por muitos colegas portugueses,
que à surdina iam dizendo que quando chegasse a altura “davam o salto”! Poucos
dos que iriam à “inspeção” esse ano estavam dispostos a defender “a fé e o
Império”, que mais não eram que os Espírito Santo, Fonsecas e Burnay, Mellos,
Champalimaud, Quina, Feiteira-Bordalo, Vinhas, Abecassis, Sousa Lara e as suas
componentes locais Mota Veiga, Mota & Irmão, Herdeiros de Mário Cunha e
outros. Como diria muitos anos antes Alexandre O’Neill: “Portugal, o meu
remorso de todos nós”!
O”
Império Português” que como dizia C. R. Boxer era “essencialmente, uma talassocracia,
um império marítimo e comercial (…) vazado em molde militar e eclesiástico”,
estava-se a preparar para restar encaixotado, por ironia do destino, no mesmo
local onde os achadores portugueses partiam “navegando desenhavam os mapas que
não tinham”, como dizia Sophia de Mello Breyner Anderson.
Durante
muitos anos fui discutindo com compatriotas angolanos a importância do 25 de
Abril de 1974 em Angola. Talvez pelo facto de o ter vivido a cada minuto com
grande entusiamo, nos locais onde “se construiu a democracia”, tenha uma
relação militantemente afetiva com o Movimento das Forças Armadas, e confesso
que me custa aceitar que haja pessoas angolanas com responsabilidade e já
homens feitos ao tempo queminimizem a importância do golpe de estado de Abril em
Portugal e os reflexos que isso teve na libertação dos povos sob dominação
colonial.
O 25 de
Abril de 1974 foi sempre olhado em Angola como uma data estranha no contexto
das efemérides externas que os angolanos vão dando enfase! “Isso é uma data dos
portugueses”, “Se não fossem os movimentos de libertação o 25 de Abril nunca
teria acontecido”, “Que ganharam os angolanos com o 25 de Abril?”, e outros
dislates que normalmente surgem quando se fala do Movimento das Forças Armadas.
O 25 de
Abril de 1974 não surgiu da vontade de um punhado de militares, apareceu num
contexto, e naturalmente que quando eles corporizaram o golpe o fim da guerra
colonial era um dos objetivos principais. Foi depois um corolário de
movimentações, de gente das mais variadas profissões, de um amplo espectro
político que obrigaram a tomarem-se certas decisões em relação às colónias,
diferentes das que alguns se propunham perpetuar de outras formas.
Nós
enquanto angolanos devemos ter orgulho no 25 de Abril, porque foi uma luta
comum, que afinal surtiu em objetivos comuns nomeadamente a Independência de
Angola em Novembro de 1975.
Posso
entender que o meu entusiasmo pelo 25 de Abril de 1974 seja olhado de forma
indiferente pelas gerações mais novas, por exemplo a da minha filha, visto da
mesma forma como eu olhava atónito o entusiasmo do meu avô a falar da Republica
ou até do meu pai na sua participação na campanha presidencial de Norton de
Matos, que lhe valeu o despedimento da Sociedade Agrícola do Cassequel na vila da Catumbela!
Mas
tenha-se em atenção que este esquecimento, justificado, das gerações do 25 de
Abril de 1974, é o mesmo que gerações tem da luta de libertação e da batalha do
Kuito-Kanavale. Estou a falar de gente jovem mas já politicamente enquadrada, e
inseridas no atual tecido económico e social angolano Deixemo-nos de
romantismos serôdios, porque Savimbi já morreu há doze anos, e pelos números do
censo recentemente divulgado 46% da população tinha entre 10 a 12 anos, quando
isso aconteceu, por isso já nada lhe começam a dizer essas “batalhas do
antanho”!
Hoje
como ontem e como amanhã espero comemorar o 25 de Abril de 1974, talvez com
cada vez menos gente que esteve comigo por razões de desaparecimento físico de
gerações.
Como
diria José Gomes Ferreira, esse tão esquecido poeta português: Tenho “saudades
de não poder inventar o futuro”.
Fernando Pereira
20/4/2015
14 de março de 2016
Os cedros também se abatem! /O Interior 11-3-2015
Os cedros também se
abatem!
As pessoas andam indignadas com o
abate de cedros numa rua da Guarda (indiscriminado segundo uns, discriminado no
parecer de outros). Como não moro por ali, talvez esteja a favor dos que acham
que é um abate indiscriminado, mas confesso que não é uma “guerrazinha” que me
interesse de sobremaneira!
Acho que
este momento de tanta indignação, já deveria ter ocorrido há muito e razões
mais que muitas haveria nestes quarenta anos de gestão democrática da autarquia
da cidade.
Conseguiu
colocar-se a Guarda como provavelmente a mais feia cidade capital de distrito
do País, quando tinha todas as condições de poder ter tido um desenvolvimento
harmonioso adaptado a uma configuração natural de cidade de montanha.
Ao invés
o patobravismo tomou conta da cidad,e e rapidamente surgiram os disparates e o
ordenamento urbano faz lembrar um pouco a faixa de Gaza. Ruas que apertam e
desapertam em função de interesses diversos, que finalizam de forma abrupta, o
que faz que bairros recentes se consigam transformar em locais labirínticos.
Foi a
cidade que foi deixando morrer o seu centro histórico, a sua notável praça, onde
a grande preocupação das pessoas é saberem onde vão colocar um rei, que na
Guarda tinha interesses de alcova que ultrapassavam os desígnios do Estado. Por
mim pode ficar onde está, desde que haja coragem e incentivos para que os
edifícios circundantes possam ser reabilitados para promover a atividade
económica da cidade. Se isso acontecesse de certeza que se dispensaria a
construção de um chapéu-de-chuva na rua do Comércio.
Ninguém
se indignou quando deitaram abaixo um mercado com algum interesse arquitetónico,
e que em Portugal e noutros países transformam-se estes espaços em novos
lugares que potenciam locais de dinâmica económica inovadora e são centro de
confluência de gentes para usufruir das novidades que estes centros
proporcionam.
Em seu
lugar nasceu um megatério, num horrível granito polido com uma torre de controlo,
que teria alguma utilidade para apoiar uma pista de 2.000 metros e que na
cidade da Guarda nem um farol de boas ideias conseguiu ser para se inverter o
caos urbanístico em que a cidade se tornou.
Quando
se vê uma movimentação em torno do abate de uns cedros, interrogo-me onde andou
esta gente que assistiu anos a fio à degradação da cidade, sem ver nascer
qualquer movimento cívico que apoiados em técnicos pudessem ter permitido
inverter a realidade pungente que hoje assistimos.
Para que
conste, não habito na Guarda, nem sou de cá mas julgo que tenho direito a
opinar sobre o assunto!
Fernando Pereira
6/3/2016
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